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quinta-feira, 3 de julho de 2008

Um bom conselho

Conferência Municipal de Cultura reúne classe artística de Nova Iguaçu para eleger novo conselho
Por Flávia Ferreira, Felipe Rodrigo e Jeyce Cristine de Sá

A II Conferência Municipal de Cultura foi marcada pela participação. Diversos artistas discutiram, nos dias 26, 27 e 28 de junho, as políticas culturais adotadas em Nova Iguaçu e propuseram possíveis soluções para os problemas encontrados. A opinião era unânime quanto à importância da Conferência para a cidade e os artistas locais: o encontro é o fórum ideal para que a classe artística encaminhe sua luta por reformas e investimentos.
Durante os três dias, foi servido café da manhã, almoço e café da tarde para todos os
participantes. No fim de cada dia de debates, aconteceram apresentações artísticas e uma animada festa junina para levantar o astral dos presentes.

1° Dia
Embora a solenidade de abertura só tenha começado às 18h30, os trabalhos foram iniciados às 9 da manhã, com o credenciamento de todos os delegados inscritos. Um dos temas mais polêmicos do primeiro dia de trabalho foi a candidatura de artistas que, mesmo tendo um trabalho artístico em Nova Iguaçu, morem em outro município. O secretário municipal de Cultura Marcus Vinicius Faustini considerou o tema relevante, mas lembrou que aquele não seria o fórum adequado para se discutir. “Ela determina que apenas os moradores de Nova Iguaçu podem se candidatar ao conselho.” A noite terminou com um coquetel ao som de um delicioso forró.

2° Dia
A primeira mesa do segundo dia da conferência, iniciado após um farto café da manhã oferecido aos participantes, foi dedicada ao Plano Municipal de Cultura. Participaram desta mesa o escritor Écio Sales (Secretaria Municipal de Cultura), o produtor social Edilso Maceió (ong Cisane), Carmem Vargas (Secretaria Estadual de Cultura) e Lúcia Pardo (MINC).

Marcus Vinicius Faustine, desta vez como ouvinte, levantou as questões que nortearam as discussões da mesa: uma cultura capaz de mostrar Nova Iguaçu como um lugar da dignidade, a consolidação dos editais, a renovação da educação e a garantia de 1% para a cultura local. Também teve importante participação o militante negro Geraldo Magela, para quem o Plano Municipal de Cultura tem que incluir questões relacionadas à igualdade racial e à cultura africana.

Devir artista
Embora a programação da tarde previsse duas mesas, problemas de tempo obrigaram a organização a fundir as discussões sobre o lugar do artista no governo e os desafios do Conselho Municipal de Cultura a ser eleito no fim da conferência. O coordenador da primeira mesa, o artista multimídia Cézar Migliorin, falou do que chama de “devir artista” do governo, no seu entender mais importante do que a presença de artistas no governo. Como registrou no blog, saiu da palestra com a sensação de que não foi entendido pela platéia, mas feliz com o engajamento da classe artística de Nova Iguaçu com o trabalho feito pela Secretaria Municipal de Cultura, da qual é um dos adjuntos.

Para o produtor cultural Flávio Aliceto, diretor do centro cultural Aracy de Almeida, lugar de artista é no governo, sim senhor. “A gente não deve pensar em político artista, mas em um cidadão.” È esse cidadão comum que está sendo contemplado com os pontinhos de cultura, o edital lançado pela Secretaria Municipal de Cultura que distribuirá cerca de R$ 3 milhões para projetos que fundam cultura e educação nas escolas municipais de Nova Iguaçu. “O cidadão comum também é um artista, pois ele tem um olhar artístico sobre a cidade”, disse Aliceto.

3° Dia
A mesa “Nova Iguaçu falando para o mundo” abriu os trabalhos do terceiro dia da conferência. O rapper Dudu de Morro Agudo, que participou do debate com a professora Ivana Bentes (UFRJ) e o cineasta Marcus Vinicius Faustini (Secretaria Municipal de Cultura) resumiu o espírito da mesa ao falar da importância da tecnologia para dar visibilidade ao trabalho artístico. “O Enraizados é mais conhecido fora de Nova Iguaçu do que no meu bairro”, ironizou. Foi por intermédio da rede mundial que ele conseguiu impor seu projeto artístico em Morro Agudo.

Na volta do almoço, os artistas foram divididos em alguns grupos de trabalho. Uma das discussões que mais mobilizou esses grupos foi o uso do 1% do orçamento de Nova Iguaçu destinado à cultura, com o qual o prefeito Lindberg Farias já se comprometeu. Já era quase noite quando, após o lanche oferecido pela Prefeitura da cidade, a plenária voltou ao teatro para eleger seus conselheiros. Porém, ao contrário do que era esperado pela comissão organizadora, poucos foram os candidatos. Isso impossibilitou a eleição de todos os suplentes necessários. Daqui a quatro meses haverá outra reunião para eleger o restante dos suplentes.

Eleitos Pessoa Física
• Edilson Sampaio
• Ivone Batista Landim
• Vitor Lopes
• Marcelo Francis

Suplente de pessoa física
• Joseni de Fátima silva

Eleito pessoa jurídica
• Cisane – Edilso Maceió
• Escola Livre de Cinema – Anderson Barnabé
• Fundação Santa Sara Kali – Ilson Pontes
• MAB – Lurdinha
• Arquivo da Cúria Diocesana – Antonio Lacerda

Suplente pessoa jurídica
• SOBEM – Joseni de Fátima Silva

terça-feira, 1 de julho de 2008

O futuro pede passagem

Estudantes ignoram temporal e exigem RIOCARD

Por Louise Teixeira

Mesmo debaixo de muita chuva, cerca de 350 estudantes das principais escolas públicas de Nova Iguaçu andaram os dois quilômetros que separam a FAETEC João Luiz do Nascimento da SETRANSPANI para reivindicar um direito já garantido a eles: o passe-livre.

Cantando, pulando, apitando e fechando ruas, os estudantes mais uma vez tiveram voz ativa e mostraram do que são capazes por seus direitos. O principal alvo das palavras de ordem improvisadas era o governador Sérgio Cabral: “Estudante na rua, Cabral a culpa é sua. Estudante na chuva, Cabral a culpa é sua.”

No sol e na chuva

Os manifestantes também comemoraram a volta do próprio movimento estudantil. “Nas ruas, nas praças, quem disse que sumiu? Aqui está presente o movimento estudantil! Nas ruas, nas praças, da chuva não fugiu! Aqui está presente o movimento estudantil!”

As próprias lideranças da manifestação se surpreenderam com a adesão dos estudantes. “Chegamos a cancelar a passeata”, diz Felipe de Souza, diretor de Cultura e Eventos do Grêmio da Faetec JLN e um dos organizadores da manifestação. As lideranças do movimento tiveram que voltar atrás quando perceberam a disposição das bases, particularmente os do Rangel Pestana e do FAETEC. “Faça chuva, faça sol, vamos brigar pelos nossos direitos”, gritavam os estudantes.

Pista fechada

A garra dos estudantes contagiou as lideranças, que ligaram para o batalhão a fim de pedir uma nova autorização para a passeata. “O momento mais emocionante foi quando vi todo mundo se pintando e pegando apitos”, conta Felipe de Souza. Embora a chuva tenha apertado justamente na saída, os estudantes começaram a andar e a pular. Quando chegaram na Marques Rollo, todos deram as mãos e fecharam as duas pistas. “Acima de tudo houve união.”

Uma hora depois, a passeata chegou à porta da SETRANSPANI e enquanto uma comissão discutia com os técnicos do governo os estudantes gritaram novas palavras de ordem contra o governador. “Sérgio Cabral, seu idiota, estudante também vota!” Quando saíram da reunião, os líderes foram recebidos ao som do Hino Nacional. Eles saíram da reunião com a promessa de que os cartões RIOCAR, que a partir de agosto serão obrigatórios em todo o estado, serão entregues imediatamente.

Não foi em vão

Para Felipe de Souza, a passeata deixará marcas muito mais profundas do que “um baita engarrafamento”. “O movimento estudantil de Nova Iguaçu mostrou que os alunos não desistem tão fácil assim”, afirma. “Embaixo de sol (ano passado) ou embaixo de chuva (esse ano), ‘fizemos a hora, e não esperamos acontecer’.”

A garra demonstrada na manifestação deu um novo ânimo à s lideranças do movimento estudantil. “Saímos com um gostinho de que ‘somos capazes’ e, principalmente, gostinho de paixão pelo que fazemos.” A ordem mantida na manifestação, durante a qual “ninguém se feriu e ninguém feriu ninguém”, também foi avaliada como um sinal positivo. “Pintamos nossos rostos, apitamos, e o melhor disso tudo é saber que não foi em vão!”

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Uma família que corre atrás

Preço das passagens obriga iguaçuanos a irem para seus compromissos a pé

Por Sheila Loureiro
A cidade é grande e as pessoas, com pressa, não prestam atenção. Mas ao lado delas pode estar um rosto suado como o de Sérgio Bandeira Loureiro, que com freqüência anda uma hora e meia de sua casa até o Centro de Nova Iguaçu. Com a sola do sapato gasta e o rosto suado, Sérgio Loureiro, que tem 53 anos, está longe de ser uma exceção em meio à pobreza da Baixada Fluminense. "Desde o momento em que consegui criar os meus filhos, isso já mudou a minha vida", resigna-se esse morador da Rua Barita, em Austin.

Sérgio Loureiro, que está muito velho para ter direito ao passe estudantil e muito novo para ter direito ao Rio-Card da terceira idade, faz essas longas caminhadas para ir trabalhar. Por ser do lar, sua mulher Irene Santana gasta menos sola do chinelo que usa para levar o filho para a única escola pública que conseguiu vaga para ele, a meia hora de caminhada da sua casa. Incomoda-se com a poeira acumulada nos pés, mas é com satisfação que faz esse trajeto diariamente. "Minha mãe era doente e não podia me levar à escola", lembra a dona de casa, que não pôde estudar.

Vidas secas
A família Loureiro em nada se parece com a do retirante Fabiano, personagem do romance Vidas Secas, do alagoano Graciliano Ramos. Mas também é a pé que seus filhos vão atrás de um futuro diferente. Com 16 anos, Renato passa o dia inteiro na obra em que é ajudante de pedreiro e, de lá, caminha até a escola por intermédio da qual pretende pavimentar sua estrada até o vestibular de administração de empresa. Esse caminho, que tem um pouco de asfalto, mato e lama, é feito com passadas largas em cima de um sapato "que não tem nada de especial". "Quero terminar logo o ensino médio", diz Renato.

A família Loureiro tem parentes que ocupam pelo menos mais duas casas da Rua Barita. Do número 50, Lindiara Loureiro parte diariamente com seu furado sapato escolar atrás de um futuro talvez mais pretensioso do que o de Renato. "Quero ser advogada", afirma ela, que faz esse trajeto a pé porque ainda não conseguiu o passe escolar que lhe pouparia uma caminha de mais de meia hora. Na porta da sala de aula, ela sempre dá uma parada para limpar os sapatos que suja nas imediações da escola, cuja rua é de barro.

Uma bicicleta para Weverton

Juliana Loureiro parte do número 150 da mesma Rua Barita por um caminho com "rua asfaltada e um supermercado perto do ponto de ônibus" que não pode pegar porque também ainda não conseguiu pegar o passe escolar. Com 12 anos, Juliana tem que sair 35 minutos antes da aula para chegar a tempo com seu sapato "que já está rasgando e até furando de tanto andar com ele". Ela caminha determinada, "faça chuva, faça sol". "Vou atrás do meu futuro."

A jovem repórter Sheila Loureiro tem a mesma sina fabiana da família. E sonha com o dia em que vai comprar a bicicleta com a qual poupará não apenas o tempo que a separa da escola em que estuda seu filho Weverton, de sete anos. "Tem dias que ele nem quer ir para a escola, de tão cansado", queixa-se Sheila, de 22 anos. Mesmo nesses dias ela insiste em meter o pé na lama. "Sei que um dia ele vai me agradecer muito por esse sacrifício."

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Até que a morte nos una

Nova matéria da série "Homem da casa" mostra que nem sempre filhas se solidarizam com a dor da mãe.
Por Camila Oliveira e Flávia Sá

A vendedora de produtos espirituais Ana Regina Duarte Cardoso tem 35 anos e mora em Comendador Soares com a mãe, a cozinheira aposentada Joaquina Duarte, de 67 anos. "Meu pai foi embora quando eu tinha sete anos", lembra Ana Regina.

Dona Joaquina jamais criou empecilho para que Ana Regina visse o pai, mas a então menina percebia o sofrimento da mãe e o evitava. "Eu não era boba e via minha mãe chorando pelos cantos." Doía-lhe em particular o fato de o pai não dar a menor importância para o sofrimento de dona Joaquina.

Três pais
É verdade que durante anos o afeto distribuído pela mãe e pelos irmãos dela, particularmente os tios César e Édson, supriu a ausência paterna. No dia dos pais, por exemplo, não perdia tempo invejando as amiguinhas. "Eu fazia uma lembrancinha para cada um dos meus tios e para minha mãe, que foi minha mãe e meu pai ao mesmo tempo."

Ana Regina se sente incomodada quando lhe falam de um possível vazio em seu peito deixado pelo pai. Havia, se muito, uma profunda mágoa com ele. "Nunca dei a menor importância para ele", revela.

O pai esteve no seu aniversário de 33 anos, há dois anos. Foi o único desde que sumiu da sua vida e da de dona Joaquina. Mais uma vez, ela foi indiferente. "Talvez ele faça alguma diferença quando morrer", diz Ana Regina, sem pudor. É que ele é policial federal e ela, sua única herdeira.

Preguiçoso
A história de Ana Regina faz diversas interseções com a de Izabelle de Carvalho, que, além de morar em Comendador Soares, foi abandonada pelo pai. Mas o fim do casamento dos pais foi menos traumático para Isabelle, que na época tinha apenas dois anos e por isso não lembra as circunstâncias da separação.

Ainda ao contrário de Ana Regina, Izabelle não se sentia confortável quando as coleguinhas de classe voltavam do fim de semana falando de maravilhosos passeios com o pai. "Eu não tinha nada para falar porque meus pais eram separados", lamenta.

Curiosa, ela perguntou à mãe porque o casamento havia terminado. "Ela enrolou até o dia em que em que disse que se arrependia amargamente de tê-lo conhecido e começou a falar mal dele", revela a menina.

Izabelle teve acesso a uma história escabrosa, segundo a qual o pai era um preguiçoso e, cansada, a mãe preferiu cuidar dela sozinha. Apesar disso, não foi proibida de receber a visita dele e pôde criar um forte vínculo com o pai. "Ele me pega quase todos os fins de semana e me leva em um montão de lugares", comemora Izabelle.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

A casa das três mulheres

Matéria abre série de reportagens "Homem da casa", sobre famílias com o pai ausente.

Por Camila Oliveira e Flávia Sá

Renata tem 20 anos e Raquel, três. A mãe das duas, a enfermeira de 38 anos Luisa dos Santos Gomes, criou-as sozinha porque, embora sejam filhas de pais diferentes, foi abandonada pelos dois tão logo anunciou a gravidez.
A história dessas três mulheres é permeada de dramas pungentes, que logo no início esbarra em um conflito de versões. "Papai foi embora porque o relacionamento com mamãe já não dava mais certo", conta Renata.

Covarde
A mãe, porém, carrega nas tintas ao contar a razão da separação. "Ele foi covarde e não quis assumir a filha porque dizia que era muito novo e ainda tinha muito que viver", afirma a mãe, que ainda teve que carregar a acusação de que engravidara de propósito.
O drama de Luísa não parou com o abandono do namorado, quando ainda era menor de idade. Aquele era uma época em que havia muito moralismo e seus pais botaram-na para correr de casa. "Fui morar com uma amiga", conta a mãe de Renata.

Como as amigas
Foi graças à amiga, que morava com uma tia, que conseguiu concluir o curso de enfermagem dois meses após o nascimento de Renata. Luísa só arrumou seu primeiro emprego, como acompanhante de idosos, quando a filha tinha nove meses. "A tia da minha amiga ficava com a Renata", conta Luísa.
Renata começou a ir para a escola com três anos e, com o passar do tempo, percebeu que a família era diferente. "A minha não tinha pai", lembra. Em nome do desejo de ser igual a suas amigas, perguntou à mãe se era órfã. "Minha mãe disse que não, apenas que não moravam juntos."

Nova família
Renata ficou radiante quando a mãe resolveu levá-la para conhecê-lo. "Ele me visitou com freqüência até os meus seis anos", diz ela. Mas esse foi o típico caso de alegria de pobre: durou pouco. "Minha mãe foi pedir que ele ajudasse com as despesas ao ficar desempregada e ele resolveu sair fora outra vez", lamenta.
A vida de Renata e Luísa deu muitas voltas. Depois da decepção com o pai da menina, a enfermeira pediu socorro aos pais, onde ficaram até a mãe conseguir um emprego estável e, acima de tudo, arrumar um namorado disposto a constituir uma família com as duas.

Quem é você?
Mais uma vez, a felicidade de Luísa durou pouco. "Quando eu fiz 14 anos, ele chegou alcoolizado em casa e tentou abusar de mim", conta Renata. O desespero da menina só não foi maior do que a nova decepção com o pai, a quem procurou quando viu a dificuldade para a mãe manter o aluguel do quarto-e-sala em que as duas foram morar. "Quando eu fui pedir ajuda, ele fingiu que não me conhecia."
Para ajudar a mãe, que trabalhava como auxiliar de enfermagem em um hospital, Renata foi tomar de conta de crianças para ajudar nas despesas. "Queria que minha trabalhasse menos, para que ficássemos mais tempo juntas." Luísa só aceitou a ajuda da filha até Renata perder um ano na escola.

Ano perdido
Há três anos, Luísa arrumou um novo companheiro, porém, mais uma vez, o que era doce acabou tão rápido como uma brincadeira de criança. "Ele arrumou uma outra mulher e se separou de mim", lamenta Luísa. Essa relação deixou como saldo uma irmãzinha para Renata e uma pensão para a mãe. "Não deixa de ser uma ajuda", contabiliza a mãe.
Renata diz que não confia em homem algum e que morre de pena de tudo o que a mãe teve que passar. Chegou a perguntar por que ela não a abortou. "Você não teria tantos problemas", disse para a mãe. Mas a mãe diz que não abortou porque já a amava antes mesmo de ela nascer.
Renata, que está para terminar o ensino médio em uma escola pública de Mesquita, nunca mais procurou o pai. "Eu trabalho meio período em uma loja de roupa para ajudar minha mãe e minha irmã."

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Perdas e ganhos

"É uma perda irreparável, mas que pode se transformar em luta". Luciane Silva

Por Flávia Ferreira
F
otos- Evanyr de Paula

Esta edição do programa Laranja da Terra tratará do Graal, um dos programas da Semuvv (Secretaria Municipal de Valorização da Vida e Prevçaõ da Violência) na prevenção à violência. E em uma de nossas gravações encontramos Luciane Silva, 43 anos, um símbolo de perseverança e fé. Aparentemente, ela é apenas mais uma mulher de Nova Iguaçu. Mas se voltarmos um pouco no tempo, mais precisamente até o dia 31 de Março de 2005, vamos descobrir por que ela é tão especial. Luciene foi uma das mães que perdeu o filho na chacina da Baixada, mas, mesmo com toda a tristeza, ela não desistiu da vida. O sentimento de dor virou um combustível para suas realizações e militâncias, num misto de sofrimento com vontade de viver e lutar.

Confira abaixo a emocionante entrevista que esta guerreira nos concedeu.

Como é o dia-a-dia de uma mãe que perdeu um filho na chacina?
Minha vida mudou muito de três anos para cá. Depois que meu
filho (Rafael) foi assassinado, a minha vida tomou um rumo que nunca imaginei tomar. Meu dia-a-dia é muito tumultuado e corrido, pois, além de ser dona de casa e ter 3 filhos, sou militante de vários outros projetos. Hoje faço parte dos grupos reflexivos do Graal e da Favo, além da UBM (União Brasileira de Mulheres) de Nova Iguaçu. Também participo da Oficina de Direitos Humanos, no Instituto de Direitos Humanos do Rio de Janeiro. Hoje tenho certeza de que, se ela não tivesse tomado essa direção, talvez não estivesse conversando com você. Acho que nem estaria de pé para continuar cuidando de mim e de minha família. Isso tudo que faço se tornou um meio de vida, para eu poder ter forças pra viver.

Esse seu engajamento começou a partir da morte de seu filho?
Relacionada aos Direitos Humanos e Violência, sim. Mas antes dessa perda eu já militava em m
ovimentos sociais voltados para a Cultura, Esporte, etc. Uma vez, a gente organizou na minha comunidade um grupo para ministrar aulas de grafite, capoeira e hip-hop. Então conversamos com a diretora de uma escola e ela cedeu o espaço, mas o projeto infelizmente acabou por falta de apoio. Meu filho participava do grupo de capoeira, até ajudava dando aulas para crianças. Foi um tempo muito bom.

Como foi perder um filho tão jovem? Como você encarou tudo isso?
Como é perder um filho? Não sei se você já perdeu alguém na família, mas se já, multiplique sua dor 1 milhão de vezes. Essa é a dor de uma mãe que perdeu um filho, porque é uma parte de nós que se vai. É como perder um braço, e da mesma forma que este não cresce, nada ocupa o espaço dessa perda. É uma perda irreparável, mas que pode se transformar em luta. E a perda de meu filho me trouxe isso.

Vejo tudo isso como uma coisa que aconteceu porque tinha que acontecer. Tudo na vida tem um para quê e um por quê. Se for para pagar um preço para ajudar outras pessoas que precisam, e para você fazer a diferença em seu meio, que seja assim.

Houve alguém que pagou um preço muito alto para a comunidade não cair, e eu também tenho que pagar o meu. Nunca pensei que um dia enterraria um filho, principalmente em uma situação como essa. Hoje eu sei que eu e mais um monte de mães estamos nos unindo para fazer a diferença neste mundo. Acho que toda reação tem uma ação. Por isso, se nós reagimos aqui, Deus agirá. Esse é o sentido da minha vida.

Você superou um momento trágico de sua vida, que foi a perda de seu filho.Como foi entrar nestes grupos reflexivos?
Funcionou muito bem. É muito difícil lidar com dor, tristeza e morte. É complicado você falar sobre isso. Encontro uma mãe guerreira e forte que conversa comigo de igual pra igual, mas encontro mães que não encaram bem a morte. Deparo com vários tipos de mães, e isso é bom porque aprendo com essas mães. Eu sofro com cada uma delas e a dor delas triplica a minha mas, quando deito minha cabeça no travesseiro, me sinto recompensada por ter conhecido-as. Mostro que existe um outro caminho e que podemos reverter essa revolta em uma coisa positiva. Elas me escutam porque sabem o que passei e também porque é muito mais fácil escutar quem viveu a situação do que quem é alheio a esta.

O que aprendeu nestes três anos em que está nos grupos reflexivos?
E
stou lá desde a morte de Rafael. Primeiro para São Paulo, onde fiquei cerca de nove meses. Quando voltei, fui me juntei aos familiares da chacina e daí fomos conhecendo outras mães, outras pessoas, outros grupos. E o que eu aprendi nessa minha trajetória foi lidar com a dor.

Encontro mães com filhos presos, que é uma dor muito grande. Mães com filhos nas drogas, que também é uma dor muito grande. Mas também encontro mães com filhos espancados até a morte de uma forma desumana, que sabe o que o filho passou e sofre por conta disso. A gente lida com a dor, solidariedade, amor ao próximo, de união. Começamos a ver que o ditado "a união faz a força" é verdadeiro. É matar um leão a cada dia, mas você vai se moldando, se transformando com as feridas.

Você fala muito em fé, mas essa fé já existia, ou veio após a morte de Rafael?
A fé e a confiança no Criador, todos temos que ter. E eu já tinha essa fé, ela só cresceu com a morte de meu filho. Os noves meses que passei em São Paulo com minha família foi o tempo em que mais me encontrei com Deus, de uma forma que nunca tive. Porque foi com ele que me apeguei e tive forças para voltar e procurar as famílias das vitimas. Foi como um tempo de preparação espiritual. E a cada dia venho buscando em Deus pois existem momentos que você se desespera e a espiritualidade e a fé me dão forças para continuar.

Se você não tiver fé de que existe um Criador que está esperando esse mundo se conscientizar de que precisa mudar e lutar pra reagir e fazer a diferença, perde-se o sentido da vida. A fé é o que rege o mundo e se você não a tem, você não tem nada.

Você se sente mais fortalecida destes três anos para cá? O que de mais diferente percebe em você?
Sinto como se tivesse uma couraça, que vai engrossando e engrossando. Como uma armadura que com o passar do tempo vai ficando mais forte à medida que vai recebendo as bordoadas. As coisas não me atingem como antes, mas isso não tira o sentido de ser humano, de sentimento e de dor. Hoje me sinto mais forte para falar de minha dor e para ajudar os outros a se reerguer e levantar, mostrando que eles também podem fazer isso. Acho que nessa vida você tem que deixar algo. Você não pode simplesmente passar.

Li uma coisa em uma instituição de fisioterapia para pessoas que sofrem acidentes, que dizia mais ou menos assim: "a fonte da juventude é você ter na sua vida uma causa." Isso foi uma coisa que trouxe pra mim. Hoje tenho 43 anos, mas minha mentalidade é de 20. Minha militância está me rejuvenescendo.

Você falou em causa. Qual a causa que você deixa nestes grupos reflexivos e em sua militância?
O respeito à vida... A vida humana, seja ela qual for. Seja o menor infrator, o maior infrator, seja o traficante, seja o assaltante, seja o inocente que nunca teve passagem na polícia e é um homem de família. Independentemente disso, são seres humanos e devem ser respeitados, e que precisa valer o seu direito. Esse direito está previsto em nossa constituição federal e na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O direito à vida... Essa vida tem que ser respeitada. Vida que foi dada pelo criador só Ele pode tirar.

Não é eliminando o problema que se resolve algo. Infelizmente, a violência cresceu ultimamente, porque as pessoas acham que têm que eliminar o mal pela raiz. É isso que acontece, pois as pessoas acreditam que eliminando o assaltantezinho, o bandidinho, eliminam o problema. O problema não é esse, mas a falta de políticas publicas e de um governo com políticas que façam a diferença, que afastem estas pessoas do tráfico, impossibilitando-as de roubar e cometer crimes.

Isso não existe em nosso país. É por isso que se mata tanto. Os governos acham que é mais fácil eliminar do que investir para resolver o problema.

Você falou sobre o respeito à vida, e é certo que o temos. Só que os que deveriam zelar por esse nosso direito são os responsáveis pela maioria dessas mortes. O que você acha disso?
Isso acontece no Brasil e em outros locais do mundo, porque a instituição que forma estes policiais não visa e não coloca em prática a valorização da vida. Essa instituição não é humana, ela não respeita a humanidade das pessoas. A prioridade dessas instituições devia ser o respeito à vida.

A primeira coisa que um policial tem que aprender é respeitar o ser humano. Seja ele qual infrator ou não infrator. Os policiais têm que aprender a lidar com o jovem infrator e com os seres humanos. Eles têm que enviar esses jovens para uma instituição que os recupere, muito embora a gente não possa esquecer de investir em uma instituição que de fato os recupere. Não é só você humanizar a polícia, porque não é só a polícia que mata. Você encontra esse tipo de gente em todos os locais, porque falta humanidade ao ser humano. Só que a polícia esta aí para proteger, e como isto vai acontecer? Esses policiais têm o dever de respeitar. Se não o fizerem, têm que ser punidos.

Acho essa mudança de comportamento muito difícil e que terá que ser aos poucos. É trabalho de formiguinha, cujos resultados só aparecerão no futuro . Só que a consciência tem que ser agora, pois a polícia está doente e tem que ser tratada senão não vai ter mudança nem na policia, nem na política, nem em canto algum. O problema tem que ser combatido na origem.

Se pudesse instituir uma lei, qual lei instituiria para ser cumprida rigorosamente?
O cumprimento da lei. A lei que rege o país, que é a Constituição Federal; a lei que rege os direitos, que é a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que deveriam ser respeitados ao pé da letra. Principalmente o artigo 6° da Constituição, que diz que você tem direito à educação, à saúde, à segurança, à moradia, à vida. A lei já existe. Ela só tem que ser cumprida. Nosso povo é acomodado e não exige o cumprimento das leis.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Uma voz contra a ditadura

Boiadeiro Apaixonado canaliza carga teatral para programa de rádio.

Por Flávia Ferreira

Imagens: Camila Elen

Marcos Silvestre, mais conhecido como Boiadeiro, tinha 18 anos na época em que explodiu o golpe militar de 64. Mesmo com pouca idade, já era envolvido com teatro desde seus 15 anos. "Como a gente sempre fez muita coisa com teatro, não me considerava tão novo assim."

O golpe mobilizou tanto os militares quanto os movimentos de resistência de Nova Iguaçu. O teatro foi um desses movimentos e a ditadura não foi capaz de inibi-lo. Por isso, assim como seus colegas, Boiadeiro tornou-se protagonista da História da cidade ao questionar a “ordem” que vinha sendo estabelecida. "Queríamos mudar o quadro existente".

Boiadeiro conta que toda peça teatral tinha que passar por uma comissão, lá na Praça Mauá. E se eles julgassem a peça como uma ameaça ao governo, ela seria proibida. "Tive amigos que foram presos nas apresentações teatrais por conta da censura." Em sua luta contra a ditadura, enfrentou momentos difíceis como apanhar na rua e ser forçado a entrar em um Opala preto, ao lado de alguns meganhas.

Mas o momento que mais o marcou ocorreu na Praça Santos Dumont. Neste dia, por volta das sete ou oito horas da noite, estudantes se manifestavam aos gritos de "abaixo o militarismo. Democracia já". Foi então que, de repente, a praça foi cercada por caminhões do exército. "Começou a descer aquele monte de homem com o cacetete na mão". Para o azar de Boiadeiro, durante a fuga ele caiu dentro de um valão à beira da linha do trem. "Levei uns cacetetes nas costas", diz ele.

Naquele tempo, além da repressão dos militares nas ruas, havia também um clima desconfortável dentro das próprias casas, os pais controlavam as saídas e os horários dos filhos. "Tínhamos que chegar mais cedo, porque todos tinham medo do que poderia acontecer", diz ele. Para Boiadeiro, no entanto, esse medo ainda existe atualmente. "A ditadura passou, mas hoje também não podemos sair à noite." Como ele mesmo fala, antigamente era possível ir de Nova Iguaçu ao bairro Esplanada à meia-noite, e a pé. "Hoje, isso não é mais possível. A ditadura da violência escraviza o povo, só que de outra forma."

O esperado fim da ditadura Militar trouxe de volta o direito de a população votar e se expressar. Para os artistas era perfeito. Eles não teriam mais que se apresentar diante de uma comissão e correr o risco de ter seus espetáculos censurados. Em tom de desabafo, Boiadeiro diz estar feliz com a redemocratização do país, mas ressalta que alguns governantes dão a impressão de ignorar o sacrifício daqueles que lutaram contra o regime militar. "Parece que a ditadura se instalou de uma outra forma no regime democrático. Isso eu lamento".

Recuperado do momento histórico que passou e trazendo toda sua carga teatral, Boiadeiro se aventurou pelos veículos de comunicação. Ele trabalhou na TV Sul-Fluminense e em uma rádio chamada Solimões, em Barra Mansa, participando do programa de outras pessoas. Ele também foi diretor de uma rádio comunitária, onde garante ter alcançado audiências estrondosas. Marcos lembra que na juventude atuou muitas vezes na Rede Globo, chegando a trabalhar ao lado de José Mayer - eles faziam o papel de dois bandidos jogados na mala de um carro. "Dali, Zé conseguiu crescer, virando esse grande artista. E eu virei radialista da Rádio Tinguá."

Boiadeiro leva toda sua experiência como ator para a Rádio Tinguá, fazendo o que ele descreve como "rádio-teatro". Seu programa é um dos mais ouvidos na cidade. "Se fossem fazer uma estatística, veriam que falo para cerca de 70 mil pessoas por hora", calcula. Ele acha que isso acontece por dois motivos básicos e fundamentais: o primeiro deles é que os ouvintes gostam de falar direto com o locutor e receber o retorno imediato. “É importante ele falar com a pessoa que está ali, diferente das grandes rádios, onde você é atendido pela secretária eletrônica." O segundo motivo é que seu programa é voltado para o povo nordestino.

Como na Baixada tem muito migrante nordestino, Boiadeiro toca forró. "O forró é a raiz do povo nordestino", afirma. A importância que Boiadeiro dá ao povo nordestino é a receita para que sua audiência seja tão fiel.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Um delegado que cumpre as leis

Orlando Zaccone revoluciona cotidiano da 52ª respeitando direitos dos presos.

Por Avrill Nobre
O delegado Orlando Zaccone chegou à 52ª DP em janeiro de 2007, quando Sergio Cabral assumiu o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Encontrou então 400 presos espremidos na carceragem, que hoje, um ano e meio depois, ele reduziu para 280. Iniciou de imediato um projeto que chamou de Carceragem Cidadã, um projeto em parceria com a Prefeitura Municipal, Governo do Estado e Governo Federal que oferece saúde, educação e cultura aos presos. "Só estou cumprindo o que determina a Lei de Execução Penal", afirma o delegado, um ex-surfista e budista de 44 anos que surpreendeu os amigos quando entrou para a polícia.

A repercussão na mídia é apenas um dos sinais de que o trabalho de Orlando Zaccone à frente da 52ª DP está revolucionando o cotidiano da Polícia Civil. "A Polícia Civil não deveria ficar com os presos", afirma. "Ter a cautela dos presos é uma atribuição da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária." Há normas da Organização dos Estados Americanos (OEA) que determinam que a instituição responsável pela investigação não pode manter o preso por muito tempo. "O projeto da Polícia Civil é acabar com as carceragens em delegacias", diz. Uma prova disso é que a planta arquitetônica das chamadas delegacias legais, um projeto de 2001, não prevê espaço para a carceragem.
Esse generoso projeto da Polícia Civil, criado na época em que o antropólogo Luiz Eduardo Soares era o coordenador de Segurança do Governo Garotinho, teve pelo menos um indigesto efeito colateral. "As carceragens se tornaram ambientes ainda mais inóspitos, sem a menor assistência da Secretaria Estadual de Administração Penitenciária", constata. Essa assistência seria necessária porque as carceragens vivem uma situação dramática do ponto de vista pessoal, com poucos assistentes sociais, poucos advogados e poucos médicos. "O preso que fica sob a custódia da polícia acaba ficando numa situação ainda mais vulnerável, pois não temos nenhum tipo de profissional que possa lhe dar assistência."

O delegado chegou à 52ª DP com uma sólida bagagem teórica, consolidada no mestrado em ciências penais da Universidade Cândido Mendes. Mas precisou da temperança desenvolvida nos tempos em que era adepto da filosofia Hare Krishna para administrar com galhardia as imposições da Lei de Execução Penal e as limitações materiais e pessoais da delegacia que assumiu. "Tanto os presos condenados como os custodiados têm seus direitos e é dever do Estado dar assistência educacional, médica e cultural a eles." Orlando Zaccone se viu na obrigação de recorrer à sociedade civil para cumprir com suas obrigações, mas o resultado foi gratificante. "Tivemos uma recepção muito boa da Prefeitura de Nova Iguaçu e dos músicos Marcelo Yuka e Tico Santa Cruz", lembra.
Começavam aí projetos como um cineclube quinzenal, shows musicais, criação de uma biblioteca e a publicação do jornal "Sol quadrado também brilha", além da formação de dois grupos reflexivos do GRAAL. Mas o delegado mais midiático do Rio de Janeiro não revolucionou o cotidiano da 52ª apenas com o respeito às imposições da Lei de Execução Penal aos serviços assistenciais que têm que ser prestados aos presos. Orlando Zaccone também mudou o modo como os presos são tratados, abdicando em definitivo do uso da força. "Você pode exercer uma autoridade sem violar o principio da dignidade da pessoa humana", afirma.
Orlando Zaccone tem uma intensa produção teórica, na qual se destaca a dissertação de mestrado "Acionistas do nada". Nessa dissertação, recebida com estardalhaço tanto pela academia como pela mídia, defendeu idéias polêmicas como as de que o aparato repressivo do Estado só prende os bagrinhos do crime. Outra ousada tese defendida por este ex-jornalista, que começou a estudar direito pressionado pelo pai também policial, foi publicada no site oficial do movimento "Marcha da maconha". No artigo "Paz sem voz no estado de exceção", o delegado condenou a decisão judicial que proibia a manifestação pela legalização da maconha. "Embora já tenhamos separado o Estado da Igreja há alguns séculos, as nossas ações no cotidiano estão carrregadas de um sentimento de sacralidade, onde nós vemos determinadas coisas como divinas e outras como profanas", filosofa. As drogas ilícitas são um desses temas.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Um mundo onde tudo é possível

Freqüentadores de lan house são mais unidos no mundo virtual do que na vida real.

Texto e fotos de Daniel Santos

As lan houses são estabelecimentos comerciais onde os usuários pagam para usar computadores conectados a internet e para jogos on-line. O nome já mostra como esse lugar funciona . LAN é a sigla Local Area Network, que pode ser traduzida como rede local. E house significa casa. Ou seja , uma lan house é uma rede de computadores dentro de um pequeno espaço.

Essas casas que começaram e se difundiram na Coréia, em 1996. Chegaram por aqui em 1998. A grande onda das lans começou a se formar no início desta década, quando os empresários perceberam as filas que se formavam nas poucas casas existentes.

Hoje, em todas as cidades e cantos você encontra diversas lan houses. Como Nova Iguaçu não poderia ficar de fora, a cidade, além de estar recheada dessas casas, novos empreendedores do município entram nesse ramo a cada dia que passa.

"Comecei vendendo produtos de informática. Como não deu certo, aproveitei as peças que já tinha e montei a Activi", afirma Thiago Machado, mais conhecido como Skull. Ele, que já tinha experiência em trabalhar em lan house, mantém uma clientela diversifica investindo em jogos e fazendo upgrade regularmente em suas máquinas.

Com o aumento dessas casas, o que a cada minuto se multiplica é o numero de freqüentadores. Crianças, jovens e adultos vão às lan houses para fazer diversos tipos de tarefas, que vão de jogos on-line a trabalhos profissionais.

O cabeleireiro Edson Henriques, o Edinho, passa cerca de cinco horas diante de um computador. "Vou na Lan House porque gosto de entrar em salas de bate papo", diz ele, que deixa de sair para outros lugares para participar de chats, onde já arrumou algumas namoradas. "Também pequiso preços e lançamentos."

Outro freqüentador que não abre mão do espaço é o estudante Paulo Marcos, o Betinho. "Gosto da lan porque me divirto nos jogos fazendo tudo o que eu não faço na vida real", diz ele, que já chegou a passar 13 horas seguidas em uma lan. Eis algumas das atividades que ele só pode fazer no mundo virtual: matar, voar e comprar à vontade.

Também há freqüentadores que entram na lan house para fazer uso de todos os serviços disponíveis no estabelecimento. È o caso do misto de mecânico e estudante Gleydsom Martins. "Me divirto com jogos, faço pesquisas e adoro me relacionar com novas pessoas nas salas de bate-papo e MSN", diz Gleydsom.

Mas Gleydsom vai além do uso convencional das lans. "Já fiz apostas com amigos no qual disputávamos para ver quem conseguia ficar com mais garotas que nós conhecíamos pela internet", confessa ele, que ficou em segundo lugar nesse campeonato. O mesmo Gleydsom também conta que, dentro da Lan, a relação com as pessoas é mais intensa .

"Fora da Lan, normal, somos amigos. Aqui dentro, a união é maior."

Todo poder aos professores!

O professor aposentado lembra os embates entre o SEPE e a ditadura militar.

Por Flávia Ferreira

imagens: Gabriela Gama (Bré)

Durante a ditadura militar, Nova Iguaçu teve uma importante participação social e educacional no estado. Naquela época, os professores do município tinham um núcleo no SEPE (Sindicato Estadual dos Professores Estaduais). Esse núcleo era coordenado por Salomão Baroud David, que também ministrava aulas no Instituto de Educação, atual Instituto de Educação Rangel Pestana. Segundo ele, foi durante o regime militar que surgiram as primeiras associações e sindicatos iguaçuanos.


No Sindicato Estadual dos Professores Estaduais, pais de alunos, alunos e os professores discutiam os seus direitos em assembléias que eram um verdadeiro pandemônio. "Nossas assembléias tinham, no mínimo, 4 mil pessoas", lembra o professor Salomão. Mas essa intensa participação não passou desapercebida pela repressão. "Em todas as assembléias havia gente nos vigiando." Apesar dos olheiros da ditadura, Salomão e os sindicalistas realizavam um amplo trabalho de de valorização do educador e lutavam por melhorias salariais.


Nesse tempo ocorreram inúmeras passeatas em todo o estado do Rio. As pessoas se reuniam na Rio Branco para reivindicar, além do salário, outras coisas que queriam para educação. Essas passeatas chegaram a reunir cerca de 10 mil pessoas.

Nesse tempo havia também, segundo Salomão, um movimento social muito grande caracterizado pelas greves. "Fizemos greves de até 40 e 60 dias". Durante essas greves, enormes assembléias eram realizadas, onde uma multidão do Rio se encontrava na sede do Sindicato, no Maracanãzinho. "Nossa atividade era conscientizar os professores e, graças a Deus, nós obtivemos certa liderança", diz Salomão David.


Além das greves, esse sindicado implantou as eleições de diretores no Instituto de Educação e exigiram a diminuição do número de alunos por sala."No início do ano, tínhamos de 50 a 60 alunos dentro de uma sala", lembra o professor. "Aí começamos a exigir que se cumprisse a lei de no máximo 35 a 40, que já é um bom número."


Mas mesmo com a aparente liberdade de eleger diretores e realizar assembléias, tudo sempre era vigiado. Tanto que Salomão e mais uns cinco ou seis amigos recebeu, em uma das assembléias, uma convocação para se apresentar no DOPS (Departamento de Ordem Politica e Social), em Nova Iguaçu. "Isso é um tipo de pressão e perseguição que faz parte do sistema reinante na época."


As eleições de diretores e a construção são conquistas da época da ditadura que não foram perdidas nas décadas seguintes. No entanto, a organização dos professores não foi suficiente para barrar as perdas salariais da categoria, que começaram a se agravar durante o regime militar. "De que adianta criar escolas se o profissional que cuida do aprendizado está defasado?", pergunta Salomão. "Como um professor pode dar aula em três escolas e levar dever para casa?"


O SEPE de Nova Iguaçu ainda existe, mas ganhou uma nova configuração. "Atualmente, o SEPE tem uma diretoria que publica um jornal, que me manda, mensalmente, artigos sobre educação". Não há mais aquele movimento social, no qual importava menos a filiação partidária do que o desejo de obter melhorias para a classe. "É um outro momento, uma outra história".

terça-feira, 27 de maio de 2008

A missão de Zezé Mota

Superintendente da Igualdade Racial do Rio de Janeiro discute movimento negro no Sylvio Monteiro.

Por Daniel Santos

O Espaço Cultural Sylvio Monteiro serviu de palco, na segunda-feira 19 de maio, para que representantes do movimento negro discutissem um assunto bastante polêmico no país e no mundo: igualdade racial. No centro de uma mesa composta por representantes do movimento negro de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro e até da África, estava a Superintendente da Igualdade Racial do Estado do Rio de Janeiro, a atriz Zezé Mota.

A reunião começou com a lembrança do ato promovido no dia 13 de maio, na Praça Rui Barbosa. Os organizadores do ato atribuíram o sucesso do ato à união do governo municipal com a sociedade civil. O ato, que durou cerca de oito horas, mobilizou artistas de toda a Baixada Fluminense.

Depois dos elogios ao ato do dia 13 de maio, os participantes da reunião com Zezé Mota começaram a discutir projetos do interesse da causa negra. “A questão racial caminha lentamente”, afirmou a superintendente estadual. Para ela, uma das muitas coisas a serem feitas pelos negros é lutar por uma equiparação salarial com os brancos. “Nós ganhamos muito menos”, disse ela, indignada.

Zezé Mota não esqueceu as conquistas do movimento negro, porém. Depois de elogiar a lei que trata o racismo como crime, ela analisou o mercado de trabalho para o ator negro. “Uma das principais evoluções é a inclusão de um maior número de negros em novelas e com papéis diversificados”, disse ela. Para a atriz, chegou a hora de reverter esse quadro no cinema. “Até agora o cinema brasileiro só usa o negro como bandido”, protestou.

A platéia fez diversas sugestões. Uma das pessoas presentes propôs um trabalho de valorização da cultura negra nas escolas. Também foi proposta a criação de um númeo maior de eventos que promovam a igualdade racial e digam não ao preconceito.

No fim da reunião, Zezé Mota elogiou a beleza do espaço cultural e revelou um dos seus desejos: “Sonho com a criação de um museu em memória do negro e do índio”, disse. Baseando-se no exemplo do ministro Gilberto Gil, a atriz Zezé Mota encerrou o evento mostrando seu talento e cantou “A missão”, de João Nogueira e Paulo César Pinheiro.

Geografia da ditadura

Professora de geografia da Monteiro Lobato quase foi presa por causa de uma simples prova.

Por Flavia Ferreira
imagens: Gabriela Gama (Bré)

Sada Baroud David, uma senhora muito distinta que estuda no Instituto de Teologia Paulo VI e trabalha na formação bíblica da paróquia de Nossa Senhora de Fátima, guarda tristes segredos da época da ditadura militar. "Nesta época, eu era professora de geografia da Escola Municipal Monteiro Lobato, onde a Vila Militar tinha uma presença constante", lembra.


Ela ainda traz na memória o clima de terror vivido na escola, onde os professores eram permanentemente monitorados por um certo coronel Zamith. "Lá pelos anos de 68 ou 70, ele sempre estava nas reuniões e, quando não ia, mandava olheiro." O ápice dessa ingerência, pelo menos para a professora, se deu quando ela foi prestar esclarecimentos na Vila Militar por causa de uma simples prova de geografia.


Sada David jamais esqueceu o susto que tomou quando, depois de ser convocada para uma reunião de emergência na escola, a diretora lhe informou que a prova havia sido mandada para os militares. "Tudo isso porque passei uma prova sobre a União Soviética usando informações que não estavam nos livros escolares", conta. O mais absurdo de tudo é que os dados em questão haviam sido colhidos de uma apostila fornecida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), um órgão do governo no qual estava fazendo um curso de especialização.


"Eu tremi nas bases", lembra. Sada David viu-se, além de desempregada e presa, sem poder ajudar o pai, doente em casa. Mas, apesar do medo, ela logo estava livre daquele pesadelo. "Tive que ir em casa pegar a apostila e encaminhar para a Vila Militar", conta. "Menina, quase fui presa por conta de uma prova", acrescenta, rindo.

Apesar do susto, a professora não recusou o convite de Dom Adriano Hipólito para secretariá-lo na recém-fundada Comissão de Justiça e Paz da Diocese de Nova Iguaçu. Começava ali uma história de engajamento que daria um novo status ao movimento de resistência à ditadura militar tanto em Nova Iguaçu como no Brasil. "Todos os meses recebíamos a visita de bispos do peso de um Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Pedro Casaldáliga", lembra.


Aquela foi a melhor fornada de bispos da história, avalia Sada Baroud. "Nem em mil anos teremos bispos tão comprometidos com a pastoral social", afirma. Graças a eles, a Igreja teve uma influência decisiva nos movimentos populares. "Organizamos o povo e começamos a fazer todas as reivindicações que a gente achava que o país precisava", diz ela.

Com o apoio da Igreja, surgiram movimentos poderosos como o do MAB (Movimento de Associações de Bairro). "Dom Adriano apoiava tanto o movimento que chegou a oferecer os aposentos da Diocese para ser sede do MAB", lembra Sada. O movimento se expandiu de Nova Iguaçu para São João de Meriti, Duque de Caxias e Itaguaí, entre outros lugares. "Chegamos a construir uma Federação de Associação de Moradores do Rio de Janeiro (FAMERJ), e 50% dos representantes eram daqui."


A Diocese também ajudou o incipiente movimento pela terra, que deu origem ao primeiro sindicato rural da Baixada Fluminense. "Havia muitas terras ociosas na cidade, que logo se tornaram ocupações urbanas", conta. Essa evolução se deveu ao fato de Nova Iguaçu ser um grande centro de migração de nordestinos, que vêm para cá atrás das maravilhas do Rio de Janeiro.


"Nova Iguaçu teve a sorte de ter um bispo completamente destemido e comprometido com o povo, como Dom Adriano", afirma Sada. Segundo a professora, o líder religioso chegou a se expor à morte em nome de uma grande gratidão à cidade. "Eu vim para cá como frei, religioso, mas quem me converteu foi a Baixada, a querida e sofrida Baixada Fluminense", dizia Dom Adriano, segundo Sada.


Além do embate direto com os militares, os religiosos da Diocese de Nova Iguaçu ousaram esconder os perseguidos do regime. "A Igreja protegeu essas pessoas porque tinha plena consciência de que um regime ditatorial, totalitário, amedrontador, que torturava e matava pessoas, não tinha nada a ver com direitos humanos e não tinha nada a ver com a construção da cidadania no país", diz Sada.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Pirataria em dois lados

Um bonde de jovens repórteres foram descobrir porque a pirataria gera tanta polêmica.

Por Amanda dos Santos, Flávia Sá, Isabel Nascimento, Jeyce Cristine

Imagens - Felipe Rodrigo

Na Rua Arruda Negreiro sem número está situada a locadora I.V.L. Flávia Bianca, 22 anos, diz que seus pais montaram a locadora para obter um ganho extra sem precisar sair de casa. Na época, ela e seu irmão eram pequenos e sua mãe, de 54 anos, não podia deixá-los sozinhos para trabalhar fora. Foi assim que seus pais resolveram montar uma locadora em cima da própria casa. Dois anos depois da abertura, o casal resolveu aumentar a locadora e se mudaram para onde eles se encontram agora. Isso já faz 15 anos.

Quando são lançados, os DVDs são muito caros, chegando a custar 50 reais no mínimo. Se eles comprarem, não terão como alugar, porque, com o preço elevado, ninguém aluga. Sendo assim, perde-se dinheiro. Por isso, eles têm que esperar mais ou menos dois meses para que a fita fique mais barata.

Sabemos também da grande polêmica causada pela pirataria. Quem não se lembra do "lançamento" do DVD Tropa de Elite? O filme sequer tinha estreado e já estava nas bancas dos camelôs. Os produtores do filme tiveram grande prejuízo, sendo obrigados a fazer algumas modificações no filme antes que ele fosse para as telas de cinema.

A pirataria é uma questão a ser repensada, pois facilita o acesso da população menos favorecida à "cultura" e ao entretenimento, mas muitos são prejudicados com essa ilegalidade. O artista que produz tem custos e seu trabalho é copiado sem o mínino de qualidade. Ele não vê o retorno desse dinheiro que por direito deveria ser seu. Rejane Gama, advogada, casada, mãe de duas filhas, é totalmente contra a pirataria e acrescenta:

- É um crime de receptação. Comprando, vou alimentar a indústria do crime, o trabalho informal e gerar prejuízo aos produtores e artistas. Sou a favor de que os DVDs originais sejam mais baratos e acessíveis. Mas com certeza a pirataria não é a solução.

Ela acrescentou ainda que um amigo proprietário de locadora se viu obrigado a vender outros produtos dentro de seu estabelecimento, devido à queda no aluguel de DVDs.

Os clientes que mais freqüentam a I.V.L são os que têm cerca de 7 anos de ficha. Porém, os clientes mais novos são os que mais alugam lançamentos. A locadora tem uma vantagem: estar perto dos comércios.

- As pessoas que compram pão e leite aproveitam para alugar um DVD, garantindo a diversão do fim de semana – explica Flávia.

Para ela, o que realmente fez o movimento das vendas cair foi a “epidemia” da TV a cabo. Essa competição fez muita gente abandonar a locadora.

- Fomos obrigados a botar preço promocional para ganhar um trocadinho e tirar alguma coisa que muito mal dava para comprar ‘o pão’. No final do mês, não dava nem para comprar outros lançamentos e nem tirar algum para pagar o aluguel - conta Flávia, que, pelo fato de seus pais serem senhores de idade, já não podem trabalhar mais.

Por essas e outras que ela e seu irmão vão seguir rumos diferentes.

O outro lado da história

Por Daniela dos Santos Vieira

Entrevistei a vendedora Elaine Cristina, 22 anos. Ela acabara de contratar o serviço de “gato-net” (veiculação pirata de TV fechada).

Porque você assinou o gato-net?

Assinei o "gato-net" pelo meu filho que tem 9 anos e ama ver filmes. Sei que não é certo, mas é proveitoso para algumas pessoas.

Por que você não aluga os filmes?

Porque o dinheiro não dá para toda semana estar alugando os filmes, pois o tempo de aluguel é pouco e o "gato-net" é mais prático (afinal está dentro da minha casa).

O que mudou em sua vida?

Mudou bastante, pois passei a estar mais tempo com o meu filho. E passei a ser mais atualizada com os telejornais que tenho oportunidade de assistir no "gato-net".

Você descarta a locadora?

Não descarto, não. Sempre quando dá eu vou a uma locadora e pego alguns filmes que não tive oportunidade de ver. A locadora também é uma bela opção. Sempre vou ter a locadora como opção.

Uma kombi que resiste ao tempo

II IGUACINE Exibido na sessão de homenagens do II Iguacine, 'Marcelo Zona Sul' continua encantando plateias 40 anos depois de sua es...