quinta-feira, 17 de abril de 2008

Via crucis universitária

O drama da juventude de Nova Iguaçu para chegar à universidade pública.

Por Aninha Paiva, Aline Maciel, Renata Manso, Daniella Vieira, Tatiana Sant’Anna e Fernanda Dias
A universidade pública e gratuita, um sonho remoto para as classes populares dos grandes centros urbanos, sempre foi um pesadelo para o jovem de Nova Iguaçu. Além da competição desigual com os estudantes provenientes das escolas particulares, há a distância quase indecente do campus. Chegar à UFRJ, UERJ, UNIRIO, UFF e da própria Rural continua a ser uma via crucis mesmo para os universitários contemplados pela generosa política de cotas do governo Lula.

“Eu chegava em casa à meia-noite”, lembra o hoje físico Flávio Eugênio Geraldeli, formado pela UERJ em 1992. O trajeto de ida e volta era feito num trem sempre atrasado, que roncava pela estrada de ferro quase tão alto quanto o estômago vazio. Não foram poucas as vezes em que esse morador da Posse pensou em desistir. “Enfrentei todo tipo de dificuldade”, conta. “Mas a maior delas foi a distância.”

Moradora de Austin, Marize Zanon não teve a mesma determinação de Flávio Geraldeli e desistiu do curso de administração da faculdade São Judas Tadeu, em Piedade, logo no primeiro período. Contemplada com uma bolsa do PROUNI, Mariza Zanon sonhou com uma vida colorida quando se viu livre da mensalidade de R$ 450. Mas o cotidiano das aulas apresentou uma série de outras contas para as quais não estava preparada. "Apenas com as passagens das três conduções diárias, que pegava sempre cheias, gastava R$ 114", contabiliza. Havia ainda o custo mensal com as apostilas, que sangrava seu orçamento em R$ 50. Muitas vezes assistiu aula com fome, pois não tinha dinheiro para lanchar.

“Estou esperando a chegada de uma universidade pública aqui”, diz Mariza, que abandonou os estudos depois das seguidas tentativas frustradas de se transferir para as faculdades particulares da Baixada. “Como era bolsista, não fui aceita em nenhum dos cursos em que tentei me inscrever.”

Na verdade, a frustração de Mariza Zanon poderá ser resolvida com a inauguração do Instituto Multidisciplinar, uma Unidade Acadêmica da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. A obra, numa
área de 44 mil metros quadrados nas proximidades do Aero Clube de Nova Iguaçu, deve ficar pronta no próximo mês de outubro. Funcionando desde 2006 no Colégio Monteiro Lobato, o Instituto Multidisplinar já oferece seis cursos no período noturno. "Vamos mudar Nova Iguaçu", garantiu o reitor Ricardo Motta Miranda, um engenheiro agrônomo cuja historia profissional praticamente se confunde com a da Rural, onde entrou aos 16 anos para cursar a Escola Agrícola.

A estudante Ariana Couto, de 18 anos, está fazendo um caminho inverso ao de Mariza Zanon. Depois de passar no curso de Turismo/Hotelaria na UFRRJ de Nova Iguaçu, ela resolveu enfrentar o desafio de realizar um sonho incutido pela professora Albertina, que lhe ensinava português no ensino médio. “Acho fascina
nte a nossa língua”, diz ela, que passou para Letras/Latim no último vestibular da UFRJ.

Ela sabe que não será fácil, mas resolveu se lançar a esse desafio com base nas informações obtidas no Pré-vestibular. “Decidi fazer uma faculdade púbica pelo fato de o ensino ser qualificado e o diploma reconhecido.” A rotina de Ariana é quase uma campanha militar, que começa às 4h40 h e só vai terminar às 6h40, pois o curso tem aulas de manhã e à tarde. Essa rotina, além de impedir que procure um emprego, demanda custos que ultrapassam os R$ 300 que recebe da bolsa auxílio. “Só com passagens eu gasto R$100 por semana”, diz Ariana. Todo esse esforço deve ser compensado na hora em que se formar e for à procura de um emprego.

“Um diploma da UFRJ faz toda a diferença”, afirma.

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