segunda-feira, 23 de junho de 2008

Até que a morte nos una

Nova matéria da série "Homem da casa" mostra que nem sempre filhas se solidarizam com a dor da mãe.
Por Camila Oliveira e Flávia Sá

A vendedora de produtos espirituais Ana Regina Duarte Cardoso tem 35 anos e mora em Comendador Soares com a mãe, a cozinheira aposentada Joaquina Duarte, de 67 anos. "Meu pai foi embora quando eu tinha sete anos", lembra Ana Regina.

Dona Joaquina jamais criou empecilho para que Ana Regina visse o pai, mas a então menina percebia o sofrimento da mãe e o evitava. "Eu não era boba e via minha mãe chorando pelos cantos." Doía-lhe em particular o fato de o pai não dar a menor importância para o sofrimento de dona Joaquina.

Três pais
É verdade que durante anos o afeto distribuído pela mãe e pelos irmãos dela, particularmente os tios César e Édson, supriu a ausência paterna. No dia dos pais, por exemplo, não perdia tempo invejando as amiguinhas. "Eu fazia uma lembrancinha para cada um dos meus tios e para minha mãe, que foi minha mãe e meu pai ao mesmo tempo."

Ana Regina se sente incomodada quando lhe falam de um possível vazio em seu peito deixado pelo pai. Havia, se muito, uma profunda mágoa com ele. "Nunca dei a menor importância para ele", revela.

O pai esteve no seu aniversário de 33 anos, há dois anos. Foi o único desde que sumiu da sua vida e da de dona Joaquina. Mais uma vez, ela foi indiferente. "Talvez ele faça alguma diferença quando morrer", diz Ana Regina, sem pudor. É que ele é policial federal e ela, sua única herdeira.

Preguiçoso
A história de Ana Regina faz diversas interseções com a de Izabelle de Carvalho, que, além de morar em Comendador Soares, foi abandonada pelo pai. Mas o fim do casamento dos pais foi menos traumático para Isabelle, que na época tinha apenas dois anos e por isso não lembra as circunstâncias da separação.

Ainda ao contrário de Ana Regina, Izabelle não se sentia confortável quando as coleguinhas de classe voltavam do fim de semana falando de maravilhosos passeios com o pai. "Eu não tinha nada para falar porque meus pais eram separados", lamenta.

Curiosa, ela perguntou à mãe porque o casamento havia terminado. "Ela enrolou até o dia em que em que disse que se arrependia amargamente de tê-lo conhecido e começou a falar mal dele", revela a menina.

Izabelle teve acesso a uma história escabrosa, segundo a qual o pai era um preguiçoso e, cansada, a mãe preferiu cuidar dela sozinha. Apesar disso, não foi proibida de receber a visita dele e pôde criar um forte vínculo com o pai. "Ele me pega quase todos os fins de semana e me leva em um montão de lugares", comemora Izabelle.

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