terça-feira, 25 de novembro de 2008

Boa aparência

Jovens negros foram à feira atrás de um lugar no mercado informal
por Flávia Ferreira

Eles sempre foram tratados como os empregados, motoristas, camelôs, aquelas pessoas simples que sempre são subordinadas a alguém. Porém, hoje o negro não procura somente ganhar seu sustento, mas se realizar profissionalmente. No entanto, as condições de trabalho e de renda ainda continuam muito inferior à das registradas pela população branca. “É muito difícil conseguir emprego”, resume a negra Roseane dos Santos, 19, moradora de Queimados. “Quando conseguimos, recebemos mal e ainda somos vistos com olhares tortos.”

Essa jovem sonha com o curso de direito, pré-requisito para o concurso de delegada de polícia que pretende fazer tão logo se forme. Ela pretende abraçar essa profissão para pôr um fim no que chama de “diferença boba”, que, além de “ser uma grande burrice”, “prejudica os negros”. Roseane também sonha com o fim da impunidade e da injustiça no país. “O pior de tudo é que há pessoas sendo presas por bobagens, enquanto outras, com crimes mais graves, ficam soltas.”

Roseane já foi discriminada por causa da sua cor, principalmente nas vezes em que tentou emprego em lojas. “Eles querem as loiras de olhos azuis”, desabafa. “Por isso, eles já me olham de uma forma diferente quando chego para a entrevista. Fazem pouco caso de mim, como se eu fosse diferente.”

Também jovem e negra, Thais Renata, 28 anos, conhece esse tipo de preconceito. “Eles pegam o teu currículo já te olhando de cima a baixo para ver como é você”, afirmou ela, para quem há uma velada discriminação no Brasil. “Eles te julgam antes de você mostrar sua capacidade.” Thais jamais se deixou abater com essa situação, mas teve que recorrer à informalidade para pagar suas contas. “Ajudo na lanchonete da minha avó”, revela. Ela estava na Primeira Feira de Emprego e Estágio da Baixada Fluminense atrás de uma oportunidade que lhe desse carteira profissional, férias remuneradas e, acima de tudo, futuro.

Costa quente
Bianca Santos teve uma bela “costa quente” para driblar o preconceito, conseguindo uma vaga como operadora de caixa num mercado próximo a sua casa. Mas essa sorte não se repetiu quando se formou em fisioterapia e tentou um emprego mais qualificado. “A área está muito fechada e eu não consigo nada”, lamentou no primeiro dia da feira. Por causa dessa dificuldade, Bianca caiu na vala comum do trabalho informal. “Estou tendo que trabalhar como autônoma, atendendo os pacientes em casa.”

Além da questão racial, Marcelo Silva de Araújo, 21, enfrenta o preconceito sexual, no seu entender muito maior. “Eu não sofri preconceito por ser negro, mas por ser homossexual assumido.” Ele admite que ficou abatido ao ouvir que seu “perfil não se encaixava com o da empresa” em que estava procurando emprego, mas não foi por isso que desistiu. “Eu até me recolhi naquele momento, mas depois levantei a cabeça e continuei o caminho”, conta Marcelo.

Outra dificuldade que pelo menos os negros que marcaram presença na feira da Vila Olímpica enfrentam é o preconceito contra a juventude. “O primeiro emprego é aquele que te dará experiência”, ironiza Thais. “Se não te dão a oportunidade, como você terá a experiência?”, pergunta. Para ela, é muito importante que se dê uma chance ao jovem de mostrar do que é capaz, seja ele negro ou não. "Somos todos iguais", disse ela.

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