sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Caminho de pedras


Jovens da Baixada contam sua luta para chegar à universidade
por Carolina Alcântara

As dificuldades são muitas. A baixa qualidade da escola pública em que fizeram seus estudos, a necessidade de trabalhar e os próprios apelos da juventude. Mas é cada vez maior o número de jovens da Baixada Fluminense dispostos a procurar forças onde não têm, vencendo um dos principais gargalos para a ascensão social. Entrar em uma faculdade pública.

Atualmente no quarto período de pedagocia, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro(UERJ), Rafael de Souza é um exemplo de persistência. Tinha plena consciência de que qualquer plano para o futuro seria dificultado devido à longa passagem pela escola pública, que para ele deixa muito a desejar. Por isso, matriculou-se em um pré-vestibular. “Para ver se compensava”, afirma.

Rafael só conseguia enxergar um futuro melhor para si e para os seus depois de ingressar em alguma carreira militar, cuja porta de entrada seria um concurso público. O fracasso na prova de matemática, depois de sete meses de preparação, o deixou desesperado. Como se estivesse entrando em contato com a própria morte, ele repassou o ano em que frequentou o pré-vestibular. “Pensei em desistir de tudo”, admite.

As razões de Rafael eram para lá de razoáveis. “Não era fácil trabalhar de segunda a sábado, e às vezes também no domingo”, lembra o estudante. Além dessas semanas coreanas, seus dias começavam às quatro da manhã e se estendiam até o início da madrugada. Foram várias as noites em que dormiu em cima dos livros e das apostilas. “Não me restava tempo para descansar.”

Novo fracasso
Não foi apenas na prova de matemática do concurso militar que Rafael errou os seus cálculos. Nesse meio-tempo, ele havia se inscrito para o vestibular da UERJ, que quase não enfrentou por causa da certeza de que fracassaria mais uma vez. “Se não passei nas provas militares, o que eu iria fazer no vestibular?”, perguntava-se. A esperança da mãe foi fundamental para que perseverasse.

Foi só depois de protagonizar uma nova epopeia que Rafael começou a se ver como um futuro doutor: primeiro teve que pedir dispensa ao chefe para fazer as provas e, depois de aprovado, por pouco não perdeu a vaga conquistada porque a matrícula coincidiu com o período carnavalesco. “Achei que não tinha passado e caí na folia”, lembra ele. Foi só com muito jeitinho que sua mãe conseguiu vencer a burocracia da UERJ. “Ela conversou com uma das responsáveis pelo setor de matrícula”, explica.

Teoricamente, a trajetória de Djalma Souza Cabral foi mais fácil do que a de Rafael. “Pude fazer bons cursinhos, como o Equipe Grau e o EME”, admite esse morador de Queimados. Na verdade, seu problema era vencer a preguiça e a cerrada marcação dos pais, que não conseguiam imaginar nenhum futuro para ele que não passasse por um curso superior em uma universidade pública. “Só mudei depois de muita cobrança”, revela esse morador de Mesquita.

O resultado pela diminuição das horas de sono, e o subsequente mergulho no programa apresentado pela comissão organizadora do vestibular, só fez confirmar o acerto dos pais em tirá-lo da cama. “Passei em dois vestibulares”, comemora. “No de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e no de engenharia agrícola da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).”

Outra coisa
Também foi repleto de percalços o caminho trilhado por Marina Rosa, uma moradora de Belford Roxo de 18 anos, até conseguir uma das vagas de engenharia de produção do CEFET. Como Rafael, ela teve que recorrer a um pré-vestibular comunitário para compensar as limitações da escola pública, detectadas nas baixas notas obtidas no ENEN de 2007. Como Djalma, a pressão dos seus pais só arrefeceu quando conquistou uma das vagas de engenharia de produção do CEFET.

Marina está feliz por ter entrado em uma universidade pública, mas tem claro que a principal conquista foi ter se livrado da pressão dos pais. “Na verdade, eu quero outra coisa para minha vida”, diz ela, que teve que se virar nos trinta para conciliar a preparação para o vestibular com os cursos de cinema e comunicação por que realmente se interessa. “Mas meu pais acham que não conseguirei nada legal nesse meio”, lamenta.

Esses três universitários se orgulham de suas conquistas. Mas sabem que ainda têm um longo caminho pela frente. “Passagens, milhares de xérox, estudar longe de casa, são muitas as barreiras que tentam nos fazer desistir”, admite Rafael de Souza. Já Djalma se diz preparado para dormir menos nos próximos anos. “Só vou abusar no fim de semana, mas no sábado e no domingo eu dormirei o dia todo.” Por sua vez, Marina vai continuar atenta às oportunidades. “Vou pegar tudo que vier pela frente”, garante.

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