sexta-feira, 19 de junho de 2009

Como qualquer filho de classe média

CERÂMICA

Reperiferia quer ampliar campo de ação das escolas livres
por Raphael Teixeira

Anderson Barnabé, um dos idealizadores do projeto Reperiferia, conversou como o blog nesta semana sentado em um dos confortáveis almofadões da Escola Livre de Música Eletrônica, sua mais recente criação social. Nesta entrevista, ele contou como tem sido sua batalha diária contra a exclusão social e o que fez para tornar o Reperiferia um dos projetos mais importantes da prefeitura de Nova Iguaçu.

Jovem Repórter: Como você começou a participar de projetos sociais?
Barnabé: Comecei a participar de projetos sociais há aproximadamente cinco anos, quando recebemos da prefeitura do Rio de Janeiro um teatro no bairro de Santa Cruz. Nossa missão era montar e levar espetáculos teatrais na zona oeste carioca, que carecia de expressões artísticas contemporâneas. Grande parte desta carência residia no fato de estarmos muito distante do eixo de discussão artística que imperava naquele ano. Achamos pouco apenas administrar um teatro de forma pontual e resolvemos criar um projeto que atendesse aos nossos “iguais”, os moradores pobres da periferia. Criamos então o projeto Reperiferia, que começou com 300 alunos em aulas de teatro, adulto e infantil, cenário e figurino, culinária da mandioca (leguminosa local), maracatu, dança e cinema. Foi um sucesso já no primeiro mês e o brilho no olhar das pessoas me fez acreditar que aquilo era tão importante para eles como para mim. Comecei e não parei mais.

JR: O que você almeja para o futuro do Reperiferia?
B: O Reperiferia amadureceu e se consolidou como um projeto que cria escolas de artes contemporâneas na periferia e o que almejo são realizações de projetos futuros que já estão no papel: espalhar pelas periferias de todo o pais o conceito de escolas livres, como as Escolas Livres de Cinema e Música Eletrônica. Na hora em que conseguirmos isso, vamos ampliar o campo de atuação do projeto, proporcionando a um maior número de pessoas a oportunidade de estudar numa escola com qualidade e participar de discussões artísticas, políticas e sociais, tendo as mesmas oportunidades que qualquer filho de classe média.

JR: Dá para conciliar essas escolas com projetos pessoais?
B: Claro que sim. Hoje tenho tenho um grupo de maracatu com ritmos urbanos, que se chama “Visão Periférica”. Também estou dirigindo um grupo teatral de ex- alunos da Escola Livre de Teatro no espetáculo “Guandu no Caminho de Um Rio”. Essa peça, sobre a vida real de moradores do conjunto do Guandu, vai estrear no dia 18 de julho de 2009.

JR: Qual o principal objetivo do projeto?
B: Espero contribuir com um olhar mais sensível, contemporâneo e com menos preconceito sobre a periferia, seu território e sua gente.

JR: Conte algo humano em relação ao projeto que, ao longo desses anos, o marcou.
B: São muitas histórias, mas a que me vem à cabeça é a de Toni, aluno da escola de teatro de Santa Cruz. Ele é filho de um porteiro que, além de achar que teatro não era vida para o filho, dizia que seu filho tinha que trabalhar, sem considerar teatro trabalho. No seu segundo mês de teatr, Toni foi contratado para fazer parte da equipe de atores que trabalhariam durante os quatro anos em que o Reperiferia atuou em Santa Cruz. Quando isto aconteceu, o pai de Toni lhe deu de presente um livro sobre história da arte. Foi emocionante.


Interatividade:
Você acha que o pai de Toni, que achava que arte não dá vida para ninguém, é uma regra ou uma exceção?

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