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quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Tricotando na rede

Meninas ainda são minoria nas Lan Houses

Por Dardânia Carvalho

Pode-se dizer que as lan houses de Nova Iguaçu são mais freqüentadas por homens do que por mulheres. Qualquer pessoa que entrar numa lan verá que o número de homens lá dentro é bem maior do que o de mulheres. Para Eduardo Garrido, o servidor da lan house Connection, em Botafogo, isso acontece porque os meninos são barulhentos e bagunceiros. "As mulheres têm vergonha de estar junto dos homens", acredita Eduardo. "Pelo menos aqui na Connection, elas preferem mais sossego."


Aline Santos, que não tem computador em casa e vai às lans checar e-mails e fazer pesquisas para a faculdade, concorda em gênero, número e grau com Eduardo. "Eu não gosto quando um monte de gente fica atrás de mim, lendo minhas conversas", diz a estudante, de 22 anos. "Deveria ter mais privacidade." Apesar disso, Aline confessa que a lan house facilita sua vida. "Sempre que eu preciso usar a internet, vou à lan house. Lan house é o que não falta. Tem em todo lugar."

Mas nem todas as meninas procuram sossego. Quem prova isso é a freqüentadora Cíntia Rosário, 18 anos. Para ela, há um número expressivo de meninas que vão à lan mais interessada em arrumar namorado na rede do que em fazer trabalhos escolares. "Elas vão para fazer amigos e ficar bate-papo no MSN", afirma Cíntia. "Algumas até gostam de safadeza na lan house. As mulheres deveriam ter mais privacidade e atenção."




Jogos masculinos

Para a servidora Mônica Amora, 39 anos, que trabalha em uma lan house na Caioaba, as lans
atraem mais homens porque em sua maioria são projetadas para jogos. "As meninas procuram mais amizades. Poderiam ser proibidos certos tipos de comportamentos como xingamentos, palavrões, etc. Em compensação, depois que surgiram as lan houses, as pessoas passaram a ficar bem mais informadas", completa.

"A lan é como se fosse um clube para os homens", analisa Rodrigo Barbosa, 19 anos. "Se tem mulher, eles atacam de todos os jeitos." Para ele, as mulheres só querem saber de Orkut. Rodrigo acha que a solução seria melhorar o conforto e exigir mais respeito dentro da lan. "Isso atrairia mais mulheres", imagina.

Wanderson Oliveira, 16 anos, também dá seu palpite para aumentar o número de mulheres nas lan houses. Segundo ele, as mulheres podem ser conquistadas pelo bolso. "Poderia ter mais promoções para elas. Quem sabe, assim, elas poderiam se interessar", diz. Para Rômulo Diego, 18 anos, educação é a palavra chave para aumentar a freqüência de mulheres nas lans. "Tem muita pornografia nas lans", afirma Rômulo.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Filhas do videogame

Sem muita opção, crianças têm que agir como adultos

Por Flávia Ferreira

Algumas crianças já conhecem o sentido da expressão "se virar sozinho". Por mais que a mãe deixe comida pronta ou pague alguém para tomar conta, essas miniaturas de adulto sentem o peso da responsabilidade quando tomam banho e fazem o dever de casa sozinhas. "Sinto falta de alguém do meu lado", diz Juliana Pereira Marques, uma estudante de apenas 12 anos.
Essa rotina, que se repete na vida dessa professora de matemática desde que tinha nove anos, está se tornando cansativa para Juliana. "Não agüento mais passar o dia todo jogando videogame", desabafa. "Sinto falta de alguém para conversar e brincar."

Juliana tem plena consciência de que essa é uma situação irreversível, pois, viúva há cerca de dez anos, é a mãe quem traz dinheiro para casa. "Mas gostaria de mandar ela ficar em casa", confessa. Como não tem esse poder, faz tudo o que está ao seu alcance para se ajustar. "Como minha mãe chega cansada, eu arrumo toda a casa na ausência dela."

Ninguém para perturbar

Por uma triste coincidência do destino, Ricardo da Silva Santos, hoje com 14 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo quando há cerca de três anos perdeu o pai para uma das guerras do tráfico. A partir deste episódio, a contabilidade fiscal e afetiva da casa sofreu um duro golpe. "Minha mãe teve que trabalhar ainda mais e eu fiquei ainda mais sozinho", queixa-se.

Ricardo sente falta da presença da mãe, que, além de passar o dia fora trabalhando como empregada doméstica, vai direto para cama quando volta para casa. Mas embora lamente não poder conversar um pouco mais com a mãe, Ricardo não reclama de passar o dia sozinho. "É uma maravilha não ter ninguém para me perturbar nem encher o meu saco", diz, rindo.

Parte do relaxamento de Ricardo se deve ao fato de não precisar fazer nada em casa. "Tem uma moça que faz comida para mim", diz ele. Ricardo usa a liberdade de que desfruta para passar dias inteiros diante da televisão, jogando Playstation 2. "Quando jogo Playstation 2 nem vejo a hora passar", revela. "Amo jogar nele."

Direto para a cama

Com os mesmos 14 anos, o estudante Carlos Sampaio dos Santos também conta com a ajuda de uma pessoa que cozinha para ele quando a mãe sai para trabalhar. Carlos não tem o mesmo espírito esportivo que o de Ricardo diante da ausência da mãe. "É muito chato ficar sem minha mãe ao meu lado, porque me sinto sozinho", diz ele.

Ele não sabe o que é pior: se a ausência real da mãe ou se ela, mesmo estando presente, não está disponível para ele. "Ela chega muito cansada e vai direto para a cama." Segundo ele, só nos fins de semana conseguem ser uma família de verdade, pois são os únicos dias que estão juntos e que ela brinca com ele. Carlos, que também é órfão de pai, tenta suprir a solidão brincando com os amigos na rua.

Além de não desfrutar da companhia dos pais, Fernanda Soares não tem liberdade para ir brincar na rua. "Meus pais não gostam", diz ela. Além de cuidar da casa, cabe a Fernanda a responsabilidade de olhar seu irmão mais novo. "Minha mãe fala que sou grandinha e que posso fazer isso", diz ela. Ela às vezes se sente entediada com as horas que passa diante da TV, mas não reclama da vida. "É difícil ter seus pais longe de você, mas a gente se acostuma."

domingo, 27 de julho de 2008

Ciúmes online

Orkut é usado para bisbilhotar até a vida de pessoas desconhecidas

Por Aline Maciel, Daniella Vieira e Jeyce Cristina
Fotos- Aline Maciel, Daniella Vieira e retiradas da internet


A evangélica Jany Cristina de Sá Silva trabalha de segunda à sexta como empregada doméstica e, nos fins de semana, não esquece de adorar seu Deus no templo perto de sua casa. Cumpridas suas obrigações profissionais e religiosas, ela se aboleta diante do computador de uma das lan houses de Comendador Soares e dedica horas ao que considera a segunda melhor coisa da vida. "Depois de Cristo, a coisa de que mais gosto é fuxicar no Orkut", assume.

Como milhares de pessoas ligadas à grande rede, Jany segue um ritual quase tão previsível quanto os dos cultos da Pão e Vida, a igreja que freqüenta. "A primeira coisa que faço quando entro no Orkut é ver quem andou me fazendo uma visitinha", diz ela, para quem a única opção de lazer existente no bairro é a lan house. A visita será retribuída independentemente de a pessoa fazer parte da rede de amigos adicionados em sua comunidade.

No caso de Jany, ver as fotos é uma estratégia para reconhecer eventuais
irmãos da sua igreja, o que pode inibir a invasão da privacidade da pessoa em questão. Mas, para Elciane Xavier, uma moradora de Mesquita de 20 anos, o reconhecimento do rosto do visitante é um estímulo para que coteje o que conhece da pessoa com o que está escrito em seus scraps. "Muitos mentem", afirma ela, que diverte ao flagra amigos dizendo coisas que não são.

Contra-ataque

A agilidade de Elciane é comprometida porque costuma navegar da conexão discada de sua casa, mas ela já protagonizou algumas epopéias virtuais, a maioria delas ligadas às histórias amorosas a que dá publicidade pelo próprio Orkut. A primeira delas teve como ponto de partida a foto que tirou ao lado de um rapaz chamado Eric, com o qual namorou há cerca de dois anos. "Um dia, um 'meliante' pegou essa foto e distorceu-a, deixando-a com o rosto daquelas pessoas que colocam botox."


Elciane só descansou quando localizou o fuxikeiro, que, além de esconder sua identidade por trás de mecanismo de bloqueio, havia criado um outro Orkut e colocado a foto do casal no perfil. "Mandei um scrap quebrando o barraco", conta Elciane. A solução para o problema neste caso foi mais simples do que o imbróglio em que se meteu com a ex-namorada de um outro companheiro seu. "Ela me fuxicava pelo Orkut das primas", lembra ela, que descobriu o fato ao acompanhar os scraps trocados pelas pessoas cujo nome ficava registrado na área Visitantes Recentes.

Elciane resolveu contra-atacar, criando um Orkut para fuxicar a rival e deixando o que ela própria considera "recadinhos malucos". "Só que eu pedi uma foto a uma amiga, que me mandou a de uma menina que eu nunca tinha visto", revela a fuxikeira. Por garantia, Elciane resolveu usar o Orkut falso para averiguar a da dona da foto em questão. "Qual não foi a minha surpresa ao ver que a foto era igual", lembra. Ela não podia mais trocar a foto, mas, para evitar um barraco, nunca mais usou esse Orkut para fuxicar os outros.

Hobbie

A ciumenta Jéssica Lima de Andrade acredita que fuxikar é um vício do qual não consegue se livrar. "Tenho prazer em fuxikar a vida das minhas amigas, dos meus amigos e até da minha mãe", confessa essa estudante de 18 anos. Ela continua entrando no Orkut das pessoas mesmo depois do trauma de perder o namorado cuja vida monitorava cotidianamente. "O Bruno era um amor de pessoa, mas todo dia eu fuxikava o orkut dele para ver se ele havia recebido scraps de alguma menina ou se tinha enviado alguma mensagem de amor." A paciência do namorado esgotou no dia em que resolveu tirar satisfação a seguinte mensagem, enviada por uma prima distante dele: "meu lindo, te amo." "Ele acabou comigo, dizendo que não acreditava nele."

Embora só tenha 18 anos, o estudante Jonathas Abreu percebeu na própria pele que o ciúme é um dos principais motores do fuxiko. "Minha namorada não confia em mim e vive fuçando meu Orkut", diz ele. No entanto, ele tem outras motivações para passar horas raquiando a vida dos outros. "É meu hobbie", admite. Também não é movido pelo ciúme que Felipe da Silva, de apenas 10 anos, investiga o trio fotos-recados-rede-de-amigos de pessoas que nunca viu na vida. "Não tenho mais nada para fazer", justifica.

Felipe da Silva é uma das provas de que a grande rede dá um poder de iniciativa que as pessoas normalmente não têm na vida real. "Passei um ano e meio tecando com uma menina que conheci fuxikando", conta ele. Disse-lhe durante esse período as maiores ousadias, sem imaginar que ela se tornaria sua colega de classe no começo desse ano. Fiquei vermelho de vergonha."

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Em nome do pai

O sumiço dos pais deixa mais dúvidas do que saudade nos filhos

Por Lucas Lima e Leonardo Venâncio

O dia dos pais está se aproximando. A mídia está colocando no ar uma tempestade de propagandas em que essa figura sempre aparece de maneira idealizada, como se fosse um super-herói retirado das revistas em quadrinhos. Uma das pessoas que se emociona com esses anúncios é o estudante Giovane Ferreira, de 15 anos. “Fico triste”, confessa ele. Giovane, que mora com a mãe, a avó e um tio no bairro de Santa Eugênia, nunca conheceu o pai.

Giovane não sabe a razão para não conhecer o pai e, apesar da curiosidade, evita falar sobre o assunto com as pessoas que podiam lhe dizer toda a verdade. “Minha mãe uma vez me disse que ele havia morrido”, conta Giovane. “Mas com o tempo comecei a achar que não era verdade.” Ele até hoje não sabe a razão para ter crescido sem essa figura que tanta inveja lhe despertou dos amigos de escola. “Não sei se minha mãe não contou a ele ou se ele não deu importância.”

Filho da outra

Com os mesmos 15 anos de Giovane, o estudante Igor Oliveira também cresceu sem o pai e foi criado por um time semelhante, que, além da mãe, um tia e a avó, incluía o avô. Mas Igor tem diversas vantagens em relação a Giovane. Além de ver o pai duas vezes por ano, ele sabe a razão de não ter crescido ao lado dele. “Eu nasci de uma traição”, conta ele. “Ele não mora comigo porque era casado quando minha mãe se envolveu com ele.” Essas vantagens, no entanto, não diminuem a sensação de solidão que o acompanha quando vê os amigos normais e a falta que sente de conversar com um homem mais velho.

Com 22 anos, Bruno Santos de Jesus é bem mais maduro do que Igor. Mas ele também chorou sozinho quando menino, por ter que se virar sozinho em questões tipicamente masculinas. “Embora não me proibisse de procurá-lo, minha mãe sempre passou uma imagem de que meu pai é uma pessoa covarde, fraca e incapaz”, conta Bruno, que preferiu não confrontar a figura paterna que existia em sua fantasia com a que era desenhada por sua mãe. “Terminei me conformando.”

Inveja dos amigos

Apesar de doloridas, essas biografias cada vez mais comuns em Nova Iguaçu são acompanhadas de alguns lugares comuns. Um deles é a capacidade que esses jovens têm para projetar a figura paterna em qualquer pessoa que use calças compridas e tenha um buço acima dos lábios. “Considero como pais meus tios, o marido da minha tia e o irmão mais velho de minha meia-irmã”, enumera Giovane. “Eu primeiro invejava os amigos da escola”, conta Diogo Gonçalves, de 16 anos. “Mas com o tempo passei a adotar os pais dos amigos mais próximos.”

Também goza de status de tabu o diálogo com as mães sobre esses pais ausentes. “Minha mãe nunca gostou da idéia de eu procurá-lo”, diz William Santos Ferreira, de 18 anos. Um dos argumentos usados pela mãe de William para convencê-lo a aceitar a orfandade em vida foi a fragilidade do menino, decorrente do próprio fato de não ter um homem em quem se inspirar dentro de casa.

Pai bandido

A mãe de Eduardo Correa Lima foi mais enfática, desencorajando o filho com a idéia de que o reencontro com o pai podia lhe trazer sérios problemas. “Minha mãe falava algumas coisas do meu pai, que ele não prestava, era bandido”, queixa-se Eduardo, de 20 anos.

A dureza dessas palavras deve ser a razão para que esses meninos praticamente tenham eliminado a palavra “rancor” do dicionário. “Pelo menos tive minha mãe e minha avó para me ajudar”, suaviza Márcio. Quem também não perde o bom humor é William, que não guarda nenhum sentimento ruim pelo pai. Já Diogo é tão tranqüilo com o próprio drama que tem como grande sonho ser pai. “Desejo um dia ser pai, poder ensinar a meu filho coisas que, infelizmente, meu pai não teve oportunidade de ensinar para mim.”

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Marcas que marcam

Jovens fazem qualquer sacrifício para andar na marca
Por Aninha Paiva, Aline Maciel, Daniella Vieira e Évio Nobre

Quando a aula termina mais cedo, o estudante Marcelo Torres da Conceição pega um ônibus e se manda para o Top Shopping. Tem mais intimidade com o templo do consumo do consumo de Nova Iguaçu do que com as ruas do bairro em que mora. Sabe que as melhores camisas do shopping, pelo menos para os jovens que gostam do estilo hip-hop, são encontradas em lojas como a Via 13, a Censura 18, a Quebra-vento ou a Aldeia dos Ventos. Seus olhos também brilham quando reconhecem um par de tênis Quix, tão alternativo quanto ele.

O único problema é que Marcelo Torres da Conceição, um menino de 17 anos que sequer conhece o pai, não tem uma moeda no bolso. “Vou me transferir para o turno da noite e começar a trabalhar”, diz ele com o mesmo ar sonhador que lança para um par de tênis All Star, um must na sua turma de rockeiros. Essa foi a única estratégia que esse aluno do Colégio Estadual Dom Walmor conseguiu formular para consumir as marcas que poderiam torná-lo visível às pessoas pelas quais se interessa, capaz de arrumar amigos e namoradas. “Não vou fazer como certos garotos, que exigem da mãe o que ela não pode dar.”
Cara do vendedor

Não é de todo impossível que Marcelo já tenha cruzado com Jéssica, um estudante de 18 anos para a qual não há nada melhor do que passear pelos corredores do Top Shopping. Ainda como Marcelo, Jéssica tem pais pobres, que não podem satisfazer suas necessidades de consumo. Mas não é por isso que ela deixa de entrar nas lojas e experimentar as roupas com as quais se encanta. Para não ser barrada no baile, desenvolveu algumas estratégias. “Guardo a cara do vendedor e no dia seguinte procuro outro”, revela.

Mas não é sempre que Jéssica se contenta com amores platônicos pelos seus objetos de desejo. Esse foi o caso de um tênis descoberto nas vitrines da Mary Jane. “Era um K&K rosa, com desenhos azuis”, lembra ela. Aquela paixão à primeira vista ganhou o status de fixação quando o experimentou. “Ficou lindo no meu pé”, diz ela. O único problema daquele tênis, que faria o maior sucesso na festa de 15 anos de uma prima, era o preço. Nem ela nem seu pai tinham os R$ 80 necessários para comprá-lo.
O desejo de ter aquele tênis chegou a um ponto tal que por pouco Jéssica não comete um pecado mortal para os amantes dos produtos de qualidade. “Vi um parecido no camelô, que não comprei porque gosto que seja verdadeiro.” Seu sonho tornou-se realidade quando recebeu a visita de uma tia, que, como a fada-madrinha dos desenhos animados, perguntou o que estava querendo. Ela não pensou duas vezes para declinar loja, marca, preço e tamanho do seu pé. “O tênis K&K da Mary Jany de R$ 80 número 38.”

Jaqueta encantada

O estudante Alison Maciel também tem o hábito de passear no Top Shopping quando sai do curso de informática, ainda que não tenha dinheiro para comprar as roupas que deseja. Num desses passeios, deparou-se com uma jaqueta grossa, com dois bolsos de fecho ecler e abertura no punho, parecida com couro. “Entrei na loja para admirá-la de perto”, conta ele com os olhos brilhando por trás dos óculos escuros. A atração se transformou em frustração quando viu a etiqueta com o preço. “Eu não tinha os R$ 120 naquele momento e fui triste casa.”

Alison Maciel faria diversas visitas ao seu objeto de desejo até o dia em que teve uma agradável surpresa entre os cabides da Riachuelo. “O preço da jaqueta que eu tanto queria tinha caído para R$ 50”, conta ele. Era o único dinheiro que tinha na carteira e, apesar disso, não demorou a tomar a decisão que implicaria uma caminhada de cerca de meia hora até Jardim da Viga, bairro em que mora. Colocou a jaqueta na mochila e foi com ela abraçada ao corpo, com medo de ser assaltado no caminho. “Cheguei em casa cansado, mas feliz da vida.”

Quem também não mede esforços para manter o armário em dia são os estudantes Alan e Diego, ambos moradores de Queimados e assíduos freqüentadores da loja Billabong. Os dois, que dependem da mesada dos pais, são capazes de verdadeiras loucuras para se vestir de acordo com um gosto que em parte é determinado pela durabilidade da roupa. “Já comprei um casaco por R$ 230”, orgulha-se Diego. “Quase morri do coração”, lembra Alan. “Mas já paguei R$ 350 por um tênis.” Ana Karen tem um gosto mais informal que o de Alan e Diego, mas é nas lojas do Top Shopping que ela dá forma ao seu estilo surfista. “Já cheguei a dar R$ 220 por uma blusa da Rip Curl”, diz ela.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Sinais luminosos

Surdos chamam atenção nas ruas de Nova Iguaçu

Por Daniel Santos

As ruas de Nova Iguaçu estão lotadas de tribos de jovens. Mas uma galera tem chamado a atenção, mesmo sem fazer muito barulho. Eles marcam presença em vários pontos da cidade, principalmente em frente ao Instituto de Educação Rangel Pestana, ao lado de uma banca de jornal. Essa turma vem atraindo olhares pela forma como se comunicam, usando a linguagem dos sinais. Essa forma diferente de expressão é a linguagem usada pela galera portadora de deficiência auditiva.

A deficiência auditiva ou surdez impede a pessoa de ouvir total ou parcialmente. Esse problema pode acometer uma pessoa por diversas razões: devido a doenças e viroses maternas adquiridas no período da gravidez, a medicações que comprometam o nervo auditivo e, até mesmo, à exposição a algum som impactante.

Ódio mudo
Na maioria das vezes, essas pessoas são equivocadamente chamadas de surdas-mudas. Essa denominação é a mais antiga e incorreta forma atribuída aos surdos. Se uma pessoa é surda, não significa que ela seja muda. "Nós não gostamos. O maior ódio é nos chamarem de mudos", diz Vinicius Senra, estudante de 22 anos. A mudez é uma deficiência sem conexão com a surdez. Portanto, uma pessoa só será muda quando for constatado que ela não pode emitir sons.
Além da entrada da Escola Estadual Rangel Pestana, eles contam com outros pontos de encontros de longa data, como os shoppings, as lan house e, nos fins de semana, o Top Shopping. Como todo mundo, a galera portadora de deficiência auditiva se reúne para se divertir e bater papo. Aonde chegam, conquistam espaço, arrancam olhares de quem passa e atraem 'ouvintes' (pessoa sem deficiência auditiva). Geralmente, os ouvintes são amigos que se interessam em aprender a Libras (Língua Brasileira de Sinais). Desse jeito, o papo rola solto durante horas e horas.

Pegador
Como esses points são dominados por jovens, o dia-a-dia da escola, a rotina de trabalho, internet e a zoação são os assuntos que não podem faltar. No entanto, azaração é o assunto que sobressai na conversa, deixando a galera empolgada.
"Eu venho aqui para azarar, conversar sobre garotas e mulheres", diz Elieser Beltrame, o 'pegador' do grupo, 21 anos. "Já perdi a conta de quantas garotas já fiquei. Acho que mais de 200, tanto surdas quanto ouvintes", diz ele. Segundo ele, na hora da paquera, as meninas trocam bilhetinhos ou já saem agarrando.

Língua do amor

Outro rapaz da galera que sempre fez sucesso com as meninas é Thiago Gomes, 19 anos. Porém, há um ano, Thiago abriu mão da pegação e decidiu namorar a ouvinte Daiane Ricci. A estudante revela que conheceu Thiago pela internet. Logo depois, uma amiga os apresentou pessoalmente e o romance começou. "No começo tive um pouco de dificuldade para aprender, mas ele me ensinou rapidinho a linguagem".
Festas e baladas também estão na lista vip desses jovens, por rolar paquera e por eles gostarem de dançar. "Gosto de hip-hop. Consigo escutar um pouco quando a música está bem alta", explica Elieser.
Fora de Nova Iguaçu, esses jovens costumam freqüentar a Lapa, o Largo do Machado, a Associação de Surdos e Mudos, na Penha; e o Instituto Nacional de Educação de Surdos, em Laranjeiras.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Quarentões on-line

Cresce o número de coroas que procuram lan house
Por: Leo Venancio
Fotos retiradas da internet

As lan houses sempre foram consideradas redutos de jovens e adolescentes que têm intimidade com o uso do computador. Mas, de uns tempos para cá, essa realidade vem mudando gradativamente. As coroas estão se tornando figuras cada dia mais comuns na grande rede.

O servidor da Lan House Lyra's, Thiago Tobias Ferreira, 19 anos, já percebeu essa nova tendência. "Acho uma coisa legal, pois assim elas aprendem a mexer e a não depender das outras pessoas", elogia Thiago, que acha bastante interessante a presença das 'coroas' na lan house em que trabalha.

Moradora da Caioaba, a corretora de seguros de saúde Nair da Silva Oliveira, 45 anos freqüenta a lan house do bairro há três anos. Ela não sentiu dificuldade com o computador, que aprendeu a manipular na Amil. "Eu já tinha uma noção de computador devido ao meu trabalho", explica.

Nair também não teve nenhum problema de relacionamento com os jovens, pois é bastante extrovertida. Divorciada e mãe de dois filhos, ela procura a lan house para se relacionar com outras pessoas, entrando em sites de relacionamento como Orkut e MSN, entre outros. "Prefiro a lan house porque é um lugar mais divertido, descontraído. Poderia ficar em casa, mas não seria tão interessante quanto numa lan", diz ela.

Medo dos jovens

Outro exemplo desses novos tempos é a comerciante Tânia Gomes Leal, 40 anos, também moradora do bairro Caioaba. Dona de um bar há pouco mais de três anos, Tânia começou a freqüentar lan houses há quase um ano. No início, ficou um pouco receosa de ir a um lugar onde a maioria do público era jovem, mas se acostumou com o tempo. "O problema era mais comigo mesma", diz Tânia. "Eu tinha um pouco de receio, mas vi que era superdivertido e fui me adaptando."

Sua maior dificuldade foi fazer "amizade" com o computador, pois não sabia nada a respeito. Foi sua filha 14 anos que a ajudou a vencer as primeiras barreiras."Foi um sacrifício", lembra. "Eu não sabia nada e foi minha filhota quem me ensinou." Já os jovens a aceitaram muito bem. "Algumas vezes trocamos piadas", comenta. "É uma relação bem amigável.". Como Nair, Tânia procura se relacionar com as pessoas e conhecer gente nova, mas também utiliza a lan house para outros serviços, como imprimir boletos, fazer inscrições e conferir resultados.

Tânia acha maravilhosa a convivência de pessoas de idades diferentes na lan house do bairro. "A idade não tem nada a ver com a convivência ou não das pessoas", afirma. Segundo o servidor Thiago, há jovens solidários com os mais velhos, ajudando-os a ganhar familiaridade com o computador. Thiago explica que as "coroas", na grande maioria, procuram a lan house para resolver problemas de documentação, recadastramento de CPF e outros serviços. Porém, há coroas que vão atrás dos mesmos sites que os mais jovens. "Tem aquelas com espírito de jovem", comenta Thiago. "Algumas até fazem bagunça com os mais novos."
Intolerância

Infelizmente, ainda existem aqueles que são contra a presença de pessoas mais velhas em lan houses, achando "caretice". Mas, segundo Thiago, foram poucos os jovens que não se adaptaram aos novos tempos. "A lan house não determina idade, é livre para todos", afirma o funcionário da lan.

A professora primária Vilma Oliveira, 48 anos, freqüenta a lan house há pouco mais de dois anos e também mora na Caioaba. "Sofri preconceitos devido ao fato de estar fora da faixa etária dos freqüentadores da lan", diz Vilma. Para ela, a lan house serve como meio de pesquisa, mas ela também vai à procura de extrato bancário e contracheque, entre outros documentos. "Me sinto inseguro, mas acabo cedendo à praticidade dos serviços".

Ela aprendeu a manusear o computador com o filho Victor, 17 anos, ainda estudante. "No início foi muito difícil", lembra. Mesmo assim, ela ainda se sente um pouco deslocada em meio à massa de jovens que vão às lans. A mesma Vilma tem vontade de entrar em sites de relacionamento, mas não ousa. "Apesar de estarmos no 'barato' da globalização, gosto da vida real."

E o pensamento lá em você

Mães que trabalham fora passam o dia pensando nos filhos

Por Flávia Ferreira
Fotos: Felipe Rodrigo
Há um grande número de mães que precisam trabalhar fora de Nova Iguaçu. Sendo assim, elas acabam deixando seus filhos, ainda novos, nas mãos de outras pessoas. Além de enfrentar duras jornadas de trabalho longe de casa, elas têm que administrar a culpa de não conseguirem criar seus filhos da forma que consideram ideal.

"Mesmo minha filha não confirmando, sei que ela perdeu a infância por conta das responsabilidades que lhe dei", diz Rita de Cássia Campo, uma empregada doméstica de 37 anos que sai antes do amanhecer de Rodilândia para ganhar o pão de cada dia na Tijuca. Paloma é a filha do meio de Rita e, embora tenha apenas 14 anos, tem responsabilidades dignas de uma dona de casa adulta: paga as contas, limpa a casa e olha a irmã menor, entre outras coisas.

Daquele jeito

Rita passou essas missões desde que Felipe, o filho mais velho, hoje com 16 anos, foi passar uma temporada com o pai. "A criação de meus filhos foi feita por eles mesmos",desabafa Rita. Ela se sente culpada por sua ausência, mas era pior na época em que tinha que pagar uma pessoa para cuidar deles. "Nem todo mundo cuida direito e às vezes maltrata", diz ela. Foi por isso que, quando Felipe completou 10 anos, delegou a ele a responsabilidade de vigiar as irmãs. "Eu deixava comida pronta, ele esquentava e arrumava a casa daquele jeito..."

A chegada da adolescência só fez aumentar a preocupação da mãe. "A gente não sabe se vão para a escola de verdade, ou se vão para outro lugar", cogita. Ela também morre de medo de que uma de suas filhas engrosse as estatísticas de gravidez precoce do Rio de Janeiro. “Sempre converso sobre isso com elas”, diz. Mas não é só com as meninas que Rita se preocupa. “Não prego o olho enquanto o Felipe não chega da noitada.”

Constrangimento

Mas Rita reconhece pelo menos um lado positivo de suas longas ausências de casa. “Isso ajudou eles a crescerem mais rápido”, contabiliza. Ela só fica constrangida quando é convocada para as reuniões de colégio. “Não posso ir”, lamenta. Ela também não se sente nada confortável quando chega em casa e vê os filhos machucados por causa de alguma queda ou acidente. “Sei que mais tarde ouvirei reclamações de todos eles.”

Ela sabe como é difícil ser mãe sozinha, mas se sente num mato sem cachorro. “Não posso contar com o pai dos meus filhos para nada”, lamenta ela, que não recebe pensão do ex-marido. Apesar do cansaço, ela levanta as mãos para o céu sempre que pensa nos seus filhos criados. "Agradeço a Deus por ter conseguido, mas ainda falta muito.” Ela só vai se dar por satisfeita no dia em que os vir formados. “Vou conseguir".

Despedida angustiante

Cláudia Cristina Nobre entende perfeitamente o drama vivido por Rita de Cássia. É verdade que ela não mora tão longe do trabalho, mas desde 2006, com a chegada de seu filho Marcelo, suas viagens do Centro de Nova Iguaçu até Mesquita ganharam a companhia da angústia. "Não tive filho para deixar que outras pessoas criassem", desabafa Cláudia.

Inicialmente, seu Marcelinho ficava com uma babá, mas não diminuíram as preocupações da mãe quando ela passou a deixar o filho com a sogra. "Por minha sogra ter 72 anos, sempre que chego acho que ele está sujo, que não comeu", confessa. Cláudia Nobre, que trabalha desde os 16 anos, sabe que um dia terá conversas tão amargas como a que eventualmente Cristiane Dias Cesário, 31 anos, tem com seu filho de 14 anos. “Meu filho reclama que não faço o dever de casa com ele e que não tenho tempo só para ele”, diz essa moradora da Vila Nova, que há dois anos vai defender sua sobrivência no Hospital Pasteur, no Méier. A explicadora contratada por Cristiane só resolve parte do problema.

Cláudia e Cristiane gostariam de ter a sorte da empregada doméstica Verlúcia Pereira do Nascimento, que hoje pode contar com o marido para suprir suas longas ausências de casa. “Ele, que trabalha perto de casa, almoça com meus três filhos e controla a ida deles para a escola”, conta essa moradora do Carmary, que trabalha no Leblon há três anos. Mas há uma hora do dia em que mesmo a sortuda Verlúcia tem que improvisar. “Depois da saída do meu marido, quem toma conta de tudo é o meu filho maior.”

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Cabeça Feita

A febre do corte moicano

Texto e fotos de Thompson Nike

Muitos jovens vêm se rendendo ao chamado corte moicano. Esse corte surgiu com os índios americanos e, na última metade do século passado, foi resgatado pelos punks a fim de mostrar uma aparência mais agressiva e subverter os costumes do dia-a-dia.

Atualmente, os jovens parecem estar mais preocupados em manter uma aparência “bonitinha” do que questionar o que os outros pensam a seu respeito. Nesta reportagem, você vai descobrir os diversos motivos que fazem desse corte a sensação do momento entre os jovens.

Há quinze dias, Janderson de Almeida, 17 anos, cortou o cabelo no estilo moicano. Segundo ele, o corte combinou muito com o formato do seu rosto e com seu jeito divertido e descolado ser. “Achei maneiro, fiquei mais charmoso”, comemora Janderson. Por incrível que pareça, a idéia não surgiu dele, mas de sua mãe. “Minha mãe pediu para eu fazer, mas não concordei no começo. Agora, graças a essa dica, estou feliz com o meu novo visual”, diz ele. Porém, a mãe de Gabriel Marques, 19 anos, também moicano, pensa diferente da mãe de Janderson. “De primeira, minha mãe não gostou muito. Mas depois ela aceitou”, diz ele.
O caso de Gabriel Marques foi diferente, pois o pedido veio de sua namorada, que acha o corte maneiríssimo. “Ela pediu para eu fazer, fiz e acabei gostando”, confessa Gabriel. O sucesso com as mulheres é o que mais importa para Felipe Melo, 14 anos, o mais jovem moicano do grupo. Ele se entusiasma com o assédio das meninas da escola. “Quando vou para a escola assim, é show! As mulheres amam”, diz, tirando onda.

Reação das pessoas

O moicano causa polêmica por se tratar de um corte difernciado, que foge dos padrões tradicionais. É por isso que quem usa esse corte acaba se tornando o centro das atenções. Segundo Janderson, algumas pessoas ainda se chocam com o corte de cabelo que ele usa. “Todo mundo fica me olhando”, diz. “Eu acho maneiro, pois chama mais atenção”, completa.

Mas nem sempre é assim. Há também aqueles que aceitam esse novo estilo numa boa. É o que diz Gabriel Marques quando perguntado sobre a reação das pessoas ao vê-lo pelas ruas de Nova Iguaçu. “Quase ninguém repara, porque agora todo mundo está usando o corte moicano”, explica.

Das tribos indígenas às tribos urbanas

Embora o corte moicano esteja super na moda, nem todo mundo sabe que o corte surgiu com as tribos indígenas americanas e os celtas. Esse corte, geralmente raspado dos lados, foi adotado pelo movimento punk na década de 70 como forma de protesto.

Hoje, os jovens que usam moicano estão mais preocupados em acompanhar as tendências da moda do que questioná-las.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

As mães precoces também amam

Gravidez precoce de Daniela não a impediu de sonhar com um grande amor
Por Camila Oliveira
imagens retiradas da internet

Daniela Oliveira poderia ser uma romântica jovem de 19 anos como outra qualquer, não fossem dois pequenos detalhes: ela está na sua quarta gravidez, de três pais diferentes. Esses dois detalhes infernizaram sua vida a um ponto tal que nem mesmo os próprios pais, que na prática são responsáveis pela criação de seus dois filhos mais velhos, suportaram. Atualmente, ela mora com o irmão mais velho, Ricardo Oliveira, de 27anos, em Mesquita. "Eles não tinham mais condições financeiras, emocionais e físicas para me ajudar", conta ela, que se mudou há cerca de sete meses.

Quando saiu da casa dos pais, levava consigo apenas João Vítor Oliveira, hoje com um ano e seis meses. "Meus outros dois filhos ficaram com meus pais", diz ela. Um desses filhos, o Diogo, está com cinco anos. O outro, o Danilo, tem três anos. Daniela vem tendo praticamente um filho por ano desde que engravidou pela primeira vez, aos 14 anos. O pai de sua primeira criança, Leandro Gonçalves, tinha então 16 anos.

Conto de fadas
Quando engravidou pela primeira vez, ela não imaginou os problemas da maternidade. Era tão apaixonada pelo primeiro namorado que recebeu a notícia da gravidez com um sorriso de júbilo no rosto. "Vi o meu primeiro filho como uma grande oportunidade para ficar com meu amor", lembra ela. Pobre menina, iludida pelas fantasias de contos de fadas, não se deu conta de quantas responsabilidades lhe aguardavam a partir daquele momento.

O namorado não tinha condições financeiras de assumi-los e, com medo, só viu uma saída. "Ele passou a dizer que o filho não era seu", lembra. Daniela ficou tão magoada que não quis mais ver Leandro. E em nome de uma gravidez tranqüila, seus pais, Janice e Dorival dos Oliveira, resolveram arcar com as responsabilidades do novo neto e amparar a filha. "Eu estava arrasada com a separação", diz a menina.

Reviravoltas espetaculares

Essa história teria reviravoltas espetaculares a partir do aniversário de um ano de Diogo, na qual Leandro, mesmo sem assumir a paternidade da criança, compareceu. "Voltamos a namorar naquele dia", conta Daniela. Mas uma nova gravidez faria com que tanto a família de Daniela quanto a de Leandro pressionassem o rapaz a assumir os filhos, muito embora ele fosse um simples estagiário em uma empresa de informática. "Para facilitar as coisas, ele foi morar na casa dos meus pais", conta Daniela.

Mas os mesmos sogros se sentiram aliviados quando, nove meses depois do nascimento do segundo filho do casal, Leandro voltou para a casa dos seus pais. "A gente vivia brigando por causa de dinheiro", lamenta Daniela, que mais uma vez mergulhou em uma profunda depressão e, desanimada, chegou a passar um ano sem estudar. "Só voltei para a escola depois de muita insistência da minha mãe."

Cor-de-rosa
A vida voltou a ficar cor-de-rosa para a romântica Daniela quando arrumou um novo namorado na escola. Mas o nome Leandro não foi a única coincidência com o pai dos seus dois primeiros filhos. Pouco tempo depois, ela apareceu grávida de Leandro da Silva Mello, 21 anos, que, como o outro Leandro, contestou a paternidade do bebê que ela trazia em sua barriga. "Ele disse que pagaria o aborto, mas que não assumiria o filho." Uma das razões alegadas por Leandro para fugir à responsabilidade era o fato de já ser pai de uma menina de três anos de um outro relacionamento.
Daniela chegou a tomar um chá de ervas abortíferas, por causa do qual deu entrada no hospital horas depois. "Foram meus pais que me levaram para o hospital", conta. Foi só então que eles, alertados pelos médicos, souberam da terceira gravidez e da possibilidade de perderem o neto. "Eu comecei a gritar, dizendo que era isso mesmo o que eu queria", lembra Daniela. Seus pais não concordaram, usando dois argumentos. "Eles disseram que o erro era meu e que dentro da minha barriga já existia um ser, que não podia ser castigado por um pecado meu."

Aborto
Depois de uma semana internada, Daniela saiu do hospital com a certeza de que o filho sobrevivera e que os pais também assumiriam a criação de João Vítor. "Eles só fizeram uma exigência", lembra a menina. "Queriam que eu fizesse uma ligadura de trompas depois do parto."


Depois do parto, Daniela mergulhou em mais uma crise depressiva. "Eu me sentia sozinha", conta. Dessa vez, porém, havia o agravante de que era mãe de três filhos. "Quem é que iria me querer com tanta responsabilidade?", perguntava-se em suas noites de tristeza. Quem lhe deu a resposta foi um jovem de 25 anos, chamado Luiz Henrique. "Não apenas eu me apaixonei perdidamente por ele. Ele também se apaixonou por mim."

Truque da gravidez
Cupido não podia ter sido mais generoso. Além da estabilidade econômica proporcionada pelo emprego de gerente em mercado do bairro, Luiz Henrique era suficientemente maduro para ser atencioso com os filhos de Daniela. "Até um filho ele me prometeu para um futuro não muito distante", lembra a menina. Mas o ciúme falou mais alto e Daniela quase jogou tudo fora. "Eu morria de ciúme de uma colega de trabalho do Luiz Henrique." Justificava-o com o fato de jamais ter sido tão bem tratada por um homem. Não queria perdê-lo em hipótese alguma.

Luiz Henrique suportou seus barracos no mercado até o dia em que quase perdeu o emprego. "Para evitar novos problemas, o patrão dele o transferiu para o mercado de um outro bairro." O problema é que o namorado não queria mais saber dela. "Ele só não me abandonou porque um mês depois da nossa última briga eu apareci grávida de um filho dele." Essa gravidez surpreendeu tanto o namorado quanto a família, mas não a ela. "Engravidei de propósito", confessa.

A gravidez produziu um efeito esperado e outro inesperado: Luiz Henrique voltou para ela tão logo soube que ia ser pai, mas os pais pediram para que saísse de casa e constituísse sua própria família.
"A salvação foi meu irmão Ricardo", conta ela. O irmão, que já mora sozinho desde os 18 anos e é dono de uma panificadora em Mesquita, a convidou para ficar com ele até que pudesse se virar sozinha. "Luiz Henrique está construindo uma casa na laje dos pais deles", sonha Daniela, que pretende se mudar com o filho João Vítor tão logo nasça a filha que traz em seu ventre, que se chamará Ana Luíza. Espera que esta seja a primeira e última filha. "Só não me operei antes porque tinha certeza de que um dia teria uma filha com o homem da minha vida", revela, sempre sonhadora.

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