sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Teu nome é globalização

Nomes de origem estrangeira são cada vez mais comuns nos cartórios iguaçuanos
por Flávia Sá

A influência da cultura estrangeira tem sido enorme. Penetra em nossos costumes pela música, pela moda, pelo noticiário e principalmente pela enxurrada de nomes próprios fazendo a vontade de pais e padrinhos quando batizam seus filhos. A tradição vem desde nossos avós e nos acompanha até hoje.

Anglicismos e galicismos são incorporados ao nosso dia-a-dia. As expressões fast food, web designer, internet, dead line, e os nomes próprios Wesley, Fabian, Ed, Charles, Wilson e Washington hoje fazem parte do nosso cotidiano, incorporados à nossa cultura, substituindo José, Sebastião, Marcos, Carlos e outros nomes genuinamente nacionais.

Globalização ou modismo, o fato é que, apesar dos protestos daqueles que defendem uma cultura genuinamente nacional, a influência “alienígena” está cada vez maior.

O jovem Wesley, 18 anos, cursa a Universidade Rural em Seropédica e gosta de seu nome. “Minha mãe foi quem escolheu, achou o nome bonito e resolveu colocá-lo em mim."

Elogios
Wesley vive sozinho com a mãe, Glória Nunes, que trabalha como secretária da empresa da família. Wesley não tem nada contra os nomes brasileiros, mas acha-os muito comuns. “Não acho que nenhum nome seja feio", diz o universitário. “O importante é ter um nome, seja ele qual for." Wesley está muito satisfeito com o próprio nome, que lhe dá certa distinção nos lugares que vai. “As pessoas elogiam", garante ele. Mas ter um nome bonito não influi na construção do futuro a que se entrega no momento, que passa pela formatura e por um casamento.

Alguns nomes que não são de origem inglesa ou norte-americana, mas carregam com ele uma participação histórica muito importante. São os nomes derivados da Grécia Antiga, como é o caso do filósofo Tales de Mileto. O estudante Thales Rafael Sant' Ana, 19 anos tem orgulho de ter sido batizado em homenagem a um pensador tão importante para a história da humanidade. Mas o "h" entre o "t" e o "a" denuncia o vício tão encontrado entre as famílias de origem popular.

A escolha foi feita pelo pai, o funcionário público José Carlos Sant'Ana, de 51 anos. "Ele achou o nome muito sugestivo", conta Thales. Hoje o jovem se orgulha do nome que carrega, mas não foi sempre assim. "Tive que pesquisar na internet para saber quem foi o filósofo de Mileto", conta ele. Gostou tanto do nome que resolveu colocá-lo no filho recém-nascido. “Gostei tanto do nome, que resolvi batizar meu filho homenageando o filósofo de Mileto, e também em minha homenagem.”

Duplo sentido
Mas os franceses também têm vez nos nossos cartórios em tempos de globalização. É o caso de Fabian, escolhido pela sua mãe, a doméstica Lucimar Silveira depois que ela percebeu as brincadeiras de duplo sentido que poderiam infernizar a infância do filho caso o registrasse como Thomas, sua primeira escolha.

"Thomas, tomas onde?", pensava dona Lucimar enquanto folheava revistas à procura de uma alternativa. Deparou então com Fabian, boxeador como o Thomas em que se inspirara anteriormente. "Minha mãe achou o rapaz bonito e o nome também", lembra Fabian.

Fabian atribui algumas conquistas amorosas ao nome escolhido pela mãe. “As pessoas acham meu nome não só bonito, mas também diferente”, orgulha-se. A originalidade do nome, que ele só encontrou igual em pesquisas na internet, é uma garantia de que as pessoas, "principalmente as gatas", jamais o esqueçam. “Por onde passo, eu sei que sou lembrado”, diz ele, com um largo sorriso.

Apesar disso, Fabian pretende registrar seus filhos com nomes brasileiros, que acha importantes exatamente por serem populares e comuns. "Meu filho vai se chamar Bruno Otávio", afirma ele. Fabian não gosta do nome da mãe, por considerá-lo "sem graça, sem sal". Mas restrição mesmo ele só faz a nomes como Astrogildo e Hildebrando. "São horrendos, e de muito mal gosto. Quando tiver um filho jamais colocaria esses nomes, tenho horror.”

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