terça-feira, 18 de agosto de 2009

Hare baba, Farinha

O IGUACINE VEM AÍ

Bordões, roupas e comportamentos são assimilados no cotidiano das pessoas que acompanham as novelas
por Lívia Pereira

A TV é herdeira do gênero folhetinesco. O folhetim (do Francês feuilleton, folha de livro) é uma narrativa seriada dentro dos gêneros prosa, de ficção e romance. Surgiu na França, em 1836, junto ao nascimento da imprensa escrita. Despertou o interesse das camadas mais pobres pela leitura e colaborou com a construção de uma nova identidade nacional urbana. Acelerou, ainda, a assimilação de modelos de comportamento europeus, tais como uso de veludo no vestuário, a disseminação do piano como instrumento doméstico e o surgimento de saraus familiares.

O rádio, por sua vez, também se aproveitou da linguagem folhetinesca para se autoafirmar como veículo de comunicação, através das radionovelas.
A televisão deve sua afirmação como veículo de comunicação ao formato folhetinesco, na medida em que usou da mesma estratégia que os jornais e o rádio para conquistar seu espaço através das telenovelas.

A Rede Tupi, inaugurada em 1950, foi o primeiro canal de televisão da América Latina. Ao lançar, no início da década de 50, a novela Sua vida me pertence, a Tupi se torna a primeira emissora brasileira a transmitir um beijo na boca entre os artistas Vida Alves e Walter Forster. Já a Rede Globo, inaugurada em 1965, se especializou em fazer telenovelas. Atualmente a emissora está no Guiness Record por ter mais de 260 telenovelas já gravadas. A telenovela/série “ Malhação” está no ar de segunda a sexta-feira desde 28 de abril de 1995.

É notável a influência das telenovelas na vida das pessoas. São alterados modos de se vestir, vocabulário, comportamento, atitudes diante de situações semelhantes à dos personagens das tramas e, até mesmo, o gosto musical que pode se adaptar a estilos que antes não tinham vez na mídia, nem nas casas das pessoas. Um bom exemplo disso são as músicas tocadas em novelas como “O Clone” e “Caminho das Índias”, já que não é usual ouvirmos em estações de rádio, músicas vindas da Ásia ou África.

Fica clara a importância da telenovela para a difusão da cultura mundial nesse constante processo de globalização em que vivemos. Mesmo assim, é importante lembrar que esse não é o papel fundamental e, muito menos, obrigatório, já que sendo arte, sua verdadeira função é entreter.

A dona de casa Luiza Ferreira, 54 anos, demonstra o quanto as radionovelas já traziam em si o “efeito-bomba” criador de polêmicas e gerador de novas opiniões. Ela conta que sua mãe se identificava bastante com as opiniões emitidas pelos personagens da novela O direito de Nascer, pois se relacionavam diretamente à temática da dignidade da mulher. A hora da radionovela era sagrada, “ouvido colado no rádio”.

O rádio, porém, perdeu a majestade e sua sucessora, a TV, não prende apenas os ouvidos atentos, mas transforma telespectadores em fiéis seguidores audiovisuais. Eric de Oliveira, estudante, 17 anos, diz que em seu convívio com os amigos frequentemente são reproduzidas frases marcantes de novelas e isso se torna algo engraçado.

Nas brincadeiras, nos recados de orkut, nas conversas da rede em salas de bate papo, os bordões funcionam como forma enfática de se dizer o que se quer com humor e sutileza. Conta ainda que em sua família, sua mãe, vez ou outra, solta um “Tô certa ou to errada?”, uma das marcas registradas de Sinhozinho Malta, interpretado por Lima Duarte, na novela Roque Santeiro escrita por Dias Gomes e Aguinaldo Silva.

Eric diz que produtos inspirados em programas de TV são um atrativo, mas se mostra bem consciente quanto às investidas do marketing na tentativa de seduzir clientes. “O mercado procura envolver os clientes através de produtos que são inspirados em telenovelas. Não via produtos indianos nas prateleiras até pouco tempo atrás”, diz ele, se referindo a essa massificação de cosméticos, adereços e utensílios que se interligam a atual novela das 20h num processo quase intertextual.

O professor de Educação Física, Márcio Simião, revela que a novela que mais marcou sua vida foi “A Viagem”, de Ivani Ribeiro. “Assisti três vezes!”. O tema abordado na novela chamou sua atenção pela presença do sobrenatural que, para ele, é mais que natural. Já Malhação marcou foi marcante por conta de um personagem em especial, o Rodrigo, interpretado por Mário Frias. "A autoconfiança e a atitude desse personagem foram por algum tempo meu modelo de inspiração em relação à vestimenta e ao jeito de ser", admite.

Como professor, ele nota que sempre que se inicia uma novela o vocabulário dos alunos automaticamente se adapta às frases de efeito utilizadas pelos personagens. A cada ano mudam as expressões. Se antes era comum “ter classe” nas salas de aula por onde passa, atualmente ele só ouvia a famosa variante “Catiguria”, sempre presente nas falas da personagem Bebel, interpretada por Camila Pitanga na novela Paraíso Tropical. “E agora, então... é um tal de Hare baba...”.

Não são só as novelas são focos de novas expressões, mas as séries de TV, para o professor, também são grandes influências. Ele mesmo conta que não vive mais sem o “Menininha mau-caráter”, um dos bordões do personagem Mário Jorge (Miguel Falabela) em Toma Lá da Cá. Noveleiro de carteirinha, está sempre de plantão em frente à televisão e confessa que elas já foram motivo de brigas em seu casamento: “Eu quero ver a novela e a patroa fica cantando na cozinha”.

Como formadora de opinião, criadora de polêmicas, difusora de cultura e informação e momentos de lazer para o telespectador, as novelas estão um tanto presentes na vida de muita gente. “Copiou, Farinha?”

Interatividade:
Qual foi o bordão que você mais usou?

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