por Breno Marques
Fotos: Mazé Mixo
Na Praça da Liberdade, o gari Valdecir Nunes, faça chuva ou faça sol, faça frio ou calor, faz sua pregação há exatos seis anos e meio. Nascido e criado em Nilópolis, Valdecir tem 36 anos e uma missão: “Limpar as almas, em nome de Jesus”.
"Quando fui chamado pra trabalhar, aceitei o convite logo de cara", diz Valdecir, que, além de varrer as ruas da cidade, “varre também as almas perdidas". Escolheu a Praca da Liberdade para fazer suas pregações porque ali acontece de tudo. "De noite as pessoas se drogam, bebem, e até se prostituem." A ressaca física e espiritual facilita a aceitação do amor de Jesus.
O culto é feito com uma pequena caixa de som, um microfone e um DVD. Embora não seja feita em uma igreja, a pregação tem suas regras. Ao meio-dia, tem inicio com músicas e orações. Os fieis também têm a oportunidade de cantar ou passar sua mensagem, seguida da pregação com um fundo musical. O ritual termina com a "Oração da Vitória", quando todos participam.
O culto atrai a curiosidade dos transeuntes, mesmo daqueles que não são muito chegados à palavra de Deus. "Acho que existem muitas pessoas que precisam ouvir uma palavra de incentivo pra continuar lutando", diz o representante comercial Armando Amazonas, 50 anos. Ele se emocionou com a palavras do pastor Valdecir, ouvidas no culto da última quarta-feira.
Gritaria
Alguns comerciantes reclamam do som muito alto, afugentando os fregueses e atrapalhando as vendas. "Às vezes, fica difícil demais vendermos aqui na porta", queixa-se Márcia Cunha, 37 anos, vendedora do Ponto Frio. "Ele grita tanto que as pessoas desistem da compra, porque ficam estressadas."
A enfermeira Emmanuelle de Souza, de 58 anos, também não tem a menor boa-vontade em relação ao pastor gari. O incômodo da enfermeira, que passa os dias medindo a pressão arterial em uma mesa de bar na Praça da Liberdade, tem razões religiosas e científicas. "Querer que todos adotem sua religião é fanatismo", protesta Emmanuelle, que se sente atacada com o discurso contra a macumbaria de Valdecir.
Língua dos anjos
Alguns acontecimentos estranhos ocorrem durante o culto. O pastor e os obreiros começam a falar idiomas estranhos, frases desconexas. É a famosa língua dos anjos, que falam espontaneamente movidos por um impulso celestial.
Quando se aproxima o final do culto, as pessoas formam um circulo em volta do altar improvisado, e juntas começam a orar em voz baixa. Apenas o gari pastor fala ao microfone, encerrando a pregação.
É necessário voltar á dura labuta do dia a dia. O encarregado é rigoroso quanto aos horários. "Tenho que arrumar isso, o mais rápido possível, porque se meu encarregado chega aqui e eu ainda estou pregando ele arranca meu coro", diz Valdecir olhando para todos os lados a todo o momento.
Enquanto Valdecir arruma os apetrechos da fé: Bíblia, musicas e o microfone, dois obreiros correm com a caixa de som e a guardam em uma ótica, onde o dono apoia o culto.
Tempo para Deus
Valdecir diz fazer seu oficio com dignidade e correção. "Estou aqui há seis anos e nunca reclamaram do meu serviço, a não ser aquelas pessoas que nunca estão satisfeitas com nada", diz o gari, dando risadas. Nada fará Valdecir largar seu horário, das sete da manha às três e vinte. Recusou todas as ofertas de trabalho cujo expediente roube suas noites. "Quem trabalha de noite não tem tempo de ir à casa de Deus."
Valdecir conta que não sabia ler. “Um dia entrei no quarto com vontade de ler a Bíblia e comecei a chorar, soletrando um versículo, assim aprendi a ler.” Antes de libertá-lo da ignorância, a religião o salvou das drogas e do próprio crime.
Ele praticamente já faz parte da Praça da Liberdade, é raro eu passar por ali e não vê-lo. Não imaginava que ele já estivesse ali há seis anos e meio!
ResponderExcluirMuito interessante saber um pouco mais sobre a história dele e sobre o que as pessoas ao redor acham :)