terça-feira, 10 de junho de 2008

Os bailes do outro lado do muro

Sandra Rollo conhece Nova Iguaçu desde a época dos laranjais

Por Breno Marques
e Paulo Nino
Imagens: Flávia Ferreira


Nova Iguaçu já teve muitas caras.

Foi a cidade dos laranjais até a II Guerra Mundial interromper o fluxo de exportações e uma série de pragas destruir as plantações.

Em seguida, veio o carimbo de cidade-dormitório, motivado pela chegada dos nordestinos que vieram atrás de trabalho no Rio de Janeiro.

Há, por fim, a difusa imagem atual, onde por um lado Nova Iguaçu ainda é a cidade dos coronéis e, por outro, o palco das experiências sociais mais arrojadas do governo Lula.

Do alto dos seus bem vividos 62 anos, a funcionária pública Sandra Baroni Rollo é uma testemunha de todas estas fases. Neta do exportador de laranjas Francisco Barones e filha do empresário de transportes coletivos Carlos Marques Rollo, Sandra recebeu de braços abertos o prefeito Lindberg Farias. “Meu pai chegou a ter problemas pessoais por causa do apoio que deu a ele”, conta Sandra Rollo, que hoje trabalha na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.

Todos no mesmo baile

Embora seja uma entusiasta das mudanças em curso em Nova Iguaçu, Sandra Rollo ainda prefere a cidade em que viveu na infância. ''A cidade era bem menor e muito mais tranqüila”, lembra. “Todas as famílias se conheciam e freqüentavam o mesmo baile.”

Sandra Rollo tem outras lembranças de uma infância romântica, na qual o pai era uma presença constante. ''Papai era um chefe de família, que brincava comigo e meus irmãos”, conta Sandra Rollo.

Ela foi filha única até os oito anos, quando nasceu o primeiro dos seus cinco irmãos. Em compensação, a casa vivia cheia de primas. “Como eu, elas o adoravam.”

Uma das suas recordações do pai é ele chegando em casa com um carrinho de pedal, que posteriormente seria pintado com as cores da Evanil, a empresa de ônibus que ele criou na década de 1950. “Ele chegava de noite e ia para o quintal brincar comigo”, conta.

Outro país

Outra presença marcante na sua infância foi a do avô Francisco Baroni, um dos grandes exportadores de laranja da cidade. “Meu avô foi um homem importante não apenas por ser exportador de laranjas, mas também porque ajudou muito no crescimento da cultura em Nova Iguaçu.” As portas da casa estavam sempre abertas para os artistas, particularmente os de música. “Ele apoiava qualquer tipo de manifestação cultural.''

Essa Nova Iguaçu bucólica foi abalada com a chegada ao poder do presidente trabalhista João Goulart, em 1961. “A cidade começou a transpirar política”, conta. Assustada com a agitação política, ela e sua família apoiaram o regime militar. ''Eu era a favor da ditadura, porque, se as Forças Armadas não tomassem uma atitude, o comunismo tomaria conta do País.”

Então uma jovem com 18 anos, Sandra Rollo achava que a ditadura era apenas um movimento pra impedir o comunismo. “No meu circulo social, a ditadura era vista com bons olhos”, confessa. Ela se defende dizendo que não conheceu ninguém que tenha sido preso ou torturado. Embora a família fosse uma grande consumidora de arte e cultura, ela não sabia da existência da censura. “A ditadura passou na minha vida como se fosse em outro País”, diz Sandra Rollo.

Muro de Berlim

O mundo em que Sandra Rollo vivia só não era totalmente cor de rosa por causa dos embates políticos de que foi testemunha na Faculdade Nacional de Direito da UFRJ. Mas ela tratou de sair quando o clima começou a ficar acirrado. “Parei de estudar em 1967, porque tinha muito medo daquelas passeatas.”

Sandra Rollo preferiu ficar em Nova Iguaçu, longe do tumultuado Centro do Rio de Janeiro. Encastelou-se então no outro lado da linha de trem, que divide a cidade de Nova Iguaçu em um lado residencial e um outro, comercial. ''Antigamente, eram poucas as famílias que moravam do lado que hoje é o Centro”, conta. Ela entende, porém, que essa divisão social é cada dia menor. “Hoje não é a linha do trem que separa os ricos dos pobres”, afirma. “Está tudo igualado.''

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