quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Onde a violência não tem vez

Diego Bion dá oficinas de argumento na Prata
Por Alcyr Cavalcanti

Abel Ferrara e Quentin Trantino não têm vez em Nova Iguaçu. Pelo menos entre os alunos da Escola Municipal Menino de Deus, no bairro da Prata. Um pequeno grupo é formado sob a orientação de Diego Bion. Atentos, eles são levados a um ritual de iniciação na magia do cinema.

Diego tem 23 anos, fazia faculdade de enfermagem, mas foi seduzido pela sétima arte. “Sempre gostei de imagens, mas foi o contato com o audiovisual, que me identificou com o cinema. Larguei enfermagem e mergulhei no mundo das imagens. Fui para a FAETEC fazer produção audiovisual, e passei a viver cinema 24 horas por dia. O cinema faz parte do nosso imaginário, onde o glamour está sempre presente, se transferindo da tela larga para as telinhas da TV. Vivemos sob um bombardeio de imagens, via internet,celulares, minicâmeras. A imagem passa a ser a síntese dos indivíduos, e a violência é a síntese das diferenças sociais. A oralidade dos jovens não é suficiente para expressar suas idéias. Através das imagens vão procurar sintetizá-las”, afirma.

Diego pacientemente orienta um pequeno grupo de jovens, quase meninos, entre 13 e 17 anos, a escrever argumentos que venham a se transformar em um roteiro cinematográfico. A tônica é a não violência. Eles preferem um roteiro onde amor e afeto substituam tiros e pancadaria. “De violência basta o que vemos no noticiário da TV e dos jornais, às vezes bem perto de nossa casa”, diz Eduardo, com firmeza. “O nosso filme podemos dizer que é uma ficção, mas baseado em uma história real, a minha história.”

Fatos reais
Eduardo é um menino de 16 anos apaixonado por uma amiguinha da escola. Para conquistá-la, diariamente manda um bombom de chocolate. É sua técnica de sedução. Seus amigos fazem troça, acreditam ser impossível. Ele, além de pobre, é negro. Mas Eduardo quer seu coração. Decide ser cineasta, assim ficaria famoso e conseguiria conquistá-la. Acredita que só assim será notado pela sua amada.

A história de Eduardo e Maiara, sugerida pela professora Telma Lucia Fernandes, vai ser transformada em vídeo pelo grupo do “Menino de Deus”. É uma história onde a violência não tem vez, uma história entre tapas e beijos, onde os tapas são apenas tapinhas, dados mais como liberação de tensões, uma prova de afeto. No fundo, uma manifestação jocosa. Maiara Alves de Oliveira, uma jovem de 15 anos com um belo sorriso, narra como tudo começou: “Todo santo dia ganhava um bombom. Chegava misteriosamente às minhas mãos. Já estava ficando desconfiada. Um dia, ganhei uma caixa de bombons, acompanhada de um bilhete. Minhas colegas começaram a zoar, e a gritar: ‘aceita, aceita!’ Fiquei morta de vergonha, e minha reação foi rir. Li a mensagem para minhas amigas Patrícia e Camila, e guardo com carinho até hoje. Meu pai achou a história muito engraçada, riu muito.”

Entre tapas e beijos
A amizade aos poucos ( com muito chocolate) foi se transformando em namoro. Eduardo se lembra das palavras escritas com açúcar e com afeto: “Esses bombons são para adoçar a linda boquinha que eu quero beijar.” Maiara ,envergonhada, esboça um lindo sorriso, e para descontrair dá dois tapinhas no ombro de Eduardo. Ele responde que os tapas são para descontar toda a raiva do mundo, que ainda não chegou ao Bairro da Prata. “Ela me ama , mas prefiro beijos em vez dos tapas. Até que a mão dela, não é muito pesada.” Nesse caso, tapinhas funcionam como carícias.

Maiara faz aniversário no final de novembro. Ela até aceita caixas de bombons, mas com uma condição: Eduardo viria junto. Acredita que seu signo (Escorpião) combina com o dele (Câncer). Ao sair, caminham de mãos dadas sob a proteção de uma bandeira do Brasil, grafitada em um muro próximo à escola.

Em Nova Iguaçu, em novos tempos o afeto, o companheirismo, e o amor estão no ar. Aos poucos, outros sentimentos vão tomando o lugar da violência.

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