quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pelada sagrada


Cabuçu ainda mantém a tradição do futebol de várzea
por Juliana Portella , Jeniffer Braz e Adriana de Souza

Na estrada que liga o bairro de Cabuçu ao município de Queimados, a Av. Severino Pereira, há um campo de futebol onde a rapaziada se reúne todos os domingos para bater aquela “bolinha”. É o Campo da Beira-Rio. A primeira pelada começa às sete horas da manhã, logo depois da oração puxada por Seu Souza, de 47 anos. Souza alia as funções de jogador com a de presidente do Boêmio, clube fundado em 1922. O adversário do último domingo foi o Botafoguinho, um de seus mais tradicionais rivais.

O time do Boêmio exige um requisito dos seus atletas: ter mais de trinta anos. Todos os seus atletas são moradores do bairro. Seu diretor, o Pedrão, chega querendo ser entrevistado, e dá a notícia, muito animado, de que, no dia 16 de maio, seu time vai jogar em Minas Gerais, na cidade de Belmonte. Embora seja bem mais novo que o Botafoguinho, que existe há 33 anos, o Boêmio não perde para o rival há três peladas. O presidente do Botafoguinho é o ex-goleiro Mário, de 59 anos. Apesar do nome, o Botafoguinho aceita vascaínos, tricolores e até mesmo flamenguistas.

A pelada começou onde hoje funciona o Ciep – 075. Desde aquela época, os rachas eram prestigiados por torcedores. Eles costumam acompanhar as peladas sentados em banquinhos protegidos pela sombra. Um dos torcedores mais fiéis é Gustavo, de apenas 10 anos. Ele vai ver o pai, o zagueiro Miguel. Apaixonado por futebol, o menino não reclama de acordar cedo no domingo. "Quando crescer quero ser jogador de futebol", diz Gustavo, com um sorriso no rosto.

Pelé de Cabuçu
Um dos craques da pelada é o atacante João André, que há 16 anos defende as cores do Botafoguinho. Com 40 anos, esse operário da construção civil é mais conhecido como Pelé. "Até minha esposa me chama assim", diz ele. Seu sonho de menino era se tornar jogador de futebol, mas não teve oportunidades de treinar em um clube profissional. Ele não perde uma pelada aos domingos.


Tão sagrada quanto a oração que a precede é a cervejinha compartilhada quando a pelada acaba., no bar em frente ao campo. "A gente fica aqui até a hora do almoço", conta Souza, o presidente do Boêmio. Duas vezes ao mês essa cervejinha se estende tarde a fora, enquanto os peladeiros assam uma carne. Tipicamente masculino, o programa dominical só conta com presença feminina nas comemorações de fim de ano. "Aí a gente chama a família e vai para um sítio em Jardim Laranjeiras", diz Mário.

Além da presença da família, as peladas de fim de ano mobilizam um número bem maior de jogadores. É que nesses ocasiões eles disputam uma espécie de campeonato, onde o time perdedor arca com as todas as despesas do churrasco de fim de ano.

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