quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sem destino

Fernando Tinguá promoveu a união entre os motociclistas e os ambientalistas
Por Felipe Rodrigo
Fotos retiradas do site da ong UBEM

A vida de Fernando Fraga Ferreira já deu mais voltas que o seu triciclo – e olhe que aquelas espalhafatosas três rodas já o levaram até a Guiana Francesa. A primeira manobra arriscada desse autodenominado eco-motociclista foi imposta por um funcionário do extinto Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, cujo nome é Márcio Castro das Mercês. "É que ele fechou a serraria que o meu pai tinha em Tinguá", conta ele, que é mais conhecido como Fernando Tinguá. Dez anos depois de ser colocado na rua da amargura com os pais e os cinco irmãos, Fernando Tinguá usou sua impressionante força física para salvar a vida do mesmo Márcio, naquele momento ameaçada por causa de um carregamento de palmito apreendido na mesma Tinguá. “Estavam querendo tacar fogo no carro dele”, lembra Fernando.

Entre esses dois momentos da sua vida sinuosa, Fernando Tinguá viveu todo tipo de aventura: além de trabalhar em uma birosca logo depois de ser expulso de casa, foi agricultor, marinheiro e até mesmo garimpeiro na Serra do Navio, nos confins do Amapá. “Só não entrei para a Legião Estrangeira”, conta ele, “porque não consegui atravessar a fronteira do Amapá.” Foi por não conseguir entrar para a Legião Estrangeira da Guiana Francesa, um exército mercenário que vislumbrou como única possibilidade de sobrevivência quando tinha 14 anos, que entrou na corrida do ouro que atraiu milhares de pessoas para a região amazônica. “Cheguei a ter duas balsas”, revela. No entanto, a atividade que mais o marcou nessa época foi a de segurança dos compradores de ouro.

Bando de maconheiros

A corrida do ouro levou-o a passar dez longos anos sem ver a família. “Eles nem acreditavam que estivesse vivo”, lembra o criador da UBEM, a União Brasileira de Ecologistas e Motociclistas. Como paga ao fato de ter salvado sua vida, Márcio das Mercês apresentou o movimento ecológico a Fernando Tinguá. “Ele era o presidente do Grupo de Defesa da Natureza, uma das primeiras ongs ecológicas do Rio de Janeiro.” Também ajudou a mudar a vida de Fernando Tínguá a participação em um encontro de motociclistas, que até então ele via como um bando de maconheiros. A união do grupo, porém, só reforçou o ideal de proteger o meio ambiente. “Foi por isso que em 2001 criamos a ong UBEM”, lembra Tinguá.

Essa ong tirou amplo proveito do amor à liberdade dos motociclistas, espalhando células da UBEM por onde passavam. “Temos seis células entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo”, contabiliza. Todos os coordenadores dessas células têm, além do escudo no qual uma árvore se funde às rodas de uma motocicleta, o inconfundível visual de metaleiro. Mas ele não se abate quando ouve algum comentário desdenhoso sobre a exagerada estética dos cerca de 3 mil membros da ong de eco-motociclistas. “Esquisitas são as pessoas que destroem o planeta”, protesta Tinguá, com a tranqüilidade de quem já participou de diversas campanhas tanto em defesa da natureza quanto em prol das comunidades carentes, alfabetizando camponeses e distribuindo agasalhos em áreas pobres da Baixada Fluminense.

Árvore de ferro

Um dos símbolos mais expressivos do movimento liderado por Fernando Tinguá está na árvore de ferro, cujas folhas são CDs pendurados, mandada construir em Tinguá em julho de 2001, no início da história da ong. “Ela simboliza a união entre motociclistas, ecologistas e demais grupos ligados à natureza”, afirma o militante, que mora sozinho em um contêiner nas proximidades do Aero-Clube de Nova Iguaçu. Ele também tem a pretensão de mudar a imagem dos motociclistas, até então associada à violência e às drogas dos Hell´s Angels. “Somos contra as drogas”, afirma ele, apesar de o nome oficial da banda de rock da ong ser Santo Dayme, uma religião naturalista cujos rituais fazem amplo uso de uma erva alucinógena.

Um truque preparado pela vida

Jovem repórter faz mágica e tira a história do pai da cartola

Por Breno Marques

Fotos: arquivo de família

Ramon Ferreira Marques foi um artista circense. Nasceu em 1950 em Juiz de Fora, Minas Gerais. Começou ainda jovem ao lado do pai, o mágico Professor Astro. Sua primeira apresentação foi como o palhaço Espoleta, aos 5 anos de idade. Sua iniciação como mágico se deu aos 14 anos, fazendo truques fáceis que não exigiam muita técnica. Com o tempo, Ramon saiu de casa e passou a trabalhar em circos mais conhecidos, como o Bartholo, na Itália, e o Real Madrid.

Com o passar do tempo, o mágico Ramon se entrou de vez na vida circense. Montou seu próprio circo, o The Pink Panther Show, com um amigo chamado Oséias. O circo era apresentado em escolas, terrenos, teatros e praças de diversas cidades do país.

Uma pessoa agitada

"Ramon era uma pessoa muito agitada", lembra Oséias. "Ele sempre queria que as coisas fossem perfeitas. Trabalhei com ele muitos anos. Foi ele quem me deu meu nome de palhaço: Lambança, porque ele falava que eu só fazia merda.''

Em 1976, Ramon foi almoçar com a família de seu amigo Pedro, na Rua Lafaiete Pimenta, no bairro Califórnia , Nova Iguaçu. Foi nesse dia que conheceu Leila Alves Pereira, uma jovem de 14 anos. "Não gostei do Ramon na primeira vez", diz Leila, sua atual esposa. "Achei ele muito brega, se vestia mal e se achava muito importante.''

Ramon se apaixonou por Leila. Começou a visitar sua casa , onde fazia de tudo para chamar a atenção. Ela enfim cedeu, e menos de um ano depois começou a sentir fortes dores na barriga, acompanhadas de enjôos e muito fraqueza. "Um dia desmaiei na frente de uma farmácia, ao lado de minha mãe, e fui socorrida pelo farmacêutico." Feito os exames, ele deu a noticia: estava grávida.

Aos 15 anos de idade, Leila teve seu primeiro filho com Ramon. Sua mãe obrigou-a a se casar, embora Leila não gostasse da idéia. "Eu não queria casar com ele", conta ela. "Eu era muito nova, mas minha mãe me obrigou a casar. Ela disse que não queria que eu a envergonhasse. Lembro-me como se fosse hoje. Antes de entrar no altar, eu fiquei em frente a uma penteadeira que eu tinha e comecei a chorar.''

Leila e Ramon deram à luz a uma menina, Luciene Alves Marques. Dez meses depois, deram à luz a outra menina, Patrícia Alves Marques. Doze anos mais tarde, nasceu Breno Alves Marques, o único filho homem do casal. Depois de casada, Leila foi trabalhar no circo com Ramon, e virou sua assistente de palco. O casal se apresentou em diversos lugares do Brasil e do Paraguai.

The Pink Panther Show virou sucesso e foi parar na televisão. O mágico Ramon teve uma apresentação no Angel Mix, programa apresentado por Angélica, e participou de eventos como a Festa de Natal no Maracanã.

Nessas viagens conheceram algumas celebridades, como os artistas Cazarré, Alcione Mazzeo, Tony Ramos, Osmar Prado, Agnaldo Timóteo, Os trapalhões e Andréa Beltrão, entre outros.

Traído pelo destino

Em um dia de apresentação numa praça, a luz do circo acabou e o espetáculo foi interrompido. "Como era um perfeccionista", lembra a esposa Leila, "ele ficou multo irritado com aquele contratempo." No dia seguinte, Ramon foi até o poste principal para ver o que havia acontecido, pegou uma escada velha do circo e subiu. A escada balançou e Ramon tentou se equilibrar segurando nos fios a sua frente. "Ele tomou uma forte descarga elétrica", conta Leila, "e perdeu neurônios importantes. "

Com o passar dos tempos, Ramoncito piorou, e hoje vive um estágio irreversível.da doença. "Gradualmente, ele foi perdendo a fala e depois a memória", lamenta Leila. Hoje Ramon mora na mesma casa que Leila, Luciene e Breno, seu filho caçula, que tinha três anos quando o pai sofreu o trágico acidente.

Ramoncito Ferreira Marques foi um grande mágico, mas não conseguiu se livrar de um truque preparado pela vida.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Filhas do videogame

Sem muita opção, crianças têm que agir como adultos

Por Flávia Ferreira

Algumas crianças já conhecem o sentido da expressão "se virar sozinho". Por mais que a mãe deixe comida pronta ou pague alguém para tomar conta, essas miniaturas de adulto sentem o peso da responsabilidade quando tomam banho e fazem o dever de casa sozinhas. "Sinto falta de alguém do meu lado", diz Juliana Pereira Marques, uma estudante de apenas 12 anos.
Essa rotina, que se repete na vida dessa professora de matemática desde que tinha nove anos, está se tornando cansativa para Juliana. "Não agüento mais passar o dia todo jogando videogame", desabafa. "Sinto falta de alguém para conversar e brincar."

Juliana tem plena consciência de que essa é uma situação irreversível, pois, viúva há cerca de dez anos, é a mãe quem traz dinheiro para casa. "Mas gostaria de mandar ela ficar em casa", confessa. Como não tem esse poder, faz tudo o que está ao seu alcance para se ajustar. "Como minha mãe chega cansada, eu arrumo toda a casa na ausência dela."

Ninguém para perturbar

Por uma triste coincidência do destino, Ricardo da Silva Santos, hoje com 14 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo quando há cerca de três anos perdeu o pai para uma das guerras do tráfico. A partir deste episódio, a contabilidade fiscal e afetiva da casa sofreu um duro golpe. "Minha mãe teve que trabalhar ainda mais e eu fiquei ainda mais sozinho", queixa-se.

Ricardo sente falta da presença da mãe, que, além de passar o dia fora trabalhando como empregada doméstica, vai direto para cama quando volta para casa. Mas embora lamente não poder conversar um pouco mais com a mãe, Ricardo não reclama de passar o dia sozinho. "É uma maravilha não ter ninguém para me perturbar nem encher o meu saco", diz, rindo.

Parte do relaxamento de Ricardo se deve ao fato de não precisar fazer nada em casa. "Tem uma moça que faz comida para mim", diz ele. Ricardo usa a liberdade de que desfruta para passar dias inteiros diante da televisão, jogando Playstation 2. "Quando jogo Playstation 2 nem vejo a hora passar", revela. "Amo jogar nele."

Direto para a cama

Com os mesmos 14 anos, o estudante Carlos Sampaio dos Santos também conta com a ajuda de uma pessoa que cozinha para ele quando a mãe sai para trabalhar. Carlos não tem o mesmo espírito esportivo que o de Ricardo diante da ausência da mãe. "É muito chato ficar sem minha mãe ao meu lado, porque me sinto sozinho", diz ele.

Ele não sabe o que é pior: se a ausência real da mãe ou se ela, mesmo estando presente, não está disponível para ele. "Ela chega muito cansada e vai direto para a cama." Segundo ele, só nos fins de semana conseguem ser uma família de verdade, pois são os únicos dias que estão juntos e que ela brinca com ele. Carlos, que também é órfão de pai, tenta suprir a solidão brincando com os amigos na rua.

Além de não desfrutar da companhia dos pais, Fernanda Soares não tem liberdade para ir brincar na rua. "Meus pais não gostam", diz ela. Além de cuidar da casa, cabe a Fernanda a responsabilidade de olhar seu irmão mais novo. "Minha mãe fala que sou grandinha e que posso fazer isso", diz ela. Ela às vezes se sente entediada com as horas que passa diante da TV, mas não reclama da vida. "É difícil ter seus pais longe de você, mas a gente se acostuma."

terça-feira, 29 de julho de 2008

Caiu na Rede é Cearense

Jovem Repórter da Baixada encontra Sushi-men cearenses no Rio

Por Flávia Ferreira

Matéria publicada pelo blog Na Periferia, de Ecio Salles e Marcus Vinícius Faustini, para o Globo Online

A primeira surpresa que se tem na entrada do Sushimar de Laranjeiras está em sua decoração, na qual os elementos da milenar cultura japonesa foram substituídos por mangás expostos na parede e por móveis de uma estética igualmente pop. Mas os garçons e sushi-men da casa, embora tentem disfarçar a origem nordestina com o semblante circunspecto dos japoneses, também estão antenados com a modernidade dessa rede de restaurantes, que tem quatro casas no Rio de Janeiro. "Eu falo com minha cidade pelo Orkut", diz Rodrigo Lopes da Silva, um sushi-man cearense de 25 anos, que há três anos deixou Ibiapina para morar no complexo Pavão-Pavãozinho, na fronteira entre Ipanema e Copacabana.

Rodrigo da Silva é um dos cinco funcionários dessa filial nascidos em Ibiapina, uma cidade com cerca de 30 mil habitantes encravada na Serra de Ibiapava, no sertão cearense. O notebook comprado em 12 prestações, que também usa para baixar músicas da internet, é o principal símbolo de status de uma comunidade cujos tentáculos se espalham por diversas favelas do Rio de Janeiro, indo da Zona Sul à Zona Oeste. Ele não tem a menor vontade de voltar para a cidade de que saiu, no ônibus da Itapemirim que liga sua cidade à região Sudeste do país, com destino certo. "Liguei para um primo que mora no Pavãozinho", conta.

É apenas uma coincidência o fato de os cinco funcionários terem se conhecido no próprio local, com perguntas formuladas a partir do reconhecimento do indefectível sotaque cearense. Mas o mesmo Rodrigo chegou ao Sushimar por intermédio de um conterrâneo a que teve acesso na filial da rede de Ibiapina montada no Pavãozinho. "Delmar era o chefe de cozinha do Sushimar da Barra e me conseguiu uma vaga de ajudante de sushi-man no Sushimar do Recreio", conta ele. Não foi muito diferente com seu conterrâneo Geraldo Rodrigues Fernandes, um cozinheiro de 22 anos que agarrou com unhas e dentes o emprego conseguido por um vizinho do Parque União, complexo de favelas da Maré, onde foi recebido há dois anos e meio por duas irmãs. O amigo em questão hoje mora em Ibiapina.



É bastante possível que Geraldo Fernandes faça com o seu amigo o mesmo que o sushi-man Carlos Roberto Rodrigues, que conheceu ali mesmo no Sushimar. "Meu irmão foi passar uma temporada no Ceará e, quando voltou, eu arrumei um emprego para ele de cozinheiro no Sushimar", conta Carlos Roberto, que chegou ao Rio de Janeiro há seis anos, depois de uma temporada de um ano e meio em São Paulo. Foi o irmão de Carlos Roberto que o acolheu na cidade, mais precisamente no morro do Andaraí. Além de acolhê-lo, o irmão de Carlos Roberto conseguiu o seu primeiro e único emprego no Rio. "Foi por intermédio dele que me tornei ajudante de cozinha dessa casa", conta.

O decano dessa turma é o sushi-man Francisco Eudes Rodrigues, que chegou ao Rio de Janeiro há 20 anos com uma mão na frente e outra atrás. Além da cidade natal, são poucos os pontos em comum entre a biografia de Francisco e a de seus companheiros de Sushimar. Um deles é que foi recebido por um irmão, que já morava na cidade havia cinco anos. Sua história também faz interseção com a de seus conterrâneos no que diz respeito ao modo como aprendeu a arte de cortar o peixe. "Foi olhando os outros fazendo", conta esse morador da Gardênia, área dominada por milícias, na Zona Oeste. Francisco Rodrigues descobriu o maravilhoso mundo dos japoneses ainda na década de 1980, no tradicional Tanaka.

Além das dificuldades inerentes a todo pioneiro, Francisco Rodrigues não ascendeu profissionalmente com a mesma rapidez das gerações de sushi-men que o sucederam pelo fato de ser semi-analfabeto. "Passei cinco anos para conseguir o que esses meninos agora conseguem em seis meses", conta ele, que está no Sushimar de São Salvador há seis meses. O fato de não ter estudado, proibição que o pai agricultor estendeu a seus doze irmãos, pode estar por trás dos longos hiatos de comunicação com a terra natal. "A primeira vez que fui a Ibiapina foi no verão passado", revela ele, que foi dado como morto porque nesses longos 20 anos sequer mandou uma carta para a família. A conta que abriu no Orkut, influenciado pelos companheiros high tech do Sushimar, tem poucos scraps trocados com os familiares.

Francisco Rodrigues foi para Ibiapina da mesma forma que seu companheiro Carlos Roberto pretende ir nas próximas férias, para mostrar aos familiares a filha que está prestes a nascer. "Eu vou numa promoção da Gol, mas devo voltar de ônibus", planeja Carlos Roberto. A volta de ônibus se justifica pelo excesso de peso na bagagem, na qual trazem estoques de feijão, farinha e queijo de coalho, entre outros produtos capazes de preservar o amor pelo Ceará. Embora tenha muito mais contato com a terra natal que o decano da turma, Carlos Roberto não pretende fazer como seu pai, que só abandonou o Cariri no último pau-de-arara e voltou para Ibiapina tão logo amealhou uma pequena poupança suando na construção civil. "Estou muito feliz aqui", diz Carlos Roberto.

Puxadinhos comerciais

Casas que viram lojas e lojas que vendem de tudo são a cara de Nova Iguaçu

Texto e fotos de Thompson Nike

Com 40 anos, Eliane arrumou um jeito diferente de ganhar dinheiro. Moradora de Austin há mais 20 anos, ela colocou um freezer na garagem e começou vender carnes num espacinho que ficava ocioso. "Transformei minha casa num ponto comercial", conta, orgulhosa. Eliane está longe de ser uma exceção numa cidade que poderia ter como cartão-postal o Calçadão no Centro.

Não satisfeita, Eliane resolveu quebrar uma parede que ficava ao lado do cubículo onde as carnes eram vendidas. Nesse espaço, Eliane decidiu vender rações para animais. Tomada pela febre de improviso e criatividade que são a marca registrada do comércio dos bairros da cidade, a vendedora pendurou algumas prateleiras e colocou frutas, legumes e alimentos para venda. "Fui feliz em fazer a reforma em minha casa de três andares", conta ela. "Fiquei sem privacidade, mas depois me acostumei. Devemos estar preparados para tudo, hoje eu vivo dessa renda com muito orgulho."

Até quem tem emprego fixo vem adotando a estratégia da vendedora Eliane, arrumando um espaçinho na casa para abrir sua própria loja. Morador da Vila Zenith, o marceneiro Marcos, que não quis revelar sua idade, também encontrou uma forma de ganhar um dinheiro extra no fim do mês. A casa do marceneiro, ainda em construção, tem janelas de madeira e aparência muito humilde, além de ser um pouco apertada.

Nada disso impediu que Marcos criasse sua vendinha. Ele mesmo fez uma estante para expor suas pipas e guloseimas como biscoitos, doces e bebidas. "Compro bala com o tio Marcos todo dia. Compro porque é tudo barato", diz Fernanda Vasconcelos, 13 anos. Hoje, revendo tudo que já fez, Marcos revela: "Fiz a coisa certa. Pensei: 'Tenho que ter dinheiro para me manter.' Como estava sem trabalhar, tive essa idéia. Ganho o meu dinheiro e tenho prazer em vender", conta Marcos.

Padaria vende tudo

Além da criatividade, o que há de comum nesses estabelecimentos é a quantidade de produtos diferentes vendidos ao mesmo tempo. Algumas vezes, fica difícil enxergar ou entender qual é o carro-chefe dessas lojas, se é que eles existem. Até padaria entra na dança! Em Austin, havia uma loja de videogame onde, hoje, funciona uma padaria. O pão, que seria o principal produto da loja, vem dividindo espaço com outras mercadorias.

O dono da padaria, Francisco Neto, 53 amos, comprou e reformou a loja. Como tinha pouco espaço para vender seus pães, Neto comprou uma antiga loja ao lado e fez uma mercearia. "Coloquei uma vitrine de pães, doces e biscoitos. Na outra parte, pus salgados e refrigerantes, além de ter uma parte para produtos de limpeza e cozinha", diz ele, que também encontrou espaço para abrir um brechó na padaria.

domingo, 27 de julho de 2008

Ciúmes online

Orkut é usado para bisbilhotar até a vida de pessoas desconhecidas

Por Aline Maciel, Daniella Vieira e Jeyce Cristina
Fotos- Aline Maciel, Daniella Vieira e retiradas da internet


A evangélica Jany Cristina de Sá Silva trabalha de segunda à sexta como empregada doméstica e, nos fins de semana, não esquece de adorar seu Deus no templo perto de sua casa. Cumpridas suas obrigações profissionais e religiosas, ela se aboleta diante do computador de uma das lan houses de Comendador Soares e dedica horas ao que considera a segunda melhor coisa da vida. "Depois de Cristo, a coisa de que mais gosto é fuxicar no Orkut", assume.

Como milhares de pessoas ligadas à grande rede, Jany segue um ritual quase tão previsível quanto os dos cultos da Pão e Vida, a igreja que freqüenta. "A primeira coisa que faço quando entro no Orkut é ver quem andou me fazendo uma visitinha", diz ela, para quem a única opção de lazer existente no bairro é a lan house. A visita será retribuída independentemente de a pessoa fazer parte da rede de amigos adicionados em sua comunidade.

No caso de Jany, ver as fotos é uma estratégia para reconhecer eventuais
irmãos da sua igreja, o que pode inibir a invasão da privacidade da pessoa em questão. Mas, para Elciane Xavier, uma moradora de Mesquita de 20 anos, o reconhecimento do rosto do visitante é um estímulo para que coteje o que conhece da pessoa com o que está escrito em seus scraps. "Muitos mentem", afirma ela, que diverte ao flagra amigos dizendo coisas que não são.

Contra-ataque

A agilidade de Elciane é comprometida porque costuma navegar da conexão discada de sua casa, mas ela já protagonizou algumas epopéias virtuais, a maioria delas ligadas às histórias amorosas a que dá publicidade pelo próprio Orkut. A primeira delas teve como ponto de partida a foto que tirou ao lado de um rapaz chamado Eric, com o qual namorou há cerca de dois anos. "Um dia, um 'meliante' pegou essa foto e distorceu-a, deixando-a com o rosto daquelas pessoas que colocam botox."


Elciane só descansou quando localizou o fuxikeiro, que, além de esconder sua identidade por trás de mecanismo de bloqueio, havia criado um outro Orkut e colocado a foto do casal no perfil. "Mandei um scrap quebrando o barraco", conta Elciane. A solução para o problema neste caso foi mais simples do que o imbróglio em que se meteu com a ex-namorada de um outro companheiro seu. "Ela me fuxicava pelo Orkut das primas", lembra ela, que descobriu o fato ao acompanhar os scraps trocados pelas pessoas cujo nome ficava registrado na área Visitantes Recentes.

Elciane resolveu contra-atacar, criando um Orkut para fuxicar a rival e deixando o que ela própria considera "recadinhos malucos". "Só que eu pedi uma foto a uma amiga, que me mandou a de uma menina que eu nunca tinha visto", revela a fuxikeira. Por garantia, Elciane resolveu usar o Orkut falso para averiguar a da dona da foto em questão. "Qual não foi a minha surpresa ao ver que a foto era igual", lembra. Ela não podia mais trocar a foto, mas, para evitar um barraco, nunca mais usou esse Orkut para fuxicar os outros.

Hobbie

A ciumenta Jéssica Lima de Andrade acredita que fuxikar é um vício do qual não consegue se livrar. "Tenho prazer em fuxikar a vida das minhas amigas, dos meus amigos e até da minha mãe", confessa essa estudante de 18 anos. Ela continua entrando no Orkut das pessoas mesmo depois do trauma de perder o namorado cuja vida monitorava cotidianamente. "O Bruno era um amor de pessoa, mas todo dia eu fuxikava o orkut dele para ver se ele havia recebido scraps de alguma menina ou se tinha enviado alguma mensagem de amor." A paciência do namorado esgotou no dia em que resolveu tirar satisfação a seguinte mensagem, enviada por uma prima distante dele: "meu lindo, te amo." "Ele acabou comigo, dizendo que não acreditava nele."

Embora só tenha 18 anos, o estudante Jonathas Abreu percebeu na própria pele que o ciúme é um dos principais motores do fuxiko. "Minha namorada não confia em mim e vive fuçando meu Orkut", diz ele. No entanto, ele tem outras motivações para passar horas raquiando a vida dos outros. "É meu hobbie", admite. Também não é movido pelo ciúme que Felipe da Silva, de apenas 10 anos, investiga o trio fotos-recados-rede-de-amigos de pessoas que nunca viu na vida. "Não tenho mais nada para fazer", justifica.

Felipe da Silva é uma das provas de que a grande rede dá um poder de iniciativa que as pessoas normalmente não têm na vida real. "Passei um ano e meio tecando com uma menina que conheci fuxikando", conta ele. Disse-lhe durante esse período as maiores ousadias, sem imaginar que ela se tornaria sua colega de classe no começo desse ano. Fiquei vermelho de vergonha."

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Pintando o sete

Espaço das 7 artes leva moda para o Sylvio Monteiro


Texto e fotos de Daniel Santos


O Espaço 7 Artes é um aglomerado cultural que abriga diversas agências e companhias artísticas no Centro de Nova Iguaçu. Sua sede fica na Av. Amaral Peixoto n 518. Este mês, os artistas saíram do Espaço 7 Artes para se apresentar no palco do Espaço Cultural Sylvio Monteiro.

As modelos da Agência Conexão Modelo foram um dos destaques da noite, arrancando aplausos e suspiros da platéia. As meninas esbanjaram charme e beleza na passarela. Diante de grande público, as modelos mostraram porque são consideradas top na área da moda. Nem o nervosismo comprometeu o desempenho delas na passarela, competências essenciais para quem quer seguir carreira na profissão de modelo.

O grupo de dança The Street Cats, também agenciadas pelo projeto Conexão Modelo, inflamou a casa de cultura na hora da apresentação. Formado por belas meninas, o grupo fez uma adaptação do grupo estrangeiro 'PussyCat Dolls'. Ao som da música 'Buttons', as meninas não deixaram nada a desejar às verdadeiras dançarinas do PussyCat. Alguns até acharam que as dançarinas do The Street Cats foram mais sensuais e talentosas que as do grupo estrangeiro. "Muito boa a sensação de subir no palco. Quando vimos o calor do publico, então. Muito bom, diz Ingrid Chapper, uma das dançarinas.

Dançarinas unidas

Além de dançarem juntas, as meninas do The Street Cats são boas amigas. Prova disso foi a falta que uma das dançarinas do grupo fazia na noite de apresentação. "A noite poderia ter sido melhor, mas infelizmente uma das nossas amigas, que também é dançarina, não pôde comparecer. Fora isso, foi maravilhoso", revela Daniele Sousa. Jéssica Santos, uma das dançarinas mais quietinhas, estava muito contente pelo show e por ser agenciada pela Conexão Modelo. "A sensação do show foi ótima. E o bom de tudo é que agora somos agenciadas e contamos com um espaço para ensaios e trabalhos do grupo."

Edilson Sampaio, diretor executivo da Agência Conexão Modelo, estava bastante orgulhoso com o desempenho dos grupos. A proposta social e cultural da agência é ajudar crianças, jovens, adultos e idosos a entrar no mundo da moda, interferindo e expandindo a cultura e a educação dessas pessoas. Os integrantes da agência aprendem técnicas de passarela, postura, alimentação, higiene, etiqueta pessoal e cidadania.

Mesmo sendo um projeto particular, os jovens devem se dedicar aos estudos e obter boas notas para participar dos eventos e oportunidades da agência. O projeto tem convênio com a revista Click Models e disponibiliza seus cursos com preços acessíveis.

"O Conexão Modelo quer dar um direcionamento profissional e tornar a moda acessível a todas as pessoas, principalmente ao povo iguaçuano", diz Edilson. "Nova Iguaçu tem indústria e mercado de vestuário."


Talento da Baixada

O pessoal da Cia. Faces de Teatro também fez um ótimo trabalho nesta noite. Gilberto Luiz, o diretor da companhia, tem total confiança no potencial da Baixada. "Acredito no talento de Nova Iguaçu e da Baixada. Infelizmente, somos descriminados. Mas estamos provando que temos talento e somos capazes." Para Gilberto Luiz, o Espaço das 7 Artes tem tudo para se tornar um pólo artístico na região. "Na verdade, já mostramos que na Baixada tem talento. Agora temos que importar olhares para os artistas que mostram sua arte por aqui ao invés de exportar artistas para fazer sucesso fora da região", provoca o artista. Gilberto Luiz está fazendo trabalhos com material reciclável, além de gravar um curta com artistas da Baixada Fluminense.

A palhaça Joice Mendes, 19 anos, deu um brilho todo especial à noite. Ela sempre recebeu apoio da mãe para fazer curso de teatro e modelo, mas não lhe dava ouvidos. "Nunca gostei de ver novela nem de freqüentar teatro", diz ela. Só que há três anos uma apresentação teatral na igreja que freqüenta despertou nela o desejo de experimentar o palco. Foi amor à primeira vista.

O teatro acabou mudando sua visão a respeito das artes e despertou o seu talento, até então adormecido. Hoje, ela é professora e atriz na Cia Faces de Teatro e no Espaço 7 Artes. "A sensação quando faço show é inexplicável. Não penso em sair dessa área. Nada vai me fazer sair. Só Deus pode me fazer mudar de idéia e, mesmo assim, ele terá que fazer um grande esforço para que isso aconteça", explica a atriz.

Uma kombi que resiste ao tempo

II IGUACINE Exibido na sessão de homenagens do II Iguacine, 'Marcelo Zona Sul' continua encantando plateias 40 anos depois de sua es...