segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Cinema não tem frescura

O IGUACINE VEM AÍ


Rodrigo Tavares chegou a usar 10 extensões para filmar dentro de rio
por Carine Caitano // fotos de Marcelo Pontes

Imagine ser lembrado por Marcus Vinícius Faustini, Secretário de Cultura de Nova Iguaçu, por entrar em um rio segurando uma filmadora ligada por 10 extensões. Essa é a história de Rodrigo Tavares, 38 anos, que nos conta um pouco da sua relação com um amigo de infância: o cinema.

Ex-morador de Miguel Couto, Rodrigo diz ser apaixonado por cinema desde que nasceu. O exagero é evidente, diferentemente das suas filhas, com 13 e 9 anos que, por influência do pai, assistem a filmes desde bebês. Explicando a história do primeiro parágrafo, ele revela: "Eu tenho amor pelo cinema, sim. Mas eu entrei no rio porque tinha que fazer mesmo. Em cinema, não tem frescura".


A cena faz parte do documentário Bororó, que retrata a vida de um trabalhador da região. Sem uma filmadora própria, ele conseguiu uma emprestada com um dos clientes do estabelecimento em que trabalha. Sem bateria, ela deveria estar conectada à rede elétrica durante as filmagens. "Dinheiro não dá em árvore e tomada não dá na beira de rio, né! Conversei com uma das vizinhas e ela permitiu que ligasse a tomada la", conta Rodrigo. Da casa ao rio, foram necessárias mais de 10 extensões.

O documentário mostra a rotina de Bororó, morador de Belford Roxo, cujo trabalho é retirar a areia no fundo do rio. O tema é incomum e não tem apelo comercial. Assim, foi necessário esforço em dobro para que o projeto saísse do papel. Assistente de Rodrigo nessa jornada, Getúlio Ribeiro nos fala sobre a experiência: "Não sabíamos praticamente nada de como era filmar ou de como era fazer um filme.

Foi a primeira experiência para todos ali envolvidos. Mesmo só com um tripé feito de madeira e uma câmera VHS, estávamos superfelizes por poder retratar o dia-a-dia de um batalhador". Ainda divagando, ele expressa sua gratidão em poder contar essa história: "Com o documentário, podemos atingir muitas pessoas que reclamam de suas vidas, trazendo o exemplo de alguém que teve várias barreiras e continuou lutando com alegria. Isso foi sensacional para mim: mostrar uma realidade, um mundo. Não tem igual".

Rodrigo começou a colecionar dvds aos 14 anos e daí nasceu uma paixão por filmes antigos. Segundo ele, os últimos seis anos foram de especialização constante e, por isso, considera cinema um estilo de vida. Nas filmagens de "Bororó", ele se inspirou nos mestres Danny Boyle, Woody Allen e, é lógico, em si mesmo. O documentário tem quase 21 minutos de duração e isso, no mundo do cinema, equivale a vários dias filmagens e edição. O cineasta conta que as gravações só puderam ser feitas nos feriados e finais de semana, e a edição foi feita na casa de alguém que ele nem conhecia. "Me senti em um casamento arranjado, daqueles que a gente só conhece a noiva no dia. Fui pra casa de um amigo de um amigo, la em Marechal Hermes e usei o computador dele, passei o dia na casa do cara", explica.

Filmado em 2007, o filme participou da Mostra da Baixda do Iguacine de 2008, perdendo apenas para o Mate com Angu, produtora de Duque de Caxias. O fato só serviu para impulsionar Rodrigo a continuar nos trilhos do cinema. Seu primeiro contato com as técnicas necessárias para desenvolver seus roteiros foi na Escola Livre de Cinema, em Miguel Couto. No ano da produção do curta, ele teve aulas com Luana Pinheiro e Diego Bion, sempre presentes na escola.

Rodrigo crê que esse tipo de instituição ajuda a semear cultura: "Com certeza é um grande impulso para quem não tem nenhum contato com cinema ou não tem ideia de como produzir. E, apesar de não haver uma grande divulgação, vemos como a escola é grande perguntando os municípios onde moram os alunos".

Mesmo sem filmes concorrendo no Iguacine desse ano, Rodrigo vai participar dele durante as oficinas direcionadas a alunos da ELC e assistir às exibições, que acontecerão de 26 a 29 de Agosto. Se dinheiro não fosse o problema para suas produções, ele no minimo já teria roteirizado o que considera uma ótima história. "Seria uma ficção científica passada no Rio de Janeiro. Falando sobre governo e traficantes, iria do carnaval de 2013 até a copa de 2014". A fé vem de sua própria loucura cinematográfica: "Nos últimos meses, dirigi um curta-metragem de ficção, com dois atores, quatro locações e 15 cenas em 12 horas. Apesar da descrença de muitos, concluí o filme e, em setembro, ele será exibido na TV Brasil".

Interatividade:
Filmar em Marte? Fazer um filme com 12 dólares? Qual seria sua loucura cinematográfica?

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