terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Bazar iguaçuano






















Camelôs ganham mais do que trabalhadores da economia formal
por Flávia Ferreira
fotos: Flávia Ferreira e Letícia da Rocha

A crise mundial deve agravar a situação, mas não é de hoje que o número de trabalhadores informais aumenta de ano para ano. Basta você sair pelas ruas de Nova Iguaçu, ou de qualquer outro centro urbano, para perceber as estratégias de sobrevivência das camadas populares. Vende-se de tudo, para todos os gostos: balas, roupas e calçados, até material esotérico.

O potiguar Francisco de Assis Guilherme, 64 anos, faz parte do exército de ambulantes que diariamente se apossa das ruas de Nova Iguaçu. Com 43 anos de Rio de Janeiro, ele transporta produtos esotéricos de Austin, bairro onde reside, até o centro de Nova Iguaçu. Faça chuva ou faça sol, ele monta sua barraca no camelódromo do Calçadão.

A história de Seu Francisco nas ruas começou há cerca de 22 anos, na longínqua Copacabana. "Vim para cá em 1993, porque a vida na Zona Sul é muito cara e, por mais que ganhasse, não compensava." Os lucros obtidos com a barraca do camelódromo de Nova Iguaçu, onde o forte cheiro de incenso se mistura com o nauseabundo odor de urina, estão longe de ser espetaculares. "Mas a vida aqui é muito mais barata."

O interesse do ambulante pelos produtos que vende não tem a menor relação com sua opção religiosa. Ele estava apenas querendo se livrar do regime de semi-escravidão, vivido em seu último trabalho formal, na Labiceramica. "Saí de meu emprego porque eu trabalhava doze horas por dia", lembra o ambulante, que não se arrepende de ter investido no próprio negócio.

Mais tempo com a família
Na contabilidade do vendedor de churros Jonas Paz da Silva, 34 anos, entra na coluna de vantagens a possibilidade de passar mais tempo com a família proporcionada pelo trabalho informal. "Se trabalhasse no mercado formal hoje, não conseguiria estar próximo à minha família, porque a carga de trabalho é abusiva", contou ele enquanto preparava os churros para a fila de clientes.

No entanto, essa não é a única razão para ele sair diariamente de Boa Esperança, para vender seus churros no centro de Nova Iguaçu. Além da dificuldade de se conseguir uma posição no mercado formal, há a falta de escrúpulos das empresas na hora de se desfazer de seus funcionários. "Quando você é mandado embora, tem que brigar na justiça por seus direitos", lamenta. Para garantir o "pé-de-meia", o vendedor de churros paga autonomia e faz aquela economia bem brasileira de centavo em centavo. Em média, ele tem um lucro mensal de R$ 1 mil.

Dupla sertaneja
Nádia Pires Fortes, 38 anos, recorreu ao comércio ambulante de sanduíches, salada de frutas e tortinhas com a inesperada demissão do marido. "Minha irmã Neide me chamou para trabalhar com ela depois que o meu marido e o dela ficaram desempregados", diz. Mas, com a reentrada dos respectivos cônjuges no mercado de trabalho, a única mudança na vida das duas foi a separação da dupla que fizeram ao longo de cinco anos.

Fazer sozinha o circuito pelas agências bancárias e repartições públicas de Nova Iguaçu já não tem o mesmo charme da época em que vendia seus produtos com a irmã, com quem tem uma enorme semelhança física. "Como jogada de marketing, nós andávamos com roupas iguais", lembra ela. As irmãs chegaram a ser comparadas às cantoras Pepê e Neném, que na mesma época faziam sucesso nas rádios. Com ou sem companhia, os ganhos de Neide continuam expressivos para uma trabalhadora pouco qualificada. "Ganho cerca R$ 75 por dia", contabiliza.

Priscila Santos, 25 anos, não gosta de andar muito. Há três meses, cansada de ganhar um salário mínimo nas lojas em que trabalhava, ela monta sua banca vendendo capas de celulares no calçadão de Nova Iguaçu depois das 19 horas. "Aqui o dinheiro é certo e muito maior", diz ela. Embora não revele quanto fatura nas calçadas de Nova Iguaçu, o dinheiro que ganha como camelô é suficiente para pagar as próprias dívidas e sustentar a irmã mais nova, de 15 anos. Priscila não troca a liberdade do trabalho informal, onde trabalha o tempo que quer e no lugar em que quer, por nada.

Parada obrigatória


Há 70 anos, o Caldo de Cana da estrada de Madureira no Bairro Cabuçu é uma parada obrigatória
por Wanderson Santos

Quando a UPA de Cabuçu foi inaugurada, o outdoor com que o Governo do Estado anunciava a obra, mostra a importância dos caldos de cana situados em seu entorno. “Em frente ao antigo Caldo de Cana do Moisés”, orientava a propaganda espalhada pela Estrada de Madureira. Não é à toa. Uma das maiores tradições de Nova Iguaçu é dar uma parada ali para saborear o caldo de cana, devidamente acompanhado de um bolinho de aipim, um joelho ou da clássica coxinha de galinha, o salgado mais pedido do estabelecimento. Podem-se encontrar ali desde moradores do bairro, a pé ou em carros de passeio, até caminhoneiros que transportam sua carga pela Baixada Fluminense.

"Quando havia peladas no campo ao lado, todo final de semana ficava bem agitado", lembra o atendente Antônio Timóteo, 63 anos. "Hoje só fica lotado aos domingos." Apesar da queda no movimento, o consumo continua grande, principalmente no verão. "A casa compra dez dúzias de cana-de-açúcar a cada quatro dias", contabiliza o mesmo Antônio Timóteo. "Mas quando chega o calor a gente tem que aumentar a encomenda." Mesmo nos dias de semana.

Cheirinho
O cheirinho peculiar do local é um atrativo à parte. Chega a dar água na boca, chamando a atenção e despertando a curiosidade de quem freqüenta, ou passa pelo local. Maria Lúcia, 54 anos, é quem garante o bom paladar dos salgadinhos. É a cozinheira do local. O movimento aos domingos começa muito cedo para ela. "Os carros de passeio começam a chegar por volta das seis horas da manhã", conta a cozinheira, que gosta do aconchegante clima familiar criado pelos clientes. "Muitos costumam trazer filhos e até mesmo netos durante anos e anos."

A fidelidade dos clientes é um fator importante. O pedreiro Joel, 32 anos, mora nas proximidades da Estrada de Madureira e é visto com frequência com os amigos passarinheiros no Caldo de Cana. "Venho com meus amigos sempre que tenho tempo, para jogar conversa fora. Botamos nossos passarinhos na coluna de madeira do telhado, sentamos nas cadeiras e pedimos nossos caldos de cana, ficamos aqui por horas a fio. Aos domingos fica difícil arranjar uma mesa, a concorrência é grande."

Clientes fiéis
Matar o tempo em uma boa conversa também é um forte motivo para uma paradinha em dias de calor. O maior hobby do também pedreiro João Emanuel, 36 anos, é o Caldo de Cana de Cabuçu. "Não há tempo melhor e mais bem gasto do que sentar em uma sombra junto com os amigos e tomar um gostoso caldo de cana, acompanhado por um bolinho de aipim, e bater um papo à vontade. É o meu maior prazer." Sempre que pode, João Emanuel leva o filho Lucas Souza. "O menino só não vem mais por causa da escolinha", lamenta.

O mecânico Ricardo Scoralick, 37 anos, lastima não poder ir diariamente ao Caldo de Cana. "Não dá para vir todos os dias, mas, quando venho, aproveito o máximo." Um dos dias em que com certeza o mecânico é visto saboreando o caldo de cana da Estrada de Madureira é o domingo. "Chego aqui às seis, antes de abrir minha borracharia", conta ele. "É aqui que tomo meu café da manhã." Eventualmente, ele volta para fazer um lanche no caldo de cana.

Mulheres também apreciam beber um caldo e comer um salgadinho. Elizabeth Coelho, uma simpática aposentada de 56 anos, levou o filho Yan, um professor de 28 anos. "Esse lugar é muito legal. Apesar do calor que faz hoje, escolhemos uma sombrinha para poder curtir. Realmente é nota dez." A narrativa do filho não é muito diferente. "Vira e mexe eu apareço por aqui", conta o professor. "A diferença é que hoje passei na casa de minha mãe.Ela quase não sai, e convidei-a para vir comigo." Dona Elizabeth, que pela primeira vez ousou fazer a travessia de sua casa, no Inferninho, até o caldo de cana, adorou o pastel de carne. "Estava realmente muito bom", conta ela, que pretende voltar outras vezes descoberto ao lado da pessoa que mais ama.

Terceira geração
O estudante de fisioterapia Luciano Martins, 22 anos, frequenta o local desde criança. "Meu pai me trazia aqui quando era pequeno, junto com meu avô", lembra ele, que continua achando que não há nada melhor do que a sensação de um salgado e uns belos goles de caldo bem geladinho descendo pela garganta. "Adoro os salgados daqui e às vezes ainda levo uns bolinhos de aipim para casa." Luciano, que pertence à terceira geração de freqüentadores, ainda lembra a primeira vez em que se empanturrou de pastéis no caldo de cana da Estrada de Madureira. "Eu tinha nove anos quando meu pai me trouxe aqui pela primeira vez há muitos anos, com o meu avô." Luciano sempre repete esses programas quando recebe a visita do pai e do avô. "Meu avô tem problemas de saúde e não pode se deslocar com freqüência. Por isso, quando ele vem lá em casa, combinamos os três em vir até aqui. É um ótimo programa".

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Heróis por alguns minutos

Febre do Guitar Hero chegou a Nova Iguaçu

por Daniel Santos

Quem nunca sonhou em ter uma banda e se tornar uma estrela do rock? Isso é ótimo, né? Pena que pouquíssimos felizardos possam chegar até lá. Uma das formas de vencer as barreiras que nos separam do estrelato está no Guitar Hero, um divertido jogo de gênero musical. Com ele, você pode tocar clássicos do bom e velho rock and roll como se fosse um mestre do instrumento.

As opções vão de Deep Purple a Iron Maden, passando por Red Hot Chilli Peppers e Nirvana. E o melhor de tudo: toca com um joystick em forma de guitarra, geralmente baseado na guitarra Gibson SG. Para quem não sabe, esse instrumento foi o companheiro inseparável de astros do quilate de um Jimi Hendrix, Carlos Santana e Frank Zappa.

O jogo, que foi desenvolvido em 2005 nos Estados Unidos, tornou-se mundialmente conhecido e está em sua sétima edição oficial. No Brasil não foi diferente: o jogo logo virou febre entre os jovens. Nova Iguaçu, uma cidade com um imenso número de tribos, também aderiu à novidade. Quem quiser ver, basta ir ao Top Shopping e ao Center, o primeiro shopping da Baixada Fluminense.

Vale tudo
Lá você vai ver adolescentes e até mesmo adultos se divertindo sozinhos, em duplas ou mesmo em grupos disputando campeonatos. "Vale tudo pra colocar o nome entre os melhores do ranking", diz o comerciante conhecido como Tião do Fliper, que já organizou diversos torneios de Guitar Hero. Seus campeonatos costumam reunir centenas de jovens dispostos a tudo para entrar no ranking. Os dez primeiros colocados ganham medalhas e o grande vencedor pode levar para casa um troféu, um MP3 e um controle em forma de guitarra.

A fissura pelo game vai muito além do fliperama. Já é grande também o número de jogadores que aderiram às diversas modalidades de aparelhos eletrônicos compatíveis com o Guitar Hero: celular, videogame e computador conectado ou não à internet.

Esquece o jantar

Diógenes Lima, 16 anos, que acabou de migrar do videogame para o fliperama, encontrou no Guitar Hero uma forma de evitar os jogos violentos. "Gosto de interagir com o jogo", diz ele. "Parece que realmente estou tocando uma guitarra." Ele, que gosta de tocar principalmente a música Stricken, da banda Disturbed, passa cerca de quatro horas diárias de cara para tela, muita das vezes acompanhado de outros players.Embora já tenha comprado uma guitarra no valor de R$ 140 e CDs de várias edições do jogo, Diógenes não se sente um viciado. "Também tenho minha vida social", afirma. "Gosto do jogo, mas consigo conciliar meu tempo a outras coisas , meus amigos e minha namorada."

A vida do roqueiro Nilton Felipe, 18 anos, nunca mais foi a mesma desde o dia que conheceu as "fantásticas possibilidades de fazer um som com apenas alguns botões do jogo". Ele, que uma vez começou a jogar depois do almoço e só parou para jantar, "lá pelas onze da noite", não tem dúvidas quanto ao seu diagnóstico: "Me considero um viciado mesmo", admite. "Já deixei de fazer tarefas do meu curso pra jogar Guitar Hero." Para tornar a disputa ainda mais emocionante, ele reúne alguns colegas para jogar. "A zoação rola solta, pena que não tem nenhuma garota. Mas o lado bom é que da pra xingar a vontade."

Tem gente que transforma o teclado do computador em uma grande guitarra. Esse é o caso de Rafael Passos, o Venom 1000. "Comecei a jogar pelo PC há uns 4 meses e há uns dias atrás me achava um viciado", admite ele, que toca baixo em sua igreja. "No começo, fazia o teclado de instrumento musical. Mas acabou não dando certo. Eu viajava, parecia um maluco, achando que tava tocando guitarra." A indústria de celulares também está se adaptando à febre do GH, incluindo o game na maioria dos aparelhos. "Quando não tenho mais nada pra me divertir, pego o celular e o guitar hero vira meu passatempo", afirma o estudante Leandro da Silva Tenório, 15 anos.

Estilo divino

Jovens fogem do estereótipo de que evangélicas só podem ser bonitas por dentro
por Josy Antunes

Saias e vestidos longos, na maioria das vezes cobrindo todo o corpo. Cabelos presos em simples coques, orelhas intactas, sem um único brinco. Nada de maquiagens, unhas pintadas, nem mesmo cores chamativas nas sandálias. Com certeza, todos já viram pessoas com essas características andando pelas ruas, algumas vezes até crianças e adolescentes. É essa imagem que nos vem à cabeça quando falamos em jovens evangélicas.

Uma das origens dessas normas está em trechos da própria Bíblia, como I Pedro 3, versículos 3 e 4: “A beleza de vocês (mulheres) não deve estar nos enfeites exteriores, como cabelos trançados e jóias de ouro ou roupas finas. Ao contrário, esteja no ser interior, que não perece, beleza demonstrada num espírito dócil e tranqüilo, o que é de grande valor para Deus.” Para algumas denominações, essas passagens são vistas como proibição a práticas de valorização à beleza.

Entrevistando cinco adolescentes evangélicas de diferentes denominações, pude comprovar não só as diferenças de opiniões sobre o assunto, mas também que sim, existe beleza dentro das igrejas.

Festival de cores e modelos
"Apesar de ser da igreja, sou uma pessoa normal, como qualquer outra.” As palavras são de Isis de Souza, que freqüenta a Congregação Cristã no Brasil, em Vila de Cava, uma igreja que mantém normas rígidas quanto ao assunto. Para ela, a beleza interior deve não apenas ser mais valorizada, como se refletir na sua forma de se vestir e de se comportar. Quanto a maquiagens e acessórios, a igreja não proíbe especificamente, mas é pouco comum o uso dentro da igreja. "Depois de um tempo de freqüência, a pessoa acaba se sentindo mal por ser a única diferente, usando calça comprida e outros adereços", explica a jovem evangélica. Para conciliar seu lado feminino com as imposições da igreja, ela recorre a boleros e a vestidos longos floridos. “Tem também os sapatos e sandálias, as meninas fazem um festival de cores e modelos”, acrescenta.

Joycelene, de 24 anos, já havia visitado diversas igrejas mais liberais, mas optou por frequentar a Assembléia de Deus, que também mantém normas rígidas. A partir de então, deixou de lado os decotes, esmaltes de cores fortes, batons e roupas chamativas, de que sempre fazia uso.“Eu acho que as pessoas têm que fazer aquilo com que se sentem bem, mas de acordo com a palavra de Deus. Mesmo que eu use blusa de alça ou saias mais curtas do que o permitido, o importante é ter uma postura condizente com aquilo que eu acredito. Deus é que vai julgar. Tem pessoas que usam saião, o corpo todo tampado e infelizmente não fazem aquilo que Deus quer. Independentemente da roupa que se usa, o que é preciso é ter postura.”

É possível se cuidar
Frequentadora da Igreja Universal, no bairro Santo Elias, Mesquita, Rosana Araújo, de 22 anos, explicou que a igreja de que faz parte tem um pensamento mais liberal, permitindo o uso de maquiagem, acessórios e grande parte das coisas usadas para o embelezamento.“A única diferença que eu vejo é que elas (adolescentes que não frequentam igrejas) vão a baile funk e esses lugares assim e eu não vou, mas eu também vou a festas. Em geral é tudo normal, só muda o comportamento.” Para ela, a roupa, o uso de maquiagem ou o corte do cabelo não diferenciam o que a pessoa tem no coração. "É possível se cuidar, seguir as tendências da moda e se sentir bonita, mesmo dentro das normas da igreja", afirma a jovem. "Quando está calor, por exemplo, eu uso short em casa, na rua... É claro que não vou de shortinho à igreja, mas por opção mesmo. Já que estou indo buscar a Deus, tenho que estar diferente.”

Nathalia de Almeida tem 18 anos e a Igreja Batista que frequenta, em Heliópolis, Belford Roxo, não impõe a forma de se vestir. "Eu gosto muito de me maquiar, adoro rosa. Falam que eu sou patricinha, mas eu não sou patricinha, esse é o meu modo de me vestir. Eu não sou vaidosa, mas eu gosto muito de estar sempre indo ao salão, fazer minha unha, meu cabelo...” Para Nathalia, é totalmente possível ter bom gosto, estilo e acompanhar a moda dentro da igreja.“Eu sempre procuro estar bem arrumada, meus vestidos são da moda, uso legging, uso Melissa, uso vestidos longuete. Eu não posso falar que seguir a moda é o certo, mas é aquilo, quando você tem Deus no coração, você se veste pra você e pra Deus, não é pra agradar ninguém."

Larissa Ribeiro, também moradora de Heliópolis e frequentadora de uma Igreja Batista, tem opiniões semelhantes às de Nathalia: “A minha igreja é bem aberta pra esses tipos de coisas, permite o uso de calça jeans, maquiagem e tudo mais. Mas é preciso ter bom senso e não chegar lá na frente pra cantar, por exemplo, com uma calça justa demais ou um vestido sensual." Para Larissa, tudo deve ser feito com ordem e decência. "Eu participo de uma igreja porque estou de acordo com as normas dela. Da mesma forma que as pessoas de doutrinas mais conservadoras concordam com as normas que têm que seguir. Cada um escolhe aquilo que acha que é melhor pra si”.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Laje 45 graus


Banho de sol na laje é a opção no verão escaldante
por Flávia Ferreira e Eline Vieira
fotos: Flávia Ferreira

Para muitos, é apenas mais uma tarde de sol. Para outros, virou um espaço de lazer, um encontro entre amigos. Em ambos os casos é uma opção para quem não tem dinheiro para ir à praia para cuidar da casa.
Sabrina Bernardo, 21anos, moradora de Comendador Soares, divide o tempo entre o solzinho de seu quintal, o filho de um ano e as obrigações diárias de uma dona de casa. Enquanto Sabrina, sentada na escada de sua casa, tenta pegar um solzinho, seu filho se refresca na piscininha de fibra, que ajuda a afastar um pouco do calor que ronda a cidade. "Temos que nos virar, né? Afinal, nem sempre temos dinheiro para ir a uma praia ou pegar um banho de cachoeira."

Pelos dourados
A falta da "grana" ajuda a criar algumas alternativas para tornar essa opção de lazer mais divertida e dinâmica. A jovem estudante de Radiologia, Andressa Lima, 19 anos, moradora do bairro Santa Rita, organiza periodicamente uma reunião em sua casa, chamando as amigas mais próximas para participar da farra. "Nós pegamos um solzinho na beira da minha piscina de fibra", conta a estudante. Nestes encontros, elas falam sobre os inevitáveis assuntos: homens, faculdade, namoro, problemas, falta de dinheiro e, como não poderia deixar de ser em uma reunião de mulheres descontraídas, a vida dos outros. Para não ter de interromper a reunião no melhor da conversa, Andressa e mãe preparam um almoço básico para as amigas. "O almoço fica apenas esperando nossa fome apertar."

No entanto, não são apenas os mais jovens que aproveitam o sol de casa. Uma das inúmeras donas de casa que não quer gastar dinheiro para manter o bronzeado e o corpo em forma é Viviane Araújo, 32anos. "Eu tomo banho de sol todos os dias, das 9h às 11h", conta ela, que recorre a uma mistura de água com sal, água oxigenada e amônia para dourar os pelos e ajudar a queimar. Mas o que deixa essa iguaçuana chateada é ter que parar seu ritual para cumprir algum compromisso, como pagar as contas. "Fico puta quando tenho que ir pro banco no horário do sol, e não posso curtir minha laje."

Homens também gostam de ficar “queimadinhos”
Mas nem só as mulheres aderem ao “bronze” de verão. O funkeiro Maicon Cristian Soares, 19 anos, gosta de pegar um sol, mas sem usar nada na pele. "Não sou chegado a usar protetor", revela o jovem, que, mesmo tendo pele negra, não dispensa seus dias de diversão na laje de sua casa, localizada no Jardim da Viga. No entanto, se tivesse oportunidade, ele trocaria sua laje por uma praia. "Nada é igual ao banho de mar e água salgada. Mas o motivo mais forte é ter o que olhar, um monte de gatas na praia", diz com o seu largo sorriso.

A animação é tanta que ele não vai embora nem quando o concreto começa a ferver. Usa então o artifício de molhar o concreto com água, formando pequenas poças de cinco em cinco minutos. "Não podemos dar mole com esse calor que faz em Nova Iguaçu. Não é mais Rio 40° e sim Nova Iguaçu 45°.“ O calor, muito mais abrasivo quando se está próximo do concreto, torna irresistível um mergulho nas belas cachoeiras da cidade. Mas com o sol a quase cinqüenta graus e a longa estrada para chegar até as cachoeiras, a disposição desaparece. "Nem sempre estou com disposição de subir o morro do Parque Municipal“, conta o jovem, que usa óculos escuros e um multiuso bermudão nos seus dias de laje.

Fábio Filgueira, 27 anos, fica apenas de sunga nos dias em que se estira no quintal de sua casa. "É muito bom poder se bronzear sem sair de casa, porque posso ficar bem à vontade e para o bronze ficar completo eu fico de sunga", diz ele. Ele não se preocupa com olhares indiscretos, nem mesmo quando sua vizinha dá uma espiada por cima do muro. Por esse motivo, sua esposa não gosta de acompanhá-lo nos banhos dominicais. Mesmo com todos esses percalços, Fábio não trocaria seu banho de laje por uma praia. ”Aqui tenho total liberdade e isso é que faz a diferença."

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

PQD até morrer



Damião Fernandes dedicou toda sua vida
ao voo

por Nathany Rozalino e Luiza Alves

O que acontece com um homem quando tiram sua maior paixão? Alguns definham e morrem. Outros continuam a lutar de outra forma. Esse é o caso de Damião Fernandes, morador do Bairro Jardim Alvorada, em Nova Iguaçu, que teve que abandonar o pára-quedismo por causa de uma guerra que nem chegou a acontecer.

O sonho de ser um PQD teve início na infância, por causa de um irmão. "Ele me convenceu a entrar para o Exército", lembra. Desde então, o sonho de "voar como os pássaros" só fez crescer. "Cheguei a arrancar sete dentes para ser aprovado no exame físico!", confessa Damião.

Medalha inseparável
Faz muitos anos que ele saiu do exército, mas nada preencheu o vazio deixado em seu peito. "Estou servindo até hoje", afirma. "Continuo me sentindo um PQD." Essa sensação é confirmada com as lembranças dos melhores anos de sua vida, que podem ser encontradas por toda parte. "Não há nesse mundo que me faça tirar do peito minha medalha de paraquedista", conta. As paredes de sua casa são cobertas de símbolos e fotos de PQD. Há, por fim, seu jipe, camuflado e repleto de dizeres sobre o voo. Ele o usa para subir a Serra do Vulcão.

Damião aprendeu a subir a Serra do Vulcão para canalizar a ânsia de liberdade de Damião, que nenhum dos seus empregos cons
eguiu aplacar. "Comecei a voar depois que comprei a asa-delta e um amigo", conta. No curso que fez para aprender a usar o novo brinquedo, descobriu que a asa-delta é ainda melhor que o paraquedas. "Você tem mais tempo pra aproveitar", resume.

Sustos
O ex-PQD pensou em se tornar instrutor de voo de asa-delta, mas seus familiares fizeram-no abortar o projeto. "Minha mulher tem medo e meu filho mais velho não gostou da experiência." Os apelos dos familiares também o levaram a repensar sua nova paixão. "Já tomei três grandes sustos, e a única coisa que eu penso atualmente é nos meus filhos, como eles ficariam se acontecesse alguma coisa."

Damião atualmente vive para a família, mas ainda mantém viva sua paixão por voar, sua empolgação pelo salto, pelo ar, pela sensação de liberdade, que não esquecerá jamais. "Antes o pára-quedismo era minha vida, minha maior paixão. Agora tudo mudou, vivo para minha família, minha esposa, meus filhos!"

Só o amor pelos três filhos e pela esposa, com quem está casado
desde antes de entrar para o Exército, poderia levar Damião a abrir mão da "indescritível sensação de voar. "Você se sente uma criança de novo, sabe? Me sinto totalmente livre." Mas a paixão pelo ar parece ser hereditário. "Apesar da oposição da família, meu filho mais novo vai ser paraquedista", diz ele, orgulhoso.

Viciadas em saúde

Idosas da Santa Eugênia ocupam as calçadas do bairro todas as manhãs
por Lucas Lima

Preocupadas com o bem-estar físico e mental, cada vez mais pessoas têm se preocupado com o saudável hábito da caminhada. Não tem sido diferente no bairro de Santa Eugênia. Todas as manhãs, uma revoada de senhoras disputa as calçadas do bairro com as crianças que estão indo para as escolas. Ao contrário dos estudantes, no entanto, elas continuam sendo vistas durante os meses de verão.

Um dos pontos de encontro dessas senhoras é a associação de moradores do bairro, onde sempre chegam em grupo. O advogado Paulo Barboza, 56 anos, tem uma tese para ser uma exceção na caminhada. “A mulher é mais responsável e leva as coisas mais a sério”, acredita ele. Para Barboza, uma prova disso é a diferença de viúvas para viúvos. “Elas existem em número muito maior.”

Há também uma explicação que as mulheres façam a sua caminhada nas primeiras horas da manhã. “A caminhada matinal libera endorfina no organismo”, conta a aposentada Maria Vieira, 69 anos. “Essa substância química, liberada pelo cérebro, aumenta o bem-estar e diminui o estresse.” A endorfina é uma substância tão poderosa, que muitas pessoas se dizem ‘viciadas em atividades físicas’.

Vida melhor
A maioria das pessoas que praticam esse tipo de atividade só levanta da cama com os primeiros raios do sol depois de levar um susto com a saúde. “Fiz alguns exames há mais ou menos um ano e o meu médico disse que o meu colesterol estava altíssimo”, revela Paulo Carvalho, 55 anos. A caminhada matinal se tornou um santo remédio. “Depois que comecei a caminhar, minha saúde melhorou consideravelmente, meu colesterol abaixou e eu vivo muito melhor.”

A aposentada Vera da Cruz Evangelista, 70 anos, pode ser vista pelas calçadas da Santa Eugênia há cerca de cinco anos. Ela caminha cerca de uma hora por dia e, quando chega em casa, faz exercícios de alongamento. “Meu médico recomendou essas caminhadas depois de diagnosticar problemas como colesterol alto, osteoporose e nas pernas.”

Os benefícios da caminhada podem se tornar um estorvo se ela não for precedida de alguns cuidados. Mais importante do que a roupa, por exemplo, é o tênis: ele deve ser confortável e adequado, com amortecedores. Outra dica importante diz respeito à necessidade de alongamento antes e depois da atividade, para que os músculos sejam aquecidos e para que voltem à sua circulação normal.

Uma kombi que resiste ao tempo

II IGUACINE Exibido na sessão de homenagens do II Iguacine, 'Marcelo Zona Sul' continua encantando plateias 40 anos depois de sua es...