quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Improviso no escurinho

AUDIOVISUAL

Cine Digital de agosto traz um dos maiores repentistas brasileiros para mostrar cultura popular
por Josy Antunes

Há oito meses uma turma vem mostrando sua identidade no cenário audiovisual de Nova Iguaçu. Eles têm entre 18 e 26 anos e, agregando saberes sobre música, fotografia, produção cultural e design, formam a produtora Belê Filmes. Uma das ações do grupo é o Cine Digital, uma parceria com o SESC de Nova Iguaçu, que toda segunda terça-feira de cada mês exibe filmes gratuitamente, sempre às 19 horas.

“Tudo começou com um convite do Valdomiro Araújo, produtor do SESC”, conta Brunna Sanches, 25 anos, estudante do 6º período de Produção Cultural no IFRJ - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio. “Ele queria um grupo pra montar um cineclube e achou que a gente tinha a ver”, acrescenta ela, que, como a maioria dos integrantes da Belê, é ex-aluna da Escola Livre de Cinema, em Miguel Couto.

A cada sessão, que conta com a exibição de curtas e intervenções artísticas, um tema é pré-selecionado. As projeções do Cine Digital começaram no dia 13 de janeiro, com a mostra “Filmes da Baixada”. Desde então, já passaram pelo palco do teatro do SESC o músico Octávio Aughusto, o ator Eduardo Jericó – que apresenta stand-up comedy –, os VJ's Paulo China e Mossad, além de debates com cineastas como Cavi Borges, Danilo Solferini e Henry Grazinoli.

Homenageando o mês do folclore, a sessão de agosto teve seu tema defendido por Melise Fremiot, que achou pertinente mostrar a cultura popular brasileira. “Eu gosto muito, acho que a gente tem uma cultura muito rica”, justifica a moça, de 24 anos, que logo recebeu o apoio de Brunna Sanches. No entanto, não foi nada fácil catalogar os títulos para a produção, embora o Cine Digital seja associado à Programadora Brasil, um programa da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura que disponibiliza a autorização para que os filmes sejam exibidos nas sessões. “Tive que fazer uma pesquisa, porque eles separam por assunto, mas não tinha nenhum falando sobre folclore e cultura popular”.

Disposta a fazer a sessão acontecer, Melise passou então a pesquisar na internet e no próprio site da Programadora. “Fui lendo sinopse por sinopse e aí fui achando alguns que se encaixavam”, diz. Foram selecionados 10 curtas-metragens: “Caçadores de saci”, “A última lenda”, “A velha a fiar”, “Como surgiu a noite”, “Açaí com jabá”, “Batuque na cozinha”, “Historietas assombradas”, “Maré Capoeira”, “O saci do Morrinho” - produzido pela TV Morrinho e "A menina do algodão", Com duração de oito minutos, “A menina do algodão” é o preferido da produtora. “Eu gosto muito dele porque me lembra muito o mito da loira do banheiro, muito popular durante minha infância”, explica Mel. “Na minha escola era uma loucura essa história da loira”.

“Não sou muito fã de filmes regionalistas, mas achei legal. Tiveram uns vídeos bem divertidos”, avalia Cristiane Corso, 23 anos, frequentadora do cineclube. Acompanhada de sua mãe, ela destaca a exibição do "A velha a fiar", uma produção de 1960 que, em 6 minutos, ilustra uma canção popular originada do interior do país. “A minha mãe falou que ouvia aquela música quando era criança, que nunca imaginou ouvi-la outra vez”, revela Cris.

Celebridade cultural
Não bastasse as inovações na programação dos filmes da noite, Melise surgiu com a proposta para a intervenção: “Eu achei que seria legal a participação de alguma coisa da cultura popular mesmo”, alega ela. “Lembrei do repentista, aí eu bati o pé que queria a presença de um. Todo mundo do Belê concordou”, conta ela. Eles, porém, não faziam ideia de onde encontrar o artista do gênero. Foi então que Valdomiro, o produtor do SESC de Nova Iguaçu, lembrou-se do contato de Miguel Bezerra, que já havia feito cinco apresentações no palco do local. “Eu ouvi do camarim quando ele estava ensaiando, achei bem legal. Ele tem um sotaque bem carregado”, admira-se Mel.

Além do sotaque, o repentista carrega uma bagagem muito grande em relação à cultura nordestina. Nascido em Pernambuco, passou a infância acompanhando o pai em suas apresentações, quando ficava quietinho sentado no chão pensando: “Eu acho que faço isso”. Já aos 10 anos de idade, desafiava os outros meninos, que trabalhavam na roça como ele, em duelos de versos repentistas. Com 15 anos, deixou a casa dos pais e passou a sobreviver do que antes era admiração e diversão entre amigos. Hoje, aos 58 anos, é diretor cultural da praça Catolé do Rocha, na feira de São Cristóvão, onde é encontrado às sextas, sábados e domingos, em duelos que garante nunca ter sido vencido. “Eu vivo do repente, nunca assinei uma carteira pra nada”, declara ele, que no ano passado recebeu a premiação de “Celebridade Cultural da Baixada Fluminense”.

Morador de Nova Iguaçu há mais de 30 anos, Miguel afirma que não troca a cidade. “Tem muito nordestino que mora aqui. E essa serra de Madureira é uma paisagem do nordeste”, diz com admiração. Ele afirma que ninguém aprende a ser repentista. “Pode-se aprender a fazer umas cinco estrofezinhas, mas sair compondo direto e pegar outro repentista pra desafiar a noite toda, não tem como”, garante. Como prova da afirmação, ele cita o fato de ter nove irmãos homens e que apenas um deles seguiu caminho parecido ao seu. “Só que ele é fraquinho”, admite, “Tem o ruim, o bom e o grande. Eu me considero bom”, assume Miguel, anunciando em seguida o nome do maior repentista brasileiro, em sua opinião: “Ivanildo Vila-Nova”.

Ele cria muito
Foi com informações sobre sua vida e sobre as modalidades do repente, que Miguel Bezerra incrementou sua participação na sessão do Cine Digital. Improvisava e fazia versos utilizando o que via na plateia, arrancando aplausos e gargalhadas. “Foi muito engraçado”, confirma Rafaela Cotta, 18 anos, “Fiquei com medo dele falar algo de mim, porquê sou muito tímida”, entrega a moça, frequentadora e colaboradora do cineclube. O repentista comprovou o encanto causado ano passado em Gabriel, o Pensador, num duelo ocorrido no Espaço Sesc, em Copacabana, no ano passado. Miguel conta que, em determinado momento, Gabriel simplesmente deixou o palco e foi sentar-se junto à plateia para acompanhar o espetáculo, dizendo “Não tem como, ele cria muito”. “O Gabriel é um poeta mesmo. Quando ele fez isso, aí que eu me inspirei mais”, lembra ele, afirmando que esse foi o maior desafio de repentes enfrentado por ele, que considera “O Pensador” um dos melhores músicos da atualidade.

Com um acervo de troféus e diplomas, 3 filhos, 4 netos, casado até hoje com a namorada iguaçuana que o fez vir morar na cidade e com constantes convites para apresentações, Miguel Bezerra se mostra satisfeito com o espaço que alcançou ao longo dos anos. “Eu consegui alcançar uma boa visibilidade, mas muitos não”, lamenta ele, a cerca do cenário repentista ainda precário na Baixada Fluminense. “Faço apresentações em muitas escolas do Rio de Janeiro, por exemplo, e aqui em Nova Iguaçu é difícil de chamarem algum repentista”, acrescenta ele. “Só conhecia pela TV, mas nunca tinha percebido como era difícil e lindo”, sintetiza Rafaela, sobre a arte nordestina. “É de se admirar a facilidade que ele tem de falar as rimas”, completa Cris Corso.

Pré-pré

A produção mais recente da Belê Filmes foi o curta “Cueca ao avesso”, em parceria com a Cavídeo, que teve sua “pré-pré-estreia” reservada para amigos, no final da sessão passada do Cineclube Digital. A ideia original do roteiro surgiu na oficina Tela Brasil, que aconteceu ano passado em Nova Iguaçu. Criado por Anderson Barnabé, ator e um dos coordenadores da Escola Livre de Música Eletrônica, recebeu adaptação e direção de Miguel Nagle, um dos membros fundadores da Belê, que está em São Paulo estudando direção de cinema na AIC – Academia Internacional de Cinema. Mesmo de longe, continua acompanhando os amigos e, sempre que pode, regressa ao Rio para produzir em conjunto com eles.

A próxima sessão do cineclube será dia 8 de setembro, quando trará como convidada a professora de artes cinematográficas do IFRJ, Andréa Falcão. Serão exibidos 3 filmes dirigidos por ela, seguidos de um debate sobre sua especialidade.

Douglas Gomes, Desiré Taconi, Luan Felipe, Thiago Barbosa, Miguel Nagle, Melise Fremiot, Brunna Sanches, Bruna Jacubovski e Vagner Vieira podem ser acompanhados no blog: cineclubedigital.blogspot.com. Lá, podem-se encontrar as programações do Cine Digital, além de registros das sessões passadas e boas dicas sobre audiovisual.


Interatividade:
Que artista você teria sugerido para a intervenção da sessão “Cultura Popular Brasileira”?

Um comentário:

  1. Ficou ótima a reportagem, com muitos detalhes!
    Teria conversado melhor se não tivesse tão nervosa com a apresentação!
    Parabéns Josy, cada dia melhor!

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