quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Da realidade para a ficção


174 faz escala em Botafogo antes de última parada em Hollywood
Por Flavia Ferreira

O mais novo filme brasileiro a desfilar na passarela do Oscar é o "Última parada 174". A pré-estréia do filme aconteceu na sala 6 do Unibanco Arteplex, na praia de Botafogo. A história de um menino de rua que vivenciou dois grandes episódios drásticos da sociedade carioca é o ponto de partida do filme. O primeiro episódio foi a chacina da Candelária, da qual escapou por milagre. Seu envolvimento com as drogas, reforçado por uma crise de ciúme, fizeram dele o protagonista do seqüestro mais famoso do milênio.

O seqüestro ficou conhecido por ocupar os horários da TV por quase cinco horas no ano dia dos namorados de 2000. "Nossa idéia era contar essa história na ficção, porque a realidade está absurda, maluca e difícil de entender. Por isso, precisamos da ficção para interpretar a realidade", contou o diretor Bruno Barreto.

Na platéia superlotada, estavam presentes jovens do Morro do Vidigal, Complexo do Alemão, Nova Iguaçu, Morro da Babilônia, Escola Britânica e da Escola Americana. Ao terminar a sessão, iniciou-se um debate sobre o filme com a participação do Diretor Bruno Barreto e os protagonistas do filme: Michel Gomes (Sandro), Marcelo Mello (Alê Monstro) e Gabriela Luiz (Soninha).

O ator Michel Gomes acredita que o filme mostra a realidade das ruas. "Mostra a realidade do menino de rua, e traz a oportunidade de enxergá-lo", disse esse jovem morador de Padre Miguel, que freqüenta grupos teatrais de projetos sociais desde os 10 anos de idade. Gabriela Luiz, atriz que vive a garota de programas Soninha, também conheceu o teatro em projetos sociais. Ela diz que, por conta da questão financeira, já sofreu algumas discriminações profissionais. "Temos muitos 'Sandros' e muitos 'Alês' no Rio. Espero que este filme estimule as pessoas a refletirem sobre esta situação", afirma.

Ao contrário de seus colegas de filmagem, Marcelo Mello nunca pensou em ser ator, mas sempre aproveitou as oportunidades que a vida lhe deu. "As oportunidades são pequenas, mas, se você se esforçar e correr atrás, elas são possíveis", acredita ele. Antes de chegar às telas do cinema, Marcelo passou por Austin, bairro de Nova Iguaçu, e Vidigal, na Zona Sul do Rio. Segundo ele, o fato de vir de uma comunidade carente torna tudo mais difícil. "Temos que nos esforçar em dobro, pois é muito difícil achar alguém que te valoriza. As pessoas pensam que o fato de você morar em uma comunidade te torna mais irracional que ela", dispara Marcelo.

Bruno Barreto não quis tomar nenhum partido na trajetória do personagem Sandro. "Meus filmes primeiro buscam emocionar, para depois fazer a pessoa refletir", analisa. A atriz Gabriela Luiz arrumou uma imagem mais forte para traduzir a estética de 'Última parada 174'. "Esse filme é um soco no estômago que atinge o coração".

As cenas de violência são constantes, mas, para o diretor, há uma grande diferença entre seu filme e 'Cidade de Deus' e 'Tropa de Elite', duas outras obras que marcaram o cinema brasileiro ao mergulhar no drama das favelas cariocas. "'Última parada 174' trata da condição humana e não da condição social do Brasil", difere.

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