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terça-feira, 3 de junho de 2008

Com licença, eu vou filmar

Futuros cineastas da Baixada aprendem a analisar filmes sobre a região feitos por diretores de outros lugares.

Por Daniel Santos

O filme “Com licença, eu vou à luta”, do cineasta carioca Lui Farias, inaugurou a série de aulas do curso de análise de filmes sobre a Baixada Fluminense, ministrado pelo diretor teatral, cineasta e secretário de Cultura e Turismo de Nova Iguaçu Marcus Vinicius Faustini. “A Baixada possui uma grande tradição cinematográfica”, explicou. “Mas com visão de pessoas de fora”, ressalvou.

A Escola Livre de Cinema, o projeto que trouxe o cineasta para Nova Iguaçu no início do governo Lindberg Farias, tem como objetivo capacitar seus alunos a criarem seus próprios filmes. “Só vai ser construída uma nova visão da Baixada a partir do momento que os próprios habitantes do lugar estiverem fazendo cinema”, afirmou Faustini .

O professor lembrou, porém, que as experiências locais precisam contrapor o ponto de vista local com o olhar estrangeiro. “Mas para isso vocês terão que analisar os filmes já feitos ambientados na Baixada”, afirmou Faustini. Esse embate de leituras seria importante porque, para Faustini, “a arte expressa o ponto de vista do narrador”.

Baseado no livro homônimo e autobiográfico da escritora Eliane Maciel, “Com licença, eu vou à luta” é ambientado em uma Nilópolis opressiva, que ainda trazia fortes influências da ditadura militar. Tanto o livro como o filme fizeram muito sucesso na década de 1980. Para Faustini, uma das razões para o sucesso do filme está nas escolhas narrativas feitas pelo diretor. “Ele é de um maniqueísmo quase novelesco”, afirmou.

Lançado em 1986, o longa conta a história de uma estudante de 15 anos, interpretada por Fernanda Torres, cujos hormônios estão à flor da pele. Sua mãe é uma dona de casa rigorosa, interpretada por Marieta Severo, que beira a histeria na perseguição à filha. Completam o núcleo principal da história o seminarista desquitado Otávio, interpretado por Carlos Augusto Strazzer, e o pai militar de Eliane, interpretado por Reginaldo Farias.

Antes de exibir os primeiros quinze minutos do filme, Faustini fez uma longa preleção para situar no tempo e no espaço o período da história em que surgiu a crítica de artes. “Foi na época do romantismo”, explicou. Foi nessa época da história em que a arte deixou de procurar Deus e passou a se concentrar no ser humano. Os fundamentos do romantismo foram lançados pelo escritor francês Victor Hugo, no prefácio do livro Cromwel. Para Faustini, não podemos morrer antes de ler este prefácio.

Depois de fundamentar teoricamente a atividade da crítica, Faustini decupou as primeiras seqüências do filme para os cerca de 20 alunos presentes na sala. A seqüência inicial, mostrando o amanhecer em Nilópolis com uma trilha sonora forte, já denuncia o ponto de vista do diretor Lui Farias. “Ele só mostra pessoas trabalhando ou indo para o trabalho”, observou Faustini. A ausência de pessoas no ócio dá a impressão de que, na Baixada, não se tem o direito à fruição.
Na segunda seqüência do filme, a câmera passeia por dentro da casa de Eliane e apresenta o conflito que a protagonista vai enfrentar ao longo da história. “Primeiro passa o pai da menina, um militar que anda todo duro”, observou. “Depois vem a menina sonada, que parece não querer sair do mundo dos sonhos.” Por fim, aparece a neurótica mãe de Eliane. “Ela é oprimida por todos.”

Faustini também discutiu a seqüência em que Eliane vai de ônibus para a escola de freiras em que estuda. “Também aqui não existe espaço para a juventude dela”, analisou depois de mostrar a má vontade da cobradora e a tensa negociação entre a estudante e uma senhora idosa, que se sentiu incomodada com a janela aberta por Eliane.

O professor interrompeu a decupação do filme nas primeiras seqüências do idílio amoroso entre Eliane e Otávio. “Ele é a primeira pessoa que sorri para ela”, disse Faustini. Ele também discutiu a estética do clip, muito presente no filme. “Ela fica mais clara no primeiro passeio que o casal dá pela cidade.” Nesse passeio, o opressivo trem que está sempre passando ao fundo das cenas se torna prateado e reluzente.

No fim da aula, Faustini deixou o filme na Escola Livre de Cinema para que os jovens o assistam e discutam as estratégias narrativas de Lui Farias. Ao longo do curso, também serão analisados “O amuleto de ogum”, de Nelson Pereira dos Santos, “O homem do ano”, de Flavio Tambellini, “O homem da capa preta”, de Sergio Rezende, e “Crueldade mortal”, de Luiz Paulino dos Santos.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Bolsa virtual

Assessor do ministro Gilberto Gil quer transformar lan houses em espaços de produção cultural

Por Flávia Ferreira

Responsável pelas políticas digitais do Ministério da Cultura, Cláudio Prado passou a manhã da última sexta-feira em Nova Iguaçu, movimentando-se pelos corredores que unem o Bairro-Escola à Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Ele veio discutir com Maria Antônia Goulart, coordenadora geral do Bairro-Escola, e com Marcus Vinicius Faustini, secretário municipal de Cultura e Turismo, meios de radicalizar o uso do cyber-espaço em Nova Iguaçu. "Meu trabalho é fazer o cyber-espaço de Nova Iguaçu mais interessante que os outros", disse o assessor do Ministro Gilberto Gil. Modéstia à parte, Cláudio Prado tomou essa iniciativa depois da leitura do blog Jovem Repórter, particularmente das matérias que dedicamos à febre de lan houses na cidade.

No cargo desde o início do governo Lula, Cláudio Prado está acompanhando de perto a evolução do que chamou de epidemia das lan houses no Brasil, que contaminou o país do Oiapoque ao Chuí. Para o responsável pelas políticas digitais do governo federal, porém, é chegada a hora de se qualificar o uso das lan houses. "Estamos mergulhados na idéia de transformar as lan houses em um espaço de produção cultural", anuncia Cláudio Prado. "Queremos trabalhar a lan house como um lugar onde as pessoas possam aprofundar seu conhecimento, o seu uso e seu acesso à internet."

Cláudio Prado sabe que o uso do espaço virtual só não é mais difundido na população de baixa renda por causa da explosiva mistura de baixa renda com altos custos. Um dos instrumentos criados pelo governo Lula para aprofundar a inclusão digital foi o telecentro, que, no entanto, esbarram no limite de horário e na impossibilidade de sua universalização. "Vamos criar um vale lan", diz ele, em primeira mão para o nosso blog. "A população poderá utilizar a lan house e pagar as horas usadas com o vale. O pagamento dessas horas vai ser feito pelo governo federal.

Mais uma vez navegando na contramão do senso comum, o guru dos anos 70 vê nas lan houses uma verdadeira mina de ouro para a juventude, que permite que as pessoas se comuniquem por scraps com outras pessoas através do Orkut. "Se você parar para pensar a realidade desses jovens e compará-los com os de antigamente, perceberá que é a primeira vez que uma geração inteira se comunica por escrito", diz ele. Além de forçar a comunicação por escrito, o Orkut abriu a possibilidade de diálogo com pessoas de todas as partes do mundo.

O assessor de Gilberto Gil também tem um encanto no mínimo inusitado pelos jogos eletrônicos, para muitos tidos como alienantes e perigosos. "Além de fazer com que entendam situações de combate de uma forma extraordinária, esses games desenvolvem a percepção, a destreza e a complexidade." Os combatidos jogos eletrônicos também são um meio para que a juventude das periferias amplie o uso de línguas estrangeiras, particularmente a inglesa. "Além de ser ágil, o jogador tem que entender o que está escrito", diz ele. O texto dos jogos eletrônicos, em sua imensa maioria pirateados pelas lan houses, vem em inglês.

Cláudio Prado também tem um carinho todo especial pelos blogs, que no seu entender estão revolucionando o mundo da informação. Criados no começo da guerra do Iraque pelos correspondentes norte-americanos que foram cobri-la, os blogs permitiram uma democratização nos meios de comunicação que surpreendeu até mesmo o mais delirante dos estudiosos da revolução digital . "De certo modo, há uma desmistificação das velhas mídias e, com isso, as novas mídias, de uma forma linda, furam essa barreira."

Outra grande revolução proporcionada pela internet está no campo da aprendizagem. "Se uma criança de quatro anos começar a utilizar esse veículo, ela não precisará de uma pessoa para alfabetizá-la", sintetiza Cláudio Prado. Essa nova era permite que as pessoas se alfabetizem sozinhas, o que em breve no mínimo redimensionará a função exercida pelos professores. "O professor será mais um auxilio na pesquisa, não um provedor de informação", aposta.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Narcisismo digital

Juventude de Nova Iguaçu usa celulares e máquinas digitais para guardar os bons momentos.

Por: Marcelle da Fonseca Lima
Imagens: cedidas pelos entrevistados.

Os celulares usados que o pai de Carolina Fernandes revende sempre despertaram a cobiça da estudante, mas ela só conseguiu realizar o seu sonho de consumo no dia em que ousou pegar um aparelho escondido. “Estou com ele até hoje”, revela com um ar maroto. O pai jamais desconfiou.

O também estudante Giovane Alves dos Santos não cometeu nenhum deslize ético, mas não foi menos trabalhosa a conquista do aparelho que com freqüência usa para fotografar a si mesmo e exibir sua beleza no Orkut para as pessoas que não o conhecem. “Consegui o meu celular com muito suor, juntando o dinheiro que recebia do programa Juventude Cidadã que fiz em 2007”, conta o estudante.

A estudante Natália Stefani Bastos Marques também usa o celular para experiências narcisistas, como a de um dia em que estava sem nada para fazer e resolveu tirar fotos de si mesma. Uma dessas fotos, atualmente exibida no seu Orkut, deixou-a parecida com uma modelo. “Adorei aquela foto”, conta. Mas Natália não usa o aparelho apenas como um espelho. Ela também gosta de registrar os passeios que dá com os pais.

Também vão parar no Orkut as fotos tiradas pela também estudante Jéssica de Jesus Guimarães, mas as produz com a câmera digital que com freqüência traz em sua bolsa. “Uso a minha câmera para recordar momentos felizes, como passeios, festas, etc.”, conta. O registro mais recente foi feito em um passeio ao Parque Municipal de Nova Iguaçu, ao qual chegou depois de uma caminhada de quatro horas.

Uma das fotos de que mais gosta é a de um conjunto de árvores próximas a um paredão “esculpido pela mãe natureza”, que a deixaram encantada. “Toda vez que olho para aquela foto lembro o esforço que fiz para chegar até ali”, diz Jéssica. Também há histórias de obstinação por trás das fotos tiradas por Gracilene Ferreira Mattos, que tem como grande musa o cachorro Pretinho, da raça Pichi 2.

“Eu sempre quis ter um cachorro”, conta Gracilene, cujo sonho de consumo esbarrava na intransigência do pai. Ela tentou driblar a vigilância dele, levando para casa um dos filhotes da ninhada da cadela de uma amiga. “O cachorro passava os dias na rua e, quando meu pai ia dormir, eu o colocava para dentro de casa.” Esse malabarismo quase acabou no dia em que o pai associou os latidos noturnos ao cheiro de fezes e urina que sentia quando acordava.

A depressão em que Gracilene mergulhou ao ter que devolver o cachorro para a amiga terminou sensibilizando os pais, que semanas depois o devolveram na festa de seu aniversário. As fotos de Marcello Palhares Esteves não escondem histórias tão dramáticas, mas ele as contempla quando entra em crise. “Só fotografo quando a foto sai do cotidiano ou seja muito bonita”, afirma. Depois de um tempo, ele as observa à procura de um sentido para a vida. “Mesmo que chova, o sol não deixa de aparecer”, filosofa. Saber que terá dias iluminados ensina-o a não desistir em meio a um problema.

Ao contrário de Marcello, Luana Faria Jardim registra tudo com o celular. Mas a foto de que ela mais gosta lhe traz de volta um natal que passou na casa dos tios, em São Paulo. “Fotografei os telhados das casas, todos organizados e iluminados”, conta Luana. Esta foto lhe traz uma saudade tão gostosa como a que invade o coração de Felipe dos Santos Silva, que lembra os pequenos e grandes eventos do dia-a-dia nas freqüentes visitas feitas ao álbum de fotos do Orkut. Um dia que Felipe gosta de saber “como foi divertido” foi o aniversário de um amigo na pizzaria Parmê do Top Shopping. “Tirei muitas fotos naquele dia”, diz. “Quando olho para elas, eu lembro de tudo que aconteceu como se fosse hoje.”

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Inclusão Subjetiva

"Não adianta ensinar um menino a bater lata e usá-lo como macaquinho para burguesia ver". (Marcus Vinicius Faustini)

Por Flávia Ferreira

Imagens - Maryane Dias e Gabriela Bré

A todo instante somos rodeados de imagens que possuem movimento próprio, como carros, pessoas, paisagens, entre outros. Importar a imagem, através de fotos ou vídeo, sugere uma variedade de sentidos que se resume em perceber, sentir e transmitir determinados assuntos de forma mais livre e mais subjetiva. Desta forma, a subjetividade e a imagem se ligam, uma vez que somente uma imagem tem inúmeras representações. Ela organiza nosso imaginário e por meio delas pode-se resumir uma série de visões de mundo.

Na periferia, muitos projetos de inclusão são discutidos, porém nenhum deles representa o mundo que este jovem vivencia. Logo quando refletimos sobre uma forma de colocar o jovem no mundo, pensa-se, primeiro, em dar suporte técnico para estes, porém de nada adianta incluí-lo sistematicamente se este não traz consigo sua carga de experiências. “Não adianta tornar o jovem de periferia popular, se ele não incluir, dentro de sua ascensão, a subjetividade das periferias na subjetividade do mundo’, acredita Marcus Vinicius Faustini, cineasta e Secretário de Cultura e Turismo de Nova Iguaçu.

Incluir subjetivamente é mostrar que o jovem pode usar seus próprios instrumentos, como celular e o MP3, para criar linguagens para o mundo. "Não adianta ensinar um menino a bater lata e usá-lo como macaquinho para burguesia ver", diz ele.

Faustini lembra que o pobre escuta continuamente que ele não deve fazer certas coisas, que não foram feitas para ele. E o espírito crítico só é desenvolvido quando você passa a mostrar aos outros que pode manipular o mundo. “Ser um indivíduo crítico não é ser ranzinza, mas saber diferenciar as particularidades de cada local. A idéia de inclusão subjetiva faz com que as pessoas percebam que o mundo é uma linguagem.”

Uma kombi que resiste ao tempo

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