
por Flávia Ferreira
Uma das grandes novidades do Iguacine será a mostra Filme de um homem só. Essa mostra é o espaço por excelência para o cinema da era digital, cuja mídia principal é o YouTube.Um dos nomes mais badalados desta mostra é o cineasta Christian Caselli, cuja obra está disponibilizada no YouTube. Pelos menos dois dos seus filmes já ultrapassaram a marca de cem mil acessos. O paradoxo da espera no ônibus, contabiliza ele, já teve 265 mil hits.Também fez muito sucesso com “Cinco poemas concretos”, no qual usou a sinergia entre a poesia e as artes plásticas da geração de vanguarda que criou novos paradigmas para a arte brasileira, no fim da década de 1950. Este filme teve nada menos que 160 mil acessos.Como ele é uma das estrelas do universo virtual, mandamos as perguntas por e-mail. É óbvio que esteve cineasta ligado estava on-line.
Como funciona o cinema alternativo ou experimental?
Sei lá, a parada não é como uma máquina ou algo assim. Você tem que ter um mínimo de equipamentos disponíveis e ter o desprendimento de se libertar, talvez. Assim, cada caso é um caso. Uma pessoa muito presa a convenções ou que só pensa em ganhar dinheiro jamais vai conseguir fazer um filme assim; a não ser que ele seja um péssimo cineasta e o filme seja incompreensível (risos).
Cinema experimental não necessariamente quer dizer filme barato. Longas como Chapaqqua e A Montanha Sagrada são extremamente loucos e bem caros. Já definir alternativo no Brasil é estranho, pois basta não ter dinheiro de isenção fiscal que é meio caminho andado para ser isto, pelo menos em termos de meios de produção. Ou seja, somos a maioria. Mas o negócio é ser o menos careta possível, embora com autocrítica sempre. Ser "doidão" não é sinônimo de qualidade ou mesmo de "experimental", que até mesmo esse gênero tem seus estereótipos.

Maravilhoso! E, na verdade, O paradoxo da espera do ônibus já tem mais de 265 mil acessos! Sem dúvida, é uma luz no fim do túnel; você nota que a humanidade não é tão idiota quanto você pensa (quer dizer, é um pouco sim), no sentido que nem todos estão viciados num padrão global/hollywoodiano (que é a mesma merda) que nos impõem. E não é só um filme barato; é também um desenho desanimado que não acontece nada. E todos se identificam com a parada. Ou seja, nem tudo está perdido.
O Youtube pode ser uma forma de democratizar o acesso ao cinema e de criar novos cineastas?
Acho um grande barato, mas não podemos ficar deslumbrados com o que está acontecendo. Afinal, o Youtube é da Google, neguim multimilionário. Mas também não podemos demonizá-los. Na verdade, eles são frutos de um tipo de capitalismo tão novo que ninguém está tendo muito domínio do que vai acontecer; nem eles devem saber. Mas eles são frutos da era digital e do download; ou seja, pensam de outra forma. Quem sabe, eles realmente deram start numa nova coisa? Bom, o negócio é aproveitar isso a nosso favor, como eu fiz com O paradoxo. Sem dúvida, eu cresci muito profissionalmente depois da aceitação que ele teve. E sim, é um ótimo espaço de discussão para os novos cineastas, porque dá a cara a tapa e busca uma nova linguagem.
A blockbuster digital indica um novo ciclo de reviravoltas na produção e difusão cinematográfica?
Tomara, mas ainda não é algo bem resolvido no sentido comercial. A merda é que todos os artistas, por mais revolucionários e de esquerda que sejam, sempre esbarram na contradição do ter que sobreviver. Nisso, a difusão pela internet, por exemplo, é muito interessante para transmitir idéias, mas não garante que se viva disso e que, conseqüentemente, se crie constantemente.
Quanto ao que acontece comercialmente em salas de cinema, as pessoas ainda estão muito viciadas no longa "esquemão", com historinha e feito em película. Nesse sentido, a produção digital pode marcar uma diferença, mas acredito que seria necessário uma reformulação mais generalizada, tanto na forma e conteúdo dos filmes quanto na maneira de assisti-los. O curta pode ser uma boa opção, já que é mais dinâmico e tem mais a ver com estes tempos corridos. Estamos caminhando para isso, mas, como disse, tudo é muito novo ainda.

De certa forma, pois é meio utópico achar que isso está acontecendo de fato. É claro, tem o lado bom da massa agora estar fazendo filmes. Estamos com a faca e o queijo na mão, ou melhor, literalmente, com a câmera na mão e a idéia na cabeça. Mas ainda é muito forte a dominação de uma Globo na cabeça das pessoas (é só notar como uma porcaria como o BBB pode fazer tanto sucesso), assim como os filmes americanos.
Neste ponto, o cinemão sofre menos com o download se comparar com a música, pois ainda existe o ritual de se ir ao cinema, comprar pipoca, pegar mulherzinha, etc. O problema é que fazer filmes simplesmente não basta; temos que pensar numa maneira igualmente inédita em exibi-los. Talvez a TV digital nos dê melhor estas respostas.
O que, com a evolução do mundo, atingiu o cinema? Você acha que a simplicidade está sendo procurada?
Não, não diria isto... O assunto é complexo, pois desde George Lucas ao pessoal do Dogma 95 (e os realizadores que estão do Youtube) defendem o digital. Se por um lado todos querem "se ver mais", como é o caso de O Paradoxo (...), também querem ver os efeitos cada vez mais pirotécnicos do Homem-Aranha. Mas acho que existe um fluxo maior de informações no cotidiano e isto, por mais opressivo que seja, é interessante para se pensar em assuntos nunca antes pensados. Por exemplo, você não precisa mais explicar como é um navio para alguém que mora no interior, como eram os livros do século XIX. Nisto, as informações audiovisuais vão muito mais direto ao ponto. E cada vez mais se filma e se difunde o que se filma. Então o mundo ajuda o cinema e o cinema ajuda o mundo. Porém, é bom lembrar que a palavra "evolução" é sempre contestada. E atingir a simplicidade é algo complexo. Ou seja, é todo um paradoxo (risos).

Muita gente hoje em dia não conhece, mas o concretismo foi um movimento de vanguarda dos anos 50 que, grosso modo, unia a poesia com a arte gráfica. Devido a essa união, eu sempre notei um aspecto cinético na grande maioria deles. Então eu selecionei os cinco que lá estão - que são "Cinco" (de José Lino Grunewald, 1964), "Velocidade" (de Ronald Azeredo, 1957), "Cidade" (de Augusto de Campos, 1963), "Pêndulo" (de E.M. de Melo e Castro, 1961/62) e "O Organismo" (de Décio Pignatari, 1960) - e pus a mão na massa. É claro que teve todo um trabalho de adaptação e experimentação. Ao contrário do que me perguntam, fiz tudo no Adobe Premiere e não usei o After FX. Na verdade, não tenho muito saco para o After.
Você participará da mostra 'Filmes de um Homem Só', no IguaCine, com o "Cinco Poemas Concretos". O que espera desse festival em nova Iguaçu?
Há um tempo que acompanho o que está acontecendo em termos audiovisuais em Nova Iguaçu e tenho achado ótimo. Algo supersaudável e exemplar, eu diria, e que merece bastantes elogios. Isto é muito bacana, pois não só capacita pessoas que precisam ampliar seu leque para o mercado de trabalho (não gosto deste termo, mas é a velha questão da sobrevivência), como aumenta a auto-estima de um local pouco lembrado. Eu, aqui do Rio, ainda acho que a Baixada é estigmatizada como terra de ninguém, o que é bem lamentável e sei que não é assim. O festival me parece uma inevitável conseqüência. Parabéns!
Quanto à coisa da mostra "Filme de um homem só", acho muito bom e me identifico muito. Fiz a maioria dos meus filmes praticamente sozinho, mesmo sendo até criticado por isto!!!! (Falta do que fazer...) E acho que esse fazer-sozinho é a cara do que está acontecendo agora, com a era digital. E está muito mais para a democracia do que pra um individualismo, em que você diz o que bem entende e como bem entende. E sem explorar ninguém, pois eu nunca tenho dinheiro pra pagar as pessoas! A única coisa que eu lamento é que tenho dois filmes que são bem isso, mas que não pude inscrever pois, eles são de 2004: o AUTOMUSIC e o AUTOCONHECIMENTO, que estão na minha conta do Youtube)
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