segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Condenado antes de nascer


Para jovem repórter, protagonista de 174 foi condenado há muitas gerações
Por Flávia Ferreira

Como é doloroso olhar para os lados e ver a triste situação de nosso Rio de Janeiro... Meninos ao abandono vagando pelas ruas, fome, miséria, desencanto.

Tragédias sociais estão sempre ao alcance de nossa vista. Basta um olhar mais atento para perceber o descaso social que há séculos aflige a bela cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Cidade cheia de contrastes, passando da extrema beleza de suas praias à miséria extrema no espaço de uma esquina. O pôr-do-sol em Copacabana oscila entre opulência e miséria, conforme a hora, e o ponto de vista.

Rodeado por favelas onde inocentes e emergentes de uma sociedade violenta ao extremo. Onde estão democracia, oportunidade de trabalho, direitos de cidadania da imensa legião de meninos de rua? Muita gente pergunta: por que tantas mortes na Candelária, por que tanta miséria?

Assaltos, mortes, negros, brancos, drogas, MEDO. Palavras que estampam estátuas vivas do trânsito carioca. Roubando para viver, cheirando cola para esquecer, amando para se sentir vivo. Salve-se quem puder. É guerra de todos contra todos.

Inferno da prisão
Atormentado com a falta da cola e do crack, barriga roncando de fome, dentes trincados, mãos crispadas, necessitando de uma família e um nome. São "lixos humanos", escória da sociedade, indigentes movidos pelo medo da lei e pelos que estão "fora dela". O inferno da prisão, ao invés de corrigir, aperfeiçoa o crime.

A irmandade do comando substitui a proteção familiar. O prazer fugaz encontrado em um amor bandido, regado a muito “diabo ralado”, reforçado com pó de vidro moído. Acadêmicos da faculdade do crime, escola da miséria e da necessidade, um beco sem saída. O instinto de sobrevivência prevalece, um “bico” cheio de ferrugem como saída de emergência. Vestindo a mesma capa que lhe serviu de cobertor desde criança pelas vielas e becos sujos de uma cidade que já foi maravilhosa.

Tudo termina com o estampido e o impacto de um tiro. Liquidado aos poucos, o homem duro do gueto terminou sem ar e sem amigos. Juízo final feito em vida, vida perdida ao nascer, um condenado há muitas gerações.

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