quarta-feira, 15 de julho de 2009

Do Morro à Baixada

CERÂMICA

Grupo Nós da Baixada continua formando atores culturais para toda a região
por Leonardo Oliveira e Lucas Lima

Uma extensão do grupo teatral Nós do Morro, que tem sede no morro do Vidigal, no Rio de Janeiro, o Nós da Baixada vem desenvolvendo oficinas culturais em Nova Iguaçu com o mesmo objetivo do grupo original: a iniciação às artes cênicas. A partir de um convite feito pelo prefeito da cidade, Lindberg Farias, em 2005, o projeto fez uma seleção para escolher os profissionais que ofereceriam as oficinas teatrais. Foram instaladas dez lonas culturais em dez diferentes bairros da cidade, como Cabuçu, Grama e Santa Rita.

Inicialmente, as atividades eram oferecidas apenas nas escolas municipais, porém, com a perda de patrocínio da Petrobrás, o Nós da Baixada foi obrigado a interromper o trabalho com a educação. “Nós trabalhamos 2006 e no início de 2007 ficamos sem o patrocínio da Petrobras, e as atividades tiveram que ser interrompidas. De todos os dez espaços, esse foi o único que não parou e realiza um trabalho contínuo desde 2006”, explica Anderson Dias, 30 anos, coordenador do projeto em Nova Iguaçu.

Era realizado um trabalho de pesquisa, uma disciplina chamada Memória, que consistia em um resgate da cultura local, de como o bairro foi de desenvolvendo. “Eram feitas entrevistas com os moradores mais antigos dos bairros”, conta Anderson. Além dessa disciplina, eram oferecidas oficinas de contação de histórias, expressão corporal e interpretação. Esse processo foi vivido durante um ano e culminou numa exposição desses materiais que foram recolhidos e levantados sobre a construção dos bairros. Houve apresentações de contação de histórias, performances corporais e espetáculos de teatro.

Mesmo não havendo mais espaço nas escolas, o Nós da Baixada continua firmando sua parceria com a prefeitura, trazendo crianças do programa Bairro-Escola para participar do projeto. Atualmente com quase 200 alunos matriculados, nem todos estudantes das escolas municipais, o grupo teatral tem se expandido a cada dia, atendendo diversas faixas etárias e lugares. “Perdemos por um lado quando saímos da escola, porque é um ambiente muito bacana, mas ao mesmo tempo precisamos nos expandir e atender outras pessoas que também estão interessadas.

Hoje atendemos alunos de escolas particulares, escolas estaduais”, orgulha-se o coordenador, que todos os dias é procurado por pessoas querendo fazer parte do projeto. Entre essas pessoas, estão as senhoras de um grupo de Tai Chi Chuan, que queriam fazer teatro. “Hoje temos senhoras de 50, 60 e até 70 anos."

Anderson conheceu e se encantou com o Nós do Morro, e quando soube que o projeto viria para Nova Iguaçu logo se interessou em participar. “Fiquei sabendo que eles fariam essa seleção de atores e de profissionais de teatro pra estar trabalhando nesse projeto”, lembra. “Eu já conhecia a metodologia, e quando fui pro Vidigal conhecer o trabalho de perto fiquei ainda mais fascinado”, conclui.

Todas as aulas são diretamente voltadas ao teatro, e as oficinas que são necessárias para uma apresentação em especial são feitas conforme a necessidade do grupo. Oficinas como canto e percussão, por exemplo. O cenário e o figurino são feitos ali mesmo, pelos próprios alunos, tornando esta atividade muito importante para a formação do grupo. “A ideia é que o aluno veja que teatro não é só atuar. É preciso o cara que vai fazer a contrarregragem, ou a iluminação, ou a pessoa que vai fazer a maquiagem. Temos aluno que abre mão de atuar pra ficar na produção”, conta o professor e coordenador.

O grupo pretende, no próximo final de semana, se apresentar em cinco sessões de 60 minutos em média. Esta flexibilidade surgiu a partir da necessidade do público, que nem sempre pode estar presente em uma única apresentação. “Eu compreendo isso como uma resposta positiva dos pais. É difícil, com a vida corrida de todos, termos a presença grande de pais aqui dentro no dia a dia, mas essa resposta, de vir ver o resultado daquilo que produzimos, já é fantástico”, conclui Anderson.

A aluna Juliana dos Santos Vieira, de apenas 10 anos, está no projeto desde 2007. “Eu conheci o projeto pelas minhas tias, depois minha irmã também começou a participar. Eu a vi se apresentando nas peças e senti vontade também”, conta. “Já me apresentei em quatro peças. No início senti vergonha, mas hoje em dia a vergonha já passou”, conta a pequena atriz.

Interatividade:
Que bairros merecem receber novamente as oficinas teatrais do NdB ?

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