terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Bazar iguaçuano






















Camelôs ganham mais do que trabalhadores da economia formal
por Flávia Ferreira
fotos: Flávia Ferreira e Letícia da Rocha

A crise mundial deve agravar a situação, mas não é de hoje que o número de trabalhadores informais aumenta de ano para ano. Basta você sair pelas ruas de Nova Iguaçu, ou de qualquer outro centro urbano, para perceber as estratégias de sobrevivência das camadas populares. Vende-se de tudo, para todos os gostos: balas, roupas e calçados, até material esotérico.

O potiguar Francisco de Assis Guilherme, 64 anos, faz parte do exército de ambulantes que diariamente se apossa das ruas de Nova Iguaçu. Com 43 anos de Rio de Janeiro, ele transporta produtos esotéricos de Austin, bairro onde reside, até o centro de Nova Iguaçu. Faça chuva ou faça sol, ele monta sua barraca no camelódromo do Calçadão.

A história de Seu Francisco nas ruas começou há cerca de 22 anos, na longínqua Copacabana. "Vim para cá em 1993, porque a vida na Zona Sul é muito cara e, por mais que ganhasse, não compensava." Os lucros obtidos com a barraca do camelódromo de Nova Iguaçu, onde o forte cheiro de incenso se mistura com o nauseabundo odor de urina, estão longe de ser espetaculares. "Mas a vida aqui é muito mais barata."

O interesse do ambulante pelos produtos que vende não tem a menor relação com sua opção religiosa. Ele estava apenas querendo se livrar do regime de semi-escravidão, vivido em seu último trabalho formal, na Labiceramica. "Saí de meu emprego porque eu trabalhava doze horas por dia", lembra o ambulante, que não se arrepende de ter investido no próprio negócio.

Mais tempo com a família
Na contabilidade do vendedor de churros Jonas Paz da Silva, 34 anos, entra na coluna de vantagens a possibilidade de passar mais tempo com a família proporcionada pelo trabalho informal. "Se trabalhasse no mercado formal hoje, não conseguiria estar próximo à minha família, porque a carga de trabalho é abusiva", contou ele enquanto preparava os churros para a fila de clientes.

No entanto, essa não é a única razão para ele sair diariamente de Boa Esperança, para vender seus churros no centro de Nova Iguaçu. Além da dificuldade de se conseguir uma posição no mercado formal, há a falta de escrúpulos das empresas na hora de se desfazer de seus funcionários. "Quando você é mandado embora, tem que brigar na justiça por seus direitos", lamenta. Para garantir o "pé-de-meia", o vendedor de churros paga autonomia e faz aquela economia bem brasileira de centavo em centavo. Em média, ele tem um lucro mensal de R$ 1 mil.

Dupla sertaneja
Nádia Pires Fortes, 38 anos, recorreu ao comércio ambulante de sanduíches, salada de frutas e tortinhas com a inesperada demissão do marido. "Minha irmã Neide me chamou para trabalhar com ela depois que o meu marido e o dela ficaram desempregados", diz. Mas, com a reentrada dos respectivos cônjuges no mercado de trabalho, a única mudança na vida das duas foi a separação da dupla que fizeram ao longo de cinco anos.

Fazer sozinha o circuito pelas agências bancárias e repartições públicas de Nova Iguaçu já não tem o mesmo charme da época em que vendia seus produtos com a irmã, com quem tem uma enorme semelhança física. "Como jogada de marketing, nós andávamos com roupas iguais", lembra ela. As irmãs chegaram a ser comparadas às cantoras Pepê e Neném, que na mesma época faziam sucesso nas rádios. Com ou sem companhia, os ganhos de Neide continuam expressivos para uma trabalhadora pouco qualificada. "Ganho cerca R$ 75 por dia", contabiliza.

Priscila Santos, 25 anos, não gosta de andar muito. Há três meses, cansada de ganhar um salário mínimo nas lojas em que trabalhava, ela monta sua banca vendendo capas de celulares no calçadão de Nova Iguaçu depois das 19 horas. "Aqui o dinheiro é certo e muito maior", diz ela. Embora não revele quanto fatura nas calçadas de Nova Iguaçu, o dinheiro que ganha como camelô é suficiente para pagar as próprias dívidas e sustentar a irmã mais nova, de 15 anos. Priscila não troca a liberdade do trabalho informal, onde trabalha o tempo que quer e no lugar em que quer, por nada.

2 comentários:

  1. Tem alguns que estão há tanto tempo trabalhando no mesmo local que já viraram figuras importantes, o Sr.Francisco de Assis é um deles, sempre vejo. Ótima matéria!

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  2. quanto um vendedor de churros ganha?? por mes

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