sábado, 29 de agosto de 2009

Nos trilhos do cinema

HOJE NO II IGUACINE
Ex-alunos da Escola Livre de Cinema formam a Decupagem Produções e participam hoje da Mostra Competitiva
por Josy Antunes

Além do conhecimento oferecido na Escola Livre de Cinema, as salas de aula do local parecem propiciar algum elemento que estimula as novas ideias. Tanto que “Trilhos”, nasceu de um questionamento durante uma aula de Mariana Baltar, professora de História e Estética do Documentário. Ela explicava sobre as “Sinfonias”, que eram filmes feitos na época do cinema mudo, por volta dos anos 20, que prezavam, em seus planos, a exaltação do movimento, utilizando um olhar inovador sobre o cotidiano. Em suas exibições, haviam músicos que tocavam enquanto as imagens eram projetadas para o público.

“Hoje em dia, como seriam essas sinfonias?”, indagou Mariana à turma, lançando uma sementinha, que fez com que reflexões brotassem de cada mente alí presente. A de Andréa Souza estava entre elas. Na época, em parceria com Alessandro Swinerd - com quem, atualmente, tem a produtora Decupagem, criada em 21 de agosto do mesmo ano - ela estava em processo de filmagem do documentário “Rodas”, que se passava em Paracambí. Simultaneamente já pensavam sobre o novo projeto: “Eu tinha uma ideia de trem. Como é ficar confinado nele? Como é o trajeto das pessoas que vão da Baixada para a Central do Brasil?”, explica a realizadora.

Alessandro, é claro, topou a experiência e logo começou a captar as imagens, utilizando a câmera fotográfica de Andréa. Elas foram feitas, prioritariamente, nas estações de Nilópolis e Central, e no trajeto que o liga, enquanto o próprio operador da câmera fazia sua viagem a trabalho. “Eu tinha uma ideia de movimento, já que era uma coisa urbana: O trem, ligado aos trabalhadores, aquele vai e vem”, descreve Swinerd. Em dois dias o material bruto já havia dado lugar a pouco menos de 3 minutos, organizados na linha de tempo, de forma a passar as sensações sentidas no transporte. A partir daí, o próximo – e essencial – passo seria dado: a trilha sonora do filme, para qual convocou-se o músico César Carvalho. “Quando eu cheguei com a proposta pro César, no mesmo momento que ele viu o material, disse que íamos seguir por outro caminho”, relata Alessandro, que teve sua proposta inicial confrontada. “Se a gente quer fazer um trabalho original, temos que seguir por uma outra vertente”, justificou César, implantando a linguagem poética que o curta-metragem carrega.

Trazendo linhas de teclado, baixo, guitarra e violão, a música “Vendo os vagões” foi composta especialmente para a produção. “Ele acreditava que a música sendo mais melódica e sensível daria um tom de poesia àquele intenso movimento, àquela dureza enfrentada pelos trabalhadores”, explica Swinerd. Segundo a dupla de produtores, a canção foi primordial para que “Trilhos” chegasse onde hoje está.

“O que eu acho legal da gente ressaltar é que com o “Trilhos” a gente quebrou muito com essa coisa de ter um diretor, o câmera e o editor que discorda de tudo”, comenta Andréa sobre a segmentação de produções, completando: “Eu acho que não é assim. Nós somos três pessoas que trabalham em conjunto. O filme não é de um, nem de outro. O filme é nosso”, alega.

Andréa e Alessandro pregam a arte de “estranhar o familiar”, que faz com que se crie uma nova impressão sobre o “comum”. Felizes por terem sido contemplados com o Festival, a dupla já se considera vitoriosa pela participação.e uma ou duas pessoas ouvirem o que nós estamos falando e passarem adiante, poxa, aí que nós vencemos duplamente. O nosso grande prêmio é esse”, garante Andréa. “Trilhos” será exibido hoje na Mostra Competitiva Nacional de Curtas-metragens, que acontecerá no teatro do Espaço Cultural Sylvio Monteiro, às 18horas. Não perca!

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