sexta-feira, 6 de junho de 2008

Perdas e ganhos

"É uma perda irreparável, mas que pode se transformar em luta". Luciane Silva

Por Flávia Ferreira
F
otos- Evanyr de Paula

Esta edição do programa Laranja da Terra tratará do Graal, um dos programas da Semuvv (Secretaria Municipal de Valorização da Vida e Prevçaõ da Violência) na prevenção à violência. E em uma de nossas gravações encontramos Luciane Silva, 43 anos, um símbolo de perseverança e fé. Aparentemente, ela é apenas mais uma mulher de Nova Iguaçu. Mas se voltarmos um pouco no tempo, mais precisamente até o dia 31 de Março de 2005, vamos descobrir por que ela é tão especial. Luciene foi uma das mães que perdeu o filho na chacina da Baixada, mas, mesmo com toda a tristeza, ela não desistiu da vida. O sentimento de dor virou um combustível para suas realizações e militâncias, num misto de sofrimento com vontade de viver e lutar.

Confira abaixo a emocionante entrevista que esta guerreira nos concedeu.

Como é o dia-a-dia de uma mãe que perdeu um filho na chacina?
Minha vida mudou muito de três anos para cá. Depois que meu
filho (Rafael) foi assassinado, a minha vida tomou um rumo que nunca imaginei tomar. Meu dia-a-dia é muito tumultuado e corrido, pois, além de ser dona de casa e ter 3 filhos, sou militante de vários outros projetos. Hoje faço parte dos grupos reflexivos do Graal e da Favo, além da UBM (União Brasileira de Mulheres) de Nova Iguaçu. Também participo da Oficina de Direitos Humanos, no Instituto de Direitos Humanos do Rio de Janeiro. Hoje tenho certeza de que, se ela não tivesse tomado essa direção, talvez não estivesse conversando com você. Acho que nem estaria de pé para continuar cuidando de mim e de minha família. Isso tudo que faço se tornou um meio de vida, para eu poder ter forças pra viver.

Esse seu engajamento começou a partir da morte de seu filho?
Relacionada aos Direitos Humanos e Violência, sim. Mas antes dessa perda eu já militava em m
ovimentos sociais voltados para a Cultura, Esporte, etc. Uma vez, a gente organizou na minha comunidade um grupo para ministrar aulas de grafite, capoeira e hip-hop. Então conversamos com a diretora de uma escola e ela cedeu o espaço, mas o projeto infelizmente acabou por falta de apoio. Meu filho participava do grupo de capoeira, até ajudava dando aulas para crianças. Foi um tempo muito bom.

Como foi perder um filho tão jovem? Como você encarou tudo isso?
Como é perder um filho? Não sei se você já perdeu alguém na família, mas se já, multiplique sua dor 1 milhão de vezes. Essa é a dor de uma mãe que perdeu um filho, porque é uma parte de nós que se vai. É como perder um braço, e da mesma forma que este não cresce, nada ocupa o espaço dessa perda. É uma perda irreparável, mas que pode se transformar em luta. E a perda de meu filho me trouxe isso.

Vejo tudo isso como uma coisa que aconteceu porque tinha que acontecer. Tudo na vida tem um para quê e um por quê. Se for para pagar um preço para ajudar outras pessoas que precisam, e para você fazer a diferença em seu meio, que seja assim.

Houve alguém que pagou um preço muito alto para a comunidade não cair, e eu também tenho que pagar o meu. Nunca pensei que um dia enterraria um filho, principalmente em uma situação como essa. Hoje eu sei que eu e mais um monte de mães estamos nos unindo para fazer a diferença neste mundo. Acho que toda reação tem uma ação. Por isso, se nós reagimos aqui, Deus agirá. Esse é o sentido da minha vida.

Você superou um momento trágico de sua vida, que foi a perda de seu filho.Como foi entrar nestes grupos reflexivos?
Funcionou muito bem. É muito difícil lidar com dor, tristeza e morte. É complicado você falar sobre isso. Encontro uma mãe guerreira e forte que conversa comigo de igual pra igual, mas encontro mães que não encaram bem a morte. Deparo com vários tipos de mães, e isso é bom porque aprendo com essas mães. Eu sofro com cada uma delas e a dor delas triplica a minha mas, quando deito minha cabeça no travesseiro, me sinto recompensada por ter conhecido-as. Mostro que existe um outro caminho e que podemos reverter essa revolta em uma coisa positiva. Elas me escutam porque sabem o que passei e também porque é muito mais fácil escutar quem viveu a situação do que quem é alheio a esta.

O que aprendeu nestes três anos em que está nos grupos reflexivos?
E
stou lá desde a morte de Rafael. Primeiro para São Paulo, onde fiquei cerca de nove meses. Quando voltei, fui me juntei aos familiares da chacina e daí fomos conhecendo outras mães, outras pessoas, outros grupos. E o que eu aprendi nessa minha trajetória foi lidar com a dor.

Encontro mães com filhos presos, que é uma dor muito grande. Mães com filhos nas drogas, que também é uma dor muito grande. Mas também encontro mães com filhos espancados até a morte de uma forma desumana, que sabe o que o filho passou e sofre por conta disso. A gente lida com a dor, solidariedade, amor ao próximo, de união. Começamos a ver que o ditado "a união faz a força" é verdadeiro. É matar um leão a cada dia, mas você vai se moldando, se transformando com as feridas.

Você fala muito em fé, mas essa fé já existia, ou veio após a morte de Rafael?
A fé e a confiança no Criador, todos temos que ter. E eu já tinha essa fé, ela só cresceu com a morte de meu filho. Os noves meses que passei em São Paulo com minha família foi o tempo em que mais me encontrei com Deus, de uma forma que nunca tive. Porque foi com ele que me apeguei e tive forças para voltar e procurar as famílias das vitimas. Foi como um tempo de preparação espiritual. E a cada dia venho buscando em Deus pois existem momentos que você se desespera e a espiritualidade e a fé me dão forças para continuar.

Se você não tiver fé de que existe um Criador que está esperando esse mundo se conscientizar de que precisa mudar e lutar pra reagir e fazer a diferença, perde-se o sentido da vida. A fé é o que rege o mundo e se você não a tem, você não tem nada.

Você se sente mais fortalecida destes três anos para cá? O que de mais diferente percebe em você?
Sinto como se tivesse uma couraça, que vai engrossando e engrossando. Como uma armadura que com o passar do tempo vai ficando mais forte à medida que vai recebendo as bordoadas. As coisas não me atingem como antes, mas isso não tira o sentido de ser humano, de sentimento e de dor. Hoje me sinto mais forte para falar de minha dor e para ajudar os outros a se reerguer e levantar, mostrando que eles também podem fazer isso. Acho que nessa vida você tem que deixar algo. Você não pode simplesmente passar.

Li uma coisa em uma instituição de fisioterapia para pessoas que sofrem acidentes, que dizia mais ou menos assim: "a fonte da juventude é você ter na sua vida uma causa." Isso foi uma coisa que trouxe pra mim. Hoje tenho 43 anos, mas minha mentalidade é de 20. Minha militância está me rejuvenescendo.

Você falou em causa. Qual a causa que você deixa nestes grupos reflexivos e em sua militância?
O respeito à vida... A vida humana, seja ela qual for. Seja o menor infrator, o maior infrator, seja o traficante, seja o assaltante, seja o inocente que nunca teve passagem na polícia e é um homem de família. Independentemente disso, são seres humanos e devem ser respeitados, e que precisa valer o seu direito. Esse direito está previsto em nossa constituição federal e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O direito à vida... Essa vida tem que ser respeitada. Vida que foi dada pelo criador só Ele pode tirar.

Não é eliminando o problema que se resolve algo. Infelizmente, a violência cresceu ultimamente, porque as pessoas acham que têm que eliminar o mal pela raiz. É isso que acontece, pois as pessoas acreditam que eliminando o assaltantezinho, o bandidinho, eliminam o problema. O problema não é esse, mas a falta de políticas publicas e de um governo com políticas que façam a diferença, que afastem estas pessoas do tráfico, impossibilitando-as de roubar e cometer crimes.

Isso não existe em nosso país. É por isso que se mata tanto. Os governos acham que é mais fácil eliminar do que investir para resolver o problema.

Você falou sobre o respeito à vida, e é certo que o temos. Só que os que deveriam zelar por esse nosso direito são os responsáveis pela maioria dessas mortes. O que você acha disso?
Isso acontece no Brasil e em outros locais do mundo, porque a instituição que forma estes policiais não visa e não coloca em prática a valorização da vida. Essa instituição não é humana, ela não respeita a humanidade das pessoas. A prioridade dessas instituições devia ser o respeito à vida.

A primeira coisa que um policial tem que aprender é respeitar o ser humano. Seja ele qual infrator ou não infrator. Os policiais têm que aprender a lidar com o jovem infrator e com os seres humanos. Eles têm que enviar esses jovens para uma instituição que os recupere, muito embora a gente não possa esquecer de investir em uma instituição que de fato os recupere. Não é só você humanizar a polícia, porque não é só a polícia que mata. Você encontra esse tipo de gente em todos os locais, porque falta humanidade ao ser humano. Só que a polícia esta aí para proteger, e como isto vai acontecer? Esses policiais têm o dever de respeitar. Se não o fizerem, têm que ser punidos.

Acho essa mudança de comportamento muito difícil e que terá que ser aos poucos. É trabalho de formiguinha, cujos resultados só aparecerão no futuro . Só que a consciência tem que ser agora, pois a polícia está doente e tem que ser tratada senão não vai ter mudança nem na policia, nem na política, nem em canto algum. O problema tem que ser combatido na origem.

Se pudesse instituir uma lei, qual lei instituiria para ser cumprida rigorosamente?
O cumprimento da lei. A lei que rege o país, que é a Constituição Federal; a lei que rege os direitos, que é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que deveriam ser respeitados ao pé da letra. Principalmente o artigo 6° da Constituição, que diz que você tem direito à educação, à saúde, à segurança, à moradia, à vida. A lei já existe. Ela só tem que ser cumprida. Nosso povo é acomodado e não exige o cumprimento das leis.

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