segunda-feira, 19 de maio de 2008

Santa liberdade

Dom Adriano Hipólito dedicou a vida à causa da liberdade e da igualdade social.

Por Bruno Marinho


Não poderíamos falar de ditadura militar sem fazer referência e reverência a Dom Adriano Mandarino Hipólito, Bispo da Diocese de Nova Iguaçu de1966 a 1994. Considerado um dos maiores bispos que o município já teve, ele foi uma voz forte na luta contra a opressão sofrida por nossos irmãos iguaçuanos.

Dom Adriano foi um dos expoentes da Ala Progressista da Igreja Católica e, além de ter organizado as Comunidades Eclesiais de Base da Baixada Fluminense, criou o Centro de Direitos Humanos da Baixada Fluminense. Também foi uma importante liderança da Ação Católica Operária. Todos esses espaços foram fundamentais no processo de resistência à ditadura militar e na organização da população.

Porém, sua luta contra a ditadura e sua linha política não agradaram a todos. Incomodados, os detentores do poder tentaram matá-lo em 1976, mais particularmente no dia 22 de setembro. Ele estava acompanhado de um sobrinho e da noiva deste quando foi interceptado por dois carros de um grupo paramilitar, de onde desceram homens armados. Envolveram sua cabeça com um capuz, algemaram suas mãos e arrancaram sua batina. Seus algozes forçaram-no a beber cachaça e ele foi espancado ao reagir. Foi deixado, com as mãos amarradas e o corpo pintado com tinta vermelha, em uma rua de Jacarepaguá, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. O carro que dirigia foi explodido por uma bomba na porta da CNBB, no largo da Glória.

Mesmo antes de Dom Adriano, Nova Iguaçu já era considerada um símbolo da intervenção militar na Baixada e vinha sofrendo com a ditadura desde 1965. A maior intervenção fez-se presente com o Decreto-Lei nº 201, que permitia à Câmara, a partir de denúncias de corrupção e malversação de verbas públicas, cassar o mandato de seus prefeitos.

Esse decreto foi usado pela ditadura e, em seis anos, Nova Iguaçu teve oito chefes do Executivo: dois interventores, dois presidentes da câmara, dois prefeitos eleitos e dois vice-prefeitos. Mas a interferência dos militares só se tornou evidente em 1969 com a nomeação de Rui Queiroz como interventor federal. O interventor disse ao que veio na sua mensagem do 1º de maio de 1970.

Ao justificar por que o governo militar ainda não podia entregar ao operário iguaçuano o poder de decidir o seu destino, ele comparou a cidade a um jardim onde “o mato daninho terá que ser arrancado pela raiz, para que não sobreviva com a primeira chuva. A vegetação mais daninha e cheia de parasitas foi arrancada deste solo abençoado; entretanto, o jardim terá que ser observado, podado, desinfetado e cuidado para que na vegetação que ficou, possamos ter a certeza de que não existe mais perigo para a beleza de nossos dias e a tranqüilidade de nosso espírito. (...) E este jardineiro zeloso e devotado são as nossas Forças Aramadas”.

Essa imposição política não passaria sem resistência. Antes mesmo do atentado, Dom Adriano declarava que, salvo exceções, a imagem dos políticos da região era marcada pela mediocridade, incapacidade, puxa-saquismo e primarismo. A reação respondeu com várias ameaças de explosão de bombas, casos de espancamento, violações de correspondência e visitas com interrogatórios estranhos às principais lideranças tanto dos movimentos de bairros como da Igreja Católica.

Em vários desses casos, um autodenominado Comando Delta assumia a responsabilidade. Chegaram até explodir uma bomba na Catedral de Nova Iguaçu, destruindo o altar e espalhando hóstias por todos os lados. Os autores do atentado cuidaram para que ficasse claro o registro de sua autoria, através de panfletos e uma espécie de carta deixada em cima do órgão e endereçada a D. Hipólito: C.C.C (Comando de Caça aos Comunistas).Hoje na Catedral encontra-se em exposição o destroço do atentado.
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No fim da ditadura militar, Dom Adriano Hypólito permaneceu com suas convicsões e seus projetos até completar 76 anos de vida. Faleceu em 10/08/1996. Atualmente, Dom Adriano dá nome a ruas, praças, monumentos, seminários, escolas e até o viaduto da Via-Light. Essa foi a maneira que nossas autoridades encontraram para jamais esquecer essa figura histórica que, com sua determinação, ajudou a construir Nova Iguaçu.

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