TEATRO
Marias Brasilianas mostra artesanato das mulheres do Vale do Jequitinhonha e discute limite entre arte e artesanato
por Nany Rabello
Foi preciso quase um ano de trabalho para que o espetáculo ficasse pronto. Só de pesquisa foram cerca de três meses, com visitas e entrevistas às fiandeiras, rendeiras, bordadeiras e tecelãs do Vale do Jequitinhonha, no sertão de Minas Gerais. ‘Trabalhar’ é uma palavra muito fria para retratar o que essas mulheres fazem. Elas vivem disto. Dos tecidos, dos pontos, das linhas.
E cada ator, como se fosse um ponto, retrata um pedacinho da vida delas, constrói uma colcha de retalhos com as histórias real que viram cena, aproximam a plateia destas mulheres que são mais do que artesãs, são artistas. Essa questão é levantada pelo espetáculo, no qual as mulheres em cena mostram que arte não tem limites. Arte á cultura, é palavra, cena, música e pano, por que não?
No palco também cria forma o som da vida de quem faz do tecido, arte. Os músicos e cantores fazem parte do elenco, são parte viva da peça. A música em cena parte do conceito da companhia, pois um grupo de dança-teatro e um grupo de música, que participavam de outro projeto educacional, se fundiram, formando o TEAR. Os músicos têm carga horária e oficinas assim como os atores. Além de tudo, a composição é feita dentro da própria companhia: uma das fundadoras do TEAR é a compositora das canções do espetáculo. No espetáculo há um cuidado para que a dança, a música e o teatro tenham o mesmo ‘peso’.
Além de um lindíssimo espetáculo teatral, Marias Brasilianas é uma aula de ética e de arte, na qual todos fazem parte dos bastidores. “Aqui ninguém trabalha para ninguém, todo mundo trabalha para todo mundo”, diz Wilson Belém. Há um ‘mutirão’ para limpar o palco depois da peça. “Não é estético, mas é ético”, diz a diretora artística, a argentina Mabel Botelli que está no Brasil há 20 anos, fazendo arte.
“Eu acredito na força das raízes. Nosso trabalho é uma forma de não deixar isso se perder”, diz Mabel Botelli. Além de ressaltar as raízes do nosso pais, a aula de ética continua quando entra em cena a discussão sobre o tamanho de cada arte. “Por que o lugar do artesão é menor em relação à arte? Qual o limite da arte?”, pergunta Wilson. E quem assiste comprova, arte não tem tamanho.
A peça chegou até Nova Iguaçu graças ao patrocino da Petrobrás Cultural. “Queremos partilhar essa obra com todos os públicos, e sabendo que as pessoas, mesmo gostando, têm dificuldade em ir até o Rio assistir peças, resolvemos trazer para os arredores, e compartilhas nossa arte com vocês”, diz a sorridente diretora Mabel. O patrocínio da Petrobrás permite que os membros da companhia continuem se formando, pois mesmo que já sejam jovens artistas, a formação cultural deve ser constante.
A Cia. Ciandeira tem outro espetáculo pronto, o Rua dos Cata-ventos, interrompido em 2007 por causa da criação e apresentação do Marias Brasilianas. Um espetáculo para todas as idades, homenageando o estilo de vida de mulheres guerreiras, que fazem arte à sua maneira. Espetáculo que encanta seu público, repleto de seres invisíveis que fazem com que tudo aconteça, e de jovens talentosos que se tornam inspiração e ídolos de quem os assiste. Uma arte que abre caminhos, abre fronteiras e abre cabeças. Arte que não cansa. Espetáculo que só tem um gravíssimo defeito: ele acaba.
O site do Instituto Tear: www.institutotear.org.br/marias/index.html
Interatividade:
Indique para nós um artesão iguaçuano cujo trabalho mereça uma reportagem do Jovem Repórter.
Eu conheço todo o elenco da peça. Se quiser entrevista com eles avisa :)
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