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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Abandono precoce

Pais adolescentes dificilmente assumem a paternidade.

Por Carla de Souza Domingues e Lucília da Soledade Eleutério

Há muitos pontos em comum entre os chamados casos de gravidez precoce, mas um que salta aos olhos até dos observadores menos atentos é que os pais das crianças sempre saem de cena.

"Não sei o que o pai do meu filho faz no momento", diz Sheila de Souza Conceição, que engravidou com 16 anos e hoje, mãe de um bebê de nove meses, dá-se por uma felizarda porque recebe pensão alimentícia do pai da criança.

Sheila, que mora com os pais, teve a mesma sorte que Juliane Jesus da Costa, que também engravidou com 16 anos. "O sustento da criança vem do pai da criança, mas minha mãe também ajuda", diz ela.

Gravidez tumultuada

Como Sheila e Juliane, Thamires Gomes da Silva foi abandonada pelo namorado. Mas a situação dela é bem mais dramática do que a de suas companheiras de infortúnio. Além de não contar com ele para pagar as fraldas do seu filho de um ano, Thamires teve uma gravidez tumultuada por causa das constantes discussões com o namorado. "Ele demorou a aceitar o fato de que seria pai aos 18 anos."

Além dos conflitos com a dificuldade do namorado de aceitar a paternidade, Thamires teve que engolir a notícia de que ele a traía com uma menina que se dizia sua amiga. Para dar cores ainda mais dramáticas ao seu caso, o ex-namorado e a ex-amiga acabaram de ter um filho.

Prazeres da juventude

Thamires hoje se sente feliz com o fato de ter voltado a estudar e, principalmente, de estar reconciliada com a mãe. "Ela demorou a se acostumar com a idéia de que sua única filha mulher estava grávida", conta ela, que hoje está com 18 anos.

Criada na igreja evangélica, Gisele Silva, que engravidou aos 17 anos, enfrentou a um só tempo a crítica dos pais e a dificuldades de seu jovem namorado abrir mão dos prazeres da juventude. Hoje com 22 anos, a primeira conquista de Gisele ao engravidar foi incluir os seus pais e os sogros na conversa com o namorado. "Mas nós terminamos logo depois que minha filha nasceu", conta ela, que hoje estuda enfermagem e está casada com um homem que trata sua filha como se fosse o pai biológico.

Quem é o pai?

A jovem repórter Carla de Souza Domingues, que engravidou aos 15 anos, hoje recebe pensão alimentícia do ex-namorado, que hoje trabalha na empresa de ônibus Salutran. Mas sua história foi ainda mais complicada do que a de Gisele. "Quando descobri que estava grávida, o namoro com o pai da minha filha tinha acabado havia dois meses", conta Carla.

Carla passou por situações humilhantes com o namorado, que desconfiou que a filha não fosse dele. "Ele disse que eu só queria o dinheiro dele", lembra Carla, hoje com 18 anos. Ela teve essa discussão com o namorado no dia em que lhe pediu ajuda para fazer o aborto, que cogitou ao saber que estava grávida.

DNA

O desfecho dessa história foi menos traumático do que o de Raylena Dias de Oliveira, que engravidou aos 13 anos. "Mesmo depois de ver que a criança era a cara dele", conta a menina, "ele não hesitou em pedir o exame de DNA." Mesmo com o resultado positivo, o pai do filho de Raylena demorou dois anos para reconhecer a paternidade do seu filho. Como todos os outros pais precoces, ele deixou Raylena na pista.

De certa forma, Raylena teve mais sorte do que Lucélia Rafael, que engravidou aos 14 anos e foi abandonada pelo ficante depois de lhe informar que aquele amor de baile funk dera frutos. "Lá se vão dois anos e aquele cafajeste não admite nem fazer o DNA", queixa-se Ivanil Meireles Rafael, a avó da criança.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Avós precoces

Drama da gravidez precoce também abala a vida das mães, que assumem a criação dos netos.
Texto e fotos por Flávia Sá

Conhecida em Jardim Iguaçu como dona Vani, a dona de casa Ivanil Meireles Rafael tinha grandes planos para a filha Lucélia Rafael, que era uma estudante de 14 anos. "Queria que ela se formasse", conta a mãe, que em nome desse ideal vencia os pudores para conversar abertamente sobre sexo com Lucélia e alertava para a necessidade do uso de preservativos.

Apesar dos cuidados de dona Vani, Lucélia resolveu se entregar a Victor, um ficante pelo qual havia caído de amores. E engravidou. "Eu não sei o que me deu direito", lembra dona Vani, que passou toda a gravidez da filha perturbada. "Só sei que não queria que aquilo estivesse acontecendo."

Como dona Vani temia, Victor, o pai da sua neta Victoria, não assumiu a criança. "Lá se vão dois anos e aquele cafajeste não admite nem fazer o exame de DNA", lamenta a dona de casa, embora hoje esteja muito feliz com a neta Victoria e com o fato de a filha Lucélia ter voltado para a escola. O drama de Dona Vani é semelhante ao de muitas outras mães de Nova Iguaçu, que se tornam elas próprias mães tardias e avós precoces.

Esse foi o caso da doméstica Cristiane Oliveira, que, aos 33 anos, viu a filha Deiseré engravidar aos 12 anos. Houve, no entanto, duas grandes diferenças em relação ao drama vivido por dona Vani. Em primeiro lugar, o rapaz que engravidou sua pequena Deisiré assumiu a tanto a relação com a filha quanto paternidade da criança. Também foi muito diferente a reação de Cristiane ao saber da gravidez de Deisiré. "Só ficaria espantada se fosse num outro tempo", diz Cristiane. "Hoje em dia é normal ter filho com essa idade."

Esses netos inesperados e de certa forma indesejados produzem verdadeiras revoluções na vida dessas mulheres, mas com freqüência eles ganham o status de "uma nova razão para viver". "Eu nunca pensei que fosse amar tanto o Vladimir", afirma a cozinheira Joaquina Duarte, a mãe adotiva de Sabrina Carmo, uma adolescente rebelde que engravidou aos 14 anos.

Esse final feliz foi surpreendente para Joaquina, que, quando soube da gravidez de Sabrina entrou num desespero semelhante ao de dona Vani. "Queria que fosse um pesadelo, sabe?", lembra Joaquina. Além de ter uma relação difícil com a filha adotiva, preocupou-se com a ingenuidade de Sabrina. "Ela não lavava nem as calcinhas", diz. "Como é que ia lavar as fraldas de xixi e cocô?"

Uma pessoa um pouco menos atenta pode confundir a história de Joaquina com a da cozinheira Silvana Xavier Dias, mãe de Raylene Dias de Oliveira, que engravidou aos 13 anos. "Era uma criança esperando outra", lamenta. Como Joaquina, Silvana tinha uma relação difícil com a filha Raylene, que "era uma menina da pipa voada". Também como a mãe de Sabrina, a mãe de Raylene se encantou pela neta. "Ela é a minha razão de viver", afirma. "E vou a todos os lugares com ela." Até quando viaja.

A biografia dessas mães também se confunde no tocante ao sentimento de culpa que invadiu o coração delas ao receber a notícia da gravidez das filhas. A cozinheira Joaquina, a mãe de Sabrina, e a dona de casa Neuza Ribeira, mãe de Gleice Kelly, se sentiram traídas pelas filhas. "Eu confiava plenamente neles", conta Joaquina. "Nunca imaginei que isso pudesse acontecer, mas eu tive uma parcela de culpa nisso porque dava muita liberdade a Sabrina." Gleyce Kelly, que estava com 17 anos ao engravidar, era uma mulher comparada a Sabrina, que na época tinha 14 anos. Mas dona Neuza também ficou possessa com a filha. "Confiei muito nos dois."

Mas Gleyce teve mais sorte do que Sabrina, pois o namorado, embora tenha sido irresponsável durante o namoro, não titubeou ao assumir tanto a relação com a mulher quanto a paternidade de Victoria. Infelizmente, o destino não bafejou a dona de casa Maria Eunice Menezes e sua filha Aline Menezes, que engravidou dos 15 para os 16 anos. Com uma história marcada por tragédias pessoais, Maria Eunice entrou em desespero quando soube da gravidez da filha, há cerca de dez anos. "Minha filha não ouvia ninguém e só queria saber de farra e essa droga de baile", lembra, emocionando-se.

Maria Eunice conhecia bem o pai do seu neto, um puxador de carro da vizinhança conhecido como Bebeto. Mas mesmo sabendo que aquela história não ia acabar bem, principalmente quando a filha "rebelde e desaforada" apareceu grávida mais uma vez. "Eu falei pra ela se virar, aquilo era o fim da picada", diz Maria Eunice num acesso de raiva, como se estivesse revivendo o drama. "´Não, não, chega´, eu falei pra ela."

Os fatos logo comprovaram a velha tese de que coração de mãe não se engana. "Ele chegou a bater na minha filha mesmo grávida", recorda. Maria Eunice pensou em chamar a polícia, mas resolveu lavar as mãos. "Botei a vida da minha filha e dos meus netos na mão de Deus", conta. O desfecho daquela história se deu num domingo em que o Flamengo estava decidindo o campeonato carioca de 2001 com o Vasco da Gama. "Os bandidos deram dois tiros na testa do Bebeto."

A filha Aline passou um tempo foragida, pois os bandidos disseram que ela sabia demais. "Ela deixou os filhos comigo e sumiu", lembra Maria Eunice. Mais uma vez, porém, o tempo foi o melhor remédio. "Agora já está tudo melhor", diz Maria Eunice, que enfim reuniu a família toda numa mesma casa. Além de estar morando com a mãe, a filha Aline percebeu com quem pode contar nas horas mais difíceis. "Graças a Deus, ela se deu conta que sua amiga sou eu e está me tratando melhor."

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Ouça sua pele

Programa Laranja da Terra comemora o 13 de maio com um programa sobre o racismo
Por Flávia Ferreira Fotos: Maryane Dias e retiradas da internet

O racismo é uma forma de pensar, onde se dá grande importância à distinção das raças humanas. Nele se manifestam ideais de superioridade, seja por características físicas seja por traços de caráter e inteligência. O racismo é a mãe de todos os preconceitos.

Muitas vezes, a diferença de raças foi utilizada para justificar a escravidão, o domínio de um povo sobre outros e os genocídios que ocorreram durante toda a história da humanidade, dentre os quais o mais conhecido de todos foi a experiência nazista na Alemanha. Eles, além de odiarem os comunistas, odiavam e massacravam judeus e homossexuais, em campos de concentração nazistas.

No século XXI, os negros são as maiores vítimas do racismo, particularmente aqueles que pertencem às classes menos favorecidas. No entanto, o preconceito de cor independente de sexo, religião e condição econômica. "Um criminoso negro é muito mais perseguido do que um criminoso branco", afirma o agitador cultural João Ricardo dos Santos, de 36 anos. "Os grandes assaltos não são praticados pelos negros e no entanto nós vemos muito mais companheiros negros na cadeia do que os brancos."

Talvez seja por isso que só foi alvo de racismo explícito na adolescência, quando a mãe de uma namorada chegava a cuspir ao vê-lo. "Não sei se por ser alto, andar sempre alinhado, sertrabalhador e honesto, mas o fato é que as pessoas me observam de outra forma."

Mas ele não é o único a pensar assim. A médica Tereza Chagas Correia, 43 anos, nunca foi vítima do que poderíamos chamar de racismo explícito. Mas a razoável condição econômica que o diploma universitário lhe deu não a livrou de algumas situações no mínimo embaraçosas. Um desses constrangimentos ocorreu em João Pessoa, em um congresso de médicos de que participou. "Um dos médicos que estavam participando de evento social do congresso me confundiu com uma garçonete e pediu para que fosse comprar cigarro para ele", lembra.

A médica não se abalou nem no momento em que explicou que não trabalhava no restaurante nem quando o companheiro de profissão a procurou para se desculpar. "Ele ficou meio sem graça quando percebeu a gafe que cometeu, ao deixar o seu racismo falar mais alto", conta.

Uma situação semelhante experimentada pelo assistente social Marcos Mariano, 38 anos, é mais uma prova de que o diploma não é um escudo à prova de racismo. "Quando me formei, tive a oportunidade de ser promovido a coordenador do setor em que já trabalhava", lembra Mariano. "Só que as pessoas não aceitavam ser chefiadas por um negro e simplesmente ignoravam as minhas orientações e minhas ordens." Não custa lembrar que a instituição em questão ficava dentro de uma comunidade carente.

O mercado de trabalho parece ser uma reserva ecológica para os racistas, mas eles também são encontrados até nos nichos progressistas das universidades públicas. A estudante Érica Cardoso, cotista da Faculdade de Serviço Social da UERJ, sentiu-se discriminada tão logo começaram as aulas. "Uma professora tratou todos os negros como cotistas", lembra.

O problema cresceu de modo exponencial na eleição do DCE de 2006, em que uma das chapas era formada por um coletivo de negros. "Foi um reboliço total", conta. "Os brancos acharam um absurdo um grupo de negros organizados e nos acusaram de racistas às avessas."

O amor é um outro campo minado para os negros, como recorda Rafael Soares, mais conhecido em Nova Iguaçu como o músico e agitador cultural Nike. "Quando era adolescente, namorava uma menina branca de olhos verdes." Certa feita, a mãe dela o abordou e disse que não queria pentear cabelo duro, numa alusão a possível neto que pudesse nascer da relação do músico com a filha dela. Como se não bastasse, uma amiga desta namorada escreveu uma carta em que registrava o seu desapontamento com o namoro. "Vocês está quebrando uma corrente", dizia a carta. "Nós só íamos ficar com os meninos bonitos."

Os policiais também são considerados protagonistas contemporâneos do racismo. O militante gay Felipe Rodrigo, 16 anos, lembra do dia em que foi buscar uma prima, que é loura, na escola. "Fui abordado por um policial", conta. "Ele só acreditou que eu não estava seqüestrando a menina depois que telefonei para minha tia."

O músico e atleta Maicon Christian, 18 anos, passou pelo mesmo constrangimento em sua segunda ida à Central do Brasil. "Uns moleques de rua tentaram levar minha mochila e, quando ele percebeu que não estavam armados, correu atrás deles. "Mas fui parado por um policial, que não acreditou quando disse que havia sido assaltado e chegou a apontar uma arma para mim." Se não fosse uma testemunha, a vítima de um assalto teria sido levado para uma delegacia. As estatísticas da polícia mostram que o maior crime do Rio de Janeiro é ser negro.

As elites econômica até tentam mascarar o seu racismo, mas, como se pode perceber pela história do pastor Samuel de Oliveira, da Assembléia de Deus de Miguel Couto, elas não conseguem disfarçá-lo muito bem. "Uma vez que fui a um restaurante de luxo com um amigo e percebi no olhar dos demais clientes o desconforto com a minha chegada", relata. O constrangimento chegou a um ponto tal que o amigo do pastor foi tirar satisfações com o gerente.

"É uma tremenda burrice ter preconceito no Brasil, já que somos um país totalmente misturado." João Ricardo dos Santos, agitador cultural.

"O preconceito está muito latente no Brasil".
Marcos Mariano, assistente social.

"O preconceito é um dos crimes mais hediondos. Somos todos iguais em nossa composição, independente da cor. Viemos de um lugar e voltaremos para um mesmo lugar. O pó".
Samuel de Oliveira, Pastor.

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