
por Fernanda Bastos da Silva
É comum vermos senhores, adultos e até mesmo “jovens-adultos” reclamarem que as brincadeiras do “seu tempo” foram esquecidas e substituídas pelas “brincadeiras virtuais”. É fato que a modernização por que o mundo passou nos últimos anos não apenas acelerada, mas pautada no avanço dos computadores e máquinas eletrônicas em geral e da internet, em particular. Só para termos uma idéia, não faz 15 anos que os celulares se tornaram comuns no Brasil. Diante disso, buscando resgatar a memória cultural das gerações passadas (e não precisamos voltar muito no tempo), o Programa Bairro-Escola vai promover oficinas diversas com brincadeiras antigas do tempo da vovó, do papai e até mesmo do irmão mais velho.
Para Fernando Nascimento, 42 anos, a brincadeira chamada cama-de-gato é a que lhe traz mais nostalgia. Tratava-se de entrelaçar o barbante nas mãos, criando polígonos diversos entre os dedos. O clímax acontecia quando o barbante era passado para outra criança, que tinha que demonstrar a mesma habilidade e não deixar “desandar”. Essa brincadeira promovia, alem da citada habilidade na criança, o espírito de equipe, uma vez que era necessária cooperação para que tudo terminasse bem. E a brincadeira começava desde o momento de conseguir o “equipamento”: o barbante.
“Quando eu era criança ia à padaria e pedia ao padeiro que embrulhasse o pão com o papel e desse duas voltas com o barbante”, lembra Fernando Nascimento. “A desculpa era que seria para segurar o pão, mas, na verdade, o que eu queria era o maior pedaço de barbante possível para brincar de cama-de-gato. Apesar da brincadeira ser feita com duas pessoas, cada um tinha o seu barbante e eu também tinha o meu.”
Passa a carteira
A brincadeira preferida de dona Rachel Filadelfo, 52 anos, também é conhecida até hoje: o “telefone”. Nesse passatempo, pegam-se dois copos descartáveis e, fazendo um furinho no fundo de cada um deles, prende-se o barbante com um nó na parte interna do copo (através do furo) de modo que os copos fiquem presos pelo fundo separados pelo comprimento do barbante. E aí, não importa a distância, o barbante deve estar esticado para que duas crianças possam falar e ser ouvidas através da amplificação da vibração do barbante. “Hoje não há mais essas brincadeiras. Elas perderam o seu real valor ao passar dos anos”. Para ela, o aumento da violência entre as crianças está associado aos jogos virtuais, que tornam as crianças em individualistas: “Lembro que, quando criança, brincava de “passa anel”. Hoje, até mesmo os pequeninos “brincam” de “passa a carteira” e mais, ao invés de “pula corda” com a maior naturalidade brincam de “pular o muro” do vizinho, e sinceramente isso é muito triste”.
Silvia Regina Vicente, 33 anos, lembra-se muito bem do “vai-e-vem”. Com garrafas plásticas e barbante, duas crianças podiam se divertir facilmente. Bastava recortar duas garrafas e colá-las uma na outra de maneira que formassem um único cilindro furado no meio, por onde passavam dois pedaços de barbante de igual tamanho. Cada criança ficava em um lado e segurava cada ponta de barbante com uma das mãos. Em seguida, iniciava-se um balé cadente onde a abertura dos braços de uma criança deveria ser respondida com o fechamento da outra e assim a garrafa “ia” e “vinha” para perto de uma das pontas.
Em recordações mais recentes, Silvia ainda falou de uma brincadeira que costumava fazer com um de seus irmãos, sete anos mais novo, com o qual construíam trenzinhos que usavam barbante e latas de leite em pó. Nessa brincadeira, furavam-se as latas no meio entre a tampa e o fundo, e passava-se o barbante de modo que se tornasse um “eixo” e ao mesmo tempo, um “reboque”. Em seguida, a lata era enchida com areia. O resultado era um carrinho puxado com o barbante ruas afora. Trenzinhos eram feitos pela articulação de várias latas, também feita com o barbante. Os mais exibidos colocavam uma lata de “farinha Láctea” como locomotiva, por ser maior. E era uma exposição de carros e trens no bairro.
Eu também me diverti muito com esses joguinhos. Mas já gostava de ver o Jaspion e o , Giraia e Black Camen Raider (com efeitos especiais toscos mas com menos "magias" e invocação de demônios do que hoje (Madimbú, Senhor Satã, etc).
ResponderExcluirO barbante também era usado pra fazer laços pra pegar pombos pra vender na casa de animais. Tratava-se do seguine (crianças não façam isso em casa) pegar o barbante e fazer um laço grande e colocar milho no meio e ficar com a ponta de longe, quando o bichinho colocava os dois pés dentro do laço - flupt!! - agarrava-o pelas pernas e "soltava pipa com ele até ele cançar". Mas era só Pombos brancos - coitados - eram usados "sei lá" pra quê. Quando pegava um com pinta tratava de cortar as pintas com tesoura e enrolava o cara que comprava - Os pretos uma vez comí (nunca faria isso hoje pois pombos tem muitas doenças).
Mas o barbante também era usado pra cortar a linha de pipas com outro tipo de "cama-de-gato". Um pedaço de barbante com um metro mais ou menos, uma pedra de cada lado, juntando os dois lados e pronto, bastava jogar pra cima e ela se abria, trazendo a linha pra baixo que era cortada sem que desse pra o dono perceber.
O interessante era que se o "amigo" dono da linha descobrisse a gente "ficava de mal", no máximo com o famoso "corta aqui" e depois de meia hora "ficava de bem" e voltava a soltar pipas. Hoje, e isso não engraçado, se o cara não "ficar de" mas "for mau", ele cortaria meus dedos com uma navalha na melhor das hipóteses.
Mesmo sendo amante de vídeo-game, tendo "virado" o GTA Vice City e o Sandreas (o que não aconcelho a ninguem que não tenha estrutura emocional - e isso é cada mais difícil) aplaudo de pé essa iniciativa. As crianças estão com problemas de coração e tendinite com mais frequencia do que eu me ralava jogando bola ou me cortava soltando pipa (todos os dias) por isso é fundamental "resgatar a mémoria" como foi dito desses passatempos pois as crianças estão, além de tudo, muito consumistas e individualistas. Não vemos mais a criatividade aflorada dos garotos inventando pipas, carrinhos de lata de óleo e reinventando sonhos
Geoeducador
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Fernanda, a matéria está maravilhosa. Muito bem escrita e trouxe de volta o sentimento "barbantino". Me deu até vontade de chamar minha mãe pra brincar de "cama de gato", como nos velhos tempos.
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