segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Meu padrasto é o maior barato

Padrastos podem (e devem) ocupar o lugar de pais biológicos ausentes
Jeisiane Caetano, Wesley Caetano, Patrícia Toledo

Algumas coisas, a gente não escolhe. Os pais são apenas um item de uma coleção que passa pelo nosso nome e pelos irmãos. A gente também não tem direito a meter o bedelho nos homens com que nossas mães resolvem refazer suas vidas, quando elas descobrem que os casamentos só são para sempre na Bíblia.

Não poder escolher o padrasto tem sido uma grande tragédia para a juventude da periferia das grandes cidades brasileiras, inclusive Nova Iguaçu. Mas alguns sortudos terminam sendo criados por homens muito melhores do que os seus pais biológicos, como é o caso de Wendell Harison Caetano. "Eu me identifico mais com meu padrasto do que com meu pai", afirma, convicto, esse morador de Austin de 14 anos.

Caetano tem os seus estresses com o padrasto, mas, no geral, a relação dos dois é "tranquila", como ele próprio define. "Meu padrastro é nota 10." A também estudante Ane Kelly Lima, de 14 anos, só dá nota oito para o novo marido de sua mãe, mas já se rendeu ao fato de que ele é o seu verdadeiro pai. ''No começo, não aceitava a idéia de ter um padrasto", confessa a filha de Sebastiana Lima, que mora na Palhada.

Mão estendida
Todo adolescente acha que já sabe o que é bom ou ruim para sua vida. Mas na hora do aperto eles abrem mão de suas convicções e aceitam a primeira mão que lhes é estendida. Geralmente, esse apoio vem mais do padrasto do que do pai biológico. "Meu padrasto me apoiou em várias situações difíceis", revela Ane Kelly.

O dia-a-dia da periferia mostra que parte dessa aliança se deve mais aos defeitos do pai biológico do que do padrasto. "Não convivo com meu pai", conta Jessica Caetano, uma moradora da Pallhada de 18 anos. É nesse espaço que os enteados e os padrastos estreitam os laços.

Uma história de uma relação entre enteado e padrasto construída no vácuo da figura paterna é a Wallace Eduardo da Silva, morador do bairro Barata. "Ele (Roque) me cria desde quando tinha quatro anos", explica esse botafoguense roxo, mais conhecido como Eduardo. "Por isso, sempre o vi como o meu verdadeiro pai."

Tratamento igual
Não é muito diferente a leitura que Luiz Fernando da Silva, um morador da Palhada de 19 anos, faz do padrasto. "Meu pai biológico não vive comigo e não me ajuda em nada", desabafa. Mas se engana quem pensa que essa carência fez dele um jovem triste ou revoltado. Um recente exemplo de sua relação com o padrasto mostra como ele preencheu o buraco deixado pelo verdadeiro pai. "Ele me ajudou a pagar minha habilitação e me apoiou quando resolvi morar sozinho."

A mãe termina desempenhando um importante papel para que os padrastos façam aquilo quena verdade deveria estar sendo feito pelo pai biológico. "Minha mãe sempre me ensinou a respeitá-lo", conta Eduardo. A mesma mãe exigiu uma contrapartida do padrasto. "Meu padrasto me trata igual aos meus meio-irmãos", comemora.

Na família de Fernando, no entanto, o padrasto teve que estender o afeto para os filhos que encontrou na casa. Foi por fazer aquilo que o pai biológico devia ter feito qe o padrasto de Fernando ganhou o respeito e admiração de todos. "Todos na minha família gostam dele", diz Fernando. E finaliza: "O verdadeiro pai é quem cria."

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