quarta-feira, 4 de junho de 2008

Avós precoces

Drama da gravidez precoce também abala a vida das mães, que assumem a criação dos netos.
Texto e fotos por Flávia Sá

Conhecida em Jardim Iguaçu como dona Vani, a dona de casa Ivanil Meireles Rafael tinha grandes planos para a filha Lucélia Rafael, que era uma estudante de 14 anos. "Queria que ela se formasse", conta a mãe, que em nome desse ideal vencia os pudores para conversar abertamente sobre sexo com Lucélia e alertava para a necessidade do uso de preservativos.

Apesar dos cuidados de dona Vani, Lucélia resolveu se entregar a Victor, um ficante pelo qual havia caído de amores. E engravidou. "Eu não sei o que me deu direito", lembra dona Vani, que passou toda a gravidez da filha perturbada. "Só sei que não queria que aquilo estivesse acontecendo."

Como dona Vani temia, Victor, o pai da sua neta Victoria, não assumiu a criança. "Lá se vão dois anos e aquele cafajeste não admite nem fazer o exame de DNA", lamenta a dona de casa, embora hoje esteja muito feliz com a neta Victoria e com o fato de a filha Lucélia ter voltado para a escola. O drama de Dona Vani é semelhante ao de muitas outras mães de Nova Iguaçu, que se tornam elas próprias mães tardias e avós precoces.

Esse foi o caso da doméstica Cristiane Oliveira, que, aos 33 anos, viu a filha Deiseré engravidar aos 12 anos. Houve, no entanto, duas grandes diferenças em relação ao drama vivido por dona Vani. Em primeiro lugar, o rapaz que engravidou sua pequena Deisiré assumiu a tanto a relação com a filha quanto paternidade da criança. Também foi muito diferente a reação de Cristiane ao saber da gravidez de Deisiré. "Só ficaria espantada se fosse num outro tempo", diz Cristiane. "Hoje em dia é normal ter filho com essa idade."

Esses netos inesperados e de certa forma indesejados produzem verdadeiras revoluções na vida dessas mulheres, mas com freqüência eles ganham o status de "uma nova razão para viver". "Eu nunca pensei que fosse amar tanto o Vladimir", afirma a cozinheira Joaquina Duarte, a mãe adotiva de Sabrina Carmo, uma adolescente rebelde que engravidou aos 14 anos.

Esse final feliz foi surpreendente para Joaquina, que, quando soube da gravidez de Sabrina entrou num desespero semelhante ao de dona Vani. "Queria que fosse um pesadelo, sabe?", lembra Joaquina. Além de ter uma relação difícil com a filha adotiva, preocupou-se com a ingenuidade de Sabrina. "Ela não lavava nem as calcinhas", diz. "Como é que ia lavar as fraldas de xixi e cocô?"

Uma pessoa um pouco menos atenta pode confundir a história de Joaquina com a da cozinheira Silvana Xavier Dias, mãe de Raylene Dias de Oliveira, que engravidou aos 13 anos. "Era uma criança esperando outra", lamenta. Como Joaquina, Silvana tinha uma relação difícil com a filha Raylene, que "era uma menina da pipa voada". Também como a mãe de Sabrina, a mãe de Raylene se encantou pela neta. "Ela é a minha razão de viver", afirma. "E vou a todos os lugares com ela." Até quando viaja.

A biografia dessas mães também se confunde no tocante ao sentimento de culpa que invadiu o coração delas ao receber a notícia da gravidez das filhas. A cozinheira Joaquina, a mãe de Sabrina, e a dona de casa Neuza Ribeira, mãe de Gleice Kelly, se sentiram traídas pelas filhas. "Eu confiava plenamente neles", conta Joaquina. "Nunca imaginei que isso pudesse acontecer, mas eu tive uma parcela de culpa nisso porque dava muita liberdade a Sabrina." Gleyce Kelly, que estava com 17 anos ao engravidar, era uma mulher comparada a Sabrina, que na época tinha 14 anos. Mas dona Neuza também ficou possessa com a filha. "Confiei muito nos dois."

Mas Gleyce teve mais sorte do que Sabrina, pois o namorado, embora tenha sido irresponsável durante o namoro, não titubeou ao assumir tanto a relação com a mulher quanto a paternidade de Victoria. Infelizmente, o destino não bafejou a dona de casa Maria Eunice Menezes e sua filha Aline Menezes, que engravidou dos 15 para os 16 anos. Com uma história marcada por tragédias pessoais, Maria Eunice entrou em desespero quando soube da gravidez da filha, há cerca de dez anos. "Minha filha não ouvia ninguém e só queria saber de farra e essa droga de baile", lembra, emocionando-se.

Maria Eunice conhecia bem o pai do seu neto, um puxador de carro da vizinhança conhecido como Bebeto. Mas mesmo sabendo que aquela história não ia acabar bem, principalmente quando a filha "rebelde e desaforada" apareceu grávida mais uma vez. "Eu falei pra ela se virar, aquilo era o fim da picada", diz Maria Eunice num acesso de raiva, como se estivesse revivendo o drama. "´Não, não, chega´, eu falei pra ela."

Os fatos logo comprovaram a velha tese de que coração de mãe não se engana. "Ele chegou a bater na minha filha mesmo grávida", recorda. Maria Eunice pensou em chamar a polícia, mas resolveu lavar as mãos. "Botei a vida da minha filha e dos meus netos na mão de Deus", conta. O desfecho daquela história se deu num domingo em que o Flamengo estava decidindo o campeonato carioca de 2001 com o Vasco da Gama. "Os bandidos deram dois tiros na testa do Bebeto."

A filha Aline passou um tempo foragida, pois os bandidos disseram que ela sabia demais. "Ela deixou os filhos comigo e sumiu", lembra Maria Eunice. Mais uma vez, porém, o tempo foi o melhor remédio. "Agora já está tudo melhor", diz Maria Eunice, que enfim reuniu a família toda numa mesma casa. Além de estar morando com a mãe, a filha Aline percebeu com quem pode contar nas horas mais difíceis. "Graças a Deus, ela se deu conta que sua amiga sou eu e está me tratando melhor."

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