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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A garota de Jardim Palmares

A bem-humorada Roseli da Silva leva graça e cultura para Jardim Palmares

Por Priscilla Castro

Foto: Mariane Dias

Roseli da Silva, 47 anos, é uma dessas pessoas que acredita na cultura como a melhor maneira de desenvolvimento social. “Quero ajudar a comunidade a se integrar a partir da cultura”, afirma. Ela mora no bairro Jardim Palmares, onde dá aulas de teatro para as crianças da comunidade. As aulas são realizadas no centro comunitário. “Várias pessoas do bairro me perguntaram se eu queria ensinar as crianças, mas teria que ser como voluntária”, conta. Ela diz ver no Pontinho de Cultura, projeto do Ministério da Cultura e da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, que visam incentivar a cultura em todo o Brasil, uma boa oportunidade para dar continuidade aos seus trabalhos teatrais e musicais. “Tudo o que eu aprendo tento passar para eles”, diz, orgulhosa de seu trabalho com as crianças.

A atriz está sempre de bem com a vida, mesmo que ela não vá muito bem. “Você nunca me vê chorando”, filosofa. “Só me vê sorrindo.” Fora dos palcos, ela gosta de estar com seus três filhos e três netos ou então ajudando o ex-marido. Rose começou no teatro no Colégio Estadual Alvorada, onde estudava, e não parou mais. “Gosto do que eu faço, não quero parar.” Já participou do coral da igreja evangélica e hoje é uma das vocalistas da banda Afrocide. A lista de trabalhos é extensa. “Já fiz participação na novela ‘O cravo e a rosa’, da Globo, mas as eu não gosto muito de fazer novela”, diz ela. “O que eu quero mesmo é o ‘Zorra Total’”.

“Não sou passarinho”

Além de cantora, atriz e voluntária, Rose também foi radialista das rádios comunitárias Paulista FM e Iguaçu FM, do bairro onde mora. Se você pensa que não falta mais nada, está enganado. Rose também é produtora independente de filmes. Para realizar esse trabalho, ela conta com a ajuda do filho caçula, Vladi Silva, 23 anos, roteirista e ator dos curtas produzidos pelo grupo Sonho Real.O curta-metragem intitulado ‘Realidade de um sonho’ fala de preconceito e violência, e participou do Iguacine, o festival de cinema de Nova Iguaçu.

Quanto às propostas de ir para o Rio e morar mais próximo do trabalho, afirma: “Não sou passarinho para viver em gaiola e a minha comunidade me acolheu.” Os comerciais de TV, quando aparecem, lhe rendem algum dinheiro, mas pouca visibilidade no meio artístico, pois geralmente são anúncios estrangeiros. Rose está na peça ‘Parangolé Comunitário’ no Ateliê Popular, em Miguel Couto, do grupo Atua Baixada, e entrará em cartaz com a peça ‘A Magia do Amor’. A artista não desiste da arte e de sua comunidade. “As crianças vão para minha casa, até mesmo as mães. Eles fazem a maior bagunça, mas eu adoro”, confessa. “Eu acho que as pessoas têm que lutar pelos seus ideais”, finaliza.

Da lama ao asfalto

O fotógrafo Fábio Costa está registrando as mudanças deixadas pelas obras do PAC

Texto e Fotos Mariane Dias


"Foi a fotografia que escolhi para a minha vida, por ela vivi e vivo", afirma o fotógrafo Fábio Costa, morador de Itaipu e filho de nordestinos com experiências e lembranças da Rocinha. Ele está em Nova Iguaçu para registrar as transformações ocorridas depois da chegada do PAC. Veio com a equipe de urbanistas comandada por Sérgio Magalhães, com a qual trabalhou no vitorioso Favela Bairro.

"A essência desse trabalho", explica o fotógrafo, "está no simples e no rotineiro." Ela poderia ser traduzida em uma história que ouviu de viva voz de uma moradora de Cabuçu, que desde o início das obras do PAC trocou a televisão da sala por uma mesinha em frente a sua casa, onde sempre tem um café quente e um bolinho fresco para oferecer aos operários. "Ela me disse que mora ali há 40 anos e nunca viu uma obra pública em seu bairro", conta Fábio Costa. O sorriso de satisfação dessa senhora, capturado pela máquina digital à qual esse fotógrafo à moda antiga demorou a aderir, estará na exposição prevista para o final das obras.

Fábio Costa estava com a agenda cheia de trabalho quando recebeu o convite da Secretaria de Obras, mas não pensou duas vezes para aceitá-lo. "Além de achar importante o registro dessas mudanças e o resgate da memória da cidade, eu nasci em Nova Iguaçu." Por ironia do destino, as pessoas o associam à Rocinha, favela na Zona Sul do Rio de Janeiro na qual foi morar no início da década de 1970.

Caçador de imagens


Fábio Costa é um caçador de imagens, como os pioneiros da fotografia. Seu espírito quase aventureiro está presente desde as primeiras seqüências de foto que produziu em Nova Iguaçu, durante as enchentes de 2005. "Coloquei um par de botas e fui com minha máquina até o ponto em que estava colocando minha vida em risco", lembra. Essa incursão por uma Nova Iguaçu profunda, desconhecida da maioria de seus moradores, resultou em fotos dramáticas, que denunciam com eloqüência os longos anos de abandono em que se encontram os bairros da periferia iguaçuana. Foi com imensa satisfação que o fotógrafo voltou a visitar as mesmas áreas depois que as dragagens do rio as libertaram do risco de novas enchentes.

Pode-se dizer que sua carreira profissional começou durante a produção do livro 'Varal de lembranças', um trabalho coordenado pela antropóloga Lygia Segalla que é um marco na produção de memória oral das favelas cariocas. "Foi ali que tive o meu primeiro contato com uma máquina fotográfica", lembra ele, que logo em seguida ganharia uma Kodak de seu padrasto. Antes de ter a sua primeira máquina profissional, usou uma Olympus para tirar inúmeras fotos dos mutirões com que a população da Rocinha se protegeu contra as intempéries da natureza e a indiferença dos governos.

Outros pastos


Fábio já trabalhou em vários programas e projetos, mas nenhum deles se compara ao Favela Bairro. "Esse programa proporcionou uma grande possibilidade de desenvolvimento para as favelas cariocas", afirma. "Aprendi muito trabalhando para ele." Além de uma grande experiência profissional com a equipe de urbanistas comandada por Sérgio Magalhães, o Favela Bairro o remeteu à época em que morou na Rocinha.

Teoricamente, a favela que Fábio Costa conheceu era muito mais miserável que a de hoje, onde as casas de alvenaria substituíram os barracos de zinco. Mas a realidade de hoje lhe parecem mais chocantes e não é sem razão que hoje são cada vez mais raros os contatos com a comunidade que lhe deu regra e compasso. "Com o tempo, todo curral fica pequeno para um boi", compara. "O capim acaba e a gente precisa ir pastar em outro lugar." Saiu da Rocinha porque desejava ser do tamanho do mundo, não da sua comunidade. A separação da sua então companheira, com quem tem a filha que está se iniciando na fotografia, também teve importância no processo que o levou a morar na Glória.

Veio então o emprego na prefeitura do Rio, onde trabalhou por um tempo em uma assessoria na Secretaria de Cultura do município. Um tempo depois foi trabalhar no gabinete e posteriormente acompanhando como fotógrafo o então prefeito Marcelo Alencar. "Fotografei de tudo, de rainha a mendigos, ricos e pobres, do mais belo ao mais horrível, pois assim é a vida, cheia de contrastes e surpresas”.


terça-feira, 5 de agosto de 2008

Nova Iguaçu rumo a Pequim

Capitã da seleção brasileira de handebol é de Nova Iguaçu


Por Flávia Ferreira

Nascida e criada em Nova Iguaçu, Lucila Vianna da Silva é a capitã da seleção brasileira de handebol. Em 2001, ela foi eleita, pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), a melhor jogadora de handebol do ano, recebendo o Prêmio Brasil Olímpico 2002. Já em Atenas, foi uma das jogadoras mais importantes da campanha brasileira, consolidando-se como a terceira maior artilheira da seleção, com 24 gols em sete partidas.

Lucila representará Nova Iguaçu nas olimpíadas de Pequim comandando a equipe de handebol e, como boa filha da terrinha, conversou conosco sobre sua vitoriosa história dentro do esporte.

Como começou seu amor pelo esporte? Quem a incentivou?

De início, eu apenas gostava do esporte. Mas logo depois que comecei a jogar, com apenas 12 anos, me apaixonei de tal forma que desde então vivo para ele. Claro que o fato de minhas irmãs mais velhas já jogarem facilitou minha aproximação com o handebol. Elas jogavam na equipe da escola, onde comecei seguir seus passos. Foram sem dúvida minhas maiores incentivadoras.

Quais as suas principais conquistas?

As principais são pela seleção, apesar de ter os mais altos títulos de um clube. Sou tricampeã pan-americana, hexacampeã sul-americana, e Pequim será a terceira olimpíada de que participarei. Além disso, participei de seis mundiais e sou campeã espanhola. Enfim, são muitos títulos. Uma carreira longa...

Quais foram as maiores dificuldades?
A falta de incentivo foi o que mais me prejudicou. No início, tive que parar de jogar duas vezes porque não tinha o dinheiro da passagem para ir aos treinos. Na época, treinava em Nilópolis e morava em Nova Iguaçu. Quando saí de casa, passei por outra dificuldade, que foi ficar longe da família. Mas a vida é assim, né? Temos que abrir mão de umas coisas para ganhar outras.

Como é ser atleta da Baixada?
Para mim foi uma vitória, pois são poucos os atletas que conseguem vencer e ir longe praticando seu esporte, ainda mais na Baixada Fluminense. Aqui o apoio é precário e falta o incentivo para dar continuidade ao trabalho, para que o atleta não tenha que parar seus treinamentos a fim de trabalhar para sobreviver.

Quais as maiores dificuldades de um atleta da Baixada? A falta de investimentos ainda é o maior problema?

A falta de incentivo e do suporte para carregar um atleta com condições adequadas faz com que o esporte estacione ou até mesmo acabe a qualidade que sei que minha cidade tem e os atletas também. Mas o que fazer com tantas apostas de vencedor e não ter quem investir para que se possa dar certo? Tem alguma história engraçada de alguma competição que nunca esquece?

Na primeira vez que fui convocada para a seleção brasileira fui sem levar nada, nenhum material e sem roupa ou tênis de treino. Eu achei que a seleção fosse algo grande, mas acabei tendo que pegar roupa de cama e banho com as meninas e usar um tênis velho na viagem. Sempre lembro dessa história e caio na gargalhada.

Acha que é uma vencedora da vida?

Acho que sou. Como te disse, são poucas as pessoas que conseguem alcançar seus objetivos e sei que eu consegui chegar onde eu sonhei. Me sinto orgulhosa de estar há quinze anos com a seleção brasileira e ainda ser capitã. Com isso, consegui muita experiência de vida. Sei que sofri muito, mas hoje curto muito mais a vida.

Seus olhos estão voltados para Pequim, onde representará o país na olimpíada. Como se sente?

Me sinto orgulhosa por sair do meu país para representar toda uma nação fora dele. É um orgulho que muitos nem conseguem descrever em palavras. Tampouco eu.

Além de você, Nova Iguaçu estará representada em Pequim pelo levantador de peso Bruno Laporte. Achou algum dia que seria possível ver Nova Iguaçu em grandes competições?

Sempre imaginei ver grandes atletas nessas competições importantes, e que um dia muitos deles sairiam de Nova Iguaçu. Já vi muitos jogadores excelentes praticando esporte nas vilas e nas quadras, mas infelizmente hoje só dois estão indo - eu e Bruno. Mas sei que isso vai multiplicar a cada ano. Tenho fé e espero representar da melhor forma minha cidade, assim como tenho feito todos esses anos. O que espera dessa olimpíada para você e toda a delegação?

Esperamos fazer história. Já para mim, será a última participação na seleção e quero dar tudo. Depois de minha aposentadoria na seleção brasileira, pretendo montar uma instituição de auxílio para deficientes.

Quais são seus planos pós-olimpiada?

Está meio difícil ver o que vem depois, mas quero exercer minha profissão de professora de Educação Física, dando aulas. Mas também tenho a possibilidade de sair do país no fim do ano, porque estou sem clube desde o ano passado. Então está um pouco difícil ver minha vida pós-olimpíadas.

O que vê quando olha e lembra das coisas que passou?

Hoje, olho minhas sobrinhas e lembro do meu começo. Foi muito gostoso iniciar só por lazer, sem muito compromisso. Mas hoje amo jogar e já encaro com mais compromisso, mais exigência, mais profissionalismo. Sonho conquistar algo melhor para dar um suporte melhor para essa geração que vem aí. Fora isso, as lembranças que passei são boas, tento esquecer um pouco as ruins.
Se arrepende de algo?

Graças a Deus, não. Só sinto que perdi muita coisa, como a vida de minha família, de meus sobrinhos, dessas coisas eu sinto falta, mas não me arrependo da escolha que fiz.

Já pensou alguma vez em desistir?

Sim. Mas passou logo. Ano passado quando voltei do Pan do Rio, eu queria parar, pois operei o joelho pela quarta vez e estava sem clube. Tive uma grande desilusão com o esporte e tive vontade de parar. Mas graças a Deus apareceram pessoas fora do esporte que me ajudaram dando todo suporte para eu continuar e me tratar, para chegar hoje aqui, rumo a Pequim.

Você imaginou que algum dia teria tanto reconhecimento e tantas vitórias?

A gente nunca espera que vai ter, mas sempre sonha. Graças a Deus consegui.


Mensagem da Lu.

Deixo aqui, em especial, um grande obrigado a minha família por toda a força e toda paciência que tiveram comigo ao me ajudarem a concretizar meus sonhos. Beijos.... LU

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sem destino

Fernando Tinguá promoveu a união entre os motociclistas e os ambientalistas
Por Felipe Rodrigo
Fotos retiradas do site da ong UBEM

A vida de Fernando Fraga Ferreira já deu mais voltas que o seu triciclo – e olhe que aquelas espalhafatosas três rodas já o levaram até a Guiana Francesa. A primeira manobra arriscada desse autodenominado eco-motociclista foi imposta por um funcionário do extinto Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, cujo nome é Márcio Castro das Mercês. "É que ele fechou a serraria que o meu pai tinha em Tinguá", conta ele, que é mais conhecido como Fernando Tinguá. Dez anos depois de ser colocado na rua da amargura com os pais e os cinco irmãos, Fernando Tinguá usou sua impressionante força física para salvar a vida do mesmo Márcio, naquele momento ameaçada por causa de um carregamento de palmito apreendido na mesma Tinguá. “Estavam querendo tacar fogo no carro dele”, lembra Fernando.

Entre esses dois momentos da sua vida sinuosa, Fernando Tinguá viveu todo tipo de aventura: além de trabalhar em uma birosca logo depois de ser expulso de casa, foi agricultor, marinheiro e até mesmo garimpeiro na Serra do Navio, nos confins do Amapá. “Só não entrei para a Legião Estrangeira”, conta ele, “porque não consegui atravessar a fronteira do Amapá.” Foi por não conseguir entrar para a Legião Estrangeira da Guiana Francesa, um exército mercenário que vislumbrou como única possibilidade de sobrevivência quando tinha 14 anos, que entrou na corrida do ouro que atraiu milhares de pessoas para a região amazônica. “Cheguei a ter duas balsas”, revela. No entanto, a atividade que mais o marcou nessa época foi a de segurança dos compradores de ouro.

Bando de maconheiros

A corrida do ouro levou-o a passar dez longos anos sem ver a família. “Eles nem acreditavam que estivesse vivo”, lembra o criador da UBEM, a União Brasileira de Ecologistas e Motociclistas. Como paga ao fato de ter salvado sua vida, Márcio das Mercês apresentou o movimento ecológico a Fernando Tinguá. “Ele era o presidente do Grupo de Defesa da Natureza, uma das primeiras ongs ecológicas do Rio de Janeiro.” Também ajudou a mudar a vida de Fernando Tínguá a participação em um encontro de motociclistas, que até então ele via como um bando de maconheiros. A união do grupo, porém, só reforçou o ideal de proteger o meio ambiente. “Foi por isso que em 2001 criamos a ong UBEM”, lembra Tinguá.

Essa ong tirou amplo proveito do amor à liberdade dos motociclistas, espalhando células da UBEM por onde passavam. “Temos seis células entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo”, contabiliza. Todos os coordenadores dessas células têm, além do escudo no qual uma árvore se funde às rodas de uma motocicleta, o inconfundível visual de metaleiro. Mas ele não se abate quando ouve algum comentário desdenhoso sobre a exagerada estética dos cerca de 3 mil membros da ong de eco-motociclistas. “Esquisitas são as pessoas que destroem o planeta”, protesta Tinguá, com a tranqüilidade de quem já participou de diversas campanhas tanto em defesa da natureza quanto em prol das comunidades carentes, alfabetizando camponeses e distribuindo agasalhos em áreas pobres da Baixada Fluminense.

Árvore de ferro

Um dos símbolos mais expressivos do movimento liderado por Fernando Tinguá está na árvore de ferro, cujas folhas são CDs pendurados, mandada construir em Tinguá em julho de 2001, no início da história da ong. “Ela simboliza a união entre motociclistas, ecologistas e demais grupos ligados à natureza”, afirma o militante, que mora sozinho em um contêiner nas proximidades do Aero-Clube de Nova Iguaçu. Ele também tem a pretensão de mudar a imagem dos motociclistas, até então associada à violência e às drogas dos Hell´s Angels. “Somos contra as drogas”, afirma ele, apesar de o nome oficial da banda de rock da ong ser Santo Dayme, uma religião naturalista cujos rituais fazem amplo uso de uma erva alucinógena.

Um truque preparado pela vida

Jovem repórter faz mágica e tira a história do pai da cartola

Por Breno Marques

Fotos: arquivo de família

Ramon Ferreira Marques foi um artista circense. Nasceu em 1950 em Juiz de Fora, Minas Gerais. Começou ainda jovem ao lado do pai, o mágico Professor Astro. Sua primeira apresentação foi como o palhaço Espoleta, aos 5 anos de idade. Sua iniciação como mágico se deu aos 14 anos, fazendo truques fáceis que não exigiam muita técnica. Com o tempo, Ramon saiu de casa e passou a trabalhar em circos mais conhecidos, como o Bartholo, na Itália, e o Real Madrid.

Com o passar do tempo, o mágico Ramon se entrou de vez na vida circense. Montou seu próprio circo, o The Pink Panther Show, com um amigo chamado Oséias. O circo era apresentado em escolas, terrenos, teatros e praças de diversas cidades do país.

Uma pessoa agitada

"Ramon era uma pessoa muito agitada", lembra Oséias. "Ele sempre queria que as coisas fossem perfeitas. Trabalhei com ele muitos anos. Foi ele quem me deu meu nome de palhaço: Lambança, porque ele falava que eu só fazia merda.''

Em 1976, Ramon foi almoçar com a família de seu amigo Pedro, na Rua Lafaiete Pimenta, no bairro Califórnia , Nova Iguaçu. Foi nesse dia que conheceu Leila Alves Pereira, uma jovem de 14 anos. "Não gostei do Ramon na primeira vez", diz Leila, sua atual esposa. "Achei ele muito brega, se vestia mal e se achava muito importante.''

Ramon se apaixonou por Leila. Começou a visitar sua casa , onde fazia de tudo para chamar a atenção. Ela enfim cedeu, e menos de um ano depois começou a sentir fortes dores na barriga, acompanhadas de enjôos e muito fraqueza. "Um dia desmaiei na frente de uma farmácia, ao lado de minha mãe, e fui socorrida pelo farmacêutico." Feito os exames, ele deu a noticia: estava grávida.

Aos 15 anos de idade, Leila teve seu primeiro filho com Ramon. Sua mãe obrigou-a a se casar, embora Leila não gostasse da idéia. "Eu não queria casar com ele", conta ela. "Eu era muito nova, mas minha mãe me obrigou a casar. Ela disse que não queria que eu a envergonhasse. Lembro-me como se fosse hoje. Antes de entrar no altar, eu fiquei em frente a uma penteadeira que eu tinha e comecei a chorar.''

Leila e Ramon deram à luz a uma menina, Luciene Alves Marques. Dez meses depois, deram à luz a outra menina, Patrícia Alves Marques. Doze anos mais tarde, nasceu Breno Alves Marques, o único filho homem do casal. Depois de casada, Leila foi trabalhar no circo com Ramon, e virou sua assistente de palco. O casal se apresentou em diversos lugares do Brasil e do Paraguai.

The Pink Panther Show virou sucesso e foi parar na televisão. O mágico Ramon teve uma apresentação no Angel Mix, programa apresentado por Angélica, e participou de eventos como a Festa de Natal no Maracanã.

Nessas viagens conheceram algumas celebridades, como os artistas Cazarré, Alcione Mazzeo, Tony Ramos, Osmar Prado, Agnaldo Timóteo, Os trapalhões e Andréa Beltrão, entre outros.

Traído pelo destino

Em um dia de apresentação numa praça, a luz do circo acabou e o espetáculo foi interrompido. "Como era um perfeccionista", lembra a esposa Leila, "ele ficou multo irritado com aquele contratempo." No dia seguinte, Ramon foi até o poste principal para ver o que havia acontecido, pegou uma escada velha do circo e subiu. A escada balançou e Ramon tentou se equilibrar segurando nos fios a sua frente. "Ele tomou uma forte descarga elétrica", conta Leila, "e perdeu neurônios importantes. "

Com o passar dos tempos, Ramoncito piorou, e hoje vive um estágio irreversível.da doença. "Gradualmente, ele foi perdendo a fala e depois a memória", lamenta Leila. Hoje Ramon mora na mesma casa que Leila, Luciene e Breno, seu filho caçula, que tinha três anos quando o pai sofreu o trágico acidente.

Ramoncito Ferreira Marques foi um grande mágico, mas não conseguiu se livrar de um truque preparado pela vida.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Como são feitos os fortes

Dona de um dos bares mais concorridos de Comendador Soares, dona Luzia sofreu muito antes de conhecer o sucesso

Texto e fotos de Flávia Sá

Com 60 anos, Luzia Vieira dos Reis é mãe de sete filhos, sendo que um morreu aos dois meses de vida. Teve uma vida muito dura ao lado de seu Sebastião, pai de seus filhos e marido até ter a vida destruída pelo alcoolismo. Ela é a filha caçula da lavadeira Olívia Doim dos Reis, que, se estivesse viva, hoje teria 102 anos. Tinha seis irmãos.

Cresceu em uma época difícil, em que as mulheres que se perdiam cedo eram chamadas de fáceis. "Alguns pais proibiam suas filhas honradas de brincarem com esse tipo de garota", lembra. Esse conservadorismo fazia com que os pais jamais levassem as filhas a um ginecologista. "A gente aprendia a se cuidar em casa."


Dona Luzia conheceu seu Sebastião com dez anos, começou a namorá-lo com 12 e, depois de se casar no papel, teve seu primeiro filho com 16 anos. Como a mãe, teve sete filhos e perdeu uma menina, que morreu devido a complicações no parto. Engravidou a cada dois anos, tendo tido sete abortos espontâneos.


Sobreviventes


Entre os que sobreviveram, o mais velho dos seus filhos é Rita de Cássia, hoje com 40 anos. A escadinha segue com Marcelo (38), Márcia (36), Cristiano (35), Henrique (32) e o caçula Leandro (30). "Todos sempre foram muito companheiros", diz.


A vida de dona Luzia transformou-se em um pesadelo há cerca de 30 anos, quando seu Tião começou a beber compulsivamente. "Acabou meu casamento", lembra. Com exceção de Leandro, as crianças já estavam bem crescidinhas quando isso começou a acontecer.


Além de gastar todo o dinheiro da família nas biroscas, seu Tião chegava em casa agressivo com a mulher e os filhos. "Ele batia em mim e nas crianças sem motivo", lembra dona Luíza. Dormir na casa dos vizinhos foi a única alternativa que encontraram nas noites de crise. "Ainda bem que nós éramos muito queridos no bairro."


Noites infernais

Aquelas noites foram infernais principalmente para Rita, a filha mais velha do casal. "Quando ele chegava em casa, pedia para que Rita preparasse o seu jantar, o que ela fazia com medo de apanhar do pai." Mas ele adormecia quando ela lhe servia, deixando a sopa esfriar. Quando ele acordava, exigia que a menina esquentasse sua comida. "A menina ficava esquentando a sopa dele a noite inteira", lembra dona Luíza, revoltando-se.


Esse círculo vicioso teve um ápice na noite em que, mais uma vez embriagado, seu Tião agrediu dona Luíza com uma panela de pressão. Ela foi salva pelos filhos, que se uniram para defendê-la. "Cristiano e Henrique pegaram um pedaço de pau para contê-lo enquanto Marcelo lhe dava uma gravata por trás."


Ela, que sempre aceitava as desculpas que ele invariavelmente lhe pedia na manhã seguinte, terminou enojando-se do marido. "Cansada dos maus-tratos, botei ele para correr de casa." A vida ficou ainda mais dura do ponto de vista econômico, mas bem mais tranqüila. "Eu e os meninos fomos morar numa casa de um cômodo", lembra dona Luíza.


Mutirões


A sobrevivência foi garantida em verdadeiros mutirões diários, dos quais participavam quase todos os membros da família. "Minha menina mais velha começou a vender café com bolo nos pontos dos caminhoneiros." Rita teve que parar de estudar.


O faturamento não era dos melhores, mas não apenas dava para alimentar os seis filhos, como para juntar o dinheiro com que dona Luíza comprou primeiro uma kombi e depois um fusca. "Esses carros foram fundamentais para que pudesse comprar mercadorias e eu abri uma birosca na janela da minha casa."


Jeito em seu Tião

O negócio de dona Luíza foi progredindo e ganhando novas características. "Chegamos a ter um abatedouro com os frangos e os porcos que criávamos no quintal de casa", conta. Atualmente, ela tem um dos bares mais concorridos do bairro de Comendador Soares, com cerveja gelada e um ruidoso videokê. "O bar não tem nome, mas a freguesia é grande."


O bar tem a idade da sua neta mais velha: 22 anos. São 17 netos. Até mesmo seu Tião tomou jeito na vida, depois de encontrar uma companheira, ao lado da qual entrou na igreja e parou de beber. "Posso dizer que hoje somos amigos", avalia dona Luíza.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

O profeta do "Dono da Lua''

Jesus Cristo Voltará! Uma mensagem ou uma pessoa?

Por Breno Marques e Paulo Nino

Dono da Lua. É assim que o pastor João Raimundo Soares de Melo, de 76 anos, nomeia Deus. João, uma das figuras mais conhecidas de Nova Iguaçu, é popularmente conhecido como o profeta Jesus Cristo Voltará. Ele ronda a cidade a bordo de uma Fiat 147 com adesivos por fora e por dentro, com a seguinte frase: Jesus Cristo voltará! Ele faz isso há cerca de 20 anos. Ele já teve onze carros, contando com o mais novo. Tirando o décimo e o décimo primeiro, os outros foram parar no ferro-velho. "O primeiro foi para o ferro-velho, o segundo e o terceiro também, foi assim até o nono carro. O décimo está lá em casa, quebrado. Já está quase indo para ferro-velho'', afirma o pastor, achando engraçado o fato de todos os carros terem o mesmo fim.


Conversão de João
Na adolescência, João não era uma pessoa cristã. Ele bebia, fumava, freqüentava carnavais e festas. Tudo começou em 1954, quando ele tinha 22 anos. Ao ver um culto numa praça, resolveu aceitar Jesus. Naquele momento acontecia uma pregação sobre a morte de Jesus. "A pastora disse que Jesus morreu por todos nós e aí eu pensei: ´Ele morreu por mim!´ Foi aí que eu me converti'', revela João com alegria.
Começo da mensagem
João Raimundo, depois de se converter, começou a ler a Bíblia. Numa dessas leituras, conheceu o livro de João e Atos. Coincidência ou não, os dois livros diziam que Jesus Cristo voltaria. "A mensagem que eu anuncio só tem duas palavras e uma mensagem: Jesus Cristo voltará.''

Antes de ser pastor, João trabalhou cerca de dez anos na Casa Cutia, uma casa de tecidos no Centro do Rio. Com alguns funcionários evangélicos, João teve a idéia de passar a mensagem que lera na bíblia. "Comecei com folhetos. Eu botava folhetos enrolados nos pacotes dos clientes junto a cordões, elásticos, tecidos. Nele, constava o dizer: 'Jesus Cristo Voltará!'", explicou João. Mas nem todos gostavam dos bilhetes. Teve uma freguesa que reclamou com o patrão, que por sua vez lhe pediu para parar de entregar os bilhetes nas mãos das pessoas.

Quando João fez 10 anos de serviço, pediu para que o patrão fizesse uma carta de transferência para a Casa Arthur,
uma casa de tecidos do Largo do Machado. João queria passar a mensagem em outros lugares. Lá, João também ficou mais dez anos e passava os mesmos bilhetes, apesar de serem escondidos. "Um dia, eu estava botando os bilhetes no envelope de compras quando o doutor Felix, o dono da casa, me perguntou o que eu estava colocando nos pacotes das pessoas. Eu falei que estava colocando pedras preciosas e e ele disse: 'Se forem pedras preciosas, eu quero umas para colocar no meu sapato.'" João, com medo de ser demitido, foi até o dono da casa com um bilhete e explicou o que fizera. "Ele não brigou, mas pediu para que eu parasse de fazer aquilo.''

Insatisfeito com a proibição, João lembrou que, na Casa Cutia, havia dado uma Bíblia para cada funcionário. "Gostaria de fazer isso lá também." Como eram 90 funcionários e ele não tinha dinheiro para pagar todas as bíblias, pediu ajuda ao dono da Casa Arthur: "Será que o doutor me ajudaria?'' O comerciante concordou em dar as bíblias de presente.

João queria passar a mensagem para mais pessoas e pediu ao Dono da Lua para o tirasse da Casa Arthur e o colocasse nas filas de ônibus. "Quando completei dez anos de casa, eu me aposentei e comecei a percorrer as filas de ônibus de todo o Grande Rio." Para distribuir cerca de 5 mil bilhetes, passava, sempre a pé, por quase 400 filas de ônibus. Seguindo conselho do doutor Felix, ele entrou numa auto-escola e tirou a carteira.

João Raimundo não tinha dinheiro para comprar um carro, pois tinha que sustentar a esposa e os seis filhos. "Eu me baseio no Dono da Lua, que me encaminhou para um versículo da Bíblia que falava sobre como conseguir as coisas." João interpretou como a doação de um carro doado, que também chegou às suas mãos com base no mesmo versículo. "Todos os carros foram doados, inclusive esse. Peço ao Dono da Lua e ele usa alguém para doar", revela João, acreditando que os carros são enviados de Deus.Passando sufoco
Nesses 20 anos, João Raimundo Soares de Melo passou por várias enrascadas tentando passar a sua mensagem. "Uma vez eu estava num posto de gasolina e o capuz do carro começou a pegar fogo", conta ele, que foi salvo pela velocidade com que o frentista acionou o extintor de incêndio. A chuva também já castigou João. "Outra vez estava chovendo muito, mas eu tinha que sair para passar a mensagem e entrei em uma rua que alaga." Quando deu por si, a rua estava cheia de água, que subiu até o acento do banco do motorista. "Fiquei desesperado e saí do carro", lembra. "A enchente levou o carro até o final da rua. Logo em seguida, vieram mais uns três carros arrastados pela enchente e bateram no meu, que estava imprensado no muro'', lamenta-se João, com o ar de tristeza.

Enviado de Deus
Mas nem tudo é tristeza na vida de João. Uma vez, ele achou uma sacola de mercado em frente a sua casa, dentro da qual havia um menino com cinco dias de vida aos berros. "Chamaram a polícia para levar a criança, mas eu pedi para cuidar dela'', conta João, apesar de já ter então cinco filhos em casa. A sorte é que a esposa acabara de dar à luz e estava com as mamas cheias de leite. João batizou o filho com um nome bíblico, em homenagem ao Dono da Lua. "Batizei de Moisés, aquele que foi salvo das águas. Porque ali passava a enchente'', conta João.
O carro e a música
Do nada, João teve a idéia de encher seu carro de adesivos com a frase "Jesus Cristo voltará'', bordou roupas e fez uma música. "Tenho aproximadamente 400 letras na roupa, e no carro nem sei quantas." O pastor teve a idéia de compor a música quando conheceu o computador. "Eu pedi para fazer a música no computador, mas sou eu mesmo que canto'', sorri João, que põe a música para tocar em alto e bom som por todos os cantos da cidade.

A família de João
A família de João não entende o fato de ele sair pelas ruas passando a mensagem, achando que é maluquice. "A família não apóia, mas eu não ligo, não!", afirma. O Dono da Lua lhe disse que seguiria sozinho como João Baptista.O visual
O pastor conta que a barba branca e a túnica bordada, que lhe dão um ar de profeta maluco, não têm nada a ver com promessa. "Ando assim porque gosto'', diz ele. A barba é um desejo que alimentava desde a época da Casa Cutia, onde era marcado de perto pelos funcionários do departamento pessoal. "Deixei ela ficar grande assim porque li na Bíblia que os profetas tinham barba branca." Mas não era só no trabalho que havia implicância com a barba de João. "Minha mulher também implicava, mas eu não cortava'', afirma o pastor, dando risadas.

João já pediu ao Dono da Lua para viver até os cem anos de idade. "Só faltam 24 anos para chegar lá", contabiliza. Além desse pedido, o pastor revelou mais um desejo seu: "Quero ter mais um carro. O próximo vai ser branco com letras verdes'', fala João, com um ar sonhador.

As ajudas
O trabalho de João sobrevive graças às doações, que incluem carros, gasolina e refeições. "Os carros são doados pelas pessoas que gostam do meu trabalho. A gasolina vem de um posto que fica na Av. Nilo Peçanha, onde abasteço o carro todas as semanas. E o café da manhã, sempre tomo em Belford Roxo, numa igreja.''

João disse que o último carro foi mais um presente do Dono da Lua, que ele pediu com ardor durante a madrugada. No dia seguinte, ele foi ao sacolão e foi bafejado com a primeira de cinco doações. "Um rapaz de carro parou na minha frente, desceu o vidro e me ofereceu R$ 2 mil", conta o pastor. O mesmo rapaz, que disse que a grana era para trocar de carro, o chamou para uma reunião. "Lá, um médico que me deu mil reais e o mesmo cara me deu mais R$ 600." Logo depois, quando voltava para casa, ganhou R$ 400 do dono de uma casa de móveis. Para completar a saga, o proprietário do carro que tentou comprar com os R$ 4 mil ganhos naquela manhã topou fazer um abatimento de R$ 2 mil para ele. "Ele conhecia meu trabalho."
Carona para o prefeito
João diz que já deu carona até para o prefeito de Nova Iguaçu. "Uma vez veio esse rapaz que é prefeito de Nova Iguaçu, o Lindemberg Farias, e entrou no meu carro. Fui com ele até o final da rua'', diz ele.

Perguntamos ao João Raimundo Soares de Melo: se ele pudesse realizar um milagre, qual seria?

"Queria ter o dom de curar as pessoas'', finaliza João, pensando no próximo e aumentando o volume da música que toca sem parar em seu carro:

"Jesus Cristo voltará, voltará ,voltará
Jesus Cristo voltará, voltará ,voltará
Jesus está voltando, ele mandou anunciar
Passará o céu e a terra, mas sua palavra ele cumprirá''.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O flautista de Nova Iguaçu

Projetos do Cisane, a ong do produtor social Edilso Maceió, já atraiu mais de 7 mil jovens.

Por Flavia Ferreira

Cria da Nova Holanda, uma das favelas do Complexo da Maré, o produtor social Edilso Gomes Maceió tem mais histórias para contar do que em tese lhe permitem os seus 45 anos de vida. "Já estava envolvido em projetos aos 10 anos de idade, quando a maioria dos meus amigos ainda estava soltando pipa na laje", afirma ele. Trinta anos depois, ele estaria à frente do Cisane, uma das mais importantes ongs de Nova Iguaçu, com 12 mil nomes cadastrados, 2 mil famílias assistidas, parcerias com CDI e Afro-Reggae, além de dois pontos de cultura conveniados com o Ministério da Cultura.

Foi uma trajetória longa e sinuosa, com passagens em diversas comunidades do Rio de Janeiro. "Trabalhei em Catiri, Bangu, Vila Cruzeiro, Cantagalo, Formiga, Juramento e Rocinha, entre outras favelas do Rio de Janeiro", cataloga este andarilho, que em 1996 chegou a Nova Iguaçu, mais precisamente para o bairro de Nova Era. O projeto que deu origem a tudo isso foi o Palco sobre Rodas, no qual ele coordenava uma oficina de recreação com as crianças. Mas o projeto que catapultou a carreira de Edilso Maceió como produtor social foi Criança Feliz, com o Afro-Reggae.

Na palafita

A Nova Holanda em que Edilso Maceió nasceu era totalmente dessa de que diariamente ouvimos falar pelos grandes jornais, que por um lado é controlada pelo Comando Vermelho e por outro tem projetos sociais da envergadura do Observatório de Favelas e Luta pela Paz. "A casa em que eu nasci era uma palafita, que não tinha nem esgoto nem água encanada", lembra o produtor social. A primeira luta de que participou, com o auxílio luxuoso do pai, foi catar água na Avenida Brasil. "A gente levava para as pessoas da Nova Holanda."

Seu engajamento espontâneo chamou a atenção dos movimentos sociais da Nova Holanda, comandados por uma Igreja Católica totalmente comprometida com a chamada Teologia da Libertação. "Eu era tão participativo que me chamaram para ser o diretor social da associação de moradores da Nova Holanda", lembra. Edilso tinha apenas 16 anos.

Em todos os lugares

Na associação de moradores, conheceu as pessoas que mais tarde criariam o Observatório de Favelas, uma das mais importantes ongs cariocas com atuação em comunidades populares. Nessa época, Edilso trabalhava com animação, latas, caixotes, bonecos, enfim, tudo que pudesse ser reaproveitado. "Tudo isso surgiu do próprio trabalho da comunidade da Nova Holanda para se criar um movimento social", diz ele.

Durante esse processo, surgiu o convite da Prefeitura do Rio para trabalhar como animador cultural nas escolas como animador cultural. Tornou-se então um cidadão carioca, com braços que abarcavam comunidades que iam da Zona Sul à Baixada Fluminense. "Com essa história de não conseguir parar em um lugar só, acho que tenho que estar em todos ao mesmo tempo."

Caminho de Vigário

Sua vida deu uma nova guinada em 1995, quando começou a fazer uma oficina de brinquedo e uma de contação de história na Casa da Paz, em Vigário Geral. "A gente colocava um monte de livros em uma mala e ia para a favela", conta o produtor social. "Chegando lá, jogávamos os livros no chão, nos vestíamos de palhaço e íamos atrás das crianças", acrescenta.

Uma das histórias contadas na oficina o remeteu à própria experiência vivida em Vigário Geral. "Foi ´O flautista de Hamelim´, que conseguiu tirar os ratos da cidade tocando o seu instrumento." Em Vigário Geral, as crianças o seguiam pela favela quando o viam com livros na mão. A Casa da Paz foi pequena para o número crianças e jovens que Edilso atraiu com seus livros.

O sucesso na Casa da Paz o levou a criar um projeto no Afro-Reggae chamado Criança Feliz e esse, por sua vez, o trouxe para Nova Iguaçu, mais precisamente para uma comunidade chamada Nova Era. "Minha irmã me convidou para eu morar aqui", resume. Trazia na bagagem a oficina de percussão do Afro-Reggae, que os jovens de Nova Iguaçu adoraram. "Eles começaram a perguntar o que deviam fazer para participar da ong de Vigário Geral", lembra. "É só pegar um ônibus e ir para lá, eu dizia.

Padrinhos poderosos

O elevado custo de passagens obrigou-os a transitar na direção contrária. "Ao invés de eles irem para Vigário, o Afro-Reggae veio para cá." O andarilho Edilso viu que era chegada a hora de criar o Cisane, uma ong constituída nos moldes do Afro-Reggae com o objetivo de resgatar os jovens do narcotráfico a partir de atividades educativas, lúdicas e culturais. "Nós promovemos atividades socio-educativas, oferecemos cursos de qualificação e trabalhamos com a própria família, num processo de dar a todos a oportunidade de ter um futuro melhor, viver com dignidade e de ser respeitados seus direitos, percebendo também quais são os seus deveres dentro de uma comunidade", discursa.

As relações com o Afro-Reggae colocaram o Cisane em uma rede para lá de especial, com padrinhos do peso de um Zuenir Ventura, de um José Junior e de um MV Bill. "Todos eles participam da direção executiva da ong", revela Edilso. Com esses apoios, Edilso conseguiu fazer parcerias com todas as instâncias de governo, bem como com as principais instituições privadas de fomento a projetos sociais. Nova Iguaçu agradece. E corre atrás del

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