segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Ele é o cara


"Meu grande sucesso é estar vivo"
Por Flávia Ferreira
Fotos de Mariane Dias e Aline Marques

Jorge Mário da Silva, ou apenas Seu Jorge é marca de simplicidade e humildade, herança que herdou dos tantos anos de periferia que carrega em suas costas. Morador de São Cristovão, Belford Roxo e até das ruas cariocas, ele teve uma infância cheia de altos e baixos, marcada pela pobreza e miséria, mas nunca pela falta de esperança.

Desde os 10 anos de idade, começou a trabalhar para ajudar em casa e ainda novo o chamaram para fazer uma peça musical. Com isso, outras oportunidades foram surgindo e ele acabou encenando mais de 20 peças, além do filme Cidade de Deus. A experiência em teatro influenciou na formação de sua banda "Farofa Carioca", que faz uma feijoada com os ritmos musicais, juntando os temperos da negritude de diferentes partes do mundo. Além disso, tocou com renomados artistas como Tim Maia, Beth Carvalho, Planet Hemp dentre outros. Em 2001, ele lança o CD solo "Samba Esporte Fino" que traz em suas faixas a música Carolina, nos primeiros lugares em todas as paradas do ano, que faz sucesso até os dias de hoje. Três anos depois (julho de 2004), Jorge lança o DVD MTV apresenta Seu Jorge e o CD Cru em setembro deste mesmo ano, voltado para o mercado europeu.

Cantor, compositor, ator e instrumentista, mas um ser humano completo, Seu Jorge nos descreveu com muita emoção em uma sala da UNIG, com seu inseparável cigarro entre os dedos, e muita fumaça, em meio a goles de cerveja, um pouco de seus sentimentos.

Você nasceu em São Cristovão, mas morou por muito tempo em Belford Roxo. Como foi viver em periferias e com a dificuldade de ser pobre?

“Cara, foi difícil né? A vida não é muito fácil de lidar, mas como diz a canção, "ela é bonita". Eu tive recompensas por levar a vida na esperança, sempre acreditando no dia seguinte, hoje é hoje, mas o amanhã pode não chegar e se ele chegar, temos que pensar que pode vir com muito Axé e coisas positivas. Cheguei aqui (Baixada) e aprendi muitas coisas, como viver uma vida simples e na simplicidade e ao mesmo tempo não ser triste com isso, talvez insatisfeito, mas não triste. Nada das dificuldades da vida, seja aqui ou em outro lugar, não conseguiram tirar a alegria que o dia seguinte pudesse me proporcionar, então quando chego aqui, quero ver esse lugar melhor e crescendo, desenvolvendo com sua própria cultura e sua própria instituição.Quero isso para a minha comunidade Gogó da Ema, para Nova Iguaçu, para Vila de Cava, para Santa Maria, para a Baixada mesmo, tenho um amor muito grande por esse lugar. Saí do Rio de Janeiro e me mudei para São Paulo, chego lá e não vejo condições de voltar para o Rio, pois fui muito bem sucedido em minha carreira lá. Minhas três filhas estão muito bem adaptadas, minha mulher é de lá, mas se um dia pudesse voltar para algum lugar, ele seria o Gogó da Ema. Mesmo com toda a distância do centro e da informação era para lá que queria voltar.”

Quais as melhores lembranças que tem dessa época em que morou em periferia, antes de se inserir no mundo da música?

“Pegar Figo, Goiaba, essas coisas que quase não existem mais. Jogar bola no campinho de várzea, Estudar no Abeu, colégio que eu queria ter estudado mais, porque era difícil naquela época um negrão assim em uma escola particular. Tinha dia que tinha as coisas para levar e tinha dias que não, ás vezes não ia legal para a escola; ás vezes tinha papel, mas não tinha caneta, nem lápis, nem borracha e nem apontador.”

Você sofreu algum tipo de preconceito quando estudou no Abeu?

“Quando eu era criança, estava em época em que tudo era muito duro e não se tinha a tolerância para uma série de coisas, muitos aspectos que hoje são discutidos naquela época não se falava, pois não existia uma democracia aqui. Então, dizer que eu sofri preconceito é chover no molhado. Eu vivia em um país em que existia um regime, não só de discriminação, mas de classes, de região e não era só comigo sabe? Todo mundo que fazia parte de uma parcela do povo brasileiro que não tinha recurso também era discriminado. Então era muito difícil, era realmente complicado nos fazer entender no meio das pessoas, mostrar algum potencial. A situação era tão difícil em termos de se mostrar, que qualquer coisa diferente era uma afronta a realidade.Mas trago ao mesmo tempo, uma boa lembrança de uma professora de matemática que, por ser muito novo, eu achava que ela me detestava, só que com o passar do tempo eu percebi que ela gostava de mim mais do que qualquer aluno, porque, por ser o único negro na sala, ela me cobrava mais e me exigia mais e eu não pude acompanhar. Talvez essa seja a única coisa que eu lamente, não poder ter rendido o suficiente para a professora Cenir”.

Você se acha um cara ligado na situação política do país? Acredita em uma evolução do Brasil? Por que?

“Sou completamente, sou político. Na minha vida uma das maiores transformações foi a da política. Assim como todos, me interesso muito por essa matéria, mas, diferente desses, eu ainda a prático. Adoro poder discutir isso e me aprofundar ainda mais nesse tema. Vejo que a estagnação é um dos maiores problemas do país e a maior violência que existe no país, é a fome e a indiferença. A política foi algo que, fatalmente, bateu em minha porta com tudo que vivi”.

Você falou de sua carreira na música, mas a quantas anda a música popular brasileira?

“A música popular brasileira vai bem como sempre. Ela tem carteira de identidade própria em qualquer canto do planeta. Você vai em uma loja de discos, em qualquer canto do mundo e verá em uma prateleira escrito Brazilian Music, não tem Cuba Music, France Music e isso é muito importante. Não acho que a MPB seja a mais apreciada não, mas tem o seu lugar e ainda gera uma expectativa em torno do mundo de que nós vamos transformar alguma coisa. Ninguém espera da Alemanha ou da Itália que faça uma música que revolucione o mundo inteiro, mas do Brasil isso é cobrado. A bossa Nova tem aí seus 50 anos e continua sendo a música mais sofisticada do mundo até hoje”.

Após todas as dificuldades que viveu, na rua, em casa e dentro de você mesmo, como é fazer sucesso, tanto dentro, quanto fora do país, você esperava isso?

“Meu grande sucesso é estar vivo né?. Uma das maiores sortes que tive na vida foi nascer com braço e perna e ter uma família muito unida, mesmo na pobreza. Eu tive a maior sorte de não ter nascido no Irã, no Paquistão, nasci no Brasil, mesmo com todos os problemas sociais. Acho que minha maior sorte foi ter os filhos que tenho e viver o futuro que posso dar a eles, esses são os meus maiores sucessos.

Então, qualquer outra coisa fora disso é para a constituição de minha profissão, como todos, eu não sou artista, mas trabalho da arte. Sou muito feliz por poder chegar a casa das pessoas de alguma maneira, por isso acho positivo todo e qualquer compartilhamento, toda e qualquer pirataria. Temos direito de consumir coisas de primeira linha.Espero que todo e qualquer êxito não seja interpretado como ostentação, espero poder trilhar o caminho da tranqüilidade fazendo amigos e cantando bastante, com a ajuda de Deus. O mais importante é ver meus filhos e sobrinhos crescidos e de envelhecer entendendo que cada estágio da nossa vida, cada aspecto, sai com um novo frescor de juventude. Nos meus 80 anos quero poder viver como Oscar Niemayer, trabalhando como ele”.

Como foi estar hoje em Nova Iguaçu, cantando para esses irmãos da Baixada Fluminense e revendo muito deles?

“Um sonho. Imagina, vim lá do Gogó da Ema, chegava lá na Rio Branco e neguinho falava "Mora mal em". Então vim para Nova Iguaçu, que era o mais perto do Gogó que consegui vir, para rever meus amigos de infância, essas pessoas que não vejo a quase 20 anos é uma coisa de doido. Vi meus amigos chorando aqui, isso foi um presente muito especial mesmo”.

Um comentário:

  1. Muito bom trabalhar com vocês, pessoas comprometidas e profissionais. A pouca idade que temos, não impede em nada de sermos grandes quando necessário. A entrevista foi boa porque nos receberam muito bem e porque soubemos aproveitar isso. Obrigada por tudo amigos..

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