terça-feira, 15 de julho de 2008

E o pensamento lá em você

Mães que trabalham fora passam o dia pensando nos filhos

Por Flávia Ferreira
Fotos: Felipe Rodrigo
Há um grande número de mães que precisam trabalhar fora de Nova Iguaçu. Sendo assim, elas acabam deixando seus filhos, ainda novos, nas mãos de outras pessoas. Além de enfrentar duras jornadas de trabalho longe de casa, elas têm que administrar a culpa de não conseguirem criar seus filhos da forma que consideram ideal.

"Mesmo minha filha não confirmando, sei que ela perdeu a infância por conta das responsabilidades que lhe dei", diz Rita de Cássia Campo, uma empregada doméstica de 37 anos que sai antes do amanhecer de Rodilândia para ganhar o pão de cada dia na Tijuca. Paloma é a filha do meio de Rita e, embora tenha apenas 14 anos, tem responsabilidades dignas de uma dona de casa adulta: paga as contas, limpa a casa e olha a irmã menor, entre outras coisas.

Daquele jeito

Rita passou essas missões desde que Felipe, o filho mais velho, hoje com 16 anos, foi passar uma temporada com o pai. "A criação de meus filhos foi feita por eles mesmos",desabafa Rita. Ela se sente culpada por sua ausência, mas era pior na época em que tinha que pagar uma pessoa para cuidar deles. "Nem todo mundo cuida direito e às vezes maltrata", diz ela. Foi por isso que, quando Felipe completou 10 anos, delegou a ele a responsabilidade de vigiar as irmãs. "Eu deixava comida pronta, ele esquentava e arrumava a casa daquele jeito..."

A chegada da adolescência só fez aumentar a preocupação da mãe. "A gente não sabe se vão para a escola de verdade, ou se vão para outro lugar", cogita. Ela também morre de medo de que uma de suas filhas engrosse as estatísticas de gravidez precoce do Rio de Janeiro. “Sempre converso sobre isso com elas”, diz. Mas não é só com as meninas que Rita se preocupa. “Não prego o olho enquanto o Felipe não chega da noitada.”

Constrangimento

Mas Rita reconhece pelo menos um lado positivo de suas longas ausências de casa. “Isso ajudou eles a crescerem mais rápido”, contabiliza. Ela só fica constrangida quando é convocada para as reuniões de colégio. “Não posso ir”, lamenta. Ela também não se sente nada confortável quando chega em casa e vê os filhos machucados por causa de alguma queda ou acidente. “Sei que mais tarde ouvirei reclamações de todos eles.”

Ela sabe como é difícil ser mãe sozinha, mas se sente num mato sem cachorro. “Não posso contar com o pai dos meus filhos para nada”, lamenta ela, que não recebe pensão do ex-marido. Apesar do cansaço, ela levanta as mãos para o céu sempre que pensa nos seus filhos criados. "Agradeço a Deus por ter conseguido, mas ainda falta muito.” Ela só vai se dar por satisfeita no dia em que os vir formados. “Vou conseguir".

Despedida angustiante

Cláudia Cristina Nobre entende perfeitamente o drama vivido por Rita de Cássia. É verdade que ela não mora tão longe do trabalho, mas desde 2006, com a chegada de seu filho Marcelo, suas viagens do Centro de Nova Iguaçu até Mesquita ganharam a companhia da angústia. "Não tive filho para deixar que outras pessoas criassem", desabafa Cláudia.

Inicialmente, seu Marcelinho ficava com uma babá, mas não diminuíram as preocupações da mãe quando ela passou a deixar o filho com a sogra. "Por minha sogra ter 72 anos, sempre que chego acho que ele está sujo, que não comeu", confessa. Cláudia Nobre, que trabalha desde os 16 anos, sabe que um dia terá conversas tão amargas como a que eventualmente Cristiane Dias Cesário, 31 anos, tem com seu filho de 14 anos. “Meu filho reclama que não faço o dever de casa com ele e que não tenho tempo só para ele”, diz essa moradora da Vila Nova, que há dois anos vai defender sua sobrivência no Hospital Pasteur, no Méier. A explicadora contratada por Cristiane só resolve parte do problema.

Cláudia e Cristiane gostariam de ter a sorte da empregada doméstica Verlúcia Pereira do Nascimento, que hoje pode contar com o marido para suprir suas longas ausências de casa. “Ele, que trabalha perto de casa, almoça com meus três filhos e controla a ida deles para a escola”, conta essa moradora do Carmary, que trabalha no Leblon há três anos. Mas há uma hora do dia em que mesmo a sortuda Verlúcia tem que improvisar. “Depois da saída do meu marido, quem toma conta de tudo é o meu filho maior.”

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