quinta-feira, 17 de abril de 2008

Cine Macalé invadirá Nova Iguaçu

“Para mim a maior música é o silêncio, pois ele contém todos os sons”.

Jards Macalé




Por Flávia Ferreira
Fotos - Felipe Rodrigo

Jards Anet da Silva, o Jards Macalé, nos recebeu em seu apartamento, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro, para bater um papo. Mas não pense que nossa conversa se limitou a música. Falamos de cinema, trilhas sonoras e, claro, do Cine Macalé, que fará parte do IguaCine.

Imortalizado em grandes sucessos cinematográficos, como O Demiurgo, Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres, Macalé mantém sua carreira como músico-compositor gravando, atualmente, seu novo álbum intitulado MACAO. Em meio a inúmeros livros, violas, fotos, seu novo álbum e a um recado na secretária eletrônica do jornalista Pedro Bial, Macalé abre as portas de seu apartamento para mim e Felipe. Confira o que rendeu essa entrevista.

O que é o Cine Macalé e como funciona?

É a junção de trechos da minha participação no cinema brasileiro. Projeto uma edição desses trechos. Entre um filme e outro, canto ao vivo as trilhas de minha autoria. Canto também músicas de outros autores e também de filmes e personagens que admiro, como os de meu grande amigo Grande Otello. Passo um trecho de Macunaíma e em homenagem a Otello canto músicas de Rio 40°, em que ele participa.

Você já tinha atuado alguma vez antes do filme O Demiurgo em 71? Como foi essa experiência?
Só me senti na tela mesmo quando fiz o Amuleto de Ogum, de Nelson Pereira dos Santos, onde faço o cego que conta a história do filme. Não me senti no cinema quando participei de O Demiurgo, que foi uma coisa rápida, que fiz quando estava chegando em Londres para fazer a direção musical e os arranjos do álbum Transa, de Caetano Velloso. Como Jorge Motta já estava filmando O Demiurgo, ele me jogou no meio da história.
Aliás, nunca vi este filme até hoje. Sempre cobro uma cópia do Jorge e ele diz que já tem e que vai me mandar, mas nunca traz. É meu amigo, é claro.

O Betânia bem de perto, um filme de Eduardo Escorel e Júlio Bressani, rodado em 1965 na minha casa em Ipanema. Hospedei Maria Betânia, que tinha acabado de chegar da Bahia, enquanto ela fazia a peça Opinião. Eles filmaram a trajetória de Betânia na casa e nos arredores durante o primeiro show solo dela, na boate Cangaceiros, em Copacabana. Além de ter sido o diretor musical deste show, toquei violão. E só me senti em um filme de cinema fazendo Amuleto de Ogum e depois a Tenda dos Milagres.

Você disse ter se sentido dentro do cinema quando interpretou o cego do violão em Amuleto de Ogum. Como foi essa experiência?
Como não sou ator e sim músico, quando Nelson me chamou eu incorporei o
personagem do que seria um cego violeiro. Violeiro eu já sou e cego é cego, eu deixei baixar o cego violeiro. Com a direção de Nelson foi fácil, pois ele praticamente induz enquanto dirige.

O que esse filme Amuleto de Ogum representou em sua carreira como músico-compositor?
Representou muito porque aprendi muita coisa com o filme e também fiz uma parte
do som direto e todos os ruídos começaram a fazer sentido como sons musicais. Aproveitei, por exemplo, o trem que liga toda a Baixada e coloquei na trilha do filme. Gravei o barulho do trilho e o trem propriamente dito, sua respiração, seu apito e seu pulmão. O maquinista imitou os sons da máquina e eu botei os ruídos no trem juntamente com o silêncio e a bateria e percussão de um grande músico chamado Edson Machado. Para mim tudo se tornou som. A trilha sonora virou o som cotidiano.

Você acompanhou parte do desenvolvimento da música do país e conseqüentemente das trilhas sonoras. O que mais nota de diferente na
relação música e cinema brasileiro. Ela tem uma relação mais intima com o cinema?
Antes se tratava mais de uma construção musical e hoje vejo que está mais para além das músicas e
sons, ruídos que fazem parte do universo sonoro do filme. Isso também depende muito de cada autor e de como ele sonoriza um filme.

Vi em seu site escrito assim: “Toda as coisas são música, o tempo inteiro”. O que isso significa?
Tudo é musica - ele mostra os sons das coisas na sala de sua casa, como ruído do flash da câmera fotográfica, o som do homem que estava consertando seu aparelho de som e o barulho do assento do sofá. Mas para mim a maior música é o silêncio, pois ele contém todos os sons.

Este ano você participará do IguaCine, o festival de cinema da cidade. De quem surgiu a proposta?
Fiz o Cine Odeon lá no Cachaça, e fui convidado a fazer o Cine Macalé, mas antes tinha passado pelo pequeno Cinematheque, em Botafogo. Então me convidaram para ir ao Odeon. Existiu, em conjunto com o lançamento do Cine Macalé, o lançamento do filme Tira os óculos e recolhe o homem, de André Sampaio. Acredito que este filme vai ser exibido no festival de
Nova Iguaçu.

Você já rodou um filme em Nova Iguaçu. Como foi essa experiência?
Esse filme foi rodado em Nova Iguaçu e em Duque de Caxias e como, mesmo eu tendo nascido na Tijuca, minha família morava e ainda mora em São João de Meriti, não foi estranho, afinal também é uma cidade do Rio de Janeiro.

O que você espera do IguaCine?
(Entusiasma-se) Sucesso total e absoluto.

O que o Cine Macalé mostrará em Nova Iguaçu?
O Cine Macalé.

Um comentário:

  1. Flavia, fiquei muito orgulhosa de ver a sua participacao no blog. O conteudo esta maravilhoso. Comecei a ler as materias e nao consegui parar. Voce eh uma otima reporter. Continue neste caminho e seremos colegas de profissao. Ate breve.

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