quinta-feira, 19 de junho de 2008

Começar de novo

A volta às aulas das mães adolescentes


Por Sheila Loureiro e Letícia da Rocha

Imagens retiradas da internet


Nem todas as adolescentes grávidas são abandonadas pelos namorados. Também não se pode dizer que seja unânime a crise instalada com os próprios pais, que mal têm dinheiro para pagar o sustento delas. Mas é quase certo que em alguma hora elas tenham que abortar os estudos.

"Tive que parar para dar atenção ao meu filho", conta Sandra Gomes de Azevedo, que na época estava com 15 anos. "Meu filho nasceu com problema respiratório", acrescenta ela, que por causa das muitas idas ao pediatra iniciou o período de dois anos e meio sem estudar.


Conseqüências

Com ou sem problema de saúde, é sempre difícil conciliar os horários do bebê com os estudos. É verdade que essas jovens também têm direito aos 90 dias da licença maternidade, durante os quais só são obrigadas a fazer os trabalhos e as provas. "Mas a maioria delas não renova a matrícula no ano seguinte", lamenta Celenita Araújo da Silva, diretora adjunta do Instituto de Educação Rangel Pestana.

Caroline Carvalho, estudante de 19 anos do mesmo Rangel Pestana, é uma exceção que confirma a regra. "Já que fiz, tenho que arcar com as conseqüências", afirma ela, que recorre aos familiares para se ajustar à proibição de entrar na escola com o bebê.


Ele chega mais cedo

Caroline pode ser uma exceção por não parar de estudar, mas não é raro que essas mães precoces voltem para os bancos escolares com a mesma voracidade com que os seus filhos avançam sobre as suas mamas. "Quero ser juíza", afirma Jéssica da Silva de Oliveira, que engravidou aos 14 anos. O apoio dos pais compensou o abandono do namorado e a decepção com os homens em geral. "Graças a eles, vou realizar o meu sonho."

Angelina da Silva dos Santos teve mais de sorte com o então namorado e hoje marido do que Jéssica. "Ele trabalha pra caramba e chega do trabalho mais cedo para eu estudar", diz Angelina, que ficou três anos em casa depois de engravidar aos 15 anos. Angelina havia parado de estudar na sétima série e hoje está no terceiro ano do ensino médio.


Ajuda da mãe

Angelina sabe que a carreira que escolheu não é nada fácil. "Tenho um sonho muito grande, que é ser advogada", conta. Mas ela, que aprendeu a fazer sacrifícios para cuidar do filhos em seus primeiros anos de vida, está com as garras afiadas para alcançar as metas a que se propôs. "Sei que para isso eu tenho que estudar muito", diz. "Mas é isso o que estou fazendo."

Suzana Bandeira estava na quinta série quando engravidou de um namorado que sumiu de sua vida tão logo soube das conseqüências daquele sexo rápido que faziam quando tinha 15 anos. Triste e constrangida com o que aconteceu, passou três anos sem estudar. "Mas com a ajuda da minha mãe, que dá tudo pro meu filho, eu hoje estou fazendo o 8º ano no supletivo."


Vida normal

A jovem repórter Sheila Loureiro, que descobriu as personagens desta reportagem no seu próprio cotidiano, chegou a pensar que seus sonhos haviam acabado quando, mesmo com o apoio do então namorado e da própria mãe, foi obrigada a largar a escola nos primeiros anos do seu filho. Hoje com 22 anos e no 3º ano do ensino médio, ela voltou a estudar porque a vida como dona de casa a deixava inquieta. "Meu sonho não está completo", diz ela, que está se preparando para o concorrido vestibular de direito. A futura juíza Jéssica de Oliveira resume assim a insatisfação com a vida restrita a educar o filho. "Quero levar uma vida normal", justifica. "Como todas as pessoas."


Não consegue nada

Os sogros de Marilene dos Santos, que estava na 6ª série quando engravidou, tiveram uma

participação decisiva no fato de hoje estar cursando o 1º ano do ensino médio e, mais ainda, sonhando com a profissão de enfermeira. "Os pais do rapaz fizeram com que assumisse o filho e por isso, mesmo morando com meus pais, eu pude voltar a estudar", diz Marilene. Ela tem consciência de que os estudos são o único combustível para quem tem alguma ambição na vida. "Sem estudo não se consegue nada nessa vida", afirma.

Depois de três anos em casa, Suzana Bandeira percebeu que a única maneira de proporcionar uma vida melhor para o filho que a fazia prisioneira seria voltando a estudar. "Meu sonho é ser professora", anuncia.

3 comentários:

  1. Proponho uma reflexão: vocês acham que as gestantes de quem essa matéria fala se reconhecem nessa primeira foto de uma adolescente vestida como aquelas colegiais de filme americano? Que tal pensarmos em retratar e valorizar mais a beleza e brasilidade de nossas grávidas?

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  2. Parab�ns! Sucesso para voc�s.

    Almeida dos Santos
    Velho rep�rter... risos

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  3. Qualquer dia farei uma visita ao curso de vocês.


    Almeida dos Santos

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