segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Pluralidade de escritas


Heloísa Buarque de Hollanda participa de comemoração do Dia Nacional do Livro em Nova Iguaçu
Por Lucas Lima

É uma experiência incrível conhecer Heloísa Buarque de Hollanda, professora titular de Teoria Crítica da Cultura da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e grande crítica literária. Os jovens da Escola Agência de Comunicação tiveram esse privilégio na noite da última quinta-feira, dia 30, no Espaço Cultural Sylvio Monteiro, durante o lançamento do livro "Rim por rim", do jornalista Julio Ludemir. O lançamento do livro, que é uma reportagem sobre o tráfico internacional de órgãos, fez parte das celebrações pelo Dia Nacional do Livro, comemorado no último dia 25.


Em uma entrevista coletiva superdescontraída, Heloísa abordou vários assuntos com os jovens, como a situação da literatura na nossa sociedade. Para ela, não existem mais grandes gênios da literatura, da escrita, do cinema e etc, como Machado de Assis e Guimarães Rosa, por exemplo. “O que existe hoje é uma pluralidade de escritas que não têm preço”, afirmou. “Isso é muito bom, porque, se acabaram os picos de genialidade, hoje a literatura, a escrita, enfim, a palavra é para todos.”

Entretanto, esse grande número de escritores também tem aspectos negativos, como a impossibilidade de o mercado editorial publicar a massa de livros produzidos na atualidade. "Eu achava que todas as editoras eram bandidas até ter uma, e depois percebi que não se vende livro se não for um Paulo Coelho ou um livro de auto-ajuda. Até o livro financiado é caro, porque você acaba tendo que pagar armazenamento, distribuição, transporte, enfim, é uma cagada. Para Heloísa, as editoras só vão arriscar dinheiro em autores desconhecidos se houver um grande programa governamental de incentivo à leitura.

A espontaneidade e a simpatia da professora deram um rumo diferente à entrevista, que se tornou um maravilhoso bate-papo. A todo o momento, ela era "atacada" pela metralhadora dos jovens, que buscavam o conhecimento e grande sabedoria sobre a literatura e cultura da professora. Uma dessas rajadas foi disparada pelo jovem repórter Bruno Marinho, que queria saber se a Internet não seria uma má influência para nós porque, além de tirar o interesse pela leitura, estimula uma forma errada de escrever. "Tudo o que sai na internet vende depois”, respondeu ela, entusiasmada. “E vende porque você não vai ficar com as 300 páginas de vários livros no computador. Está comprovado que a internet é uma enorme arma a favor do incentivo à leitura, é uma enorme vitrine.”

Sociedade oral
Heloísa também questionou a possível deterioração da língua por causa da internet, particularmente de programas de bate-papo como o MSN. “Na minha época, as pessoas escreviam e guardavam na gaveta”, disse a professora. “Hoje, elas escrevem e colocam na internet. A internet é um facilitador absurdo. Com ela, todo mundo perdeu o medo de escrever. Não existe linguagem errada, quando você se expressa e as pessoas entendem é linguagem. Outro ponto positivo da internet é que não importa que seja no Orkut, mas as pessoas escrevem. Isso é bom porque quem escreve acaba lendo, e lendo acaba pegando gosto. Começa pelo orkut, por um gibi, por uma revista e acaba escrevendo um poema com o tempo.”

Heloísa Buarque de Hollanda também falou sobre o histórico desinteresse do brasileiro pela leitura, que, para ela, é cultural no país. "Somos uma sociedade oral”, explicou. “Temos um tipo de expressão que é muito mais de dança e de música e que ninguém tem igual, como o francês, por exemplo, que lê muito não tem uma música como a nossa".

A conversa terminou com a divulgação de um projeto de Heloisa, que se chama "Palavra na Baixada". O resultado sai em Março e, se aprovado, a primeira etapa será sentar com todos para decidir o formato a ser adotado. “A única coisa que está decidida é que será em Nova Iguaçu”, revelou.

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