quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Pontinho de Angola


Com atuação em 30 países e em todos os estados do Brasil, Abadá Capoeira atenderá 300 adolescentes da Luiz de Lemos
texto e fotos Josy Antunes

Há quase seis anos, o bairro da Posse abriga uma das filiais da Associação Abadá Capoeira, atualmente com representantes em 30 países e em todos os estados do Brasil. Tendo como carro chefe o ensino da capoeira, o espaço mantém um projeto social que atende cerca de 150 crianças da localidade, de forma abrangente.

A proposta é atender também as famílias, detectando possíveis problemas de convivência, na maioria das vezes omitidos. O trabalho feito é voltado para a prevenção, socializando e oferecendo atividades que possam contribuir para a formação do caráter dos alunos. “É melhor e mais barato você fazer um trabalho pra prevenir, do que depois tentar reverter o quadro”, explica Sérgio Souza de Oliveira, o Mestre Nagô. Além de capoeira, a associação Abadá participa de campanhas de doações de agasalhos, desarmamento, prevenção da dengue e arrecadação de alimentos, bem como de plantio de árvores e doação de sangue.

A Associação foi fundada em 1989, em Botafogo.O Mestre Camisa – mestre de Nagô – pensou em utilizar a capoeira como recurso pedagógico, artístico e cultural para valorizar a contribuição social que pode ser oferecida através dela. Devido a seus conceitos inovadores, o trabalho do Abadá passou a ser observado por diversas pessoas – inclusive estrangeiros – que foram se filiando.


Identidades escondidas
O nome Abadá deriva da vestimenta usada na prática do esporte. Já os curiosos nomes que são concedidos aos capoeiristas têm suas origens durante as aulas, na maior parte dos casos quando ainda são iniciantes. No espaço da Posse, encontram-se alunas chamadas por Camomila e Índia, por exemplo. “A gente olha o aluno e vê com o que ele se assemelha. Cada um tem um apelido”, justifica Mestre Nagô. Eles se concretizam no dia do batizado da capoeira. Essa prática é uma tradição que remonta à época em que a capoeira era perseguida. “Pra esconderem suas identidades, os capoeiristas usavam apelidos”, esclarece.

Recentemente, a capoeira foi reconhecida como Patrimônio do Brasil, o que foi um grande avanço. “Mas ainda é muito pouco pelo que ela representa e pelo potencial que tem”, lamenta Mestre Nagô. Ele explica que, no exterior, a valorização é bem maior, onde, ao contrário das escolas brasileiras, a a capoeira foi incluída no currículo. “Tem sido um trabalho maravilhoso lá fora. Pode ser maravilhoso aqui também!”, acredita.

Nagô explica que a capoeira é o resultado de uma necessidade que os escravos tiveram em criar uma luta, como forma de defesa, auxiliando na fuga de perseguições. Segundo ele, Nova Iguaçu tem um incrível potencial histórico, que no entanto é mais conhecido e valorizado pelos turistas do que pelos próprios moradores. É aqui que os historiadores têm baseado algumas de suas pesquisas sobre os quilombos, que marcam um passado desconhecido da cidade. A Pedra da Contenda - que era usada como mirante dos escravos - é um exemplo dessa riqueza. “Falta o poder público olhar com mais carinho para Nova Iguaçu e a Baixada.”


Difusão da língua
Além de difundir nossa história, a capoeira está para o português como o rock e o cinema estão para a língua inglesa. Tudo é ensinado na nossa língua, até as músicas. A partir da terceira graduação, os alunos estrangeiros já estão falando o idioma. “O pessoal vem aqui e fala normalmente”, conta Mestre Nagô, lembrando o caso do israelita que, em visita a Nova Iguaçu, após horas falando um português perfeito, assustou a muitos - que acreditavam na sua origem brasileira.

Sempre em agosto - época de férias no exterior – acontece, em Nova Iguaçu, o Encontro Internacional de Capoeira, quando comparecem aqui representantes de mais de 15 países. O evento contribui não só para o turismo local, mas também para que haja o intercâmbio entre os alunos locais com os estrangeiros.

Diretores de cursos de inglês em Nova Iguaçu, após comprovarem a importância do trabalho , concederam aos alunos 15 bolsas de estudo. Quando a visita dos estrangeiros acontece, as crianças podem recebê-los, tendo a oportunidade de praticar o novo idioma. “A proposta é fazer da criança um multiplicador. Isso é importante, trabalhar a auto estima, dar uma perspectiva”, declara Mestre Nagô.

Como um dos fundadores e defensor dos ideais do Abadá Capoeira, Nagô presencia as mudanças comportamentais dos alunos do espaço. Nas reuniões feitas com os pais, são muitos os depoimentos seguidos de agradecimentos, pelo avanço dos filhos tanto dentro de casa quanto nas escolas. “Eu falo para as crianças que a prioridade é a escola e a obediência aos pais. Depois é que vem a dedicação à capoeira”, assegura ele. Com o auxílio de assistentes sociais e pedagogos voluntários, os pais participam de dinâmicas de grupo e têm um espaço garantido para suas opiniões. “Eles ficam fascinados! E a proposta é colocar a família aqui reunida, pra que possamos orientar juntos e acompanhar o desenvolvimento dos filhos” - afirma Mestre Nagô - “Eu sempre digo a eles: ‘olha, tem que se aproximar do seu filho, se não alguém vai adotar. E se adotar não vai tratar com amor, mas com um interesse que muitas vezes gera consequências’”, alerta.

Preconceito religioso
A capoeira ainda enfrenta preconceitos devido à associação que se faz ao candomblé. Atualmente, no Abadá Capoeira, existe até o cuidado referente às letras das músicas: “Os alunos podem compor, contanto que não envolva essa questão de religião”, explica Nagô. “Tem o problema do pastor proibir, porque ouve as músicas tocadas com o atabaque, berimbau e o pandeiro e liga a outras religiões”, declara ele, que procura orientar os alunos. “Uma coisa não tem nada a ver com a outra, então tem que orientar”, afirma o mestre, que já tem o trabalho com o esporte implantado dentro de algumas igrejas.

O projeto social do espaço foi recentemente contemplado com um Ponto de Cultura - o Pontinho. “Agora estamos aguardando pra ver se sai do papel e vem pra prática”, diz Mestre Nagô, que acredita no auxilio que essa parceria vai trazer. “A maioria das pessoas que trabalham comigo são alunos meus que fazem um trabalho voluntário. Então vai ser bom porque eles vão ter um recurso. Os monitores e os oficineiros vão ter um retorno, vão poder ter a iniciativa como um trabalho”, justifica. No espaço cultural, os alunos do projeto são atendidos na parte da manhã e da tarde. Já pela noite, são os alunos das turmas do mestre que têm seu treinamento no local. São esses, já mais avançados no aprendizado da capoeira, que foram citados como auxiliares das crianças.

O projeto do Pontinho vai atender 300 crianças, vindas da Escola Municipal Luiz de Lemos. Além das aulas práticas e teóricas de capoeira, haverá um trabalho com o maculelê e o jongo, que são danças folclóricas. “O projeto vem para dar uma força, porque no trabalho social que eu já tenho aqui não recebo o apoio de ninguém”, explica Nagô, que também tem uma parceria com o Sesc de Nova Iguaçu, palco de frequentes eventos do Abadá Capoeira.

Benefícios pessoais
Além da valorização da nossa cultura e história, a capoeira traz inúmeros benefícios pessoais. Ela é a única atividade que movimenta todos os músculos do corpo, desenvolvendo a coordenação motora. Estimula a concentração, flexibilidade e percepção. “Você fica muito mais atento ao sair na rua”, afirma Mestre Nagô. Também há a contribuição que o esporte traz a pessoas tímidas ou hiperativas.

Engana-se quem pensa que, para praticar capoeira, é preciso ter o dom ou ter o corpo atlético. “Muitas vezes, a pessoa cria uma barreira, achando que não tem capacidade. Mas, depois que começa a fazer a ginga, tudo fica muito simples”, explica. No primeiro dia de aula, o aluno já começa a gingar, com 15 dias já faz os movimentos básicos da capoeira.

Hoje existe uma metodologia de acompanhamento de iniciantes e Nagô garante que todos aprendem. Até quem chega sem domínio sobre o corpo. O Abadá tem também um trabalho com portadores de deficiências físicas, dentro do qual se encontram até cadeirantes. “E as pessoas ditas perfeitas pela sociedade ainda têm medo”, diz o mestre, que também atende idosos.
“Nós temos que ter perseverança. Se você gosta, tem que vir fazer, sem receios”, convida Mestre Nagô.

O Espaço Cultural Abadá Capoeira em Nova Iguaçu, fica na Rua Simão Soichet, 774, Posse.

2 comentários:

  1. É muito bom ver um trabalho assim sendo realizado, ultrapassando essas barreiras de preconceito e deficiências físicas.

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  2. Poxa Que legal! Esporte, história,valorização pessoal e reestruturação familiar em um só lugar. Sem falar praticamente no curso de idioma para os gringos, valorizando nossa língua.Que dependendo da capacidade do individuo pode ser aprendido em um dia. haha

    Gosto muito da tradição dos apelidos. Eu tenho um colega, que recebeu o apelido de "Tangerina" por causa da cabeça grande. Eita!

    Uma frase marcante do mestre na matéria:
    -Olha, tem que se aproximar do seu filho, se não alguém vai adotar. E se adotar não vai tratar com amor, mas com um interesse que muitas vezes gera consequências.

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