quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Demorou a mudar

FORMAÇÃO

Ator e narrador do grupo Criadaki mostra que é possível mudar
por Edson Borges Vicente e Fernanda Bastos

Adriano Rodrigues de Oliveira, 37 anos, acredita que o Criadaki pode fazer com o outros o mesmo milagre que operou na sua vida, mudando-a de forma radical em pouco mais de três anos de existência. “Estamos começando a acreditar que tudo que criamos dentro do sistema pode ser o futuro que estávamos buscando”, comemora esse antigo membro do Bonde do Demorou, que resolvia as pendengas dentro da cadeia sempre pelo viés da violência. “Muitas pessoas não acreditaram que a gente aqui fora ia ter esse prazer. Pra gente isso é delicioso, gratificante, beleza mesmo”.

Adriano de Oliveira sabe que é dura a vida sem Deus, como mais uma vez o comprova seu próprio exemplo, em que onze dos 13 anos até agora passados dentro da cadeia foram vividos “em um mundo de ilusão e más amizades”. Mas a grande mudança de fato se deu quando Jonas Alexandre Soares, o fundador do Criadaki, o convidou para fazer algo que ele desconhecia completamente. “Eu nem sabia o que era teatro, mas resolvi fazer esse negócio aí porque estava cansado de sofrer na cadeia”, conta ele, que naquele momento vinha de um longo e amargo período no chamado Regime Disciplinar Diferenciado, uma punição para bandidos periculosos como Fernandinho Beira-mar. Sua adesão provocou estranhamento tanto nos antigos amigos quanto nos inimigos.

“Quando soube que eu estava no grupo, o diretor da cadeia proibiu que encenássemos peças sobre o mundo do crime, obrigando-nos a fazer Os saltimbancos”, lembra ele. Ele e seus amigos fizeram uma associação entre a peça de Chico Buarque e assaltos a banco e por pouco não desistiram do projeto ao receber aquele texto, cujos personagens eram animais. “Um dos nossos amigos achou que o diretor estava querendo esculachar o grupo.”

Embora não soubesse o que era teatro, o líder do Bando do Demorou já fazia cultura na penitenciária Alfredo Trajano, mais conhecida como Bangu II. “Eu já tinha formado um grupo de hip-hop e o meu filho cantava e divulgava lá fora”. Tudo que Adriano de Oliveira desejava na primeira apresentação extramuro era a presença do filho na plateia, mas Adriano Júnior, mais conhecido como MC Sapão não pode ir porque estava trabalhando. Em seu lugar, foi o amigo e parceiro de hip hop William Ferreira da Silva, 22 anos, que divulga as músicas de Adriano nos bailes de que participa principalmente em Campo Grande, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro do qual é morador.

O amigo William só tinha ido ao Monteiro Lobato para tirar umas fotos, a pedido do filho de Adriano. Mas também ficou encantado com o trabalho do Criadaki. “Foi show”, diz William. “Os caras mandam bem”, acrescenta. Embora já tivesse ouvido falar de todos os integrantes, foi somente ali que foi apresentado ao grupo. “A gente vê a mudança de todo mundo. Acredito demais no projeto deles, pra eles e eu também estarmos aqui hoje, tem que ter garra, disposição pra poder fazer e acreditar naquilo que você quer fazer. O que eu desejo pra eles é muito sucesso”.

A assistente social Sandra Mônica faz coro com William. “Não é qualquer um que consegue prender a atenção desse público por mais de meia hora”, disse ela, com base na sua experiência de seis meses coordenando a formação dos mediadores culturais do Bairro-Escola,

Interatividade:
Conte uma grande mudança que tenha ocorrido em sua vida.

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