quinta-feira, 24 de abril de 2008

O quitandeiro que ama o cinema

Curador do Iguacine revela os critérios de seleção do festival

Por Aninha Paiva
Imagens - Daniella Vieira e Aline Maciel

Rodrigo Fernandes da Fonseca devia ter sido quitandeiro, como os pais portugueses, que o criaram no Morro do Adeus. Mas os golpes de Rocky, um lutador, tiveram o poder de mudar a sua trajetória. É por causa do filme que catapultou Silvester Stallone para a fama que ele hoje é o crítico de cinema do jornal O globo e um dos quatro curadores do Iguacine – os outros foram os jornalistas Marco Antônio Barbosa e Mariana Filgueiras e o antropólogo Emílio Domingos.
Nossos repórteres caíram de pára-quedas na redação de O globo, sentindo-se tão estranhos quanto ele no período em que freqüentou o curso de produção editorial da UFRJ, na Praia Vermelha. A diferença é que Rodrigo Fonseca é gente como a gente e, ao contrário dos mauricinhos com que conviveu nos tempos de faculdade, logo deixou a nossa equipe à vontade.

Qual a importância do Iguacine?
O Iguacine é um espaço de troca e de afirmação de um movimento que se estabeleceu em Nova Iguaçu para criar um espaço de produção e discussão do cinema. A idéia é que a gente aborde e integre o maior número possível de jovens realizadores e jovens estudantes de cinema para que construam uma produção e principalmente ampliem os limites da Escola Livre de Cinema, que tem sido um espaço de discussão teórica mas de produção prática também.

Qual o critério de seleção dos filmes?
Você percebe a qualidade de um filme quando ele consegue comunicar a sua proposta, quando você entende o que ele quer dizer. Se no fim do filme o cara consegue se manter fiel a isso, seja te surpreendendo, seja simplesmente executando a proposta até o fim, ele tem qualidade. A questão é fazer uma análise comparativa, passando uma peneira nos filmes que preencherem esses requisitos.


No Iguacine, a gente teve uma grande mistura dos critérios da curadoria. A idéia da curadoria era promover um equilíbrio entre os filmes que têm uma experimentação de linguagem, que proponha algo novo, e os filmes que conseguem manter uma comunicação com a platéia, seja pela chave do riso, seja pela chave do melodrama ou pelo suspense imediato.

Faria alguma diferença na sua vida se tivesse um festival desses lá em Bonsucesso?
Faria uma enorme diferença na minha vida se tivesse um festival desses onde eu nasci, onde não tem cinema há quase quarenta anos. Minha vida teria sido muito melhor, pois teria alugado ou comprado menos filmes. A minha mãe também não ficaria tão preocupada nas vezes que sumi para ir ao cinema.

Como é que o filho de um quitandeiro do Morro do Adeus se torna um dos principais críticos de cinema do Rio de Janeiro?
Eu me tornei um crítico de cinema porque deus existe, porque fiz macumba, sei lá mais o quê. A competitividade hoje, seja a área que for, é muito grande e muito árdua. Na minha época, as pessoas da Zona Sul, além de todas as facilidades de uma vida de classe média, tiveram mil cursos que minha geração não teve. Não era só uma questão de dinheiro. Não havia curso de fotografia em Bonsucesso. Hoje, vocês têm e devem aproveitar isso.
Meu professor de literatura da Penha dizia uma frase que jamais esqueci: “a cultura nunca vêm atrás de você.” A cultura é a forma de saber mais excludente que existe. Você tem que conquistá-la. Você tem que ir atrás dela. Ela não é como o esporte. Se Deus ajudar, se você tiver algum talento, você pode virar um Pelé se comprar uma bola dente de leite no armarinho. Cultura não é assim. Você tem que correr atrás. Tem que estudar. No caso do cinema, tem o processo de renovação contínua, onde hoje uma nova cinematografia é revelada quase que semanalmente.

Até que ponto a subjetividade de um suburbano influenciou no seu gosto cinematográfico?
O peso da nossa formação, do lugar de que a gente vem, sempre vai influenciar nas nossas escolhas. Mas isso vai ser inconsciente. Você só percebe depois, ao refletir sobre os filmes que viu, aquilo que você gostou. Quando vou ver um filme, eu não vou ver a fotografia tal. Eu me abro completamente. Se o cara consegue me prender e aquilo fica dentro de mim, o que eu vou avaliar é o que ficou dentro de mim. Aí eu vou chegar a um consenso.

Qual o legado do Iguacine?
O Iguacine é um espaço de troca onde os estudantes terão acesso a essa mescla de linguagens. A gente está tentando criar um cinema de linguagem num lugar em que o cinema ainda é um sonho.que está se tornando uma realidade. A idéia é a gente potencializar isso.

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