sábado, 29 de agosto de 2009

Cinema abrasileirado

HOJE NO II IGUACINE

Crítico de Cinema Rodrigo Fonseca discute dublagem de títulos estrangeiros
Por Edson Borges Vicente e Fernanda Bastos da Silva

Continuando a série de reportagens com Rodrigo Fonseca, crítico de cinema do Jornal do O Globo e professor da Escola Livre de Cinema de Nova Iguaçu vamos tratar, nesta matéria, da tradução de filmes estrangeiros. Qualidade e quantidade, importância e papéis das diferentes formas de decifrar as falas dos nossos personagens favoritos de filmes gringos que, embora não nos demos conta, às vezes, nem sempre são em inglês.

Legenda x Dublagem
Rodrigo analisa que o trabalho desenvolvido pelos tradutores e dubladores é de boa qualidade, principalmente destes últimos. Ele diz que a dublagem é uma arte e é uma atividade muito difícil. Para tanto existe um time de profissionais muito gabaritado que desenvolve um trabalho muito bom e que propicia maior aproximação dos filmes estrangeiros ao público brasileiro, principalmente aos pouco letrados.

A dublagem também é um recurso que depende da tradução que pode ser feita, de maneira muitas vezes diferenciada, também para a legendagem. Rodrigo comenta que, no caso de Portugal, por exemplo, a tradução de filmes é feita muito mais intensamente para a legendagem e não para a dublagem. Em se tratando de Brasil, esse último caso é muito mais freqüente, pois “é uma arte que permite uma inclusão maior de expectadores”, diz ele. Isso é feito principalmente por duas razões:
1ª - No Brasil ainda existe um número muito grande de analfabetos. Para essa parcela de pessoas a dublagem acaba sendo uma forma de permitir que seja possível acompanhar os filmes. Mesmo entre os alfabetizados, existe muita gente que não possui habilidade para realizar uma leitura veloz. Principalmente em filmes muito dinâmicos como os de ação.

2ª - Pessoas com problemas de visão têm dificuldade de leitura no ambiente do cinema. Até mesmo sentem-se mal ao fazê-la. Portadores de miopia não conseguem concentrar-se por muito tempo nos textos na tela. O próprio Rodrigo confessa que já passou muito mal sem entender ao acompanhar filmes legendados em sua “árdua” atividade de análise de filmes. Antes de saber que era portador de miopia, teve dificuldades e já teve até mesmo que sair da sala antes de o filme acabar com forte dor de cabeça.

De todo modo, ele aponta que o grande público tem preferência pelos filmes dublados. Seria assim uma questão cultural. Porém, numa outra análise, a questão social esboça algumas interferências nessa lógica. A elite que tem acesso a cursos de idiomas muitas vezes opta por assistir a filmes legendados como forma de se familiarizar com a fala principalmente em filmes em inglês. “Na zona sul existe uma resistência maior por que as pessoas tem mais acesso a cursos de inglês. Acham também que lendo e ouvindo vão aprender. Mas isso não se estende ao Rio de Janeiro como um todo”. Afirma Rodrigo complementando que “existe um raciocínio um preconceituoso que é o seguinte: a gente pensa que a dublagem está ligada somente a filmes americanos. Se você for assistir a um filme russo, por exemplo, e ele for legendado, você provavelmente não vai conseguir aprender nada”.

Um filme dublado possui retorno de público muito maior. Além da preferência já dita e da questão das restrições do público com dificuldade de leitura ou de visão, nem todo mundo tem paciência para ficar fixado na tela todo o tempo da película. Principalmente nos casos em que os espectadores vão acompanhados. Caso o contrário, não poderiam nem se olhar ou perderiam a cena. Vamos imaginar uma cena romântica de beijo, por exemplo, como seria se um casal assistisse e um deles tentasse beijar também o outro e ele dissesse: espera aí por que eu quero saber o que ele/a vai dize a ele/a!, coisa que daria pra saber sem olhar pra tela caso o filme fosse dublado.
Rodrigo prefere exemplificar com filmes de animação. Segundo ele, mais de quarenta por cento dos espectadores de filmes voltados para o público infanto-juvenil vão ao cinema como acompanhantes. São dois ingressos que valem por um. Um da criança que vai assistir e outro dos responsáveis que a levam. Nesse sentido, títulos infantis têm de ser quase que unanimemente dublados.

Para ele, a justificativa de o filme dublado impedir que o espectador preste atenção no filme e passe a lê-lo não é válida. Isso acontece com pessoas com problemas de dispersão causada por dificuldade de concentração ou por hiper-atividade. “Mas não podemos julgar a todos por uma pequena parte. Aliás, a dispersão pode acontecer quando uma pessoa com conhecimento em inglês, por exemplo, vê um erro de tradução” complementa. Isso acontece por que a dublagem é feita com mais fidelidade à fala original, porém a legenda costuma ser modificada, como a mudança de palavras para tornar mais fácil a leitura.

Na análise do crítico, que gosta mais de ser identificado como amante do cinema, temos a melhor dublagem do mundo. No que se trata a legendagem, alguns erros de português ainda costumam ser encontrados e isso será mais dificultado com as novas regras da gramática. Mas a qualidade da dublagem do cinema no Brasil deve muito à atuação dos dubladores cariocas. Para ele o time paulista precisa melhorar em qualidade.

A arte da dublagem
Para dublar um filme, uma equipe de atores é escalada contando também com um diretor de dublagem e um técnico de gravação. Em uma bancada é colocado o roteiro, consistindo do texto com a fala e a marcação do horário das mesmas, além de um cronômetro. Qualquer erro de um segundo prejudica a qualidade do trabalho, principalmente em cenas onde os personagens falam bastante ou “batem-boca”, causando falta de sincronia. Isso, contudo, pode ser corrigido por software de computador desde que a fala não tenha sido muito ruim. “Se você for um mal ator você pode ter o software que for que ele não vai te salvar. Você não vai imprimir a emoção necessária à cena”, comenta. Além disso, a entonação é um trabalho muito difícil. Para isso, um diretor deve auxiliar os dubladores. Nos casos onde o personagem expressa raiva ou fala com autoridade, por exemplo, uma pessoa deve orientar o dublador a mudar o tom de voz.

Grande parte das empresas de dublagem estão na zona norte da cidade do Rio, principalmente da Tijuca. A Abelarte, que dubla filmes da Disney, é uma das melhores na opinião de Rodrigo. Tijuca é berço também de grandes atores. Ricardo Schnetzer é um deles. Ele empresta a voz a Ton Cruiser. Outro que é muito conhecido pelo público embora não saibam, é Marco Ribeiro. Sua voz é ouvida sempre que Ton Hanks ou Dim Kare e Antonio Banderas abrem a boca nas telinhas brasileiras. Marco, que também é pastor da Igreja Evangélica Assembléia de Deus dublou Robert Downey Jr personificando Tony Stark em ‘O Homem de Ferro’.

Em entrevista de Rodrigo Fonseca ele conta o que é preciso para se tornar um dublador:
“É fundamental que um dublador tenha boa leitura (...) Também acho fundamental, em qualquer profissão, o amor ao trabalho. Também é importante bons reflexos, um bom nível de cultura geral e, pelo menos, alguma noção de inglês (...) Também seria interessante que o dublador soubesse cantar, pois assim ele abriria mais o campo de trabalho e poderia ter mais possibilidades para ser escalado no caso de desenhos com canções. Habilidades de mudar a voz e brincar com a voz também contam muito. Quanto mais versátil um dublador for, mais chances ele terá. Outras questões importantes: humildade e jogo de cintura. Sem estas duas virtudes é difícil sobreviver na dublagem” (fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/cinema/post.asp?t=marco-ribeiro-uma-voz-que-nao-enferruja&cod_Post=100383&a=18)
* Ouça o áudio abaixo com um trecho de Pecado Original (EUA: 2001 Michael Cristofer, baseado em livro de Cornell Woolrich) com Antonio Banderas e Angelina Joile na cena em que ele, na pele de Luis Antonio Vargas descobre está sendo traído com um golpe por Julia Russel (Angelina). Perceba a emoção da dublagem de Marco Ribeiro.
Beijos, boa leitura e Hasta lá vista, Baby!

Interatividade:
O que você prefere ao ver filmes estrangeiros: filmes dublados ou legendados?

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