sexta-feira, 26 de junho de 2009

As cores do arco-íris

MIGUEL COUTO

Bairro-Escola ajuda mãe voluntária a entender importância das diferenças
por Carine Caitano

Muito bom esse evento! Seria ótimo se tivéssemos sempre esse tipo de encontro”, disse Marilucia de Almeida Rodrigues sobre o evento para Mães Educadoras, que aconteceu nos dias 8 e 9 de Junho na Casa do Menor. Semanas após essa capacitação, ela nos conta como é participar da educação das crianças que não os seus filhos e mais, acompanhar a família na escola em que trabalha.

Marilucia já trabalhou como voluntário por dois anos na Casa da Sopa, em Nova Iguaçu. Essa instituição, que sobrevive de doações, tem por objetivo alfabetizar crianças de dois a seis anos, deixando-os aptos para sua iniciação nas escolas públicas do bairro. Apesar de ser um trabalho muito gratificante, ela sentiu a necessidade de passar mais tempo com seus maiores alunos: os filhos. “Minha filha mais velha largou os estudos para morar com um cara que conheceu por ai. Percebi que não queria isso para os meus três meninos e para os amigos dele. Resolvi passar mais tempo com eles para garantir um futuro melhor”, explica. Por isso, quando soube que a Escola Municipal Ayrton Senna, em Miguel Couto, estava precisando de mães para auxiliar no horário integral, logo se mobilizou para não ficar de fora: “Eu quis fazer parte disso. É uma atividade em que ajudo outras pessoas e posso estar perto dos meus filhos”, afirma.

Quem a informou da intenção do Bairro-Escola de trazer as mães para a sala de aula foi sua própria mãe, dona Inês. Maria Inês de Almeida Perez trabalha como cozinheira na escola Ayrton Senna há dois anos. Preparando o alimento das crianças, foi lá que ela encontrou a diversão e companheirismo que não teve na infância: “Eu não tive infância porque precisava trabalhar. Hoje eu agradeço a Deus por poder me realizar vendo essas crianças felizes. Acabo brincando junto! Bato corda, jogo peteca... Isso é ótimo”, diz, entusiasmada.

As duas praticam conceitos que aprenderam assistematicamente, no convívio com os mais novos. Marilucia fala de algumas dificuldades que encontrou e como está conseguindo passar por elas: “Tem muita menina de nove anos que só pensa em beijar na boca. No começo, eu achava um absurdo, depois vi que elas nem sabem direito do que estão falando. Ao invés de falar que não pode e ameaçar levar pra direção, eu aconselho que elas falem com a mãe. Vi que não adianta só brigar, tem que mostrar porque é certo ou errado.” Dona Inês diz ainda que é importante não ameaçar a criança, independentemente da idade. “Temos que sentar e conversar... Tentar criar uma relação de amiga. Tem criança que é muito carente e outras, agressivas demais. Sabendo lidar com elas, você pode melhorar a vida deles e colorir a sua.”

O maior beneficiado por essa dupla de educadoras é Clayton Rodrigues da Silva. Ele é filho de Marilucia e está adorando intervenção da mãe no ambiente escolar. “Eu não gostava muito de estudar”, informa Clayton, como se isso o definisse. Mas, ao continuar, percebemos que o orgulho é exatamente por agora ele adorar a escola: “Agora, que minha mãe tá aqui, acho muito maneiro! Ela bem que fica no meu pé, mas percebi que também me ajuda a ter disciplina”, reconhece. Apesar da facilidade de se expressar, o aluno tem dificuldade na aprendizagem, especialmente na escrita. Aliado a exercícios, cooperação da mãe e do trabalho com a orientadora pedagógica, ele está progredindo e tomando gosto pelas letras. “Eu nem falto mais as aulas de português, porque quero aprender logo. E era o que eu tinha mais dificuldade... Do resto eu gosto, gosto até de matemática! Eu sou muito do contra mesmo”, diz Clayton, fazendo uma careta engraçada.

A orientadora pedagógica, Ana Carla Rodrigues, que acompanha o desenvolvimento de Clayton, confirma: “Só o Bairro-Escola proporciona esse tipo de interação. Temos três gerações diferentes, que vivem contextos históricos e cognitivos diferentes. O objetivo da escola, atualmente, é provar que o conhecimento nasce justamente dessa interação e troca de conhecimentos. Como diria Dona Inês, é a diferença que nos ajuda a colorir o arco-íris.”


Interatividade:

Qual o papel sua mãe e sua avó tiveram na sua formação?

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