quarta-feira, 29 de julho de 2009

Nós, da terceira idade

CERÂMICA

Grupo da terceira idade troca o tai-chi-chuan pelo teatro
por Hosana Souza

O que leva um grupo de senhoras a trocar o tai chi chuan pelo teatro? Com humor, Conceição dos Santos, de 68 anos, responde: “Estávamos ficando muito doloridas”. E é com esse humor que elas ensaiam no Espaço Cultural Nós da Baixada, onde conquistaram um lugar de honra no coração dos professores desde 2007.

Tudo começou quando a própria Conceição resolveu ir até o espaço a fim de saber se de fato o espaço recém-aberto na Cerâmica podia ser usado pela comunidade. “Como eu já conhecia o trabalho, perguntei ao Anderson se tinha como formar uma turma para o pessoal da terceira idade”, diz ela, como sempre animada.

O coordenador Anderson Dias, 30 anos, se surpreendeu com a abordagem daquele grupo que existia há um ano. Mas teve o maior prazer em criar uma turma só para elas, ainda que em princípio não estivesse pensando em trabalhar com turmas fechadas. Ele não se arrepende, ainda que tenha que trabalhar com uma carga de horária menor, restrita a um ensaio por semana. “A gente percebe a satisfação delas, que trazem os familiares para assistir. Foi um verdadeiro presente para nós”.

O resultado desse investimento foi apresentado no encerramento da mostra de esquetes realizada em meados de julho no palco do espaço cultural, com a cena “O churrasco”. O texto, escrito pelo próprio grupo, mostra com humor uma cena do cotidiano familiar. A cena foi criada durante um exercício com as palavras céu e inferno. “A partir das palavras-chave, eles imaginaram uma situação onde em um momento encontrava-se tudo às ‘mil maravilhas’ e em outro o extremo do desespero”, conta a professora Ana Paula Pinheiro, 25 anos, responsável pela turma esse ano.

De um improviso em sala de aula surgiu um esquete com personagens que vão da vizinha fofoqueira ao cunhado galinha, passando pela ex-sogra que repara a casa e uma ex-mulher inconformada com a separação. “Coisas que você encontra em qualquer família e que de alguma forma eles pegaram da memória e trouxeram para a peça”, comenta Ana Paula.

Mais do que uma companhia teatral, o grupo transformou-se em uma família. Eles conversam sobre a vida, dividem alegrias e tristezas, brigam, riem, almoçam juntos e acima de tudo apoiam um ao outro. Um bom exemplo dessa união é o cuidado que todos têm pelo filho autista de Kátia Moran, 46 anos. “Meu filho Rafael vivia no mundo dele, somente eu, e muito mal, conseguia tirá-lo de lá”, conta a atriz, que é de Nilópolis. “Mas por incrível que pareça aqui ele se solta, ri com os ensaios, adora vir”, acrescenta ela, que fez do teatro uma terapia por tudo que já passou com Rafael e uma separação. Foi graças ao grupo que, além de ter evitado uma depressão, voltou a estudar e até conseguiu inscrever o filho em uma oficina no centro do Rio de Janeiro.

Stephany dos Moran, filha mais nova de Kátia, percebeu a melhora da mãe. E por isso relevou o nervosismo da atriz às vésperas da apresentação do grupo. “Ela praticamente enlouquece”, lamenta Stephany. “Começa a falar sozinha, briga comigo usando os trechos das falas dela, mas eu sempre a apoiei porque sei o quanto esse grupo a deixa feliz.” É por isso que ela faz questão de acompanhar os ensaios e as apresentações do grupo.


Interatividade:
Conte a história de algum idoso de sua família que tenha ficado mais feliz depois de participar de alguma atividade relacionada à terceira idade.

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