sábado, 29 de agosto de 2009

Filhos do hip-hop

ONTEM, NO II IGUACINE

Membros do Enraizados contam história de superação na abertura do II Iguacine
por Nany Rabello e Lucas Lima

Dizem que o melhor fica sempre para o final, mas não por aqui. No II Iguacine o primeiro dia de apresentações já começou emocionante. Antes da apresentação do filme “Praça Sans Peña”, de Vinícius Reis, houve a apresentação de dois curtas: “Um dia de Laura” e “Mães do hip-hop” e um debate sobre eles.

“Mães do hip-hop” trouxe mais do que uma história sobre cantores que fazem sucesso no seu tipo de música: trouxe uma história de emoção e agradecimento. O filme conta a história de cinco mães e seus filhos, que fazem rap e todas as dificuldades que enfrentaram para cuidar que seus filhos não fossem pelo caminho da marginalidade e se tornassem pessoas de bem. O filme conta com emocionantes depoimentos dos filhos e das mães, que também mexem com as mães que assistem.

O filme aconteceu por acaso. Uma amiga do Dudu de Morro Agudo, criador do Enraizados, fez uma entrevista com ela para uma tese de doutorado. “Eu tinha todas as respostas na ponta da língua, menos o que minha mãe achava do meu trabalho”, conta Dudu. Sem conseguir tirar isso da cabeça, Dudu chegou a sonhar com o filme, com nome e tudo. Conversou com uns amigos que tinham o equipamento e eles toparam na hora fazer o documentário. “O filme nos mostrou a dificuldade de se criar em Nova Iguaçu, mas foi muito bom de fazer. Toda vez que eu vejo é como se fosse a primeira, é novo”, diz.

Segundo Léo da XIII, de 22 anos, um dos participantes do filme e membro do Enraizados, o filme é mais um passo para acabar com o preconceito que eles sofrem. “Somos muito mal vistos por quem não conhece o hip-hop porque fazemos rap e por usarmos as roupas que usamos”, diz o artista. Léo confessa que no filme fala de coisas que nunca falou, como problemas da infância. Mas nada se compara ao prazer de falar de sua mãe, que é uma mulher guerreira e sempre o apoiou. “Posso até não falar pra ela, mas todas as músicas que eu escrevo são baseadas na vivência que temos”, conta emocionado.

Léo ainda é produtor musical na Escola Livre de Música Eletrônica e está no Enraizados desde os 12 anos. “Até consigo imaginar minha vida sem o Enraizados, mas eu sei que não seria tão musicalmente aberto”, conta. Assim como Léo, Dudu afirma que a música o fez uma pessoa melhor e que sua grande paixão é a Rede Enraizados de Auto-Ajuda. “É um organismo vivo. Algo que muda conforme as histórias que o compõem”, conta.

A Rede serve de intermediária para quem é membro do Enraizados e procura um espaço para mostrar seu trabalho, seja música, fotografia, direção, arte, etc, e quem necessita do produto desse trabalho. “Nós estamos nos 27 estados coletando pessoas”, diz Dudu. E no Enraizados tem lugar pra todo mundo. “Tem gente que manda bem pra caramba e tem gente que não sabe fazer nada, mas daqui a 10 anos eles vão ser melhores que quem os ensina hoje”. Para Dudu, o conhecimento é a base de tudo.

Algo que surgiu por acaso hoje é uma rede com cerca de 600 mil acessos por mês. Dudu conta que queria fazer hip-hop desde os 13 anos, mas, como não conhecia ninguém do Rio que fazia Rap, começou a escrever cartas para pessoas de outro estado dizendo que fazia parte de um grande movimento que se chamava Enraizados. Começou a receber tantas cartas que acabou criando o site, que na época, 1999, tinha cerca de 30 acessos por mês, e tudo foi se transformando nessa rede nacional com sede em Morro Agudo. “Não sei se conseguiria criar, hoje, o Enraizados como ele é, porque ele se faz sozinho. Se eu morrer hoje, ele continua”.

Além da Rede de Auto-Ajuda, o programa tem um movimento de literatura ligado ao hip-hop, um movimento e oficinas de grafite com o Dante, e uma turma do Pro-Jovem, que já até fez um curta de ficção que dura 15 minutos. Os profissionais de cinema do Enraizados estão produzindo outro filme, “Morro Agudo X Comendador Soares”, contando a história do bairro que tem dois nomes.

Apesar da dificuldade de crescer em bairro periféricos de uma cidade talvez também periférica, os meninos ficam felizes de compartilhar suas histórias com o público, mostrando que dá pra fazer diferente. Eles buscaram na música um suporte, e conseguiram ‘escapar’ do caminho que leva à marginalidade. E os agradecimentos maiores vão para as grandes mães do hip-hop, que foram mais do que alicerces: foram força e motivo para seguir em frente.

“Falar de filme é difícil, porque eu aprendi a pegar no microfone para cantar e a diferença é muito grande, mas falar de mãe é fácil, e muito bom, acho que isso eu domino bem”, afirma Léo, entre risos. Dudu termina deixando uma lição “O filme mostra que cinco jovens que não iriam nascer hoje falam pra 600 mil pessoas. Hoje, quando eu vejo o filme, é isso que eu penso”.

Interatividade:
Quem é o seu exemplo de superação?

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