sexta-feira, 9 de maio de 2008

A peleja da razão e da fé

Jovem repórter coloca cientista e pastor frente a frente para discutir a teoria de Darwin.

Por Jason Silva

O mundo está celebrando os 150 anos da teoria da evolução das espécies, criada pelo naturalista inglês Charles Darwin. O Ministério da Ciência e Tecnologia está promovendo uma série de eventos para marcar a data e difundir a tese que demoliu a Igreja, quando afirmou que o homem é uma evolução do macaco. O professor Ildeu de Castro Moreira esteve na SBPC para dar uma palestra sobre a passagem do naturalista inglês no Brasil. Levamos o pastor Samuel Oliveira, um criacionista, para discutir com o professor Ildeu. Foi a velha da religião e da ciência. O leitor só tem a ganhar com ela.

Sou o pastor Samuel de Oliveira, bacharel em teologia, professor do seminário e defensor do criacionismo. Creio, à luz da Bíblia, em um Deus criador de todas as coisas, que criou as coisas visíveis e invisíveis. Quando falo de invisíveis, eu falo daquilo que não vemos com os olhos nus; as menores partículas, as menores células, todas elas criadas por esse Deus grandioso, que criou todo esse universo.

Sou Ildeu de Castro Moreira, físico da UFRJ e atualmente estou no Ministério da Ciência e Tecnologia, dirigindo um departamento para a popularização da ciência e tecnologia.

Ildeu fale um pouco sobre sua palestra.
Eu falei especificamente sobre Darwin no Brasil. Charles Darwin, o grande cientista proponente da teoria da seleção natural para explicar a origem das espécies. Ele esteve no Rio de Janeiro em 1832 durante quatro meses. Esteve em outros lugares do Brasil, como Salvador, Recife, etc. O que estamos fazendo este ano é lembrar essa passagem dele aqui no Brasil. Estamos inclusive investigando as fazendas por onde ele passou e os escritos dele. Também estamos investigando outros naturalistas importantes, como Alfred Wallace, que é outro naturalista inglês, que viveu quatro anos na Amazônia, e que também formulou a teoria da evolução pela seleção natural. Esse foi o motivo principal da minha palestra. Porque este ano estamos comemorando 150 de apresentação desta teoria. Este será o tema discutido na Semana Nacional da Ciência e Tecnologia, que acontece em todo o país: o que a ciência conseguiu explicar até hoje, ou não, sobre o surgimento dos animais, das plantas, a evolução, essa extraordinária diversidade que a gente vê na natureza.

O senhor acredita nesta teoria?
Em teoria a gente não acredita. Ela se confirma ou não. Ela sempre tem uma confirmação provisória. As teorias científicas mudam. Nenhuma teoria científica se sustentou durante milênios e milênios. Aristóteles, por exemplo, tinha teorias importantes sobre os animais que permaneceram durante muitos anos. Depois a ciência demonstrou que aquelas teorias não eram suficientes. A mesma coisa na física. Hoje eu acho que temos uma boa teoria, que dá conta de quase todos os fatos conhecidos sobre o surgimento dos animais e das plantas, como as diversas espécies surgiram. Essa é a chamada teoria da seleção natural. Acho que temos uma boa teoria, mas eu não vou dizer que daqui a dois mil anos a teoria será essa. Ela pode mudar exatamente porque a ciência é uma coisa mutável. Portanto, não é uma questão de crença. É uma questão de convencimento. Eu respeito às visões religiosas. A ciência não tem, por exemplo, nenhuma demonstração, como alguns cientistas querem dizer: que Deus não existe. Eu acho que não é do âmbito da ciência falar isso. Ela não tem condição de dizer isso. Agora, eu também busco uma explicação racional para o surgimento das coisas. A ciência me dá uma explicação de que a Terra surgiu há 4 bilhões de anos, que houve um processo conflitante com uma leitura bíblica que mostra que a Terra foi criada há 4 ou 6 mil anos. Há outras leituras, de católicos, protestantes, de outras religiões, que compatibilizam com a ciência. Acho que a visão religiosa é importante. Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Acho que a ciência não traz respostas últimas sobre o porquê que o mundo foi criado, se foi criado, quem criou. A ciência dá respostas de como processos naturais aconteceram. Não vou falar de crença religiosa individual porque não é o caso aqui.

E sobre a teoria do surgimento do homem?
Eu acho que o homem é uma espécie que surgiu a partir da evolução de outras espécies animais.

Já teve provas disso?
Eu acho que tem muitas evidências. A teoria tem inúmeras provas. Todo o estudo geológico, o estudo de fósseis e os estudos do DNA, comprovam que a espécie humana surgiu a partir de outras espécies animais. Do meu ponto vista, isso não conflita com a visão religiosa. Conflita com a visão religiosa que faz uma leitura muita estreita, do meu ponto de vista, da Bíblia. Eu respeito, mas discordo.

E o senhor, pastor?
Insisto, como teólogo, eu creio, a partir dos textos da Bíblia, porque, quando se fala de Bíblia, parece que ela é conflitante com a ciência, mas não é. Até hoje eu estava lendo um texto, quando estava vindo para cá, lembrei que o homem levou séculos para descobrir que a Terra era redonda. Só que Isaías, 740 anos antes de Cristo nascer, falava que ela era redonda. “Deus está sentado sobre o globo da Terra”. Isso é Isaías 40, Versículo 21. Um profeta do povo hebreu, 740 anos antes do nascimento de Cristo, falou uma coisa que mais tarde a ciência comprovaria. Então, eu creio na Bíblia como fé e regra prática. E Gêneses, Capítulo 1, Versículo 26 diz: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.” Você vê ali, dentro de uma leitura bíblica, deus, diferentemente dos animais, criando um ser único, um ser pensante, a partir da terra. Todos nós sabemos que o homem é constituído de pó, que quando isso se dissolve vira pó. Há comprovações de que ele veio do barro. Se você chegar em qualquer cemitério, verá que se dissolvem a carne e os ossos, ele vira pó. Entendemos que Deus criou um ser pensante, um ser racional, um ser moral, com discernimento. Quando a Bíblia fala sobre a criação de Adão, a criação de Eva, nós entendemos que Deus criou um ser não intermediário. A ciência quer demonstrar, por intermédio da teoria de Darwin, um homem a partir de um macaco que, partindo-se deste símio, formou-se um ser pensante. Eu, como teólogo, como alguém que estuda a Bíblia, eu creio que Deus criou um ser único, racional. Não há nenhum ser igual a ele. O homem é um ser único.

A ciência fala que o crânio é parecido, que temos características e formas semelhantes ou traz provas de que isso existe?
Na verdade, já se provou que muitos achados não eram verdadeiros. Houve uma época em que ocorreu uma grande procura desses fósseis e se descobriu que eram fraudes de alguns homens. Isto é fato. É claro que entendemos que o homem vive há muitas eras. Nós sabemos que o homem viveu estágios diferentes, há 9 mil, 11 mil anos. A ciência fala de bilhões de anos. Eu não creio que a Bíblia fale do surgimento da Terra há 4 mil anos. A leitura bíblica não aponta para isso. Há intervalos dentro da genealogia bíblica. Há a questão da Terra Antiga, da Terra Nova. Há uma teoria chamada Teoria da Lacuna em Gêneses 1, Gêneses 1, 2. Podem ter se passado várias eras ali. Há muitas coisas conflitantes dentro disso aí. Agora, se Deus criou um ser único, isso eu não tenho dúvida. Não creio que o homem tenha vindo de qualquer espécie a não ser do próprio homem. E tudo aponta para isso. Na verdade, nosso DNA. Ele não se parece com o de nenhum outro animal. Porque nós cremos na criação de um único homem, chamado Adão. E dele descendeu toda a população da Terra mais tarde.

Aí é que eu discordo. E a discordância é uma propriedade fundamental do ser humano pensante. Eu acho que outra coisa fundamental no ser humano pensante é a democracia, que nós temos que respeitar as idéias diferentes. Respeito profundamente o pastor, mas discordo radicalmente. Não estou discutindo se existe um Deus ou não, porque isso escapa à ciência. Eu não vou entrar no campo da crença individual. Mas respeito profundamente às pessoas que acreditam que o homem é um ser único, que surgiu a partir de uma criação celestial. Eu acho que não. Imaginando a hipótese de um Deus, ele teria várias formas de criar o homem. Ele é todo poderoso, ele pode fazer tudo, inclusive fazer com que seguíssemos as leis naturais que os outros animais e plantas seguiram. Mas a interpretação do pastor é que não. Ele acredita que o homem é um ser único. Eu, por exemplo, discordo da questão do DNA. O DNA do homem é 99 por cento parecido com o de outros animais. Essa é uma prova bastante forte da teoria da evolução. Se houve fraude na ciência, houve. A ciência é uma atividade humana. Mas também há fraude nas igrejas, que são humanas como a ciência. Nas seitas, há pessoas mal-intencionadas que deturpam e usam argumentos errados para os interesses mais variados. Isso acontece na religião, nas ciências e em tudo o mais. A religião ainda mata em nome de Deus. A ciência também matou gente. Isso é errado.


Mas quando o pastor fala de um DNA único, eu tenho um ponto de discordância clara de visão de como é que surgiu a espécie humana. Eu acho que a teoria da seleção natural, do ponto de vista científica, se você perguntar à grande maioria de cientistas do mundo, de físicos, químicos, biólogos, matemáticos, a imensa maioria vai dizer que estão convencidos de que a teoria da seleção natural explica bem a origem do ser humano. Não explica tudo, porém. Uma questão que está em aberto, do ponto de vista da ciência, é a origem da vida em si. Existem várias teorias, mas até hoje nenhuma é satisfatória. Há cientistas teorias que acham que existe uma boa teoria para o surgimento da vida. Mas do meu ponto de vista, não. Acho que ainda é um grande enigma. Há também um grande enigma sobre a origem do mundo. Agora não acho que a gente deva parar diante dos grandes enigmas. Tem um grande enigma. A solução está na Bíblia. A solução está em Deus. Pode ser, para quem acredita nisso. Mas do ponto de vista da ciência a gente vai sempre se perguntar. Por quê? Como? Qual o mecanismo? Tem uma explicação coerente?

O senhor como cientista acredita em alguma divindade?
Prefiro não responder a isso. Porque entra uma questão de crença individual, que acho que não é o caso. Eu estou respondendo aqui como um cientista, como uma pessoa que trabalha numa universidade. Estou aqui para discutir num plano das idéias. A questão da crença individual das pessoas não está em pauta. Se você me perguntar se eu sou casado ou não, eu posso responder numa boa. Mas como estou dando uma resposta que pode ter uma implicação pública, eu não quero responder a isso porque se trata de uma questão de foro íntimo. Na questão que diz respeito à ciência, eu estou respondendo claramente quais são as minhas idéias. Do ponto de vista da ciência, esquecendo a dimensão religiosa, eu acho que a teoria da seleção natural é uma teoria boa, que explica razoavelmente bem a questão da origem das espécies, das plantas, dos animais. É claro que ela foi aperfeiçoada. Hoje nós temos o conhecimento da genética molecular, do DNA. Depois veio a teoria de Mendell. Mas no conjunto a gente tem uma boa explicação científica que do ponto de vista racional. Evidentemente não satisfaz outras pessoas, como é o caso do pastor Samuel, que tem uma visão diferente. Aliás, eu gostaria de agradecer a você e ao pastor de a gente estar debatendo aqui, nesse lugar tão bonito.

Para fechar, pastor.
Nosso professor, porque eu também sou aluno, colocou de uma forma bem clara: campo de idéias. Alguns usam apenas a questão racional para a percepção das coisa. Eu, como teólogo, como pastor, acredito na razão, mas também na fé. E a fé me leva a crer num Deus soberano, que criou todas as coisas individualmente. Ele não só criou, como sustenta tudo. Alguém uma certa feita me perguntou o que eu achava da criação do universo. Quando você estuda um pouco sobre os planetas, sobre estrelas, constelações, não há como não crer como alguém não tenha criado tudo isso. Isso não pode ter sido obra do acaso. De jeito algum. É impossível. Seria o mesmo que dizer que um relógio tenha se criado sozinho, que não tenha alguém que o projetou e o arquitetou. Da mesma forma eu acredito na criação de todas as coisas, a respeito do nosso Deus.
Faz parte da natureza humana questionar.

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