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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Um lugar chamado Cacuia

Dona Diva guarda no coração as memórias do bairro em que mora há 40 anos

Por Tatiana Sant'Anna


Cacuia. Um nome nada convencional para se chamar um bairro, localizado no município de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Diferentemente do seu nome, o Cacuia é um bairro movimentado, sendo tranqüilo para se viver e morar. Há 40 anos morando no Bairro, a artesã Diva de Jesus, 61 anos, diz que gosta de onde mora: "É um lugar calmo e sossegado", completa.

Dona Diva viu o seu bairro crescer e muitos acontecimentos já se passaram na história desse lugar. Morando no Parque São Tiago, que pertence ao Cacuia, ela conta que sempre sonhou com sua casa própria. "Eu tinha pouco tempo de casada e morava em uma casa alugada no bairro da Posse. Por algum tempo, morei no local, mas, por causa do aluguel, que estava ficando caro, senti necessidade de me mudar. Como sempre tive o sonho da casa própria e surgiu a oportunidade de comprar este lote, construí minha casa e mudei para cá."

Iluminação precária

Na época, foi feito um loteamento de uma fazenda e Dona Diva comprou um lote. Isto facilitou para o aumento da população da localidade. Mesmo sendo um pouco longe da sua família, Diva decidiu vir morar apenas com o seu esposo e com a sua primeira filha.
No centro do bairro, havia apenas dois comércios: uma padaria velha (que foi reformada tempos depois) e um armazém (que depois foi demolido, dando lugar a um novo comércio). Era um bairro muito precário. "Só havia luz no centro. Era uma iluminação precária, chovia e faltava luz. Naquele tempo não tinha asfalto. Se quisesse pegar ônibus, tinha que andar uns 15 minutos para chegar ao ponto, que era no centro do Cacuia".

Utensílio indispensável

Mesmo com essas precariedades, o local era bem movimentado. Segundo Dona Diva, o bairro só foi prejudicado após a Light ter passado três redes de alta tensão. Muitas casas foram demolidas, pois não pode haver construções embaixo das torres, e a população do lugar foi diminuindo. O centro do Cacuia não foi prejudicado, o que só contribuiu para o aumento da população central.
Há pouco tempo foram realizadas obras do PAC, que fizeram muitas melhorias no bairro. Muitas ruas foram asfaltadas, inclusive a da Dona Diva. "Estou muito satisfeita com a obra e mais ainda com o asfalto." Quando chovia, era impossível sair de casa. Aliás, a sacola plástica era um utensílio indispensável nos pés da população. Agora quando chove, não precisa ter mais aquela preocupação. "Foi uma melhoria muito boa. Valeu a pena as obras que fizeram aqui."

domingo, 10 de agosto de 2008

Parabéns para nós

O primeiro aniversário do Jovem Repórter segundo sua repórter mais publicada.

Por Flávia Ferreira

Hoje faz um ano de trabalho e de luta do blog Jovem Repórter e conseqüentemente um ano de mudança na vida de muitos jovens que participaram dessa criação. Esse blog evidencia aquilo que, por muitas vezes, fica esquecido pela grande mídia e por nós mesmos. A essência de suas matérias é o povo que mesmo diante de tantas dificuldades não desiste de lutar por sua vida.

Ocorreram uma série de mudanças na rotina dos jovens repórteres no decorrer deste ano. O que no início não tinha uma forma exata, aos poucos foi se adequando às necessidades da cidade e suas particularidades, tornando-se esse espaço de desenvolvimento profissional e pessoal para as pessoas que nele se envolvem. Ouso dizer que a partir do momento que ingressaram neste local, eles conseguiram ser protagonistas de sua cidade. Sabemos o quanto é difícil criar políticas públicas para a juventude. Além de despertar o nosso interesse por uma mídia, essa forma de trabalho cria o exercício de cidadania em cada um.

Uma semana

Lembro-me agora de Letícia da Rocha, que superou seu medo de escrever, e de Bruno Marinho, que a cada dia se torna um melhor comunicador. Eles e muitos outros deixaram de ser apenas meros iguaçuanos para se tornarem jovens com uma história na cidade, construindo-a a cada nova reportagem. Muitas pessoas não enxergam as possibilidades que esse trabalho pode trazer, esquecendo-se de olhar o que mudaram em si e de perceber que o Jovem Repórter é muito mais que um mural de notícias. Ele é uma parede de vidas. Elas se transformam a cada postagem, aprendendo coisas que de outra forma não teríamos a menor chance de conhecer.

Foi através do Jovem Repórter que consegui tudo em minha vida e realmente me descobri profissionalmente. Não esperava estar hoje escrevendo para vários locais, como TC Brasil, Baixada Fácil, O Globo ou o Bloco 18, mas as coisas acontecem. Eu não nasci com o dom de escrever. Demorei uma semana para publicar minha primeira matéria, mas acredito que o esforço nos leve mais longe do que imaginamos.

Teia de comunicação

Várias vezes alguns jovens tiveram que deixar seus filhos em casa, outros cansaram de brigar com irmãs, mães – enfim, as batalhas foram muitas, mas no final sempre dávamos um jeitinho para continuar participando do processo. Não é segredo falar que muitas vezes fomos chamados de vagabundos, inúteis e uma série de outras acusações injustas. Porém, esses jovens, mesmos desanimados e chateados com a situação, não deixavam de ir às ruas batalhar pela matéria e foto de cada dia.

Hoje só existe a Flávia porque o Jovem Repórter assim permitiu. Minha história se confunde com a dele, que se confunde com a de muita gente em uma grande teia de comunicação. A cada desafio, a cada "levantada de rede", ela se entrelaça e se fortalece, trazendo mais pessoas para participar da escrita desse livro que não é só nosso, mas de toda Nova Iguaçu. Cidade essa que nos possibilitou crescer e amadurecer, não nos tratando apenas como jovens, mas como profissionais e seres humanos.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Um truque preparado pela vida

Jovem repórter faz mágica e tira a história do pai da cartola

Por Breno Marques

Fotos: arquivo de família

Ramon Ferreira Marques foi um artista circense. Nasceu em 1950 em Juiz de Fora, Minas Gerais. Começou ainda jovem ao lado do pai, o mágico Professor Astro. Sua primeira apresentação foi como o palhaço Espoleta, aos 5 anos de idade. Sua iniciação como mágico se deu aos 14 anos, fazendo truques fáceis que não exigiam muita técnica. Com o tempo, Ramon saiu de casa e passou a trabalhar em circos mais conhecidos, como o Bartholo, na Itália, e o Real Madrid.

Com o passar do tempo, o mágico Ramon se entrou de vez na vida circense. Montou seu próprio circo, o The Pink Panther Show, com um amigo chamado Oséias. O circo era apresentado em escolas, terrenos, teatros e praças de diversas cidades do país.

Uma pessoa agitada

"Ramon era uma pessoa muito agitada", lembra Oséias. "Ele sempre queria que as coisas fossem perfeitas. Trabalhei com ele muitos anos. Foi ele quem me deu meu nome de palhaço: Lambança, porque ele falava que eu só fazia merda.''

Em 1976, Ramon foi almoçar com a família de seu amigo Pedro, na Rua Lafaiete Pimenta, no bairro Califórnia , Nova Iguaçu. Foi nesse dia que conheceu Leila Alves Pereira, uma jovem de 14 anos. "Não gostei do Ramon na primeira vez", diz Leila, sua atual esposa. "Achei ele muito brega, se vestia mal e se achava muito importante.''

Ramon se apaixonou por Leila. Começou a visitar sua casa , onde fazia de tudo para chamar a atenção. Ela enfim cedeu, e menos de um ano depois começou a sentir fortes dores na barriga, acompanhadas de enjôos e muito fraqueza. "Um dia desmaiei na frente de uma farmácia, ao lado de minha mãe, e fui socorrida pelo farmacêutico." Feito os exames, ele deu a noticia: estava grávida.

Aos 15 anos de idade, Leila teve seu primeiro filho com Ramon. Sua mãe obrigou-a a se casar, embora Leila não gostasse da idéia. "Eu não queria casar com ele", conta ela. "Eu era muito nova, mas minha mãe me obrigou a casar. Ela disse que não queria que eu a envergonhasse. Lembro-me como se fosse hoje. Antes de entrar no altar, eu fiquei em frente a uma penteadeira que eu tinha e comecei a chorar.''

Leila e Ramon deram à luz a uma menina, Luciene Alves Marques. Dez meses depois, deram à luz a outra menina, Patrícia Alves Marques. Doze anos mais tarde, nasceu Breno Alves Marques, o único filho homem do casal. Depois de casada, Leila foi trabalhar no circo com Ramon, e virou sua assistente de palco. O casal se apresentou em diversos lugares do Brasil e do Paraguai.

The Pink Panther Show virou sucesso e foi parar na televisão. O mágico Ramon teve uma apresentação no Angel Mix, programa apresentado por Angélica, e participou de eventos como a Festa de Natal no Maracanã.

Nessas viagens conheceram algumas celebridades, como os artistas Cazarré, Alcione Mazzeo, Tony Ramos, Osmar Prado, Agnaldo Timóteo, Os trapalhões e Andréa Beltrão, entre outros.

Traído pelo destino

Em um dia de apresentação numa praça, a luz do circo acabou e o espetáculo foi interrompido. "Como era um perfeccionista", lembra a esposa Leila, "ele ficou multo irritado com aquele contratempo." No dia seguinte, Ramon foi até o poste principal para ver o que havia acontecido, pegou uma escada velha do circo e subiu. A escada balançou e Ramon tentou se equilibrar segurando nos fios a sua frente. "Ele tomou uma forte descarga elétrica", conta Leila, "e perdeu neurônios importantes. "

Com o passar dos tempos, Ramoncito piorou, e hoje vive um estágio irreversível.da doença. "Gradualmente, ele foi perdendo a fala e depois a memória", lamenta Leila. Hoje Ramon mora na mesma casa que Leila, Luciene e Breno, seu filho caçula, que tinha três anos quando o pai sofreu o trágico acidente.

Ramoncito Ferreira Marques foi um grande mágico, mas não conseguiu se livrar de um truque preparado pela vida.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Caiu na Rede é Cearense

Jovem Repórter da Baixada encontra Sushi-men cearenses no Rio

Por Flávia Ferreira

Matéria publicada pelo blog Na Periferia, de Ecio Salles e Marcus Vinícius Faustini, para o Globo Online

A primeira surpresa que se tem na entrada do Sushimar de Laranjeiras está em sua decoração, na qual os elementos da milenar cultura japonesa foram substituídos por mangás expostos na parede e por móveis de uma estética igualmente pop. Mas os garçons e sushi-men da casa, embora tentem disfarçar a origem nordestina com o semblante circunspecto dos japoneses, também estão antenados com a modernidade dessa rede de restaurantes, que tem quatro casas no Rio de Janeiro. "Eu falo com minha cidade pelo Orkut", diz Rodrigo Lopes da Silva, um sushi-man cearense de 25 anos, que há três anos deixou Ibiapina para morar no complexo Pavão-Pavãozinho, na fronteira entre Ipanema e Copacabana.

Rodrigo da Silva é um dos cinco funcionários dessa filial nascidos em Ibiapina, uma cidade com cerca de 30 mil habitantes encravada na Serra de Ibiapava, no sertão cearense. O notebook comprado em 12 prestações, que também usa para baixar músicas da internet, é o principal símbolo de status de uma comunidade cujos tentáculos se espalham por diversas favelas do Rio de Janeiro, indo da Zona Sul à Zona Oeste. Ele não tem a menor vontade de voltar para a cidade de que saiu, no ônibus da Itapemirim que liga sua cidade à região Sudeste do país, com destino certo. "Liguei para um primo que mora no Pavãozinho", conta.

É apenas uma coincidência o fato de os cinco funcionários terem se conhecido no próprio local, com perguntas formuladas a partir do reconhecimento do indefectível sotaque cearense. Mas o mesmo Rodrigo chegou ao Sushimar por intermédio de um conterrâneo a que teve acesso na filial da rede de Ibiapina montada no Pavãozinho. "Delmar era o chefe de cozinha do Sushimar da Barra e me conseguiu uma vaga de ajudante de sushi-man no Sushimar do Recreio", conta ele. Não foi muito diferente com seu conterrâneo Geraldo Rodrigues Fernandes, um cozinheiro de 22 anos que agarrou com unhas e dentes o emprego conseguido por um vizinho do Parque União, complexo de favelas da Maré, onde foi recebido há dois anos e meio por duas irmãs. O amigo em questão hoje mora em Ibiapina.



É bastante possível que Geraldo Fernandes faça com o seu amigo o mesmo que o sushi-man Carlos Roberto Rodrigues, que conheceu ali mesmo no Sushimar. "Meu irmão foi passar uma temporada no Ceará e, quando voltou, eu arrumei um emprego para ele de cozinheiro no Sushimar", conta Carlos Roberto, que chegou ao Rio de Janeiro há seis anos, depois de uma temporada de um ano e meio em São Paulo. Foi o irmão de Carlos Roberto que o acolheu na cidade, mais precisamente no morro do Andaraí. Além de acolhê-lo, o irmão de Carlos Roberto conseguiu o seu primeiro e único emprego no Rio. "Foi por intermédio dele que me tornei ajudante de cozinha dessa casa", conta.

O decano dessa turma é o sushi-man Francisco Eudes Rodrigues, que chegou ao Rio de Janeiro há 20 anos com uma mão na frente e outra atrás. Além da cidade natal, são poucos os pontos em comum entre a biografia de Francisco e a de seus companheiros de Sushimar. Um deles é que foi recebido por um irmão, que já morava na cidade havia cinco anos. Sua história também faz interseção com a de seus conterrâneos no que diz respeito ao modo como aprendeu a arte de cortar o peixe. "Foi olhando os outros fazendo", conta esse morador da Gardênia, área dominada por milícias, na Zona Oeste. Francisco Rodrigues descobriu o maravilhoso mundo dos japoneses ainda na década de 1980, no tradicional Tanaka.

Além das dificuldades inerentes a todo pioneiro, Francisco Rodrigues não ascendeu profissionalmente com a mesma rapidez das gerações de sushi-men que o sucederam pelo fato de ser semi-analfabeto. "Passei cinco anos para conseguir o que esses meninos agora conseguem em seis meses", conta ele, que está no Sushimar de São Salvador há seis meses. O fato de não ter estudado, proibição que o pai agricultor estendeu a seus doze irmãos, pode estar por trás dos longos hiatos de comunicação com a terra natal. "A primeira vez que fui a Ibiapina foi no verão passado", revela ele, que foi dado como morto porque nesses longos 20 anos sequer mandou uma carta para a família. A conta que abriu no Orkut, influenciado pelos companheiros high tech do Sushimar, tem poucos scraps trocados com os familiares.

Francisco Rodrigues foi para Ibiapina da mesma forma que seu companheiro Carlos Roberto pretende ir nas próximas férias, para mostrar aos familiares a filha que está prestes a nascer. "Eu vou numa promoção da Gol, mas devo voltar de ônibus", planeja Carlos Roberto. A volta de ônibus se justifica pelo excesso de peso na bagagem, na qual trazem estoques de feijão, farinha e queijo de coalho, entre outros produtos capazes de preservar o amor pelo Ceará. Embora tenha muito mais contato com a terra natal que o decano da turma, Carlos Roberto não pretende fazer como seu pai, que só abandonou o Cariri no último pau-de-arara e voltou para Ibiapina tão logo amealhou uma pequena poupança suando na construção civil. "Estou muito feliz aqui", diz Carlos Roberto.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Em nome do pai

O sumiço dos pais deixa mais dúvidas do que saudade nos filhos

Por Lucas Lima e Leonardo Venâncio

O dia dos pais está se aproximando. A mídia está colocando no ar uma tempestade de propagandas em que essa figura sempre aparece de maneira idealizada, como se fosse um super-herói retirado das revistas em quadrinhos. Uma das pessoas que se emociona com esses anúncios é o estudante Giovane Ferreira, de 15 anos. “Fico triste”, confessa ele. Giovane, que mora com a mãe, a avó e um tio no bairro de Santa Eugênia, nunca conheceu o pai.

Giovane não sabe a razão para não conhecer o pai e, apesar da curiosidade, evita falar sobre o assunto com as pessoas que podiam lhe dizer toda a verdade. “Minha mãe uma vez me disse que ele havia morrido”, conta Giovane. “Mas com o tempo comecei a achar que não era verdade.” Ele até hoje não sabe a razão para ter crescido sem essa figura que tanta inveja lhe despertou dos amigos de escola. “Não sei se minha mãe não contou a ele ou se ele não deu importância.”

Filho da outra

Com os mesmos 15 anos de Giovane, o estudante Igor Oliveira também cresceu sem o pai e foi criado por um time semelhante, que, além da mãe, um tia e a avó, incluía o avô. Mas Igor tem diversas vantagens em relação a Giovane. Além de ver o pai duas vezes por ano, ele sabe a razão de não ter crescido ao lado dele. “Eu nasci de uma traição”, conta ele. “Ele não mora comigo porque era casado quando minha mãe se envolveu com ele.” Essas vantagens, no entanto, não diminuem a sensação de solidão que o acompanha quando vê os amigos normais e a falta que sente de conversar com um homem mais velho.

Com 22 anos, Bruno Santos de Jesus é bem mais maduro do que Igor. Mas ele também chorou sozinho quando menino, por ter que se virar sozinho em questões tipicamente masculinas. “Embora não me proibisse de procurá-lo, minha mãe sempre passou uma imagem de que meu pai é uma pessoa covarde, fraca e incapaz”, conta Bruno, que preferiu não confrontar a figura paterna que existia em sua fantasia com a que era desenhada por sua mãe. “Terminei me conformando.”

Inveja dos amigos

Apesar de doloridas, essas biografias cada vez mais comuns em Nova Iguaçu são acompanhadas de alguns lugares comuns. Um deles é a capacidade que esses jovens têm para projetar a figura paterna em qualquer pessoa que use calças compridas e tenha um buço acima dos lábios. “Considero como pais meus tios, o marido da minha tia e o irmão mais velho de minha meia-irmã”, enumera Giovane. “Eu primeiro invejava os amigos da escola”, conta Diogo Gonçalves, de 16 anos. “Mas com o tempo passei a adotar os pais dos amigos mais próximos.”

Também goza de status de tabu o diálogo com as mães sobre esses pais ausentes. “Minha mãe nunca gostou da idéia de eu procurá-lo”, diz William Santos Ferreira, de 18 anos. Um dos argumentos usados pela mãe de William para convencê-lo a aceitar a orfandade em vida foi a fragilidade do menino, decorrente do próprio fato de não ter um homem em quem se inspirar dentro de casa.

Pai bandido

A mãe de Eduardo Correa Lima foi mais enfática, desencorajando o filho com a idéia de que o reencontro com o pai podia lhe trazer sérios problemas. “Minha mãe falava algumas coisas do meu pai, que ele não prestava, era bandido”, queixa-se Eduardo, de 20 anos.

A dureza dessas palavras deve ser a razão para que esses meninos praticamente tenham eliminado a palavra “rancor” do dicionário. “Pelo menos tive minha mãe e minha avó para me ajudar”, suaviza Márcio. Quem também não perde o bom humor é William, que não guarda nenhum sentimento ruim pelo pai. Já Diogo é tão tranqüilo com o próprio drama que tem como grande sonho ser pai. “Desejo um dia ser pai, poder ensinar a meu filho coisas que, infelizmente, meu pai não teve oportunidade de ensinar para mim.”

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Aipim bicho-grilo

50 mil pessoas passaram pela Festa do Aipim em Tinguá
Por Alines Marques, Camila Oliveira e Mariane Dias
Este é o quinto ano da Festa do Aipim, evento que acontece todos os anos na praça principal de Tinguá. Cerca de 50 mil pessoas passaram pela festa entre os dias 10 e 13 de julho. Na festa, o aipim, também conhecido como mandioca ou macaxeira, pôde ser saboreado em mais de 60 pratos diferentes, distribuídos em 40 barracas ao longo na praça.

Nos quatro dias de festa, foi possível desfrutar de diferentes atrações: bandas musicais, pratos típicos, artesanato, campeonato gastronômico e concurso para a rainha da festa.

R$ 200 mil

Segundo cálculos extra-oficiais da Associação de Moradores e Amigos do Tinguá (AMAT), a festa gerou cerca de 200 empregos temporários e movimentou mais de R$ 200 mil. Além da diversão, esta festa promove o crescimento do bairro, já que atrai um grande número de visitantes para Tinguá.

A festa também atrai muitas pessoas talentosas. Na praça central do bairro, podia-se avistar um grupo de hippies sentados na calçada. Eles estavam produzindo belíssimas pulseiras, cordões, anéis e peças em madeira. Mas a história por trás desses artistas é ainda mais interessante que as peças de artesanato.

Família feliz


Essa família de hippies, que se autodenomina “família feliz”, consegue transmitir alegria com toda simplicidade do seu estilo de vida. Agradáveis e comunicativos, os hippies trabalhavam em suas criações com prazer e satisfação.

O líder da família, conhecido por Fininho, trabalha junto com sua esposa, Valquíria. Ele a conheceu há quatro anos, em meio à longa viagem iniciada oito anos antes, quando resolveu “cair no mundo”, como ele mesmo diz.

Bicho grilinho

“Um belo dia eu cheguei para o meu pai e disse que queria ganhar o mundo”, diz Fininho. “Queria liberdade para fazer o que tivesse vontade, de me expressar através da minha arte.” Assim o fez até conhecer sua esposa e se encantar por este mundo de magia e energia em que vive agora.

A família ficou ainda mais feliz com a chegada de Yuri, hoje com dois anos. “O moleque já tem um currículo imenso”, brinca Fininho. “Foi a duas raves, forró, reggae e já conhece dois estados. No fim deste mês, Yuri irá conhecer Espírito Santo, São Paulo e Maranhão.” Além de levar suas produções para vários estados, Fininho já participou do programa do Jô Soares.

Gergelim dos duendes

Na filosofia de vida dos hippies, a prioridade é ser feliz. Eles não têm apego a coisas materiais e transformam suas dificuldades em superação. A arte que produzem gera satisfação e prazer pela vida, pois produzem o que gostam e fazem com amor. Suas obras impressionam e atraem todo tipo de público.
A família que viaja unida para vender suas peças possui uma casa cultural em Barra de Guaratiba, onde produzem artesanato e passam esse conhecimento adiante.

O trabalho é feito com materiais fornecidos pela própria natureza, dando um toque ainda mais especial às obras. “O mar me dá as conchas”, enumera Fininho. “A floresta se encarrega pelas sementes, pela madeira e pelas penas.” Algumas sementes são raras, como a de gergelim. “Eu só encontro em Visconde de Mauá, onde vejo duendes e fadas andando pelas ruas da cidade.” Mas além de precisar andar seis quilômetros em meio a esses seres mágico, Fininho tem que cavar com a mão. “Quando a semente cai da árvore, ela se enterra no solo.” Por ser especial, a os moradores da região farão uma festa em homenagem à semente de gergelim.

A maneira como a família aborda seus clientes faz com que a compra seja irresistível. A forma alegre, sutil e atenciosa como tratam as pessoas os tornam ainda mais encantadores. Os hippies transmitem uma energia muito positiva e ao mesmo tempo relaxante.

Rap do aipim


Quando chegamos à PAos poucos, fomos descobrindo que Darlan também era talentoso. O menino cantou alguns raps que compôs, incluindo a música apresentada no programa ‘Domingão do Faustão’, exibido pela raça de Tinguá, encontramos um menino chamado Darlan Cardoso, 13 anos, morador da região. Ele estava sentado junto ao casal de hippies, aprendendo algumas técnicas de artesanato. Rede Globo. A letra dessa música fala sobre educação. Darlan também canta seus funks na Rádio Mix do Tinguá, rádio comunitária do bairro.



Antes de se mudar para Tinguá, Darlan morava no bairro Pantanal, em Duque de Caxias. “Não estudei até os dez anos, pois morava numa localidade muito violenta”, conta o rapper. “Por uma questão de segurança, minha mãe resolveu não me matricular na escola.” Há três anos, ele estuda numa escola pública do bairro, Escola Municipal Barão de Tinguá. Darlan tem mais dois irmãos, Tarcísio, 15 anos e Cibele Cardoso, quatro.

Percebemos que sua situação financeira não é muito estável, pois quando fomos até sua casa, sua mãe estava descendo a rua com a filha e um monte de garrafas pet para encher em uma biquinha, como é chamada uma pequena rocha que jorra água potável. A família de Darlan utiliza essa água para tudo, inclusive para se banhar. Apesar da situação difícil, Darlan aparenta ser mais que uma criança talentosa.

A experiência de ir à festa do Aipim é gratificante, pois além das atrações, podem-se conhecer pessoas e histórias de vida impressionantes. Esse contato estimula a busca dos nossos sonhos sem nunca desistirmos.






RAP DO AIPIM


"Piririm piririm arroz, feijão, aipim
Piririm piririm arroz, feijão, aipim
Epa, epa, epa, acabou a empadinha
Epa, epa, epa, acabou a empadinha
Calma aí, calma aí, que tem coxinha
Piririm piririm arroz, feijão, aipim
Piririm piririm arroz, feijão, aipim"

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Mais uma caixa de surpresas

Operadoras de caixa gostam do que fazem, mas sonham com um futuro melhor

Por Tatiana Sant'Anna e Priscilla Castro

Doze horas de trabalho, um ofício nada fácil. Primeiro emprego, uma questão de sobrevivência. Para Gerlaine, 18 anos, Rosilene, 24 anos, e Mariana Oliveira, 20 anos, trabalhar como operador de caixa em um supermercado é cansativo demais, principalmente em se tratando da carga horária que é exigida. Diferentemente de outras operadoras de caixa que desejam continuar na profissão, elas almejam fazer faculdade e seguir outra carreira, realizando seu maior sonho.

Em uma rápida conversa com as três jovens, que por sua vez estavam em horário de trabalho, elas contaram que gostam do que fazem. Dizem que o salário de R$ 680,00 ajuda, porém a responsabilidade é muita, principalmente em se tratando de um dinheiro que não é seu. Por trabalharem em uma rede de supermercados perto de casa, têm uma hora e meia de almoço, indo em casa para se alimentar, tomar um banho e, até mesmo, dar uma cochilada. Quando estão de folga, aproveitam para descansar e desfrutam do tempo que resta, curtindo a família e amigos.

Melhor que o magistério

“Nem sempre é tranqüilo e divertido”, conta Gerlaine, que há seis meses trabalha como caixa no local. Ela diz que se diverte, brincando ás vezes com as companheiras, porém ressalta que é muita responsabilidade lidar com um dinheiro que não é seu. A jovem não pretende fica lá por muito tempo: “Ainda não pensei na área que pretendo cursar, mas quero fazer faculdade”, diz. Rosilene segue o mesmo caminho. Acha a carga horária muito cansativa. Também pretende fazer faculdade e não deseja continuar no ofício que está atualmente, mudando para outro emprego, quando conseguir algo melhor.

Já Mariana Oliveira resolveu se aventurar em outra profissão: deixou o magistério por um tempo e foi trabalhar em um mercado perto de sua casa. E não fica somente no caixa. Para descansar um pouco, pois para ela ficar no caixa é tedioso, ajuda fazendo algumas atividades no salão e apóia em outros serviços. Há três anos no ofício, Mariana não pretende seguir carreira como caixa, e já está de olho em algumas faculdades. “Estou dando uma olhada. Quero fazer faculdade na área de psicologia educacional, mas está muito caro em algumas universidades”, reclama.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A voz da loja

Locutores atraem clientes para as lojas do calçadão de Nova Iguaçu
Por William Faria da Costa
Fotos: Mariane Dias

Quando você passa em frente uma loja, o que chama a sua atenção e faz olhar para ela? Muitos poderiam responder que é a vitrine, a beleza das roupas ou até mesmo os preços baixos. Mas eu estive no calçadão de Nova Iguaçu, no centro comercial da cidade, e percebi que as lojas utilizam o mesmo artifício para atrair os clientes: um locutor. Cabe a esses profissionais a responsabilidade de despertar a curiosidade de quem passa próximo à loja.

Como na maioria das biografias de seus colegas de profissão, Paulo Edinei Felix da Silva tornou-se locutor por puro acaso. Era uma época particularmente sensível para a Prolar, uma grande rede de papelarias na qual trabalha há seis meses. "Foi na volta às aulas", lembra esse homem de 31 anos, cujas jornadas diárias começam às 10h30 e se estendem até as 19h30.

Livro de slogans

Seu estilo sóbrio, desenvolvido nas aulas de música, no seminário de teologia e num curso de omilética, é bastante diferente da malha sonora que ecoa pelo Calçadão. "Procuro passar mais informações e chamar o público", diz. É mais comum encontrar por trás dos microfones pessoas mais joviais, como é o caso de Max Augustinho da Silva, um homem de 32 anos que tomou gosto pela profissão que abraçou de modo casual há três anos e à qual diariamente dedica onze longas horas. "Chego a me vestir de mulher para chamar mais atenção da clientela."

Max gosta do trabalho de locutor e já inventou diversos bordões. "É explosão, é explosão de preços baixos", apela. "Caiu, caiu o preço", continua ele, disputando a atenção dos clientes com locutores do porte de Reinaldo Andrade da Silva, da Kids Papelaria. "Neste ritmo assim, vem pra cá, você só tem a ganhar", anuncia Reinaldo, um homem de 27 anos que há quatro anos anota em um "livro de slogans" os bordões inicialmente testados com a esposa. "Aqui, você economiza no preço e lucra na qualidade", insiste. "Kids Papelaria, vendendo barato todo dia", acrescenta.

Reflexão divina

Inspirado no apresentador de televisão Sílvio Santos, Reinaldo da Silva desenvolveu o dom da palavra na mesma escola em que um percentual significativo dos locutores do Calçadão. "Faço narrações de peças teatrais na igreja", conta Reinaldo, que tem um filho de seis anos. Também foi por causa das reflexões divinas que faz no púlpito que Anderson Vieira não teve dificuldade para se adaptar à oportunidade que a Belíssima Presente lhe deu, há oito meses. Na guerra pelos ouvidos do formigueiro do Calçadão, os dois estão muito mais para o profano do que para o divino.

"Vem que tá barato", esgoela-se Anderson, que há oito meses se transferiu da Belíssima Presente para a Toma Lá Dá Cá. "Vem que tá bombando", acrescenta diante da loja a que só se refere como "o Casarão da Moda". Não muito longe dali, Thiago Lucas Camargo, que há dois anos e meio se posta diante da Babalu, acredita estar sendo original com bordões ensaiados em casa. "A loja que mais barato vende e melhor atende", diz, tentando rimar.

Futuro na rádio

Os parentes de Thiago Camargo vivem pressionando-o para que "invista na sua facilidade para falar em público", mas ele descarta a possibilidade de levar sua voz para as ondas curtas do rádio. Esse não é o caso do "cigano" Anderson Vieira, que já andou por rádios comunitárias de Anchieta e São João de Meriti. Não fosse a faculdade de radiologia que faz à noite, Reinaldo da Silva seguiria o exemplo de Paulo Edinei, que sonha em trocar o calor das ruas pelo ar condicionado de um programa radialístico. "Já fiz algumas participações em rádios comunitárias", vibra Paulo Edinei.

Os locutores têm que se desdobrar nos dias de sábado que antecedem as datas comemorativas, quando o povo trabalhador aproveita o dia de folga para fazer suas compras. "A Babalu fica tão cheia que a gente tem que limitar a entrada de dez em dez clientes", diz Thiago, para quem a função do locutor é a de animar os clientes já capturados pela loja. Max tem uma compreensão diferente da sua profissão. "No sábado a loucura na loja é tanta que às vezes me visto de mulher para chamar mais atenção da clientela", confessa.

Brilho nos olhos

Anderson Vieira também se veste de mulher, mas não nos dias de bonança do Calçadão. "Eu tenho que mostrar o meu talento no final do mês, quando não tem quase ninguém na rua", afirma Anderson, como sempre bem-humorado. Uma das razões para acreditar no seu talento está na cara de felicidade da filha de um ano, quando faz em casa as brincadeiras que faz na rua.
Também é na família que Paulo Edinei confirma a importância do trabalho que faz na rede de papelarias Prolar. "Meu filho, que tem cinco anos, gosta muito de me ver falando no microfone", lembra esse locutor, que eventualmente recebe a visita do fruto de um casamento já desfeito. "Seus olhos brilham, ele deve pensar que eu sou artista."

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Como são feitos os fortes

Dona de um dos bares mais concorridos de Comendador Soares, dona Luzia sofreu muito antes de conhecer o sucesso

Texto e fotos de Flávia Sá

Com 60 anos, Luzia Vieira dos Reis é mãe de sete filhos, sendo que um morreu aos dois meses de vida. Teve uma vida muito dura ao lado de seu Sebastião, pai de seus filhos e marido até ter a vida destruída pelo alcoolismo. Ela é a filha caçula da lavadeira Olívia Doim dos Reis, que, se estivesse viva, hoje teria 102 anos. Tinha seis irmãos.

Cresceu em uma época difícil, em que as mulheres que se perdiam cedo eram chamadas de fáceis. "Alguns pais proibiam suas filhas honradas de brincarem com esse tipo de garota", lembra. Esse conservadorismo fazia com que os pais jamais levassem as filhas a um ginecologista. "A gente aprendia a se cuidar em casa."


Dona Luzia conheceu seu Sebastião com dez anos, começou a namorá-lo com 12 e, depois de se casar no papel, teve seu primeiro filho com 16 anos. Como a mãe, teve sete filhos e perdeu uma menina, que morreu devido a complicações no parto. Engravidou a cada dois anos, tendo tido sete abortos espontâneos.


Sobreviventes


Entre os que sobreviveram, o mais velho dos seus filhos é Rita de Cássia, hoje com 40 anos. A escadinha segue com Marcelo (38), Márcia (36), Cristiano (35), Henrique (32) e o caçula Leandro (30). "Todos sempre foram muito companheiros", diz.


A vida de dona Luzia transformou-se em um pesadelo há cerca de 30 anos, quando seu Tião começou a beber compulsivamente. "Acabou meu casamento", lembra. Com exceção de Leandro, as crianças já estavam bem crescidinhas quando isso começou a acontecer.


Além de gastar todo o dinheiro da família nas biroscas, seu Tião chegava em casa agressivo com a mulher e os filhos. "Ele batia em mim e nas crianças sem motivo", lembra dona Luíza. Dormir na casa dos vizinhos foi a única alternativa que encontraram nas noites de crise. "Ainda bem que nós éramos muito queridos no bairro."


Noites infernais

Aquelas noites foram infernais principalmente para Rita, a filha mais velha do casal. "Quando ele chegava em casa, pedia para que Rita preparasse o seu jantar, o que ela fazia com medo de apanhar do pai." Mas ele adormecia quando ela lhe servia, deixando a sopa esfriar. Quando ele acordava, exigia que a menina esquentasse sua comida. "A menina ficava esquentando a sopa dele a noite inteira", lembra dona Luíza, revoltando-se.


Esse círculo vicioso teve um ápice na noite em que, mais uma vez embriagado, seu Tião agrediu dona Luíza com uma panela de pressão. Ela foi salva pelos filhos, que se uniram para defendê-la. "Cristiano e Henrique pegaram um pedaço de pau para contê-lo enquanto Marcelo lhe dava uma gravata por trás."


Ela, que sempre aceitava as desculpas que ele invariavelmente lhe pedia na manhã seguinte, terminou enojando-se do marido. "Cansada dos maus-tratos, botei ele para correr de casa." A vida ficou ainda mais dura do ponto de vista econômico, mas bem mais tranqüila. "Eu e os meninos fomos morar numa casa de um cômodo", lembra dona Luíza.


Mutirões


A sobrevivência foi garantida em verdadeiros mutirões diários, dos quais participavam quase todos os membros da família. "Minha menina mais velha começou a vender café com bolo nos pontos dos caminhoneiros." Rita teve que parar de estudar.


O faturamento não era dos melhores, mas não apenas dava para alimentar os seis filhos, como para juntar o dinheiro com que dona Luíza comprou primeiro uma kombi e depois um fusca. "Esses carros foram fundamentais para que pudesse comprar mercadorias e eu abri uma birosca na janela da minha casa."


Jeito em seu Tião

O negócio de dona Luíza foi progredindo e ganhando novas características. "Chegamos a ter um abatedouro com os frangos e os porcos que criávamos no quintal de casa", conta. Atualmente, ela tem um dos bares mais concorridos do bairro de Comendador Soares, com cerveja gelada e um ruidoso videokê. "O bar não tem nome, mas a freguesia é grande."


O bar tem a idade da sua neta mais velha: 22 anos. São 17 netos. Até mesmo seu Tião tomou jeito na vida, depois de encontrar uma companheira, ao lado da qual entrou na igreja e parou de beber. "Posso dizer que hoje somos amigos", avalia dona Luíza.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Cabeça Feita

A febre do corte moicano

Texto e fotos de Thompson Nike

Muitos jovens vêm se rendendo ao chamado corte moicano. Esse corte surgiu com os índios americanos e, na última metade do século passado, foi resgatado pelos punks a fim de mostrar uma aparência mais agressiva e subverter os costumes do dia-a-dia.

Atualmente, os jovens parecem estar mais preocupados em manter uma aparência “bonitinha” do que questionar o que os outros pensam a seu respeito. Nesta reportagem, você vai descobrir os diversos motivos que fazem desse corte a sensação do momento entre os jovens.

Há quinze dias, Janderson de Almeida, 17 anos, cortou o cabelo no estilo moicano. Segundo ele, o corte combinou muito com o formato do seu rosto e com seu jeito divertido e descolado ser. “Achei maneiro, fiquei mais charmoso”, comemora Janderson. Por incrível que pareça, a idéia não surgiu dele, mas de sua mãe. “Minha mãe pediu para eu fazer, mas não concordei no começo. Agora, graças a essa dica, estou feliz com o meu novo visual”, diz ele. Porém, a mãe de Gabriel Marques, 19 anos, também moicano, pensa diferente da mãe de Janderson. “De primeira, minha mãe não gostou muito. Mas depois ela aceitou”, diz ele.
O caso de Gabriel Marques foi diferente, pois o pedido veio de sua namorada, que acha o corte maneiríssimo. “Ela pediu para eu fazer, fiz e acabei gostando”, confessa Gabriel. O sucesso com as mulheres é o que mais importa para Felipe Melo, 14 anos, o mais jovem moicano do grupo. Ele se entusiasma com o assédio das meninas da escola. “Quando vou para a escola assim, é show! As mulheres amam”, diz, tirando onda.

Reação das pessoas

O moicano causa polêmica por se tratar de um corte difernciado, que foge dos padrões tradicionais. É por isso que quem usa esse corte acaba se tornando o centro das atenções. Segundo Janderson, algumas pessoas ainda se chocam com o corte de cabelo que ele usa. “Todo mundo fica me olhando”, diz. “Eu acho maneiro, pois chama mais atenção”, completa.

Mas nem sempre é assim. Há também aqueles que aceitam esse novo estilo numa boa. É o que diz Gabriel Marques quando perguntado sobre a reação das pessoas ao vê-lo pelas ruas de Nova Iguaçu. “Quase ninguém repara, porque agora todo mundo está usando o corte moicano”, explica.

Das tribos indígenas às tribos urbanas

Embora o corte moicano esteja super na moda, nem todo mundo sabe que o corte surgiu com as tribos indígenas americanas e os celtas. Esse corte, geralmente raspado dos lados, foi adotado pelo movimento punk na década de 70 como forma de protesto.

Hoje, os jovens que usam moicano estão mais preocupados em acompanhar as tendências da moda do que questioná-las.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Santa cigana

Uma voz a favor da diversidade

Por Flávia Ferreira e Paulo Nino

Fotos: Flávia Ferreira e internet

Santa Sara Kali é a padroeira dos Roma (ciganos). Ela é a única santa cigana do mundo e seu nome foi dado a uma das poucas fundações que tratam da questão cigana no Brasil: a Fundação de Santa Sara Kali.

A fundação realiza atividades que buscam defender os direitos sociais da comunidade cigana e integrar as associações e agremiações de arte e cultura de Nova Iguaçu. Ela vem para preencher uma lacuna deixada pelo preconceito e pela desigualdade de direitos. A Fundação Santa Sara Kali realiza atividades em prol da saúde, do direito, da política e da educação.
A fundação e seus projetos futuros
A Fundação Santa Sara Kali fica no bairro Vila Nova, centro de Nova Iguaçu. Lá funciona a Primeira Alvenaria e a Casa do Povo Cigano. "Futuramente vamos realizar atividades mais direcionadas para a comunidade cigana do Brasil". A fundação também está estudando a idéia de montar o Primeiro Memorial Cigano da América Latina. Mais para frente eles pretendem transformar a cidade de Nova Iguaçu na capital nacional do povo cigano.

Essa proposta foi feita pelo atual prefeito da Cidade, Lindberg Farias, junto à Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial e o Minc.

Luta pela diversidade

Mesmo com tantas conquistas, Wilson Aurélio Pontes, representante da Fundação Santa Sara Kalí, diz que a luta pelo respeito à diferença cultural é imprescindível. Por isso, há três anos, quando concluíram a Sétima Cruzada pela Paz mundial, os ciganos reuniram negros, ciganos, indígenas e judeus nos eventos da cruzada. "Só assim vamos conseguir a paz mundial. Na verdade, o que queremos não é a igualdade dos direitos, mas o respeito às diferenças", sentencia Wilson.

O povo cigano é um dos mais discriminados, oprimidos e expulsos. "Todos os lugares onde chegávamos, éramos expulsos", afirma Wilson, inconformado. Segundo ele, isso acabou contaminando a forma como o seu povo era visto e reconhecido pelo governo. "No dia 25 de maio, Lula instituiu o dia nacional do povo cigano, que será comemorado todo dia 24 de maio, dia de Santa Sara Kali", explica.

Dentre as inúmeras iniciativas, a gruta do Arpoador foi instituída como primeiro templo religioso de Santa Sara Kali na América Latina. No dia 24 de cada mês, os ciganos e admiradores da cultura se reúnem na gruta para um ritual. "Vem gente de todo o Brasil e também do exterior", conta.
A força deste eventou atraiu para a gruta até o guitarrista da Madonna. O guitarrista, que estava acompanhado da família, estava fazendo uma pesquisa para um concerto que será realizado em setembro deste ano. "Como ele não fala uma palavra em português, cantou em romanês", lembra Wilson. Segundo o pesquisador, a gruta foi escolhida por conter todos os elementos da natureza: água, terra, fogo e ar. "Consideramos que no templo de Deus nenhum homem mete a mão, pois o templo de Deus é feito por Ele."

A fundação também criou, em conjunto com o Ministério da Saúde, o projeto 'Ciganos no SUS'. Neste projeto, nômades, transeuntes e mendigos terão o direito de ser assistido por um médico especializado em caso de doença. Esse cartão é feito para pessoas que não têm documentos de identificação, como a maioria dos ciganos.
Outros projetos
A Fundação Santa Sara Kali já realiza a Cruzada pela Paz Mundial há dez anos. No dia 24 de maio de 2008, foi conveniado, com a Secretaria Nacional dos Direitos Humanos, o lançamento do Ponto de Referência Cigana em todas as OAB’s do Brasil. Essa fundação tembém lançou o livro 'Povo cigano: Direitos em suas mãos'. Este livro mostra os direitos do povo cigano e está sendo distribuído em todos os acampamentos ciganos do Brasil.

Outro livro importante para a comunidade cigana é o ‘Lilá Romaí: Cartas Ciganas', de Mirian Stanescon Rorarni. Mirian é presidente e rainha da Fundação Santa Sara Kali. Segundo Wilson, este livro é o verdadeiro oráculo cigano. Como a música é uma das artes mais apreciadas pela comunidade cigana, foi lançado também o CD ‘Raízes’, com músicas conhecidas e admiradas pelos Roma. "A luta é essa", diz Wilson, mostrando os troféus conquistados pela Fundação Santa Sara Kali.
Sustento manual

A fonte de renda dos ciganos, na maioria das vezes, vem da lavoura e do artesanato, já que, como ressalta Wilson, os maiores artesãos da humanidade eram ciganos. "A contribuição dos ciganos na história da humanidade revela a adoração da natureza por esse povo", explica. Segundo ele, a comunidade cigana dedica-se à liberdade por ser grande conhecedora da natureza.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Festa para os mártires

Por: Aline Marques
Fotos: Retiradas da internet

São Pedro chamava-se Simão ou Simeão. Nascido em um pequeno vilarejo pagão na Galiléia, tornou-se pescador na cidade de Carfanaum.

O povo vê São Pedro como "o porteiro do céu", o manda-chuva e o padroeiro dos pescadores. A presença dele na tradição portuguesa e brasileira é constante.

São Paulo tinha o nome de Saul ou Saulo, um fiel evangelizador. Nasceu na cidade de Tarsus, na Cilícia, Ásia Menor (hoje Turquia).

São Pedro e São Paulo são irmanados pelo martírio.

Outras comunidades
Há muitos anos, se comemora o dia dos santos Pedro e Paulo nos dias 27 e 29 de junho. Em Nova Iguaçu, a festa dos dois padroeiros começou no 21 de junho, no bairro do Jardim Iguaçu, onde a prefeitura fechou a rua professor Heleno Cláudio Fragoso.

A abertura da festa foi com a famosa Cristoteca, que contou com a presença de Djs e membros da igreja. "A festa foi maravilhosa", diz Luana Souza, 20 anos. "Vieram muitos jovens de outras comunidades, que não conheciam essa festa." A jovem nunca viu a Paróquia de São Pedro e São Paulo tão cheia.

Nos dias 27, 28 e 29, a festa também contou com a presença da banda Identidade Juvenil e Exôdos, entre outras. A banda Identidade Juvenil não deixou ninguém parado. "Nunca vi uma banda jovem tão animada e tão competente", diz Amanda Fernandes. "Ao mesmo tempo, eles conseguem passar uma paz e uma alegria tão grande, é tão intenso."

Estaria rico
Como a festa invade a rua, é uma ótima oportunidade para os comerciantes de Jardim Iguaçu. Eles armam barraquinhas de milho verde, cachorro quente, pipoca, caip-fruta e outras delícias nas imediações da paróquia.

"Eu ganho um bom dinheiro nos três dias de festa", diz Moacyr Araújo, um comerciante do bairro de 56 anos. "Se tivesse essas festas toda semana, eu estaria rico", brinca.

Ansiedade
As pessoas aguardam a festa com ansiedade. Esse é o caso de Maria Eduarda, mãe de Anna Júlia, uma menina excepcional de três anos. "Eu fico superalegre, pois a minha filha tem problemas mentais e fica muito difícil sair com ela para os outros lugares", conta essa moradora de Jardim Iguaçu.

A festa de Jardim Iguaçu é uma das raras oportunidades de que elas têm para se divertir sem enfrentar a dificuldade de subir no ônibus e atravessar as calçadas com a cadeira de rodas de que a filha precisa. "Fico muito animada porque conheço o jeitinho dela e sei que isso é uma diversão. Posso ver nos olhinhos dela a alegria e a vontade de estar ali."

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A primeira vez a gente nunca esquece

Jovem repórter faz uma crônica da primeira noite do nosso grupo no Teatro Municipal
Por Daniel Santos
Fotos: Daniel Santos, Aline Maciel e Marcelle Teixeira

O ônibus que levaria a galera da Escola Agência de Comunicação para a festa dos 15 anos do Afro-Reggae partiu da rodoviária de Nova Iguaçu às sete da noite do último dia 25.

Apesar das três horas de espera, a galera estava bem alegrinha e zoando horrores dentro do transporte. Durante a viagem, quando um jovem repórter acabava de contar uma piada engraçada, um outro puxava uma música. Eu era a única exceção, pois estava me sentindo mal.

Quando chegamos ao Teatro Municipal, misturamo-nos à grande massa de pessoas para entrar na festa. Quando enfim conseguimos entrar, restavam poucos lugares para sentar. Como fui dar uma volta para conhecer o espaço, fiquei numa posição muito ruim.

Tietagem
Quando a festa enfim começou, o som da banda Afro-Reggae levou o público à loucura. Vi a hora de algumas pessoas despencarem da galeria. O fogo das meninas da agência era tanto que conseguiram arrancar um tchauzinho do casal Luana Piovani e Dado Dolabella. A festa terminou com um show maravilhoso de Zeca Pagodinho, que contagiou a platéia com suas músicas bem-humoradas.

Eu salivei quando ele brindou a platéia com a taça cheia de cerveja, depois de dar um largo gole. Não havia nada para ser vendido no teatro e por isso eu estava com a garganta seca. Tiveram sorte os farofeiros, que lembraram de levar um lanchinho na bolsa.

Quando dei por mim, a galera já estava metendo o pé. Parecia que era o fim da festa. È fogo. Sempre tem alguém que quer meter o pé cedo.

Pancadão na praça
O grupo da Escola Agência se organizou do lado de fora e foi atrás do ônibus. Enquanto esperávamos o ônibus no meio da multidão, começamos a cantar parabéns para Maicon Christian, o MC Dotadão. Exibido como sempre, o Dotadão subiu no banco para agradecer os nossos cumprimentos.

No melhor da festa, um cara se aproximou e nos pediu um trocado. Era o Roberto, um morador de Caxias cujo apelido é RT. Com 17 anos, ele passa os dias e as noites nas ruas do Centro da cidade.

Não demorou nada para RT se enturmar com a rapaziada e tentar arrancar um beijo da jovem repórter Natalia Ferreira. Ela saiu correndo, é claro.

Mas foi bem diferente quando ele começou a mostrar o seu talento para cantar e dançar. O MC Dotadão acompanhou e quase rolou um baile funk em plena Cinelândia.

RT tentou pegar um bonde com a gente, entrando no ônibus para zoar com a galera. Mas o motorista o botou para correr.

Orkut das gatinhas
Havia um ônibus ao lado do nosso e eu comecei as meninas dentro dele. Na verdade, foram elas que me deram mole, dando tchauzinho, sorrindo para mim e me chamando. Como não estava entendendo o que ela diziam, resolvi descer do ônibus para conversar com elas. No melhor da história, o motorista mandou todo mundo entrar, inclusive elas. Vi que elas ficaram meio tristes, mas eu voltei para o meu ônibus satisfeito. As três moram na mesma cidade que eu, e ainda por cima peguei o Orkut delas.

Sem a zoação do RT e as meninas para azarar, só me restava esperar a boa vontade do motorista. Quando o ônibus partiu e olhamos pela janela, lá estava RT, despedindo-se da nossa.

Tudo estava indo bem, quando um cheiro nada agradável tomou todo o ônibus e não saía de jeito nenhum. Voltaram as zoações, seguidas de perguntas a respeito de quem havia pisado na bosta. Bosta? Era isso mesmo? Pelo menos o cheiro era parecido. Mas será? Merda? Cocô? Que porra foi aquela? De uma coisa eu tenho certeza. Eu não fui. E até agora eu me pergunto quem deve ter sido?

Uma kombi que resiste ao tempo

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