quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Proibido para menores de 40 anos

Foliões lembram como era o carnaval em sua juventude
por Suelen Cunha, Luana Faria e Larissa Leotério

Aos 56 anos, Dona Elisabeth Gomes diz que em sua juventude participou inúmeras vezes das folias carnavalescas pelos bairros e comunidades próximos a sua casa, onde a prefeitura ou os próprios moradores montavam palanques em lugares adequados, próximos aos Centros Comerciais, atraindo centenas de pessoas querendo se divertir. Nessas festas, vários blocos surgiam, dentre eles, vários “Blocos das piranhas”, que eram de homens vestidos de mulher. Eles faziam a maior graça. Próximos aos palanques, surgiam muitas barraquinhas de vendas variadas e o pessoal adorava sambar, dizendo no pé o seu contentamento. Hoje, Dona Elisabeth não participa mais, devido à escolha religiosa, mas diz que era assim o carnaval de Austin.

Já Diogo Cunha, 25 anos, diz que até aos 7 anos seus pais costumavam levá-lo para o carnaval do bairro em que mora. Havia a Escola de Samba, ainda no fundo de um quintal, a Tupi, onde o samba, de primeira, lotava as ruas, com muita “azaração” e fantasias engraçadas, feitas de última hora, ao gosto de cada um.

Ricardo Sampaio, 42 anos, conta que o carnaval de antigamente era mais animado. Os moradores ficavam na cidade ou nos bairros, para brincar. Hoje eles procuram praias, cidades pequenas ou retiros. Antes, o carnaval de rua era forte, comparando-se à festa de Santo Antônio, em números atuais. Os blocos eram mais cheios e mais numerosos. Todos se encontravam, vindos de vários bairros, firmando laços de amizade, o que, talvez, passou a rarear, devido à diversidade evangélica.

“Mas gosto de carnaval!”, diz. “Frequento a rua em todos os dias de folia, acompanhando os blocos. Saudade do antigo carnaval. Quem é que não tem? Tenho a impressão que está voltando a ser popular outra vez! Carnaval bem povo. Aquele momento em que as pessoas se encontram, pois é um lazer bom pra todo o mundo, onde só se paga o que se consome”.

Ricardo ainda lembra de quando se fantasiava. A última fantasia foi aos 10 anos. Mostra uma foto fantasiado de Falcão Negro. Depois, até aos 25 anos, o carnaval passou a ser, para ele, uma forma de ganhar dinheiro. “Hoje a minha diversão é assistir os blocos: Bola Preta, Bafo da Onça e Cacique de Ramos, pois o carnaval é nossa identidade cultural. Nesses dias todos são iguais, não importa o dinheiro. O espírito carnavalesco é o que vale. O lado negativo ainda é a “mídia televisiva”, onde a beleza vira uma indústria. O que mais acho graça são os grupos de homens vestidos de mulher. Me lembra o filme “Priscila, a rainha do deserto”. Isso virou uma “marca registrada” em Nova Iguaçu."

Dona Marilene Barbosa Mixo conta que o carnaval não é mais o mesmo e mostra as fotos das pessoas de Nova Iguaçu em “uma época dourada” do carnaval de rua. Ela também participou do carnaval nos clubes Esporte Clube Iguaçu, Iguaçu Basquete Clube, Nova Iguaçu Country Clube, entre outros. “Os sócios ficavam nos clubes e nas ruas havia coretos", diz. “A prefeitura montava coretos para os foliões e assim começava a guerra de confete, serpentina e o (ainda inocente) lança-perfume. Além disso tinham os concursos de fantasias, com premiações simples. Para as crianças, eram balas e doces. As fantasias vencedoras dos clubes iam se apresentar em outros lugares. As pessoas iam e vinham a pé, pois os moradores botavam as cadeiras em frente das casas para acompanharem e comentarem.”

Dona Marilene diz que o carnaval de rua era tranqüilo, tanto para os adultos, que brincavam de 11 da noite até às quatro da manhã, quanto para as crianças, que brincavam das quatro da tarde até às 7 da noite. Mesmo quando acontecia de as crianças e os adultos se encontrarem, entre um ou outro horário, nunca havia problema. Às vezes, a diversão era ainda maior, pois as crianças se divertiam com os adultos, principalmente no “Bloco das Piranhas”, como esse que existe até hoje no bairro Jardim Alvorada. Dona Marilene busca, saudosa, imagens da sua infância, relembrando sua mãe, no afã, costurando e bordando inúmeras fantasias. Muitas delas saíram vencedoras de concursos. “Por volta de meus 19 anos é que o carnaval começou a se transformar na cidade, ficando, às vezes, perigoso. Muitas famílias decidiram não mais passar os quatro dias brincando nas ruas iguaçuanas. As pessoas não têm o mesmo respeito. Algumas turmas de Clóvis causam medo! Antes eram muitos Blocos de Sujo, animados. Sem assaltos, bebedeiras ou “fumados”, como hoje existem em alguns lugares. Mas nos últimos quatro ou cinco anos, o carnaval parece estar voltando às ruas de Nova Iguaçu.”

O historiador, compositor e antigo folião Ney Alberto conta que sempre foi uma tradição na cidadeos Blocos de Sujo (antes chamados de Blocos do Fedor), o Bloco dos Chifrudos, os Foliões de Iguaçu e, mais tarde, os blocos: Bafo da Cobra, Pulo do Gato e Filhos de Iguaçu. O professor Ney conta que os blocos visitavam as residências que lhes abriam as portas e também os clubes. Que as marchinhas, os coretos, os blocos improvisados e, também, as fantasias improvisadas, sempre contagiaram mais a alegria dos bairros.

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