sexta-feira, 25 de abril de 2008

Desbravador do Cinema brasileiro marca presença no iguaCine

“O que eu espero já ocorreu, ou seja, esse Festival colocou Nova Iguaçu no universo cinematográfico”. Sérgio Sanz

Por Flávia Ferreira
Fotos - Wallace Dutra e imagens da internet


Ele está na pequena área desde 1958. Foi assistente de direção de Ruy Guerra, Saraceni, Fernando Coni Campos e Flávio Tambellini, o pai. João Sergio Barreto Leite Sanz já exerceu várias funções dentro da 7° arte. Foi assistente, montador, fotógrafo, diretor. Tudo isso exercendo também a função de educador, a qual poucos se aventuram a entrar.

A história e as tradições populares sempre estiveram na linha de mira de Sanz. No longa Soldado de Deus, ele fez uma revisão crítica do integralismo no Brasil e já em seu último longa, Devoção, retoma o tema de um curta seu de 1995: 'Antônio de Todos os Santos'. Este filme fala sobre os paralelos sincréticos entre Santo Antônio e Ogum. O documentário de Sanz teve sua primeira exibição ontem, 24 de Abril, no 1° Iguacine - Festival de Cinema de Nova Iguaçu.

A próxima investida deste desbravador do cinema será o documentário Tambores de São Luís, que será rodado no Maranhão. Aproveitando a presença de Sérgio Sanz no festival, conversamos um pouco sobre sua vida, sua carreira e sobre o festival. Confira abaixo como foi.

Você é viajado na carreira educacional, mas qual a importância de se ensinar arte atualmente?
Tanto o teatro quanto o cinema são formas de arte sensacionais. Eu chamo de cinema toda a imagem que tem movimento, porque se não tiver será fotografia.


No cinema, você consegue se expressar sem necessariamente estar ligado a uma indústria. Você pode pegar uma câmera e sair para fazer um filme com mais um amigo, que pode ser uma obra extraordinária, ou qualquer outra coisa que queira.

O aumento de TVs comunitárias faz com que o cinema, neste século, venha com mais força. Estas TVs ajudam a difundir a comunicação cinematográfica pelo país, e acho que com a vinda do digital, a democratização da informação vai chegar.

O que você trouxe dessa carreira como educador para sua carreira como cineasta?
Basta ver algum de meus filmes para perceber que no fundo, ou talvez no raso, tem muito de pesquisa, e isso é uma coisa originária do ensino, de estudar.

Em 2004, já após consideráveis anos no ensino, você gravou o documentário Soldados de Deus. E em 2005 decidiu se dedicar as gravações de longas e documentários. Como aconteceu esta transição?
Eu nunca parei de filmar em minha vida. Mesmo no exílio continuei filmando. Meu primeiro filme foi em 1963 e era extremamente jovem. Foi um documentário premiado na Alemanha.


Como surgiu a história do filme “Devoção”?
O brasileiro é este filme. Ele é devoto, tem fé e acredita. Então, a partir daí, resolvi fazer um filme sobre as pessoas que acreditam nisso.

Escolhi o Candomblé e a igreja católica porque são as religiões mães. Do candomblé saem várias coisas, inclusive a umbanda. E da Igreja católica retiram-se todas as outras religiões cristãs, como a Batista e a Protestante, que surgiu quando Lutero rompeu com a igreja católica. Elas são as duas religiões mães

A única religião que deixei de fora foi o judaísmo, que não tem grande influência no Brasil, comparada com a da cultura européia e da cultura negra.

Neste filme, você mostra Santo Antônio como um santo guerreiro. Porém, normalmente, ele é visto como um santo casamenteiro. Onde descobriu esse novo conceito de Santo Antônio, que pode ser visto como uma profanação para seus seguidores?
Santo Antônio é tudo como tento mostrar no filme. Ele não é guerreiro pelo fato de nunca ter guerreado. O fato é que ele foi extremamente culto, ele criou inúmeras bibliotecas, das quais surgiram os conventos.

E a história do sincretismo se dá porque cada lugar acha que o santo é uma coisa. No Rio de Janeiro, Oxóssi é Santo Antônio e São Jorge, e Ogum também é São Jorge e Santo Antônio. Já na Bahia e no Maranhão, só Ogum é Santo Antonio.

Existe, aqui no Brasil, uma mistura cultural muito grande. Eu escolhi Santo Antônio por ser o santo de maior devoção nos países de língua portuguesa. Existem algumas regiões do Brasil em que o convento de Santo Antônio recebe soldo, como se ainda fosse do exército, ou como se o Santo estivesse vivo. Uma vez li em uma matéria que existe uma cidade na Bahia que dá a Santo Antônio soldo de vereador. É uma coisa muito louca. Como um santo que morreu há quase 800 anos pode receber um soldo como se estivesse vivo? Isso sim é devoção.

A religião afro-brasileira sempre foi vista como um drible que os negros deram nos padres brancos, mas parece que seu filme quer mostrar que na verdade foram os padres brancos que ludibriaram os escravos, aproximando-os dos santos portugueses e afastando-os dos orixás dos seus ancestrais. É isso?
É verdade. Tanto que, em um dos takes do filme, é dito que os portugueses perguntavam aos negros: “Você quer ficar vivo ou ser católico?" Os que não queriam, eram mortos. Na realidade, eles foram convertidos à força, não por ficarem convencidos que a igreja católica era melhor que o candomblé. Os escravos não tinham direito a nada!

Como você vê as novas formas cinematográficas que surgem com a popularização da internet?
Isso é quase imprevisível. Mas acho que virá muita coisa nova por aí. Não pela internet, mas por conta das TVs digitais. A internet tem uma imagem muito pequena e a TV gera muito mais importância, pois chega mais fortemente na casa das pessoas.

Sobre a homenagem prestada a você na abertura oficial do festival. Como foi seu sentimento quando subiu no palco e recebeu o prêmio?
Fiquei, assim como foi visto, muito gratificado e muito emocionado com tudo que foi dito.

Com quais olhos enxerga a produção cinematográfica em e de Nova Iguaçu?
Com bons olhos. Espero que continue acontecendo, crescendo e que venha a mudar algumas coisas no cinema; que apresente coisas interessantes. Tenho muita confiança nas periferias. Baden Powell foi um dos maiores compositores brasileiros e não saiu do Leblon, e sim da periferia. Confio e acredito nas produções que podem sair daqui.

Você acha que a Escola Livre de Cinema pode viabilizar essas produções?
Acredito que é o caminho.

O que você espera que ocorra nesse festival?
O que eu espero já ocorreu, ou seja, esse Festival colocou Nova Iguaçu no universo cinematográfico. Tem gente de vários estados inscritos neste festival. Hoje, Nova Iguaçu, graças a esse festival, existe no mundo cinematográfico. Agora só falta vocês aprimorarem os estilos.

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