quarta-feira, 30 de julho de 2008

Filhas do videogame

Sem muita opção, crianças têm que agir como adultos

Por Flávia Ferreira

Algumas crianças já conhecem o sentido da expressão "se virar sozinho". Por mais que a mãe deixe comida pronta ou pague alguém para tomar conta, essas miniaturas de adulto sentem o peso da responsabilidade quando tomam banho e fazem o dever de casa sozinhas. "Sinto falta de alguém do meu lado", diz Juliana Pereira Marques, uma estudante de apenas 12 anos.
Essa rotina, que se repete na vida dessa professora de matemática desde que tinha nove anos, está se tornando cansativa para Juliana. "Não agüento mais passar o dia todo jogando videogame", desabafa. "Sinto falta de alguém para conversar e brincar."

Juliana tem plena consciência de que essa é uma situação irreversível, pois, viúva há cerca de dez anos, é a mãe quem traz dinheiro para casa. "Mas gostaria de mandar ela ficar em casa", confessa. Como não tem esse poder, faz tudo o que está ao seu alcance para se ajustar. "Como minha mãe chega cansada, eu arrumo toda a casa na ausência dela."

Ninguém para perturbar

Por uma triste coincidência do destino, Ricardo da Silva Santos, hoje com 14 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo quando há cerca de três anos perdeu o pai para uma das guerras do tráfico. A partir deste episódio, a contabilidade fiscal e afetiva da casa sofreu um duro golpe. "Minha mãe teve que trabalhar ainda mais e eu fiquei ainda mais sozinho", queixa-se.

Ricardo sente falta da presença da mãe, que, além de passar o dia fora trabalhando como empregada doméstica, vai direto para cama quando volta para casa. Mas embora lamente não poder conversar um pouco mais com a mãe, Ricardo não reclama de passar o dia sozinho. "É uma maravilha não ter ninguém para me perturbar nem encher o meu saco", diz, rindo.

Parte do relaxamento de Ricardo se deve ao fato de não precisar fazer nada em casa. "Tem uma moça que faz comida para mim", diz ele. Ricardo usa a liberdade de que desfruta para passar dias inteiros diante da televisão, jogando Playstation 2. "Quando jogo Playstation 2 nem vejo a hora passar", revela. "Amo jogar nele."

Direto para a cama

Com os mesmos 14 anos, o estudante Carlos Sampaio dos Santos também conta com a ajuda de uma pessoa que cozinha para ele quando a mãe sai para trabalhar. Carlos não tem o mesmo espírito esportivo que o de Ricardo diante da ausência da mãe. "É muito chato ficar sem minha mãe ao meu lado, porque me sinto sozinho", diz ele.

Ele não sabe o que é pior: se a ausência real da mãe ou se ela, mesmo estando presente, não está disponível para ele. "Ela chega muito cansada e vai direto para a cama." Segundo ele, só nos fins de semana conseguem ser uma família de verdade, pois são os únicos dias que estão juntos e que ela brinca com ele. Carlos, que também é órfão de pai, tenta suprir a solidão brincando com os amigos na rua.

Além de não desfrutar da companhia dos pais, Fernanda Soares não tem liberdade para ir brincar na rua. "Meus pais não gostam", diz ela. Além de cuidar da casa, cabe a Fernanda a responsabilidade de olhar seu irmão mais novo. "Minha mãe fala que sou grandinha e que posso fazer isso", diz ela. Ela às vezes se sente entediada com as horas que passa diante da TV, mas não reclama da vida. "É difícil ter seus pais longe de você, mas a gente se acostuma."

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