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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Figueira, onde a união faz a força

Mariane Dias









Por Flávia Ferreira

No bairro da Figueira, Nova Iguaçu, trinta moradores se mobilizaram para angariar recursos que serão investidos em um campo de futebol. Esta idéia surgiu porque algumas pessoas queriam tomar o espaço para si, uma vez que o campo é uma das poucas áreas de lazer de seus moradores. Vendo isso, Edmilson Reis de Castro e seu grupo se uniram a César Valentim, o Cesinha, a fim de prover os recursos necessários para cercar o campo e fazer dele um local de lazer comunitário. "A intenção é envolver a comunidade, realizando com ela um trabalho em conjunto, onde todos colaboram" disse ele.

Trabalho Voluntário

A comunidade não fez feio, participou de todo o evento e ajudou na concretização deste sonho, seja comprando algo, ou em conjunto com os voluntários que acreditaram que seria possível este dia acontecer. Como é o caso do senhor Pedro José Novais, uma figura importante no bairro, onde expressava em seu olhar o amor que tinha pelo seu bairro. "Isso aqui é meu coração, minha terra.Nosso lazer está aqui" disse ele emocionado. Segundo Pedro o campo é tão famoso pelas redondezas que as crianças do Geneciano vão até lá para jogar. Também pudera o campo é grande o que fez com que “Seu Pedro” procurasse arrumar o campo, e construir uma pista de corrida em torno dele.
Mariane Dias
Além de Pedro, que era um dos voluntários, Josué Macedo, ex-morador de Figueira, concorda com a importância da criação de um espaço esportivo. "Figueira tem uma grande vocação para o esporte" afirma Josué. Além dele as outras pessoas iam apenas para curtir uma “onda” diferente nas tardes de domingo na Figueira.

Ao olhar para os lados era visível o grande número de pessoas presentes, algumas no perímetro do campo, outras ao seu redor,mas o mais importante era ver uma verdadeira integração entre os membros da comunidade, inclusive entre as pessoas que residiam em outros bairros. "Estou me sentindo bem, para mim este ambiente é muito familiar e divertido", disse Maria das Graças, 58, moradora de Miguel Couto.

O Bloco 18 anima a festa

Além das barraquinhas que vendiam bebidas, aperitivos, e salgadinhos dos mais variados, tivemos também o show do Bloco 18, que ajudou a arrecadar um pouco mais .. Durante as batucadas do bloco as crianças foram sempre as mais se animadas. Elas improvisaram um efeito visual jogando a areia do campo para o alto, criando uma espécie de nuvem de fumaça. Paralelo a isso um grupo de meninas da comunidade deram um show de coreografia , improvisação e beleza enquanto os voluntários”caiam no samba” no intervalo de uma para outra venda.

Mariane Dias

Graças a esse movimento comunitário que se instaurou silenciosamente em Figueira, Edmilson fez uma previsão de arrecadação. "conseguimos arrecadar cerca de quatro mil reais e isso é só o inicio" disse ele sorridente. Afirma ainda que isso só foi possível porque toda a comunidade e principalmente o Cesinha acreditaram na solidariedade dos moradores da Figueira, apostando todas as fichas para a concretização de um sonho: o campo de futebol , a grande área de lazer e ponto de encontros da comunidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Um lugar chamado Cacuia

Dona Diva guarda no coração as memórias do bairro em que mora há 40 anos

Por Tatiana Sant'Anna


Cacuia. Um nome nada convencional para se chamar um bairro, localizado no município de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Diferentemente do seu nome, o Cacuia é um bairro movimentado, sendo tranqüilo para se viver e morar. Há 40 anos morando no Bairro, a artesã Diva de Jesus, 61 anos, diz que gosta de onde mora: "É um lugar calmo e sossegado", completa.

Dona Diva viu o seu bairro crescer e muitos acontecimentos já se passaram na história desse lugar. Morando no Parque São Tiago, que pertence ao Cacuia, ela conta que sempre sonhou com sua casa própria. "Eu tinha pouco tempo de casada e morava em uma casa alugada no bairro da Posse. Por algum tempo, morei no local, mas, por causa do aluguel, que estava ficando caro, senti necessidade de me mudar. Como sempre tive o sonho da casa própria e surgiu a oportunidade de comprar este lote, construí minha casa e mudei para cá."

Iluminação precária

Na época, foi feito um loteamento de uma fazenda e Dona Diva comprou um lote. Isto facilitou para o aumento da população da localidade. Mesmo sendo um pouco longe da sua família, Diva decidiu vir morar apenas com o seu esposo e com a sua primeira filha.
No centro do bairro, havia apenas dois comércios: uma padaria velha (que foi reformada tempos depois) e um armazém (que depois foi demolido, dando lugar a um novo comércio). Era um bairro muito precário. "Só havia luz no centro. Era uma iluminação precária, chovia e faltava luz. Naquele tempo não tinha asfalto. Se quisesse pegar ônibus, tinha que andar uns 15 minutos para chegar ao ponto, que era no centro do Cacuia".

Utensílio indispensável

Mesmo com essas precariedades, o local era bem movimentado. Segundo Dona Diva, o bairro só foi prejudicado após a Light ter passado três redes de alta tensão. Muitas casas foram demolidas, pois não pode haver construções embaixo das torres, e a população do lugar foi diminuindo. O centro do Cacuia não foi prejudicado, o que só contribuiu para o aumento da população central.
Há pouco tempo foram realizadas obras do PAC, que fizeram muitas melhorias no bairro. Muitas ruas foram asfaltadas, inclusive a da Dona Diva. "Estou muito satisfeita com a obra e mais ainda com o asfalto." Quando chovia, era impossível sair de casa. Aliás, a sacola plástica era um utensílio indispensável nos pés da população. Agora quando chove, não precisa ter mais aquela preocupação. "Foi uma melhoria muito boa. Valeu a pena as obras que fizeram aqui."

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A garota de Jardim Palmares

A bem-humorada Roseli da Silva leva graça e cultura para Jardim Palmares

Por Priscilla Castro

Foto: Mariane Dias

Roseli da Silva, 47 anos, é uma dessas pessoas que acredita na cultura como a melhor maneira de desenvolvimento social. “Quero ajudar a comunidade a se integrar a partir da cultura”, afirma. Ela mora no bairro Jardim Palmares, onde dá aulas de teatro para as crianças da comunidade. As aulas são realizadas no centro comunitário. “Várias pessoas do bairro me perguntaram se eu queria ensinar as crianças, mas teria que ser como voluntária”, conta. Ela diz ver no Pontinho de Cultura, projeto do Ministério da Cultura e da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, que visam incentivar a cultura em todo o Brasil, uma boa oportunidade para dar continuidade aos seus trabalhos teatrais e musicais. “Tudo o que eu aprendo tento passar para eles”, diz, orgulhosa de seu trabalho com as crianças.

A atriz está sempre de bem com a vida, mesmo que ela não vá muito bem. “Você nunca me vê chorando”, filosofa. “Só me vê sorrindo.” Fora dos palcos, ela gosta de estar com seus três filhos e três netos ou então ajudando o ex-marido. Rose começou no teatro no Colégio Estadual Alvorada, onde estudava, e não parou mais. “Gosto do que eu faço, não quero parar.” Já participou do coral da igreja evangélica e hoje é uma das vocalistas da banda Afrocide. A lista de trabalhos é extensa. “Já fiz participação na novela ‘O cravo e a rosa’, da Globo, mas as eu não gosto muito de fazer novela”, diz ela. “O que eu quero mesmo é o ‘Zorra Total’”.

“Não sou passarinho”

Além de cantora, atriz e voluntária, Rose também foi radialista das rádios comunitárias Paulista FM e Iguaçu FM, do bairro onde mora. Se você pensa que não falta mais nada, está enganado. Rose também é produtora independente de filmes. Para realizar esse trabalho, ela conta com a ajuda do filho caçula, Vladi Silva, 23 anos, roteirista e ator dos curtas produzidos pelo grupo Sonho Real.O curta-metragem intitulado ‘Realidade de um sonho’ fala de preconceito e violência, e participou do Iguacine, o festival de cinema de Nova Iguaçu.

Quanto às propostas de ir para o Rio e morar mais próximo do trabalho, afirma: “Não sou passarinho para viver em gaiola e a minha comunidade me acolheu.” Os comerciais de TV, quando aparecem, lhe rendem algum dinheiro, mas pouca visibilidade no meio artístico, pois geralmente são anúncios estrangeiros. Rose está na peça ‘Parangolé Comunitário’ no Ateliê Popular, em Miguel Couto, do grupo Atua Baixada, e entrará em cartaz com a peça ‘A Magia do Amor’. A artista não desiste da arte e de sua comunidade. “As crianças vão para minha casa, até mesmo as mães. Eles fazem a maior bagunça, mas eu adoro”, confessa. “Eu acho que as pessoas têm que lutar pelos seus ideais”, finaliza.

Da lama ao asfalto

O fotógrafo Fábio Costa está registrando as mudanças deixadas pelas obras do PAC

Texto e Fotos Mariane Dias


"Foi a fotografia que escolhi para a minha vida, por ela vivi e vivo", afirma o fotógrafo Fábio Costa, morador de Itaipu e filho de nordestinos com experiências e lembranças da Rocinha. Ele está em Nova Iguaçu para registrar as transformações ocorridas depois da chegada do PAC. Veio com a equipe de urbanistas comandada por Sérgio Magalhães, com a qual trabalhou no vitorioso Favela Bairro.

"A essência desse trabalho", explica o fotógrafo, "está no simples e no rotineiro." Ela poderia ser traduzida em uma história que ouviu de viva voz de uma moradora de Cabuçu, que desde o início das obras do PAC trocou a televisão da sala por uma mesinha em frente a sua casa, onde sempre tem um café quente e um bolinho fresco para oferecer aos operários. "Ela me disse que mora ali há 40 anos e nunca viu uma obra pública em seu bairro", conta Fábio Costa. O sorriso de satisfação dessa senhora, capturado pela máquina digital à qual esse fotógrafo à moda antiga demorou a aderir, estará na exposição prevista para o final das obras.

Fábio Costa estava com a agenda cheia de trabalho quando recebeu o convite da Secretaria de Obras, mas não pensou duas vezes para aceitá-lo. "Além de achar importante o registro dessas mudanças e o resgate da memória da cidade, eu nasci em Nova Iguaçu." Por ironia do destino, as pessoas o associam à Rocinha, favela na Zona Sul do Rio de Janeiro na qual foi morar no início da década de 1970.

Caçador de imagens


Fábio Costa é um caçador de imagens, como os pioneiros da fotografia. Seu espírito quase aventureiro está presente desde as primeiras seqüências de foto que produziu em Nova Iguaçu, durante as enchentes de 2005. "Coloquei um par de botas e fui com minha máquina até o ponto em que estava colocando minha vida em risco", lembra. Essa incursão por uma Nova Iguaçu profunda, desconhecida da maioria de seus moradores, resultou em fotos dramáticas, que denunciam com eloqüência os longos anos de abandono em que se encontram os bairros da periferia iguaçuana. Foi com imensa satisfação que o fotógrafo voltou a visitar as mesmas áreas depois que as dragagens do rio as libertaram do risco de novas enchentes.

Pode-se dizer que sua carreira profissional começou durante a produção do livro 'Varal de lembranças', um trabalho coordenado pela antropóloga Lygia Segalla que é um marco na produção de memória oral das favelas cariocas. "Foi ali que tive o meu primeiro contato com uma máquina fotográfica", lembra ele, que logo em seguida ganharia uma Kodak de seu padrasto. Antes de ter a sua primeira máquina profissional, usou uma Olympus para tirar inúmeras fotos dos mutirões com que a população da Rocinha se protegeu contra as intempéries da natureza e a indiferença dos governos.

Outros pastos


Fábio já trabalhou em vários programas e projetos, mas nenhum deles se compara ao Favela Bairro. "Esse programa proporcionou uma grande possibilidade de desenvolvimento para as favelas cariocas", afirma. "Aprendi muito trabalhando para ele." Além de uma grande experiência profissional com a equipe de urbanistas comandada por Sérgio Magalhães, o Favela Bairro o remeteu à época em que morou na Rocinha.

Teoricamente, a favela que Fábio Costa conheceu era muito mais miserável que a de hoje, onde as casas de alvenaria substituíram os barracos de zinco. Mas a realidade de hoje lhe parecem mais chocantes e não é sem razão que hoje são cada vez mais raros os contatos com a comunidade que lhe deu regra e compasso. "Com o tempo, todo curral fica pequeno para um boi", compara. "O capim acaba e a gente precisa ir pastar em outro lugar." Saiu da Rocinha porque desejava ser do tamanho do mundo, não da sua comunidade. A separação da sua então companheira, com quem tem a filha que está se iniciando na fotografia, também teve importância no processo que o levou a morar na Glória.

Veio então o emprego na prefeitura do Rio, onde trabalhou por um tempo em uma assessoria na Secretaria de Cultura do município. Um tempo depois foi trabalhar no gabinete e posteriormente acompanhando como fotógrafo o então prefeito Marcelo Alencar. "Fotografei de tudo, de rainha a mendigos, ricos e pobres, do mais belo ao mais horrível, pois assim é a vida, cheia de contrastes e surpresas”.


quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sem destino

Fernando Tinguá promoveu a união entre os motociclistas e os ambientalistas
Por Felipe Rodrigo
Fotos retiradas do site da ong UBEM

A vida de Fernando Fraga Ferreira já deu mais voltas que o seu triciclo – e olhe que aquelas espalhafatosas três rodas já o levaram até a Guiana Francesa. A primeira manobra arriscada desse autodenominado eco-motociclista foi imposta por um funcionário do extinto Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, cujo nome é Márcio Castro das Mercês. "É que ele fechou a serraria que o meu pai tinha em Tinguá", conta ele, que é mais conhecido como Fernando Tinguá. Dez anos depois de ser colocado na rua da amargura com os pais e os cinco irmãos, Fernando Tinguá usou sua impressionante força física para salvar a vida do mesmo Márcio, naquele momento ameaçada por causa de um carregamento de palmito apreendido na mesma Tinguá. “Estavam querendo tacar fogo no carro dele”, lembra Fernando.

Entre esses dois momentos da sua vida sinuosa, Fernando Tinguá viveu todo tipo de aventura: além de trabalhar em uma birosca logo depois de ser expulso de casa, foi agricultor, marinheiro e até mesmo garimpeiro na Serra do Navio, nos confins do Amapá. “Só não entrei para a Legião Estrangeira”, conta ele, “porque não consegui atravessar a fronteira do Amapá.” Foi por não conseguir entrar para a Legião Estrangeira da Guiana Francesa, um exército mercenário que vislumbrou como única possibilidade de sobrevivência quando tinha 14 anos, que entrou na corrida do ouro que atraiu milhares de pessoas para a região amazônica. “Cheguei a ter duas balsas”, revela. No entanto, a atividade que mais o marcou nessa época foi a de segurança dos compradores de ouro.

Bando de maconheiros

A corrida do ouro levou-o a passar dez longos anos sem ver a família. “Eles nem acreditavam que estivesse vivo”, lembra o criador da UBEM, a União Brasileira de Ecologistas e Motociclistas. Como paga ao fato de ter salvado sua vida, Márcio das Mercês apresentou o movimento ecológico a Fernando Tinguá. “Ele era o presidente do Grupo de Defesa da Natureza, uma das primeiras ongs ecológicas do Rio de Janeiro.” Também ajudou a mudar a vida de Fernando Tínguá a participação em um encontro de motociclistas, que até então ele via como um bando de maconheiros. A união do grupo, porém, só reforçou o ideal de proteger o meio ambiente. “Foi por isso que em 2001 criamos a ong UBEM”, lembra Tinguá.

Essa ong tirou amplo proveito do amor à liberdade dos motociclistas, espalhando células da UBEM por onde passavam. “Temos seis células entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo”, contabiliza. Todos os coordenadores dessas células têm, além do escudo no qual uma árvore se funde às rodas de uma motocicleta, o inconfundível visual de metaleiro. Mas ele não se abate quando ouve algum comentário desdenhoso sobre a exagerada estética dos cerca de 3 mil membros da ong de eco-motociclistas. “Esquisitas são as pessoas que destroem o planeta”, protesta Tinguá, com a tranqüilidade de quem já participou de diversas campanhas tanto em defesa da natureza quanto em prol das comunidades carentes, alfabetizando camponeses e distribuindo agasalhos em áreas pobres da Baixada Fluminense.

Árvore de ferro

Um dos símbolos mais expressivos do movimento liderado por Fernando Tinguá está na árvore de ferro, cujas folhas são CDs pendurados, mandada construir em Tinguá em julho de 2001, no início da história da ong. “Ela simboliza a união entre motociclistas, ecologistas e demais grupos ligados à natureza”, afirma o militante, que mora sozinho em um contêiner nas proximidades do Aero-Clube de Nova Iguaçu. Ele também tem a pretensão de mudar a imagem dos motociclistas, até então associada à violência e às drogas dos Hell´s Angels. “Somos contra as drogas”, afirma ele, apesar de o nome oficial da banda de rock da ong ser Santo Dayme, uma religião naturalista cujos rituais fazem amplo uso de uma erva alucinógena.

Um truque preparado pela vida

Jovem repórter faz mágica e tira a história do pai da cartola

Por Breno Marques

Fotos: arquivo de família

Ramon Ferreira Marques foi um artista circense. Nasceu em 1950 em Juiz de Fora, Minas Gerais. Começou ainda jovem ao lado do pai, o mágico Professor Astro. Sua primeira apresentação foi como o palhaço Espoleta, aos 5 anos de idade. Sua iniciação como mágico se deu aos 14 anos, fazendo truques fáceis que não exigiam muita técnica. Com o tempo, Ramon saiu de casa e passou a trabalhar em circos mais conhecidos, como o Bartholo, na Itália, e o Real Madrid.

Com o passar do tempo, o mágico Ramon se entrou de vez na vida circense. Montou seu próprio circo, o The Pink Panther Show, com um amigo chamado Oséias. O circo era apresentado em escolas, terrenos, teatros e praças de diversas cidades do país.

Uma pessoa agitada

"Ramon era uma pessoa muito agitada", lembra Oséias. "Ele sempre queria que as coisas fossem perfeitas. Trabalhei com ele muitos anos. Foi ele quem me deu meu nome de palhaço: Lambança, porque ele falava que eu só fazia merda.''

Em 1976, Ramon foi almoçar com a família de seu amigo Pedro, na Rua Lafaiete Pimenta, no bairro Califórnia , Nova Iguaçu. Foi nesse dia que conheceu Leila Alves Pereira, uma jovem de 14 anos. "Não gostei do Ramon na primeira vez", diz Leila, sua atual esposa. "Achei ele muito brega, se vestia mal e se achava muito importante.''

Ramon se apaixonou por Leila. Começou a visitar sua casa , onde fazia de tudo para chamar a atenção. Ela enfim cedeu, e menos de um ano depois começou a sentir fortes dores na barriga, acompanhadas de enjôos e muito fraqueza. "Um dia desmaiei na frente de uma farmácia, ao lado de minha mãe, e fui socorrida pelo farmacêutico." Feito os exames, ele deu a noticia: estava grávida.

Aos 15 anos de idade, Leila teve seu primeiro filho com Ramon. Sua mãe obrigou-a a se casar, embora Leila não gostasse da idéia. "Eu não queria casar com ele", conta ela. "Eu era muito nova, mas minha mãe me obrigou a casar. Ela disse que não queria que eu a envergonhasse. Lembro-me como se fosse hoje. Antes de entrar no altar, eu fiquei em frente a uma penteadeira que eu tinha e comecei a chorar.''

Leila e Ramon deram à luz a uma menina, Luciene Alves Marques. Dez meses depois, deram à luz a outra menina, Patrícia Alves Marques. Doze anos mais tarde, nasceu Breno Alves Marques, o único filho homem do casal. Depois de casada, Leila foi trabalhar no circo com Ramon, e virou sua assistente de palco. O casal se apresentou em diversos lugares do Brasil e do Paraguai.

The Pink Panther Show virou sucesso e foi parar na televisão. O mágico Ramon teve uma apresentação no Angel Mix, programa apresentado por Angélica, e participou de eventos como a Festa de Natal no Maracanã.

Nessas viagens conheceram algumas celebridades, como os artistas Cazarré, Alcione Mazzeo, Tony Ramos, Osmar Prado, Agnaldo Timóteo, Os trapalhões e Andréa Beltrão, entre outros.

Traído pelo destino

Em um dia de apresentação numa praça, a luz do circo acabou e o espetáculo foi interrompido. "Como era um perfeccionista", lembra a esposa Leila, "ele ficou multo irritado com aquele contratempo." No dia seguinte, Ramon foi até o poste principal para ver o que havia acontecido, pegou uma escada velha do circo e subiu. A escada balançou e Ramon tentou se equilibrar segurando nos fios a sua frente. "Ele tomou uma forte descarga elétrica", conta Leila, "e perdeu neurônios importantes. "

Com o passar dos tempos, Ramoncito piorou, e hoje vive um estágio irreversível.da doença. "Gradualmente, ele foi perdendo a fala e depois a memória", lamenta Leila. Hoje Ramon mora na mesma casa que Leila, Luciene e Breno, seu filho caçula, que tinha três anos quando o pai sofreu o trágico acidente.

Ramoncito Ferreira Marques foi um grande mágico, mas não conseguiu se livrar de um truque preparado pela vida.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Filhas do videogame

Sem muita opção, crianças têm que agir como adultos

Por Flávia Ferreira

Algumas crianças já conhecem o sentido da expressão "se virar sozinho". Por mais que a mãe deixe comida pronta ou pague alguém para tomar conta, essas miniaturas de adulto sentem o peso da responsabilidade quando tomam banho e fazem o dever de casa sozinhas. "Sinto falta de alguém do meu lado", diz Juliana Pereira Marques, uma estudante de apenas 12 anos.
Essa rotina, que se repete na vida dessa professora de matemática desde que tinha nove anos, está se tornando cansativa para Juliana. "Não agüento mais passar o dia todo jogando videogame", desabafa. "Sinto falta de alguém para conversar e brincar."

Juliana tem plena consciência de que essa é uma situação irreversível, pois, viúva há cerca de dez anos, é a mãe quem traz dinheiro para casa. "Mas gostaria de mandar ela ficar em casa", confessa. Como não tem esse poder, faz tudo o que está ao seu alcance para se ajustar. "Como minha mãe chega cansada, eu arrumo toda a casa na ausência dela."

Ninguém para perturbar

Por uma triste coincidência do destino, Ricardo da Silva Santos, hoje com 14 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo quando há cerca de três anos perdeu o pai para uma das guerras do tráfico. A partir deste episódio, a contabilidade fiscal e afetiva da casa sofreu um duro golpe. "Minha mãe teve que trabalhar ainda mais e eu fiquei ainda mais sozinho", queixa-se.

Ricardo sente falta da presença da mãe, que, além de passar o dia fora trabalhando como empregada doméstica, vai direto para cama quando volta para casa. Mas embora lamente não poder conversar um pouco mais com a mãe, Ricardo não reclama de passar o dia sozinho. "É uma maravilha não ter ninguém para me perturbar nem encher o meu saco", diz, rindo.

Parte do relaxamento de Ricardo se deve ao fato de não precisar fazer nada em casa. "Tem uma moça que faz comida para mim", diz ele. Ricardo usa a liberdade de que desfruta para passar dias inteiros diante da televisão, jogando Playstation 2. "Quando jogo Playstation 2 nem vejo a hora passar", revela. "Amo jogar nele."

Direto para a cama

Com os mesmos 14 anos, o estudante Carlos Sampaio dos Santos também conta com a ajuda de uma pessoa que cozinha para ele quando a mãe sai para trabalhar. Carlos não tem o mesmo espírito esportivo que o de Ricardo diante da ausência da mãe. "É muito chato ficar sem minha mãe ao meu lado, porque me sinto sozinho", diz ele.

Ele não sabe o que é pior: se a ausência real da mãe ou se ela, mesmo estando presente, não está disponível para ele. "Ela chega muito cansada e vai direto para a cama." Segundo ele, só nos fins de semana conseguem ser uma família de verdade, pois são os únicos dias que estão juntos e que ela brinca com ele. Carlos, que também é órfão de pai, tenta suprir a solidão brincando com os amigos na rua.

Além de não desfrutar da companhia dos pais, Fernanda Soares não tem liberdade para ir brincar na rua. "Meus pais não gostam", diz ela. Além de cuidar da casa, cabe a Fernanda a responsabilidade de olhar seu irmão mais novo. "Minha mãe fala que sou grandinha e que posso fazer isso", diz ela. Ela às vezes se sente entediada com as horas que passa diante da TV, mas não reclama da vida. "É difícil ter seus pais longe de você, mas a gente se acostuma."

terça-feira, 29 de julho de 2008

Puxadinhos comerciais

Casas que viram lojas e lojas que vendem de tudo são a cara de Nova Iguaçu

Texto e fotos de Thompson Nike

Com 40 anos, Eliane arrumou um jeito diferente de ganhar dinheiro. Moradora de Austin há mais 20 anos, ela colocou um freezer na garagem e começou vender carnes num espacinho que ficava ocioso. "Transformei minha casa num ponto comercial", conta, orgulhosa. Eliane está longe de ser uma exceção numa cidade que poderia ter como cartão-postal o Calçadão no Centro.

Não satisfeita, Eliane resolveu quebrar uma parede que ficava ao lado do cubículo onde as carnes eram vendidas. Nesse espaço, Eliane decidiu vender rações para animais. Tomada pela febre de improviso e criatividade que são a marca registrada do comércio dos bairros da cidade, a vendedora pendurou algumas prateleiras e colocou frutas, legumes e alimentos para venda. "Fui feliz em fazer a reforma em minha casa de três andares", conta ela. "Fiquei sem privacidade, mas depois me acostumei. Devemos estar preparados para tudo, hoje eu vivo dessa renda com muito orgulho."

Até quem tem emprego fixo vem adotando a estratégia da vendedora Eliane, arrumando um espaçinho na casa para abrir sua própria loja. Morador da Vila Zenith, o marceneiro Marcos, que não quis revelar sua idade, também encontrou uma forma de ganhar um dinheiro extra no fim do mês. A casa do marceneiro, ainda em construção, tem janelas de madeira e aparência muito humilde, além de ser um pouco apertada.

Nada disso impediu que Marcos criasse sua vendinha. Ele mesmo fez uma estante para expor suas pipas e guloseimas como biscoitos, doces e bebidas. "Compro bala com o tio Marcos todo dia. Compro porque é tudo barato", diz Fernanda Vasconcelos, 13 anos. Hoje, revendo tudo que já fez, Marcos revela: "Fiz a coisa certa. Pensei: 'Tenho que ter dinheiro para me manter.' Como estava sem trabalhar, tive essa idéia. Ganho o meu dinheiro e tenho prazer em vender", conta Marcos.

Padaria vende tudo

Além da criatividade, o que há de comum nesses estabelecimentos é a quantidade de produtos diferentes vendidos ao mesmo tempo. Algumas vezes, fica difícil enxergar ou entender qual é o carro-chefe dessas lojas, se é que eles existem. Até padaria entra na dança! Em Austin, havia uma loja de videogame onde, hoje, funciona uma padaria. O pão, que seria o principal produto da loja, vem dividindo espaço com outras mercadorias.

O dono da padaria, Francisco Neto, 53 amos, comprou e reformou a loja. Como tinha pouco espaço para vender seus pães, Neto comprou uma antiga loja ao lado e fez uma mercearia. "Coloquei uma vitrine de pães, doces e biscoitos. Na outra parte, pus salgados e refrigerantes, além de ter uma parte para produtos de limpeza e cozinha", diz ele, que também encontrou espaço para abrir um brechó na padaria.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Pintando o sete

Espaço das 7 artes leva moda para o Sylvio Monteiro


Texto e fotos de Daniel Santos


O Espaço 7 Artes é um aglomerado cultural que abriga diversas agências e companhias artísticas no Centro de Nova Iguaçu. Sua sede fica na Av. Amaral Peixoto n 518. Este mês, os artistas saíram do Espaço 7 Artes para se apresentar no palco do Espaço Cultural Sylvio Monteiro.

As modelos da Agência Conexão Modelo foram um dos destaques da noite, arrancando aplausos e suspiros da platéia. As meninas esbanjaram charme e beleza na passarela. Diante de grande público, as modelos mostraram porque são consideradas top na área da moda. Nem o nervosismo comprometeu o desempenho delas na passarela, competências essenciais para quem quer seguir carreira na profissão de modelo.

O grupo de dança The Street Cats, também agenciadas pelo projeto Conexão Modelo, inflamou a casa de cultura na hora da apresentação. Formado por belas meninas, o grupo fez uma adaptação do grupo estrangeiro 'PussyCat Dolls'. Ao som da música 'Buttons', as meninas não deixaram nada a desejar às verdadeiras dançarinas do PussyCat. Alguns até acharam que as dançarinas do The Street Cats foram mais sensuais e talentosas que as do grupo estrangeiro. "Muito boa a sensação de subir no palco. Quando vimos o calor do publico, então. Muito bom, diz Ingrid Chapper, uma das dançarinas.

Dançarinas unidas

Além de dançarem juntas, as meninas do The Street Cats são boas amigas. Prova disso foi a falta que uma das dançarinas do grupo fazia na noite de apresentação. "A noite poderia ter sido melhor, mas infelizmente uma das nossas amigas, que também é dançarina, não pôde comparecer. Fora isso, foi maravilhoso", revela Daniele Sousa. Jéssica Santos, uma das dançarinas mais quietinhas, estava muito contente pelo show e por ser agenciada pela Conexão Modelo. "A sensação do show foi ótima. E o bom de tudo é que agora somos agenciadas e contamos com um espaço para ensaios e trabalhos do grupo."

Edilson Sampaio, diretor executivo da Agência Conexão Modelo, estava bastante orgulhoso com o desempenho dos grupos. A proposta social e cultural da agência é ajudar crianças, jovens, adultos e idosos a entrar no mundo da moda, interferindo e expandindo a cultura e a educação dessas pessoas. Os integrantes da agência aprendem técnicas de passarela, postura, alimentação, higiene, etiqueta pessoal e cidadania.

Mesmo sendo um projeto particular, os jovens devem se dedicar aos estudos e obter boas notas para participar dos eventos e oportunidades da agência. O projeto tem convênio com a revista Click Models e disponibiliza seus cursos com preços acessíveis.

"O Conexão Modelo quer dar um direcionamento profissional e tornar a moda acessível a todas as pessoas, principalmente ao povo iguaçuano", diz Edilson. "Nova Iguaçu tem indústria e mercado de vestuário."


Talento da Baixada

O pessoal da Cia. Faces de Teatro também fez um ótimo trabalho nesta noite. Gilberto Luiz, o diretor da companhia, tem total confiança no potencial da Baixada. "Acredito no talento de Nova Iguaçu e da Baixada. Infelizmente, somos descriminados. Mas estamos provando que temos talento e somos capazes." Para Gilberto Luiz, o Espaço das 7 Artes tem tudo para se tornar um pólo artístico na região. "Na verdade, já mostramos que na Baixada tem talento. Agora temos que importar olhares para os artistas que mostram sua arte por aqui ao invés de exportar artistas para fazer sucesso fora da região", provoca o artista. Gilberto Luiz está fazendo trabalhos com material reciclável, além de gravar um curta com artistas da Baixada Fluminense.

A palhaça Joice Mendes, 19 anos, deu um brilho todo especial à noite. Ela sempre recebeu apoio da mãe para fazer curso de teatro e modelo, mas não lhe dava ouvidos. "Nunca gostei de ver novela nem de freqüentar teatro", diz ela. Só que há três anos uma apresentação teatral na igreja que freqüenta despertou nela o desejo de experimentar o palco. Foi amor à primeira vista.

O teatro acabou mudando sua visão a respeito das artes e despertou o seu talento, até então adormecido. Hoje, ela é professora e atriz na Cia Faces de Teatro e no Espaço 7 Artes. "A sensação quando faço show é inexplicável. Não penso em sair dessa área. Nada vai me fazer sair. Só Deus pode me fazer mudar de idéia e, mesmo assim, ele terá que fazer um grande esforço para que isso aconteça", explica a atriz.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Marcas que marcam

Jovens fazem qualquer sacrifício para andar na marca
Por Aninha Paiva, Aline Maciel, Daniella Vieira e Évio Nobre

Quando a aula termina mais cedo, o estudante Marcelo Torres da Conceição pega um ônibus e se manda para o Top Shopping. Tem mais intimidade com o templo do consumo do consumo de Nova Iguaçu do que com as ruas do bairro em que mora. Sabe que as melhores camisas do shopping, pelo menos para os jovens que gostam do estilo hip-hop, são encontradas em lojas como a Via 13, a Censura 18, a Quebra-vento ou a Aldeia dos Ventos. Seus olhos também brilham quando reconhecem um par de tênis Quix, tão alternativo quanto ele.

O único problema é que Marcelo Torres da Conceição, um menino de 17 anos que sequer conhece o pai, não tem uma moeda no bolso. “Vou me transferir para o turno da noite e começar a trabalhar”, diz ele com o mesmo ar sonhador que lança para um par de tênis All Star, um must na sua turma de rockeiros. Essa foi a única estratégia que esse aluno do Colégio Estadual Dom Walmor conseguiu formular para consumir as marcas que poderiam torná-lo visível às pessoas pelas quais se interessa, capaz de arrumar amigos e namoradas. “Não vou fazer como certos garotos, que exigem da mãe o que ela não pode dar.”
Cara do vendedor

Não é de todo impossível que Marcelo já tenha cruzado com Jéssica, um estudante de 18 anos para a qual não há nada melhor do que passear pelos corredores do Top Shopping. Ainda como Marcelo, Jéssica tem pais pobres, que não podem satisfazer suas necessidades de consumo. Mas não é por isso que ela deixa de entrar nas lojas e experimentar as roupas com as quais se encanta. Para não ser barrada no baile, desenvolveu algumas estratégias. “Guardo a cara do vendedor e no dia seguinte procuro outro”, revela.

Mas não é sempre que Jéssica se contenta com amores platônicos pelos seus objetos de desejo. Esse foi o caso de um tênis descoberto nas vitrines da Mary Jane. “Era um K&K rosa, com desenhos azuis”, lembra ela. Aquela paixão à primeira vista ganhou o status de fixação quando o experimentou. “Ficou lindo no meu pé”, diz ela. O único problema daquele tênis, que faria o maior sucesso na festa de 15 anos de uma prima, era o preço. Nem ela nem seu pai tinham os R$ 80 necessários para comprá-lo.
O desejo de ter aquele tênis chegou a um ponto tal que por pouco Jéssica não comete um pecado mortal para os amantes dos produtos de qualidade. “Vi um parecido no camelô, que não comprei porque gosto que seja verdadeiro.” Seu sonho tornou-se realidade quando recebeu a visita de uma tia, que, como a fada-madrinha dos desenhos animados, perguntou o que estava querendo. Ela não pensou duas vezes para declinar loja, marca, preço e tamanho do seu pé. “O tênis K&K da Mary Jany de R$ 80 número 38.”

Jaqueta encantada

O estudante Alison Maciel também tem o hábito de passear no Top Shopping quando sai do curso de informática, ainda que não tenha dinheiro para comprar as roupas que deseja. Num desses passeios, deparou-se com uma jaqueta grossa, com dois bolsos de fecho ecler e abertura no punho, parecida com couro. “Entrei na loja para admirá-la de perto”, conta ele com os olhos brilhando por trás dos óculos escuros. A atração se transformou em frustração quando viu a etiqueta com o preço. “Eu não tinha os R$ 120 naquele momento e fui triste casa.”

Alison Maciel faria diversas visitas ao seu objeto de desejo até o dia em que teve uma agradável surpresa entre os cabides da Riachuelo. “O preço da jaqueta que eu tanto queria tinha caído para R$ 50”, conta ele. Era o único dinheiro que tinha na carteira e, apesar disso, não demorou a tomar a decisão que implicaria uma caminhada de cerca de meia hora até Jardim da Viga, bairro em que mora. Colocou a jaqueta na mochila e foi com ela abraçada ao corpo, com medo de ser assaltado no caminho. “Cheguei em casa cansado, mas feliz da vida.”

Quem também não mede esforços para manter o armário em dia são os estudantes Alan e Diego, ambos moradores de Queimados e assíduos freqüentadores da loja Billabong. Os dois, que dependem da mesada dos pais, são capazes de verdadeiras loucuras para se vestir de acordo com um gosto que em parte é determinado pela durabilidade da roupa. “Já comprei um casaco por R$ 230”, orgulha-se Diego. “Quase morri do coração”, lembra Alan. “Mas já paguei R$ 350 por um tênis.” Ana Karen tem um gosto mais informal que o de Alan e Diego, mas é nas lojas do Top Shopping que ela dá forma ao seu estilo surfista. “Já cheguei a dar R$ 220 por uma blusa da Rip Curl”, diz ela.

Mais uma caixa de surpresas

Operadoras de caixa gostam do que fazem, mas sonham com um futuro melhor

Por Tatiana Sant'Anna e Priscilla Castro

Doze horas de trabalho, um ofício nada fácil. Primeiro emprego, uma questão de sobrevivência. Para Gerlaine, 18 anos, Rosilene, 24 anos, e Mariana Oliveira, 20 anos, trabalhar como operador de caixa em um supermercado é cansativo demais, principalmente em se tratando da carga horária que é exigida. Diferentemente de outras operadoras de caixa que desejam continuar na profissão, elas almejam fazer faculdade e seguir outra carreira, realizando seu maior sonho.

Em uma rápida conversa com as três jovens, que por sua vez estavam em horário de trabalho, elas contaram que gostam do que fazem. Dizem que o salário de R$ 680,00 ajuda, porém a responsabilidade é muita, principalmente em se tratando de um dinheiro que não é seu. Por trabalharem em uma rede de supermercados perto de casa, têm uma hora e meia de almoço, indo em casa para se alimentar, tomar um banho e, até mesmo, dar uma cochilada. Quando estão de folga, aproveitam para descansar e desfrutam do tempo que resta, curtindo a família e amigos.

Melhor que o magistério

“Nem sempre é tranqüilo e divertido”, conta Gerlaine, que há seis meses trabalha como caixa no local. Ela diz que se diverte, brincando ás vezes com as companheiras, porém ressalta que é muita responsabilidade lidar com um dinheiro que não é seu. A jovem não pretende fica lá por muito tempo: “Ainda não pensei na área que pretendo cursar, mas quero fazer faculdade”, diz. Rosilene segue o mesmo caminho. Acha a carga horária muito cansativa. Também pretende fazer faculdade e não deseja continuar no ofício que está atualmente, mudando para outro emprego, quando conseguir algo melhor.

Já Mariana Oliveira resolveu se aventurar em outra profissão: deixou o magistério por um tempo e foi trabalhar em um mercado perto de sua casa. E não fica somente no caixa. Para descansar um pouco, pois para ela ficar no caixa é tedioso, ajuda fazendo algumas atividades no salão e apóia em outros serviços. Há três anos no ofício, Mariana não pretende seguir carreira como caixa, e já está de olho em algumas faculdades. “Estou dando uma olhada. Quero fazer faculdade na área de psicologia educacional, mas está muito caro em algumas universidades”, reclama.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Sinais luminosos

Surdos chamam atenção nas ruas de Nova Iguaçu

Por Daniel Santos

As ruas de Nova Iguaçu estão lotadas de tribos de jovens. Mas uma galera tem chamado a atenção, mesmo sem fazer muito barulho. Eles marcam presença em vários pontos da cidade, principalmente em frente ao Instituto de Educação Rangel Pestana, ao lado de uma banca de jornal. Essa turma vem atraindo olhares pela forma como se comunicam, usando a linguagem dos sinais. Essa forma diferente de expressão é a linguagem usada pela galera portadora de deficiência auditiva.

A deficiência auditiva ou surdez impede a pessoa de ouvir total ou parcialmente. Esse problema pode acometer uma pessoa por diversas razões: devido a doenças e viroses maternas adquiridas no período da gravidez, a medicações que comprometam o nervo auditivo e, até mesmo, à exposição a algum som impactante.

Ódio mudo
Na maioria das vezes, essas pessoas são equivocadamente chamadas de surdas-mudas. Essa denominação é a mais antiga e incorreta forma atribuída aos surdos. Se uma pessoa é surda, não significa que ela seja muda. "Nós não gostamos. O maior ódio é nos chamarem de mudos", diz Vinicius Senra, estudante de 22 anos. A mudez é uma deficiência sem conexão com a surdez. Portanto, uma pessoa só será muda quando for constatado que ela não pode emitir sons.
Além da entrada da Escola Estadual Rangel Pestana, eles contam com outros pontos de encontros de longa data, como os shoppings, as lan house e, nos fins de semana, o Top Shopping. Como todo mundo, a galera portadora de deficiência auditiva se reúne para se divertir e bater papo. Aonde chegam, conquistam espaço, arrancam olhares de quem passa e atraem 'ouvintes' (pessoa sem deficiência auditiva). Geralmente, os ouvintes são amigos que se interessam em aprender a Libras (Língua Brasileira de Sinais). Desse jeito, o papo rola solto durante horas e horas.

Pegador
Como esses points são dominados por jovens, o dia-a-dia da escola, a rotina de trabalho, internet e a zoação são os assuntos que não podem faltar. No entanto, azaração é o assunto que sobressai na conversa, deixando a galera empolgada.
"Eu venho aqui para azarar, conversar sobre garotas e mulheres", diz Elieser Beltrame, o 'pegador' do grupo, 21 anos. "Já perdi a conta de quantas garotas já fiquei. Acho que mais de 200, tanto surdas quanto ouvintes", diz ele. Segundo ele, na hora da paquera, as meninas trocam bilhetinhos ou já saem agarrando.

Língua do amor

Outro rapaz da galera que sempre fez sucesso com as meninas é Thiago Gomes, 19 anos. Porém, há um ano, Thiago abriu mão da pegação e decidiu namorar a ouvinte Daiane Ricci. A estudante revela que conheceu Thiago pela internet. Logo depois, uma amiga os apresentou pessoalmente e o romance começou. "No começo tive um pouco de dificuldade para aprender, mas ele me ensinou rapidinho a linguagem".
Festas e baladas também estão na lista vip desses jovens, por rolar paquera e por eles gostarem de dançar. "Gosto de hip-hop. Consigo escutar um pouco quando a música está bem alta", explica Elieser.
Fora de Nova Iguaçu, esses jovens costumam freqüentar a Lapa, o Largo do Machado, a Associação de Surdos e Mudos, na Penha; e o Instituto Nacional de Educação de Surdos, em Laranjeiras.

Uma kombi que resiste ao tempo

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